Os dois tons da ministra Dalmare Alves 8

Se senhora Damares Alves tem suas convicções pessoais, religiosas, filosóficas etc., é um direito dela, mas daí impor suas impressões enquanto cidadã como política de Estado sem considerar a diversidade sociocultural de um país como o Brasil é de ignorância sem tamanho e coloca em dúvida a sua capacidade para conduzir cargo o qual ocupa na Esplanada dos Ministérios.

Confesso que não sei bem o contexto em que a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, soltou a pérola “menino veste azul e menina veste rosa”, mas isso pouco importa. A declaração não foi apenas infeliz como é para lá demodê.

Não escondo que sou meio conservador em algumas questões e não sei, por exemplo, como reagiria se ao chegar em casa visse meus filhos homens brincando com bonecas. E sou do tempo em que, quando os bebês nasciam, eram recebidos com enxovais em azul ou rosa conforme o sexo. Mas o tempo passa, as coisas mudam e mudam o tempo todo.

Nesse sentido, não pega bem para uma ministra de Estado dizer o que meninos e meninas devem vestir, com que devem brincar, com quem namorar e por aí vai.

Se senhora Damares Alves tem suas convicções pessoais, religiosas, filosóficas etc., é um direito dela, mas daí impor suas impressões enquanto cidadã como política de Estado sem considerar a diversidade sociocultural de um país como o Brasil é de ignorância sem tamanho e coloca em dúvida a sua capacidade para conduzir cargo o qual ocupa na Esplanada dos Ministérios.

A continuar com essas declarações que beiram à bizarrice, a ministra Damares Alves corre o risco de ser linchada na rua, pois há meninos e meninas, “meninos-meninas”, “meninas-meninos” e ainda “transmeninos-meninas”, que ficam muito zangadinhos quando desdenhados na sua condição de gênero e orientação sexual.

É melhor falar menos e procurar trabalhar mais, minha cara Damares.

Roberto Rocha, o pai 6

Quem convive com o dia-a-dia da política frequentemente ouve o mesmo lamento dos políticos, sobre o tempo que a atividade rouba da presença com a família.

“Eu mal vi meus filhos crescerem”, ouvi certa vez de um deputado. É próprio da política não criar uma rotina de vida, estar imerso numa constante vertigem de tarefas que se sobrepõem umas às outras. E tudo se agrava se o político tem que ir para Brasília, cumprir sua jornada semanal como deputado ou senador.

As famílias, por sua vez, adaptam-se a essa presença errática, aos compromissos de última hora, à chegada de visitas em casa, a qualquer momento. Faz parte do jogo.

No entanto, longe de representar um afastamento, essa condição significa, para alguns, um engrandecimento do valor da família como o porto seguro, a fonte mais intensa de proteção pessoal e refúgio das atribulações que a vida pública impõe.

Um desses políticos é o senador Roberto Rocha. Desnecessário lembrar a devoção que guarda ao seu pai. No seu gabinete, em permanente prontidão, está um quadro a óleo do ex-governador Luiz Rocha. Na última semana fui testemunha de uma situação que contrapôs o político e o pai, em condições dramáticas. O senador desembarcou em Brasília para cumprir uma extensa agenda, que incluía a leitura do relatório da CPI do BNDES, já anunciada para a imprensa, a votação que autorizava a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, e a votação do seu projeto da ZEMA – Zona de Exportação do Maranhão. Três assuntos de alta voltagem política.

Mas seu pensamento estava a quilômetros dali. Poucas horas antes de desembarcar em Brasília, chegara a notícia de que seu filho caçula, recuperando-se de uma cirurgia em que teve um rim extraído, em São Paulo, recebera a biópsia com o terrível diagnóstico: câncer, de um tipo raro.

Nessa hora o pai tomou o lugar do senador. Foi o tempo de adiar a sessão da CPI, explicar ao seu partido as razões da ausência na votação e tomar o primeiro avião. Seguiram-se dois dias de angústia para consultas a especialistas e realização de exames mais completos para ver a extensão do quadro. Finalmente, a boa notícia: os exames mostraram que a doença não havia contaminado o organismo, restando encapsulada no tumor já retirado.

Foi assim também, meses atrás, quando seu irmão, Rochinha, teve que passar por delicada cirurgia. Não foi diferente, anos atrás, nos dias finais de seu pai. Nessas horas é claro que a atividade política fica em segundo plano. Ainda assim teve blog publicando post acusando que “teve senador que faltou à votação da intervenção e só volta semana que vem”. É um belo exemplo de, dizendo apenas verdades, não dizer a verdade.

Esse é um dos preços que os políticos pagam pela permanente exposição pública. A difícil arte de preservar seu núcleo familiar das luzes incandescentes da política, ao mesmo tempo jamais negando à família a presença nos momentos de dor ou de alegria.