A escalada do dólar

Por Eden Jr.*

Nos últimos dias tomou conta do noticiário econômico a valorização do dólar frente ao real. Contudo, apesar de aparentemente esse ser um movimento pontual, ou que vem se intensificando apenas nos últimos tempos, dados revelam que a ascensão da moeda americana já ocorre há alguns meses, de forma sólida, e que divisas de outros países também vêm se enfraquecendo. Demonstrando assim, que essa é uma tendência mais global do que local. Do começo do ano até o final e abril, o real se desvalorizou 5,23% em relação ao dólar. É a quarta moeda que mais perdeu valor no mundo em confronto com a divisa estadunidense, superada pelo peso argentino (10,29%), pelo rublo russo (8,97%) e pela lira turca (6,76%). Nos últimos 12 meses, o real perdeu 8,84% de seu valor, quando comparado ao dólar – cotações da Economática.

Fatores econômicos internos e externos são decisivos para essa elevação. No que diz respeito aos determinantes externos, além da “guerra comercial” entre EUA e China, que desestabiliza toda a economia mundial, o principal é a expectativa de que ainda este ano o Banco Central dos Estados Unidos (Fed) suba duas vezes os juros – que estão atualmente na faixa entre 1,5% e 1,75%. Essa alta deve ocorrer, pois a economia dos Estados Unidos está aquecida (crescendo 2,3% ao ano), o desemprego, dessa forma, está baixo (na casa dos 4%) e a inflação (em torno de 1,9% ao ano) ameaça superar a meta de 2%. Todos esses indicadores sugerem a alta dos juros, para conter a inflação e reprimir a ameaça de falta de mão de obra. Com a elevação dos juros nos EUA, é natural que ocorra uma forte migração de dólares de todo o mundo para o mercado americano, que ainda é um dos menos arriscados e, agora, pagando juros melhores, torna-se bastante atrativo. Tal deslocamento faz com que “faltem dólares” em muitos países, e as moedas locais se desvalorizem.

O Brasil tem uma particularidade adicional, tendo em vista que promoveu uma consistente queda nos juros nos últimos tempos. Saíram de 14,25% ao ano, em outubro de 2016, para os atuais 6,5% a. a. (menos 54%). Essa conjuntura aproximou muito a taxa brasileira da americana, fazendo com que o investidor opte pelo mercado mais seguro, pois a diferença de juros não paga o risco de aplicar no Brasil. Esse contexto desestimulou, inclusive, o “jogo de arbitragem” (que traz dólares para o país), mediante o procedimento de tomar empréstimos em dólar no exterior, onde os juros eram menores, aplicar no mercado brasileiro, com taxas melhores, auferir o lucro, pagar o empréstimo no estrangeiro e ainda ficar com uma boa quantia de sobra.

Ainda há dois fatores que tornam a situação brasileira mais complexa em relação à cotação do dólar, pois afugentam investidores estrangeiros. O primeiro: o desmantelo das contas públicas, que gera constantes déficits do governo e leva a dívida pública ao descontrole. De acordo com o Banco Central, a dívida bruta do país, em março, atingiu inéditos 75,3% do Produto Interno Bruto (PIB), aumentando o risco de um “calote tupiniquim”. O segundo: a aproximação das eleições e a possibilidade de vitória de um candidato não comprometido com a disciplina fiscal, que não faça avançar a Reforma da Previdência, inquieta a maioria dos analistas, potencializando o risco de insolvência.
Se bem que essa avaliação carece de um maior rigor, posto que, candidatos bem colocados nas últimas pesquisas, como Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro (PSL) e Joaquim Barbosa (PSB) já se pronunciaram, diretamente ou por emissários, favoráveis à Reforma da Previdência – por mais que essa postura contrarie suas trajetórias políticas e os programas de seus partidos e possa surpreender os eleitores menos atentos. E Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede), outros nomes relevantes, não titubeiam quanto a necessidade da reformulação no sistema de aposentadorias.

Por outro lado, a exuberante reserva internacional do Brasil, de cerca de 380 bilhões de dólares, é uma razão para atenuar a preocupação dos investidores. Estes sabem que, com essa poupança, fica mais fácil converter seus reais em dólares e retirar suas aplicações do país sem perdas. Temendo repercussões danosas para a economia, motivadas pela oscilação do dólar – como o aumento da inflação ou a piora da situação de quem tem dívida nessa moeda – o Banco Central atuou para reverter a tendência altista. Nesta última quinta-feira (03), ofereceu US$ 445 milhões ao mercado, o que baixou o valor do dólar em 0,8%, para R$ 3,52. Depois disso, é esperar que a moeda americana se acalme e não complique ainda mais a situação dos brasileiros.

