Do verbo faltar

É preciso tempo para transformar a ausência de alguém querido em lembrança boa, em saudade que não dói

O tempo nos ensina a conviver com a ausência | Crédito: Shutterstock.

Cris Guerra, via Vida Simples

Meu filho quer visitar o túmulo do pai. Será o primeiro encontro deles — Guilherme faleceu quando eu estava no oitavo mês de gravidez. Francisco tem 11 anos, a mesma idade da morte do pai — o tempo com um é o tempo sem o outro.
Seu pedido inédito me trouxe uma sensação contraditória. Fiquei contente ao vê-lo disposto a se apropriar dessa falta. Construir a saudade é tornar real sua história com o pai que ele não teve tempo de conhecer e de quem sente a ausência, mas não a falta.

Por outro lado, talvez eu preferisse poupá-lo da dor de alojar um buraco, esse silêncio que ensurdece. Quando minha mãe morreu, meu pai espalhou seus objetos pela casa, como rastros que pudessem contar uma história diferente. O chinelo, a cesta de tricô, os óculos. Sete anos depois, foi a vez dele. Da falta dos dois fiz um retrato de parede inteira para, ao acordar, continuar dizendo bom-dia.

A falta é uma porta por onde ninguém entra. Um eco dentro de nós. O outro fica blasé de repente: não nos dirige mais a palavra, não dá um telefonema, chega a causar antipatia.

A danada tem o poder de romantizar até o que nem foi. Transforma diálogo em monólogo, rouba o objeto do amor e o deixa tonto, sem saber pra onde ir. É um tempo em que nos perdemos de nós mesmos. Uma espécie de condenação, já que a morte é perpétua — a impressão é a de que morremos junto, tamanha a dor de existir. É muita falta para tanto tempo pela frente. E não adianta deitar e dormir, porque no dia seguinte a falta nasce de novo, junto com o sol. Pior: algumas presenças a aguçam. E aí quem quer faltar somos nós. Encolher e sumir de vez.

A falta costuma ocupar um espaço grande demais. Até que a gente saia em busca de nossa própria presença. Em nome de seguir em frente, fiz da ausência um hábito, até que ela virasse paisagem. Ao longo da estrada, confesso, de vez em quando entrava um vento de dor por uma fresta insuspeita, atingindo minha pele com um frio de tristeza. Eu pensava que sentiria esses arrepios para sempre, como quem tem uma doença crônica. Um reumatismo de amor que de vez em quando finca e maltrata.

Transformar falta em saudade é como fazer origami. Dobrar o papel branco até que ele voe. Até que fique mais o amor que a pessoa. Um sentimento emoldurado, um quadro que me conta uma história — que nem parece mais ser minha.

Com o tempo, aprendi a conviver com a ausência como se ela fosse uma pessoa — e é. Mais que uma interrupção, a falta é um jeito de ficar para sempre. Um seguir existindo, agora fazendo parte de quem amamos. Ao ritualizar a saudade do pai, Francisco nomeia suas dores e alegrias e dá a cada um o seu papel. Transforma a ausência em falta. Desenha sua origem, constrói um norte para onde olhar.

Cris Guerra é escritora e palestrante. Apaixonada por moda, acha que até as palavras servem para vestir.