Oxfam Brasil mostra o mapa da desigualdade socioeconômica no Brasil e no mundo

O Brasil tem hoje cinco bilionários com patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população brasileira

via Ofxam Brasil

De toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% foi parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. Enquanto isso, a metade mais pobre da população global – 3,7 bilhões de pessoas – não ficou com nada. No Brasil, não é muito diferente. Hoje temos cinco bilionários com patrimônio equivalente ao da metade mais pobre do país, chegando a R$ 549 bilhões em 2017 – 13% maior em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres do Brasil tiveram sua riqueza reduzida no mesmo período, de 2,7% para 2%.

Esses e outros dados fazem parte do relatório “Recompensem o trabalho, não a riqueza” que lançamos às vésperas da reunião do Fórum Econômico Mundial 2018. O relatório revela como a economia global possibilita que a elite econômica acumule vastas fortunas enquanto milhões de pessoas lutam para sobreviver com baixos salários e em condições precárias de trabalho.

Houve um aumento histórico no número de bilionários em 2017: um a cada dois dias entre março de 2016 e março de 2017. Atualmente há 2.043 bilionários no mundo. O Brasil ganhou 12 bilionários a mais no período, passando de 31 para 43.

A riqueza dos bilionários aumentou 13% ao ano, em média, desde 2010 – seis vezes mais rapidamente do que os salários pagos a trabalhadores, que tiveram aumento de apenas 2% por ano, na média, no mesmo período. Enquanto isso, mais da metade da população mundial vive com renda entre US$ 2 e US$ 10 por dia.

Nove entre cada 10 bilionários no mundo são homens.

O patrimônio somado dos bilionários brasileiros chegou a R$ 549 bilhões em 2017, num crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres do país viram sua fatia da riqueza nacional ser reduzida ainda mais, de 2,7% para 2%.

O Brasil tem hoje cinco bilionários com patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população brasileira.

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As mulheres do PT 10

“Brilhar, beijar. Ter brilhos nos olhos. Beijo no olhar.”

O PT é um corpo vivo.

O PT é uma partido que pulsa.

O PT não é um partido que se tira do mapa político assim, digamos, numa canetada judicial.

Se verdade que o PT não descobriu o Brasil ou se não é dono de tudo que ainda de bom existe neste país, é verdade também que o partido colocou em pauta muitas questões fundamentais que até antes de sua fundação eram estranhas à sociedade.

Foi o PT que pautou para a nação conceitos como cidadania e inclusão social.

A fome, antes do PT, era algo abstrato e tido como mera coisa do acaso, um infortúnio para quem não teve a sorte de ter um prato de comida na sua mesa. Foi o PT que redefiniu esse conceito.

Foi o PT que também que colocou, na ordem do dia, a necessidade de ser vermos com olhos justos os direitos das minorias e organizou segmentos socais historicamente ignorados ou mesmo excluídos da sociedade.

E entre esses segmentos sociais advindos com a fundação do PT um que mais é representativo e forte é o segmento de Mulheres.

Essas meninas do PT não são somente necessárias para manter a pulsação do partido como fundamentais para construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Ainda que algumas companheiras possam parecer intransigentes e outras até “maluquetes”, essas mulheres do PT são o coração do partido, o sangue vermelho que irriga e dá sentido a todo o que petismo tem de bom e de melhor.

O Blog do Robert Lobato faz questão de fazer este registro porque há maledicências em relação a algumas posições deste blogueiro sobre o movimento feminista.

Ora, sei da importância do movimento de Mulheres e da luta pela emancipação da mulherada. Não sou apenas consciente disso como solidário à batalha que as meninas enfrentam para ser tratadas com dignidade.

Agora, não sou hipócrita e luto contra os meus demônios machistas.

“Já tive mulheres de todas as cores/De várias idades de muitos amores/Com umas até certo tempo fiquei/Pra outras apenas um pouco me dei/Já tive mulheres do tipo atrevida/Do tipo acanhada, do tipo vivida/Casada carente, solteira feliz/Já tive donzela e até meretriz”.

É por aí.

E viva as mulheres do PT!

E via todas as mulheres…

Viva o Museu do Reggae! 8

Trata-se um ambiente que vai proporcionar uma bela viagem no mundo deste que é um movimento que inspira as mais lindas reflexões sobre a vida, o amor, a paz e a própria humanidade

Ademar Danilo será o diretor do Museu do Raggae.

Não terei a ousadia de afirmar que sou um regueiro clássico, do tipo que não perde uma festa ou show de reggae, conhece todos os cantores, compositores e músicos do gênero ou que puxa uma boa marijuana para viajar inspirados nos ensinamos do senhor Jah Rastafari.