*Doutorando em Gestão do Desenvolvimento, Mestre em Economia e Economista (edenjr@edenjr.com.br)

Maranhão: perigosas contradições fiscais 8

Por Eden Jr.*

Anos antes de eclodir a maior crise da história do Brasil, em 2014, uma corrente significativa de economistas já vinha alertando de que as barbeiragens da condução econômica da era petista, no segundo mandato de Lula, e notadamente no ciclo de Dilma Rousseff, redundariam num colapso sem precedentes. Intervenções na taxa de juros; dirigismo em preços públicos – como combustíveis e eletricidade; pedaladas fiscais; contabilidade criativa; empréstimos subsidiados do BNDES para grandes companhias e o afrouxamento do controle nos gastos públicos, entre outros, levaram o país, que chegou a ter 14 milhões de desempregados, à debacle.

“O Ajuste Inevitável”, artigo da lavra dos economistas Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa, de julho de 2015, é considerado essencial, pois diagnosticou que a trajetória dos gastos governamentais no Brasil é explosiva. O trabalho expõe que desde a década de 1990, com acentuação a partir de 2009, os dispêndios federais – destaque para Previdência, especialmente, e funcionalismo – crescem mais do que a renda, avançando sobre parcelas maiores do PIB. De tal modo, a situação tenderia ao insustentável, e não seriam cortes anuais nos orçamentos que iriam resolver o dilema. Mas sim, uma duradoura e severa reestruturação dos desembolsos públicos, que fizesse retroceder a dinâmica das despesas ascenderem mais que a renda nacional. Atualmente, o nosso déficit primário (antes do pagamento dos juros) de R$ 159 bilhões e a permanente elevação da relação dívida/PIB ratificam o entendimento dos autores.

Em maio de 2016, estudo do Tesouro Nacional demonstrou, que entre 2009 e 2015, a folha com pessoal dos estados cresceu, na média, em termos reais (acima da inflação), fabulosos 38%. O Maranhão alcançou esse mesmo incremento de 38%, mas, no Rio de Janeiro esse índice foi de espantosos 70%. Estava aí a senha, para informar a principal fonte da crise financeira que solapa os estados: o desenfreado aumento dos gastos com pessoal, que por serem rígidos (uma vez majorada a remuneração, por garantia constitucional, é impossível reduzi-la) são de muito difícil controle. Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e recentemente Rio Grande do Norte, enfrentam sérias dificuldades para honrar com os salários de seus servidores, circunstância que gera uma série de desarranjos sociais.

No Maranhão, em dezembro último, o governador Flávio Dino autorizou uma ciranda de reajustes para o funcionalismo. Servidores da Procuradoria Geral do Estado, Secretaria da Fazenda, UEMA, Secretaria de Transparência e Controle, Tribunal de Justiça, Ministério Público e Tribunal de Contas tiveram, de formas e de intensidades diferentes, ganhos salariais. Paralelamente a essa generosidade, na última semana de 2017 um grupo de empresários se reuniu na Secretaria de Planejamento para protestar contra atrasos, de meses, nos pagamentos do governo do estado. Os fornecedores reclamavam até pelo pagamento de insumos básicos, que são utilizados no cotidiano da Administração, como água, gás e material de expediente. Há também constantes queixas na imprensa de atrasos em outros setores, como o da saúde. Esse contexto pode suscitar dúvidas sobre a real condição financeira do estado, além de expor a contradição: como tem recursos para aumentar salário de funcionários se fornecedores estão com faturas em atraso?

Apesar de que em muitos casos os aumentos serem justos, porque atendem a categorias que estão há tempos sem reposição salarial, é necessário saber se o Estado – a sociedade – tem condições de arcar com esses custos. Em relação aos funcionários do Executivo, pelo último demonstrativo fiscal disponível – referente a agosto – da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a conjuntura é mais confortável, tendo em vista que a despesa com pessoal atinge 39,49% da receita corrente líquida, de um limite de 49%. Já no caso do Tribunal de Justiça, do Ministério Público e do Tribunal de Contas a situação é mais complexa. Esses somente estão enquadrados dentro dos respectivos limites máximos de despesa com pessoal da LRF, porque usam o artifício de duas decisões do TCE/MA (1.895/2002 e 15/2004) – que, na prática, reduzem os valores das despesas com pessoal. Se não fosse pelo questionável emprego dessas decisões, estariam extrapolando o limite máximo permitido pela LRF e deveriam reduzir, e não ampliar, desembolsos.

