Psicologia: pesquisa avalia percepção do brasileiro sobre o rumo do Brasil

Divididos entre a esperança e a frustração, brasileiros vivem em estado de bipolaridade

Por Ivanir Ferreira, via Vya Estelar

Avaliar a percepção do brasileiro em relação ao futuro do País foi a principal motivação da pesquisa

Os brasileiros estão divididos quanto ao rumo político e econômico do Brasil e vivem um estado de bipolaridade. Oscilam entre a esperança e a frustração. Questionados se algum dia viverão em um país próspero, com segurança e bem-estar, 41% disseram sim, 22% responderam não e 37% afirmaram ter dúvidas. Os resultados fazem parte de uma pesquisa que ouviu 882 pessoas, com idade entre 17 e 76 anos, em São Paulo, Paraná e Minas Gerais, realizada pelo Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia (IP) da USP. O período da consulta foi de maio até uma semana antes do segundo turno, em outubro de 2018.

Embora os dados ainda estejam sendo analisados, o professor Esdras Guerreiro Vasconcellos, que coordenou a pesquisa, diz que é interessante observar que a dúvida é quase que tão grande quanto a certeza: 37% contra 41%, respectivamente. Em sua opinião, o povo brasileiro vive “um estado mental de bipolaridade, acreditando e duvidando ao mesmo tempo. Uma espécie de paciente autoengano, como forma de suportar a frustração. Para explicar o momento, ele lembra uma citação de Fernando Pessoa sobre si mesmo: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. É “o talvez…, o não sei…, o será… O empate entre confiança e desconfiança bloqueia qualquer atitude assertiva ou proativa de solidariedade, de apoio e decisão social e política”, explica.

Na pesquisa, conduzida por seus alunos de graduação e pós-graduação, foi perguntado aos entrevistados sobre a confiança no sistema político brasileiro vigente. Cerca de 72% disseram confiar na democracia, enquanto 28% responderam não. Dos motivos apresentados, muitos disseram que o sistema, embora precisasse de ajustes, foi o que melhor funcionou no Brasil, ao contrário do que relataram em relação a governos ditatoriais tanto de esquerda quanto de direita.

Quando questionados sobre o nível de confiança nos políticos brasileiros, 61% declararam não confiar em nenhum deles e 39% responderam que sim. Os motivos alegados foram o envolvimento dos congressistas em corrupção, a falta de projetos de interesse social, a endogenia dos políticos e a formação de grupos para defender interesses específicos, os famosos lobbies que atuam no Congresso Nacional.

Uma terceira pergunta foi feita somente àqueles que disseram acreditar no futuro do Brasil. Quanto tempo a prosperidade e o bem-estar demorariam para chegar? Por estar muito próximo ao segundo turno (meados de outubro), alguns responderam que seria logo após a apuração dos resultados das eleições, porém, outros poucos disseram que poderia levar pelo menos 200 anos. Sem especificar o porcentual de ambos os lados, Vasconcellos afirma que o mais importante foi a média das respostas, que foi de 39 anos. Ou seja, “precisaríamos de pelo menos dez gestões governamentais para atingirmos o estado de bem-estar social desejado pelos brasileiros”, avalia.

“Brasil, um país do futuro”

Vasconcellos disse querer abranger uma faixa de idade mais extensa porque queria ouvir os mais jovens, que pela primeira vez tomavam consciência do futuro que os aguardava, e também os mais velhos, que viveram boa parte da vida esperando que tal promessa de prosperidade fosse cumprida.

Lembrando a expressão “Brasil, um país do futuro”, de alcunha do escritor judeu-austríaco Stefan Zweig, que ao final da primeira metade do século 20 radicou-se em Petrópolis, no Rio de Janeiro, fugindo do nazismo, Esdras acredita que “os brasileiros se veem diante de uma longa noite de incertezas” porque uma expressiva parte dos entrevistados afirmou ter dúvidas quanto ao futuro promissor já de imediato, ou seja, a partir de janeiro de 2019, quando o novo presidente eleito em outubro deverá assumir o gabinete presidencial no Palácio do Planalto, Brasília. “Assim como as gerações mais velhas não viram chegar a proclamada prosperidade, talvez as mais jovens tenham de esperar por ela se a previsão dos 39 anos se confirmar”, diz.

Segundo o pesquisador, a expressão “Brasil, um país do futuro” inspirou muita gente a ter esperança em dias melhores, mas quando a última crise se abateu no País, o desalento chegou junto. Avaliar como estava a percepção do brasileiro em relação ao futuro do País foi a principal motivação da pesquisa, afirma.

Ainda sobre o escritor austríaco, Vasconcellos conta que, em 1940, Zweig, mesmo vivendo em um país pobre, pouco industrializado e sob a ditadura, escreveu um livro com louvores sobre o título Brasil, um País do Futuro, quando ficou marcada a expressão. Dois anos depois, deixando uma carta de gratidão aos amigos e ao País que o abrigou, Stefan Zweig tirou sua própria vida, se suicidando com sua esposa.

*Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 – O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora.

Você pode se considerar democrático mas não sê-lo

Muitos não conseguem mais conviver com uma opinião que as desagrada sem transformar isso em ódio.