Ademais, o aumento do TCE é o que pode vir a provocar mais embaraços para as finanças estaduais. Isso pois, os vencimentos básicos (fora outras verbas), podem chegar a R$ 26.129,11 este ano, e alcançar R$ 30.334,13 em 2021. Ou seja, é um aumento escalonado, que irá repercutir por vários anos. No mesmo padrão dos reajustes concedidos aos servidores federais em 2016, pelo presidente Michel Temer, apesar do aviso de economistas, à época, de que a benevolência se constituía em populismo fiscal, que os incrementos eram desmesurados e poderiam se tornar insustentáveis. Tanto é que hoje, dada a precariedade das contas públicas, o governo federal tenta adiar no STF – sem sucesso até o momento – os reajustes programados para este e para o próximo ano.

Em 2017, insatisfeito, posto que, seguidamente, o Executivo ultrapassava o limite de gasto com pessoal imposto pela LRF, o governo do Rio Grande do Norte adotou uma “nova fórmula” para o cálculo do índice, que excluiu os dispêndios com aposentados (nos moldes da decisão 1.895/2002 do TCE/MA). Formalmente – nos registros contábeis – a despesa com pessoal foi enquadrada nos limites legais. Demorou poucos meses para a realidade se impor. Hoje, o Rio Grande do Norte vive o caos: salários atrasados, greves na segurança e na saúde e a população é refém do crime. “Não existe almoço grátis”, um dia a conta chega e alguém sempre tem que pagar.

*Economista – Mestre em Economia (edenjr@edenjr.com.br)

ELEIÇÕES 2018: As chances do Meirelles (OU: Tá valendo o jargão “É a economia, estúpido!”)

Se FHC, sem ser conhecido nacionalmente antes de virar ministro da Fazenda conseguiu a proeza de eleger-se duas vezes presidente em primeiro turno, por que Henrique Meirelles não conseguiria o mesmo feito já que é muito mais conhecido hoje do que o tucano era na época que conduziu o Plano Real?

Assim que assumiu o Ministério da Fazenda, no início do governo Michel Temer (PMDB), Henrique Meirelles sabia que sua condição de “xerife da economia” poderia desaguar numa potencial candidatura a presidente da República.

É bem verdade que o ex-presidente do Banco Central durante a era Lula tomou posse na Fazenda em meio a um ambiente favorável e de crença de dias melhores para a economia brasileira pós-Dilma.

Contudo, consolidado o impeachment da presidente petista, o que se viu em seguida foi um país atolado numa crise sem fim, não somente econômica, mas também política e assolado pela corrupção principalmente depois do espetáculo que foi a famigerada gravação, clandestina, feita por Joesley Batista, dono da JBS, de um diálogo entre ele e o presidente Temer.

Passados os piores momentos da crise, o país parece que começa dar sinais de estabilidade econômica, embora a tensão política persista com o PT fazendo uma oposição implacável e sem trégua ao governo que o partido considera “golpista” e “ilegítimo”, o que não é de todo mentira. Sem falar na “crise existencial” dos tucanos de não saber se é governista ou oposição ao Planalto.

Nesse contexto, o PMDB dá sinais de que pode ter candidato a presidente em 2018 e nome pode ser exatamente o do ministro Henrique Meirelles, hoje filiado ao PSD.

Pode parecer loucura pensar que um “burocrata” ligado ao setor financeiro internacional tenha alguma chance de eleger-se presidente da República, mas lamento informar aos menos atentos ao jogo político que é, sim!, possível o ministro ser candidato e levar a eleição presidencial do ano que vem.

“É a economia, estúpido!”

O ano é 1993. O Brasil, para variar, enfrenta índices inflacionários estratosféricos, desemprego medonho, falta de investimentos e um clima político delicado pós-impeachment de Fernando Collor de Melo.

Numa jogada de risco, o então presidente Itamar Franco resolve convidar o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, na época chanceler-chefe do Ministério das Relações Exteriores, para assumir o ministério da Fazenda.

Até então um ilustre desconhecido do grande público brasileiro, já que era conhecido apenas em São Paulo e nos círculos da elite acadêmica brasileira, um ano depois de assumir as rédeas da economia e consolidar o Plano Real, FHC se candidataria e elegeria-se presidente em primeiro turno derrotando o favorito Lula. Quatro anos depois repetiria o feito reelegendo-se, também no primeiro turno, e mais uma vez derrotando o líder maior do PT.

Ora, se FHC, sem ser conhecido nacionalmente antes de virar ministro da Fazenda conseguiu tamanha proeza, por que Henrique Meirelles não conseguiria o mesmo já que é muito mais conhecido hoje do que o tucano era na época que conduziu o Plano Real?

Enfim, é um erro pueril minimizar ou subestimar a força de uma eventual candidatura do ministro Meirelles se até abril/maio de 2018 o Brasil apresentar um ambiente econômico mais estável, seguro.

É que está mais do que atual o jargão do ex-marqueteiro de Bill Clinton, James Carville: “É a economia, estúpido!”.

Governo terá candidato na eleição de 2018 e não será Alckmin, diz Meirelles

MARINA DIAS
JULIO WIZIACK
DE BRASÍLIA
Via FOLHA DE SP

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirma que o governo de Michel Temer terá um candidato à Presidência em 2018 e que ele não será Geraldo Alckmin (PSDB).

Na avaliação do ministro, o Planalto deve apoiar quem defenda por completo a atual política econômica, o que, segundo ele, não é compatível com o discurso do governador de São Paulo.

Meirelles não descarta ser esse nome, diz que, se for candidato, defenderá o “legado” do governo e provoca os tucanos: “Não quero ter a pretensão de entender o PSDB”.

Em entrevista à Folha, o ministro faz pela primeira vez uma avaliação assertiva do cenário para 2018, afirma que a polarização entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PSC) “tem teto de crescimento” e é direto ao ser questionado sobre um possível voo solo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ): “O mundo não acaba em 2018, principalmente para alguém tão jovem”.

Folha – Temer avalia que a melhora na economia permitirá ao governo ter um candidato competitivo em 2018. O sr. concorda?
Henrique Meirelles – Sim. Gradualmente a população perceberá a melhora da economia e, a partir daí, criam-se condições favoráveis para candidatos que defendam esse projeto de reformas.

O sr. é esse candidato?
A minha decisão será tomada no final de março.

Não será tarde, visto que os candidatos que polarizam hoje a disputa, Lula e Bolsonaro, estão em pré-campanha?
Exatamente porque são duas posições extremas, de esquerda e de direita, têm teto de crescimento. A grande maioria da população ainda aguarda um candidato que não tenha posições extremadas e que vai refletir essa posição de comprometimento com o crescimento do país.

O sr. acha, então, que o governo vai ter um candidato?
Acredito que sim.

E esse candidato não é o governador Geraldo Alckmin?
O PSDB está tendendo na direção de não apoiar o governo e isso terá consequências no processo eleitoral.

Alckmin vem tentando construir esse discurso de centro. Por que ele não pode ser o candidato do governo?
Porque uma coisa é o apoio a determinadas reformas, outra é o apoio à política econômica atual, com todas as suas medidas e consequências. Não há, pelo menos até o momento, um comprometimento do PSDB em defesa dessa série de políticas e do legado de crescimento com compromisso de continuidade.

Qual o fator decisivo para o sr. bater o martelo sobre sua candidatura em 2018?
Primeiro, a consolidação e a percepção pela população do crescimento econômico e, mais importante, dos benefícios que isso vai trazer. Segundo, essa articulação política.

No Datafolha, o sr. aparece com 1% ou 2% das intenções. Não é um percentual muito baixo para um nome que tem a máquina do governo? O tempo não é curto para obter um patamar competitivo em março?
As menções ao meu nome refletem o fato de que tenho dito que não sou candidato, não estou em campanha e estou completamente concentrado em garantir a recuperação da economia e a geração de empregos.

É viável defender um governo com 5% de aprovação, um presidente alvo de denúncias e uma agenda impopular?
O país está acostumado a anos de medidas populistas. Políticas como o teto de gastos e a reforma trabalhista têm uma primeira reação de baixa aprovação, porque não são populistas.

Quando o resultado ficar evidente, vai haver oportunidade para um candidato mostrar que o crescimento e a renda vêm das reformas. Essa posição pode prevalecer se alguém com credibilidade defender que esse é o legado.

No Datafolha subiu o percentual daqueles que acham que a inflação vai piorar e só 27% acham que a situação econômica vai melhorar. Quando a população sentirá no bolso que a situação melhorou?
Na saída de uma recessão grave, a percepção de melhora da economia é gradual. Aumentará aos poucos a percepção que o desemprego está caindo, que as empresas estão contratando. Isso gera confiança, reduz o medo de perder o emprego.

Esse processo vai refletir-se num Natal muito melhor do que nos últimos anos. No início de 2018 ficará mais clara a retomada do crescimento e o aumento da sensação de bem-estar.

Sem a reforma da Previdência voltaremos à recessão. Se ela não passar no Congresso, o sr. acha possível defender seu legado para os eleitores?
Se não passar, vamos enfrentar consequências. Não estamos discutindo se vai haver reforma, estamos discutindo quando vai haver. Se não fizer esse ano, vai ter que fazer no início de 2018. Se não, vai ser em 2019. É inevitável.