Blenda de Oliveira, via Vya Estelar

Hoje participei de uma cena que julgo deplorável. Estava num café e, ao meu lado, três amigos discutindo política. Dois eram petistas, mas irão votar em Marina. Um outro, simplesmente, declarou o voto em Bolsonaro.
Quase a terceira guerra instalada! Os rapazes da “esquerda” atacavam o suposto amigo de burro, ignorante, fascista e falavam alto:

“Cara, você é inteligente! Que aconteceu? Ficou burro de uma hora para outra?”

Cada vez em que o eleitor de Bolsonaro tentava se justificar, os outros dois falavam mais alto e conseguiam calar o “amigo”. O curioso é que defendiam a democracia e espumavam de ódio, porque o amigo não comungava das mesmas ideias.

É da democracia espumar de ódio, se quiser, mas é da democracia também o direito legítimo de cada um dar o seu voto para quem queira. Goste ou não!

Já vi muitos intelectuais do Facebook tratar pessoas que vão votar em Bolsonaro como cidadãos de segunda categoria. Pessoalmente, acho péssimo. Será que não é possível discordar e discutir ideias? Precisa depreciar a pessoa? Constranger?

Se incomodar tanto, deleta do seu grupo, esquece. Isso também é democrático.

As pessoas não conseguem mais conviver com uma opinião que as desagrada sem transformar isso em ódio, sarcasmo, lição de moral barata e depreciação.

Há pessoas excelentes e inteligentes que votam no PT, PSDB, Bolsonaro, Ciro, Boulos, no orangotango… Qualquer coisa que queira!

Há os que anulam, votam em branco ou não saem de casa para votar. Isso É UM DIREITO! Não é crime, ok?

Basta de tanto ódio.

A geração que não entende o conceito de gratidão

Os eternos credores do universo

POR RUTH MANUS, via Estadão

Gosto de uma série de coisas que hoje em dia podem facilmente ser consideradas como fora de moda: alguns modelos de calça que já não fazem muito sentido, alguns roteiros de viagem que se perderam no tempo, algumas comidas que já nem se encontra mais no supermercado. Mas a coisa mais fora de moda da qual eu realmente gosto é essa tal de gratidão.

Não sei se a minha geração foi criada para entender esse conceito. Acho que não. Parece que temos que fazer muito esforço para entender isso, inclusive eu. A noção de gratidão é realmente um lance que ficou meio perdido nas últimas décadas e que faz com que nós fiquemos um pouco desconcertados ao olhar para essa palavra, assim como fica uma criança nascida nos anos 2000 ao olhar para uma vitrola, sem entender bem qual a sua finalidade.

Crescemos com a nítida sensação de que somos credores da vida. Assim que nascemos começamos a debitar da conta dos outros uma série de dívidas que julgamos que eles têm para conosco e, assim, vamos tendo cada vez mais certeza de que somos verdadeiramente intocáveis e que o universo tem toda a obrigação de nos proporcionar a felicidade plena, não porque merecemos, mas porque temos direito.

Nessa geração o raciocínio é o seguinte: em vez ser grato e devedor, o indivíduo sempre se considera um generoso credor. Não é ele quem é grato aos pais pela criação dedicada, são seus pais que lhe devem muito por ser bom filho. Não é ele quem é grato ao professor pelos ensinamentos que recebeu, é o professor que lhe deve muito pois “é ele” quem paga seu salário. Não é ele quem é grato ao chefe pela oportunidade de trabalho, é o chefe que lhe deve muito por ele cumprir todo dia suas obrigações.

As coisas mais básicas num ser humano legal (retribuir o afeto da família, respeitar professores, estudar quando se tem oportunidade, trabalhar bem, cumprir horários, preocupar-se com os amigos, ser gentil com os velhinhos e dar seu melhor todo dia) tornaram-se um verdadeiro passaporte diplomático para o mundo dos semideuses. Fazer o mínimo vem se tornando o suficiente para tornar-se o máximo.

E quanto mais longe nos colocamos do conceito de gratidão, mais a nossa vida parece vazia, incompleta. Voltamos mais uma vez à história do copo meio cheio e do copo meio vazio. Quem olha para sua vida e sente-se grato, tem um copo sempre meio cheio. Quem olha para sua vida e sente-se credor das pessoas e do universo, terá sempre um copo meio vazio.

É preciso que a gente saiba resgatar essa ideia de gratidão. Olhar para as nossas vidas e pensar que temos muita sorte, pelo simples fato de termos a base: afeto, comida, teto, saúde. Precisamos parar de olhar para os nossos dias pensando no que não temos: o corpo ideal, o salário estratosférico, o namorado mais bonito, a dupla promoção, a viagem dos sonhos.

Enquanto pensarmos que todos nos devem muito por tudo o que fazemos por eles, sem nunca nos dar conta de que as pessoas, em geral, fazem tudo o que podemos por nós, seguiremos sendo essa famosa geração mimada, cujo objetivo vai ser sempre ganhar o mundo ao invés de ser grata por ter a oportunidade de tornar o mundo um lugar melhor.