O sr. prefere fazer a reforma da Previdência agora ou como presidente?
Acredito que o momento é agora. Para qualquer candidato, inclusive aqueles que se opõem a ela, assumir um governo e enfrentar como primeiro desafio a reforma da Previdência, não é bom início.

É possível ceder aos pontos que o PSDB apresentou? O partido entregará todos os votos se isso ocorrer?
Não quero ter a pretensão de entender o PSDB. As propostas de uma das lideranças do PSDB trazem diminuição dos benefícios fiscais em dez anos em mais de R$ 100 bilhões, têm custo enorme e enfraquecem a reforma.

O governo está negociando um novo Refis para micro e pequenas empresas, o Funrual e outras medidas em troca de votos para a reforma. Existe espaço fiscal para isso?
Há necessidade de aprovação no Congresso, dessas e de outras medidas, como a tributação de fundos exclusivos, o adiamento do reajuste dos servidores públicos… Tudo tem que ser objeto de negociação.

O governo admite descumprir a meta fiscal para aprovar a reforma da Previdência?
A posição é de estrito cumprimento da meta.

Ser candidato do governo significa ter apoio do centrão, grupo que ganhou força com Eduardo Cunha [PMDB-RJ]. Não é incômodo?
É uma forma simplificada de definir aqueles que estão fora da polaridade histórica de PT e PSDB. Agora surgiu uma novidade, uma extrema direita, que não deve prevalecer. Existe uma série de partidos que não fazem parte desses dois polos e têm posições doutrinárias, como DEM e PSD.

O presidente do seu partido [PSD], Gilberto Kassab, quer ser vice na chapa do PSDB ao governo de SP. O sr. descarta trocar de legenda?
Kassab tem expressado apoio à hipótese de uma candidatura minha. Até fevereiro, teremos oportunidade de discutir o assunto e ver até que ponto são compatíveis esses dois projetos.

Temer gosta da ideia de uma chapa Meirelles-Maia. E o sr.?
Maia é um quadro político excepcional, tem um futuro enorme pela frente e não tenho dúvida de que será um nome extraordinário para qualquer chapa ou posição que optar por disputar.

O sr. está dizendo então que ele tem musculatura para disputar mais que uma reeleição a deputado federal?
Toda trajetória tem o momento certo e um dos segredos do sucesso na política é o momento adequado de tomar a decisão. Ele [Maia] está avaliando.

Acho que o mundo não acaba em 2018, nem o país. Temos, principalmente para alguém tão jovem, uma trajetória de caminho aberto para posições importantes. Para alguém na posição dele, 2018 é um ponto na caminhada, não o final.

O sr., portanto, não descarta ser o candidato do governo?
Não. Se a decisão [de ser candidato] for positiva, defenderei o legado deste governo, do qual sou parte.

O sr. prestou consultoria ao grupo J&F. Isso não pode ser usado contra o sr. em uma campanha?
Isso sempre pode ser usado contra mim, mas também contra outros candidatos existem pontos que podem ser usados.

Quem entra numa campanha tem que ter segurança. Tenho uma carreira no setor privado diversificada, não é uma ligação especial com determinado grupo. Não existia nenhum relacionamento [meu] de ordem política ou conhecimento das operações do grupo. Em nenhuma delação fui mencionado, a não ser quando houve aquela reclamação [de Joesley Batista a Michel Temer em conversa gravada no Jaburu] de que eu era duro, não aceitava nada.

RAIO-X

Nome Henrique de Campos Meirelles
Nascimento Anápolis (GO), em 31 de agosto de 1945
Formação Engenharia civil na Escola Politécnica da USP
Carreira Ministro da Fazenda desde 12.mai.2016, foi presidente mundial do BankBoston, do Banco Central (2003-2010) e do conselho de administração da J&F

A espantosa economia da comunista Manuela D’Ávila 5

por Eden Jr.*

Faltando aproximadamente 10 meses para o primeiro turno da eleição presidencial de 2018 é natural que haja um incremento na curiosidade a respeito das propostas econômicas dos principais postulantes ao Planalto. Não que os pré-candidatos devam, necessariamente, compreender perfeitamente as mais sofisticadas questões econômicas. Porém, o eleitorado quer, até mesmo para poder se posicionar, saber o que pensam os pleiteantes sobre temas relevantes da área, e que impactam diretamente em suas vidas. A Reforma da Previdência é mesmo necessária? O ajuste fiscal deve continuar? O Banco Central será independente ou permanecerá autônomo? A Reforma Trabalhista será revista? Haverá uma nova rodada de privatizações? A Reforma Tributária saíra do papel? A responsabilidade fiscal é um princípio inabalável?

A mais nova pré-candidata à Presidência da República, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PC do B/RS), em seu discurso proferido no último dia 19 em Brasília, durante o 14° Congresso do Partido Comunista, por óbvio, também abordou diversas questões econômicas. Porém, passaram quase incólumes as controvertidas afirmações da parlamentar gaúcha. Em discurso lido, portanto, sem improvisar, a presidenciável comunista colocou a toda prova princípios da economia.
Manuela falou de um tal tripé macroeconômico (juros, câmbio e inflação) que deve ser gerido e ter “como lógica o desenvolvimento do país e não os interesses do rentismo”. Aqui dois problemas. O primeiro é que o tripé macroeconômico brasileiro, que foi implantado em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, está assentado sobre três parâmetros: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. E o segundo, é desprezar o fato de que, enquanto este tripé foi respeitado, vivemos satisfatórias taxas de crescimento, com inflação controlada. Somente com o desmonte do tripé, na transição do governo Lula para o de Dilma Rousseff, é que mergulhamos numa crise inédita, que associou alta inflacionária, profunda recessão, descontrole das contas públicas e desemprego gigantesco.

A política fiscal de Manuela é esquizofrênica. Tomara que neste quesito não queira pedir conselhos para o seu conterrâneo, o petista Arno Augustin, ex-secretário do Tesouro Nacional, que com suas “pedaladas fiscais” levou o país ao precipício, forneceu o argumento jurídico para o impeachment de 2016 e foi inabilitado, pelo TCU, para exercer funções públicas por oito anos. A deputada esconjura a Emenda Constitucional n° 95/2016 (limitou o crescimento desenfreado dos gastos públicos), ao mesmo tempo em que propõe corte de gastos públicos – para fazer investimentos – e defende a criação de ministério para cuidar da segurança – ação que amplia gastos.
Sobre os investimentos públicos, o IPEA projeta que, desde 2003, este será o pior ano para eles, que alcançarão apenas cerca de 0,4% do PIB. Também é crítica recorrente, que os cortes de despesas recaem sistematicamente sobre os investimentos, pois os recursos estão largamente comprometidos com despesas obrigatórias (previdência e pessoal). Se sentar na cadeira presidencial, Manuela se deparará com um orçamento de cerca de R$ 1,4 trilhão (quase 90% engessado) e verá que para ampliar investimentos, provavelmente terá que cortar outras despesas.

Manuela propugna que “governo comprometido com o desenvolvimento, pode escolher alguns setores industriais para realizar uma política consciente de substituição de importações”. Espera-se que não seja uma reedição da malfadada “política dos campeões nacionais”, que solveu dezenas de bilhões de reais do BNDES para criar, discricionariamente, empresas brasileiras globais, e produziu poucos resultados práticos.

A candidata fala em “juros baixos, que incentivem o investimento produtivo e tornem o crédito barato”. A dificuldade aqui, é que sua aliada, Dilma Rousseff, também entendia que podia baixar os juros “na marra”, sem observar as condições apropriadas. Dilma saiu do governo e nos deixou a mais alta taxa de juros real do mundo.

No melhor estilo Dilma Rousseff, para quem “gasto público é vida”, a camarada Manuela afirmou que no Maranhão “metade da folha do funcionalismo é destinada aos educadores”. Como se a dimensão do gasto público, por si só, e não a eficiência desse, pudesse promover uma revolução educacional. Contudo, consultando-se o portal de transparência do estado, verifica-se que em 2016, dos R$ 4,453 bilhões aplicados em despesa com pessoal (exclusive aposentadorias), R$ 1,789 bilhões (40%) – na melhor das hipóteses – foram para educação (Fundação Nice Lobão, Secretaria de Educação e UEMA). Em 2017, com dados até novembro, esse índice até recuou, para 38%.
Talvez na revelação mais desconexa de seu discurso, a comunista asseverou que “o Brasil pode diminuir o déficit da balança comercial, se investir na indústria da saúde”. Acontece que o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) informa que a balança comercial brasileira teve superávit de US$ 5,2 bilhões em outubro, o melhor resultado para esse mês em toda a série histórica iniciada em 1989. Aliás, segundo o MDIC, neste ano a nossa balança comercial está superavitária em US$ 58,5 bilhões, bem como foi positiva em 2016 (US$ 47,6 bilhões) e em 2015 (US$ 19,6 bilhões).

Talvez Manuela devesse seguir os passos do “velho outsider”, Jair Bolsonaro, que para evitar seguidos constrangimentos, está tendo lições de economia com um time de especialistas liderado pelo pesquisador do IPEA, Adolfo Sachsida.

*Economista – Mestre em Economia (edenjr@edenjr.com.br)

O Brasil, segundo o FMI

Por Eden Jr.*

No início deste mês de outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) – organismo criado ao final da Segunda Guerra Mundial, para garantir a estabilidade do sistema monetário internacional, bem como, para tratar de questões macroeconômicas e financeiras que influenciam no equilíbrio global – realizou mais uma de suas reuniões anuais em Washington/EUA. Na oportunidade, o FMI lançou alguns relatórios, entre os quais o “Panorama Econômico Mundial”, o “Monitor Fiscal” e o “Perspectivas Econômicas: as Américas”, que contêm as projeções da entidade acerca da economia do planeta para os próximos anos.

Conforme o FMI, após a grave crise internacional de 2008, os dados são inequívocos e apontam para a recuperação, tanto é que a produção mundial deve experimentar expansão de 3,6% neste ano e de 3,7% em 2018. No entanto, a melhora parece incompleta, já que os salários têm aumentado em pequena escala e a desigualdade cresceu, isso basicamente em razão da intensa mudança da tecnologia, que resulta em uma difícil adaptação dos trabalhadores às novas condições de trabalho. Ainda são citados como riscos iminentes: os conflitos regionais e turbulências políticas, o endividamento excessivo de empresas globais, os desdobramentos das “políticas monetárias frouxas” (juros baixos) – empregadas em parte das nações desenvolvidas para estimular a retomada dos negócios –, as incertezas em relação ao prosseguimento da regulação financeira do sistema bancário e o protecionismo comercial – esses dois últimos associados ao cumprimento de promessas feitas em campanha por Donald Trump ao seu eleitorado.

No que diz respeito à economia brasileira, o Fundo acredita, que depois de mais de dois anos, superamos a recessão e vamos crescer 0,7% ao final deste ano e 1,5% no próximo, abaixo, portanto, dos Estados Unidos (2,2% e 2,3%), da Zona do Euro (2,1% e 1,9%), da América Latina e Caribe (1,2% e 1,9%) e do Oriente Médio e da África do Norte (2,2% e 3,2%). Esses números confirmam, que depois dos experimentalismos petistas – especialmente da era Dilma – o Brasil é um pária da economia mundial. A exuberante safra agrícola registrada no primeiro semestre e a elevação no consumo, possibilitada, sobretudo, pela liberação das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), são tidos como fatores determinantes para a retomada da nossa economia.

Por outro lado, o descontrole das contas públicas enfrentado pelo país – outra “herança maldita” dos “anos Dilma” – preocupa sobremaneira o FMI. Nesse sentido, depois de cinco anos de déficits primários (antes do pagamento dos juros da dívida), somente em 2021 nossas contas serão superavitárias, na ordem de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa é a aposta da entidade. Já o déficit nominal do governo – que inclui o pagamento de juros – seguirá relevante, embora cadente, saindo de 9,2% do PIB neste ano, para 7,3% em 2022. Para seguir a trajetória de baixa, é necessário apostar, tenazmente, no esforço fiscal, insistindo em medidas impopulares, como o teto de gastos públicos – iniciativa tida como “progresso real na gestão fiscal brasileira” – e na aprovação da Reforma da Previdência. Como resultado da anarquia fiscal, o endividamento público segue elevado, alcançando 83,4% do nosso PIB este ano, e chegará a 96,9% ao final de 2022. Para efeito de comparação, nesse ano a dívida chilena será de 31,4% do PIB, a chinesa, de 62,6%, a russa, de 19,9%, e a indiana, de 59,6%.

Em contraste com a América Latina e o Caribe, o crescimento brasileiro em 2017, previsto para 0,7%, será melhor apenas do que o desempenho de Equador (0,2%), Porto Rico (-2,8%), Suriname (-1,2%), Trindade e Tobago (-3,2%) e Venezuela (-12%). No geral, a economia da região tem reduzida capacidade de expansão, necessitando de reformas e investimentos para ganhar impulso. O populismo é um risco para o continente, já que diversas nações realizarão eleições nos próximos 18 meses, e há dúvidas quanto à permanência das políticas reformistas.

O conjunto de soluções apontadas para os problemas brasileiros passa por: ajuste fiscal, investimentos em infraestrutura (notadamente de transporte), ações para melhorar o ambiente de negócios (reforma tributária, previsibilidade jurídica e redução da burocracia), garantir eficiência do gasto estatal (fortalecimento das instituições, aumento da transparência nas informações do governo e combate à corrupção), melhor formação de capital humano, ampliação da participação da mulher na força de trabalho e abrandamento do percentual de despesas públicas obrigatórias (Previdência e funcionalismo).

Houve também elogios ao Brasil. No quesito diminuição das desigualdades, o Programa Bolsa Família foi mencionado como importante vetor de suavização da disparidade de renda no país.

*Economista – Mestre em Economia (edenjr@edenjr.com.br)

As pesquisas e o mercado mostram que não há descolamento entre a política e a economia

A política e a análise política de vez em quando resvalam para o pensamento mágico, no qual a projeção do desejo substitui a realidade. A mais recente expressão disso é a teoria do descolamento entre a economia e a política. A primeira estaria em boa medida protegida das confusões e incertezas da segunda. Os números estariam aí para comprovar. Será?

Qual é a situação da política? Instabilidade micropolítica, mas razoável estabilidade macropolítica. A turbulência atinge sim Michel Temer. Mas, se prevalecer a, no momento, improvável hipótese de a Câmara dos Deputados determinar a saída dele, o governo ficará nas mãos de seu bloco político, que hoje traduz o poder de um bloco histórico pró-liberal na economia.

Com Temer, Maia ou qualquer outro, o governo prosseguiria as privatizações, renegociações tributárias etc, para cobrir despesas correntes e evitar o desastre no curto prazo. O sonho inicial do mercado era Temer equacionar a sustentabilidade de longo prazo da dívida, com uma forte reforma da previdência. Mas, também aqui, o ótimo é inimigo do bom.

Por isso, o mercado vai bem, apesar do noticiário político “trem fantasma”, um susto a cada curva. Mas, o que é “ir bem”? É essencialmente o reflexo da melhora da saúde e da lucratividade das empresas por ganhos expressivos de produtividade, sustentados essencialmente na ainda boa capacidade ociosa e no hoje gigantesco exército de mão de obra de reserva.

Se essa recuperação agrada às fontes tradicionais do jornalismo, não atende porém tanto assim ao desejo dos que o jornalismo costuma ouvir menos. Entre eles 1) os 13 milhões que procuram trabalho e não acham, 2) os que desistiram de procurar, 3) os que acharam, mas para ganhar bem menos e 3) os atingidos por cortes nas políticas públicas. E a todos esses acrescente-se suas famílias.

E temos então a segunda demonstração de não haver descolamento algum entre a economia e a macropolítica: as pesquisas de avaliação de governo e eleitorais. Para quem a economia vai bem, o governo é passável, apesar dos pesares. Para a maioria, nem pensar. E aí a intenção de voto mostra uma recomposição do bloco histórico que elegeu Lula/Dilma em 2006 e 2010.

Pouco a pouco, a má memória do segundo governo Dilma vai sendo diluída na esperança de ter de volta uma gestão baseada na expansão do emprego, do salário e do crédito. Os “de baixo” também têm pensamento mágico, e ele por enquanto garante a resiliência de Lula, apesar das dificuldades do ex-presidente com a Justiça e, portanto, com o noticiário.

Nesta nova fase, o antipetismo buscará refúgio no argumento de que o problema (a ameaça da volta do PT/esquerda) será resolvido com a inelegibilidade de Lula. Será? Nas pulverizadas projeções atuais, o bloco PT/esquerda tem potencial para colocar um nome no segundo turno. É o que diz por sinal o número dos que apoiariam um candidato de Lula.

Como esse quadro poderia ser revertido ou pelo menos amenizado? Um caminho proposto é a solução duvidosa de não apenas tirar Lula da eleição mas impedi-lo de fazer campanha. Mais seguro seria produzir um 2018 com forte expansão de emprego, renda e políticas públicas para os “de baixo”. Um novo 1994, atualizado. Por enquanto, não está visível. Quem sabe?

De tudo isso, fica o paralelo entre a recente história política brasileira e o front franco-alemão na Primeira Guerra Mundial. Muito canhão, muita bomba, muita arma química, muitas mortes. Quando a fumaça desce, os exércitos estão mais ou menos no mesmo lugar. Apesar do alarido e das baixas, os fatos ainda não produziram uma nova relação de forças.

Establishment

Na corrida tucana, desce Dória e sobe Alckmin. Os tucanos têm um desafio: deslocar Bolsonaro e Marina. Parece hoje algo complicado, mas talvez não seja tanto. Em condição normal de temperatura e pressão, o establishment tem gás para colocar um nome no segundo turno. Basta uma adequada campanha de demolição da concorrência.

Assim como o PT, o PSDB (ou algum derivado) terá base social na eleição. Nunca se deve subestimar isso.

(Fonte: www.alon.jor.br)