Entretanto, o reggae sempre esteve presente na minha. Na verdade desde infância, seja como morador do Bairro de Fátima, moleque nos torrões da Baixada Maranhense ou na juventude nos tempos do Espaço Aberto.

Gosto de ouvir e dançar um bom reggae, principalmente os roots.

Dos clássicos de Bob Marley e de Burning Spear, passando pelo pop de Jimmy Cliff e as pedras de responsa de Eric Donaldson, até os reggaes românticos de Donna Marie, todos de uma forma de outra marcam um pouco da vida de Bob Lobato no tempo e no espaço.

Faço essa introdução, para parabenizar o Governo do Maranhão pela iniciativa de entregar não somente à massa regueira, mas sobretudo à cidadania maranhense, o Museu do Reggae, que acontecerá nesta quinta-feira, 18, a partir das 18h, no Centro Histórico de São Luís.

Trata-se um ambiente que vai proporcionar uma bela viagem no mundo deste que é um movimento que inspira as mais lindas reflexões sobre a vida, o amor, a paz e a própria humanidade. O reggae é isso.

Sem falar que a nossa “Jamaica Brasileira” é merecedora de tudo que o Museu do Reggae vai proporcionar para os “Regueiros Guerreiros”.

O mestre Ademar Danilo é só alegria.

Nada mais merecido!

OAB-MA: Uma decepção chamada Thiago Diaz 7

O que se vê hoje é uma gestão desastrosa, uma entidade exposta ao ridículo e um presidente isolado na sua própria vaidade e autoritarismo

Talvez não se tenha notícia de um presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Maranhão, que tenha causado tanta decepção na categoria e mesmo na sociedade como acontece agora com o Thiago Diaz.

O jovem advogado se perdeu por completo à frente desta que é uma das entidades de classe mais respeitadas e prestigiadas do país!

A postura de Thiago Diaz no comando da OAB-MA nos faz lembrar aquela frase que diz: O poder não muda as pessoas, ele apenas revela quem as pessoas realmente são.

Lembro quando aquele advogado tímido, cheio de projetos e sonhos para mudar a OAB-MA, com discuso moderno, renovador, progressista, ético etc., mobilizou outros tantos colegas igualmente jovens todos com um único objetivo: dar vida nova à Ordem que há anos vinha sendo dirigida pelo mesmo grupo.

O movimento coordenado inicialmente por Thiago Diaz e Pedro Alencar, logo ganhou musculatura e capilaridade em todo o estado do Maranhão. E antes mesmo do processo eleitoral para escolha da nova diretoria, o movimento já havia conquistado a simpatia e o apoio de advogados das gerações mais velhas que viam naqueles garotos e garotas a energia necessária para o enfrentamento aos novos desafios impostos à entidade. E assim se deu a vitória da chapa “Renovar para Mudar”, em 2015.

Passados poucos mais de dois anos daquela data histórica, o que se vê hoje é uma gestão desastrosa, uma entidade exposta ao ridículo e um presidente isolado na sua própria vaidade e autoritarismo. E nem mesmo o seu leal parceiro de movimento antes da eleição/vitória, o advogado Pedro Alencar, sobreviveu à mudança de personalidade e de caráter de Thiago Diaz. Ou seja, nada “renovação”, pior ainda de mudança!

Se é verdade que presidente da OAB-MA entrou novo na entidade, não é menos verdade que deverá sair velho de lá.

Digo velho no sentido das práticas retrógradas, arcaicas e até mesmo reacionárias às quais o senhor Thiago Diaz resolveu adotar assim que sentou na cadeira de presidente.

Triste fim de Policarpo Quaresma…

Por que você deve ter muito cuidado com seus pensamentos

por Roberto Goldkorn, via Vya Estelar

Um dos livros que mais me impressionou foi o Formas Pensamento do Leadbeater, editado no Brasil pela Editora Pensamento.

Nesse trabalho o grande teósofo e clarividente inglês dizia que nossos pensamentos são coisas, têm uma concretude, têm forma, cores, cheiro e mobilidade.

O livro é ricamente ilustrado com as formas-pensamento que pairavam alguns instantes como nuvens sobre a cabeça que os havia gerado. Ódio, inveja, raiva, ressentimento, luxúria, devoção, etc. foram alguns dos pensamentos desenhados e analisados pelo autor.

Acredito nisso, embora tenha alguma dificuldade de aceitar aquela miríade de formas, cores e dinâmicas. A minha leve descrença se deve ao fato de que ninguém mais, mesmo os mais respeitados videntes e gurus desenharam as formas-pensamento com tanta riqueza de detalhes. E tenho sempre muita dificuldade com diagnósticos únicos, com exclusividades.

De qualquer forma não há razão para desacreditar que nossos pensamentos tenham uma materialidade uma vez que já sabemos que toda matéria é basicamente energia.

Muitas pesquisas feitas por cientistas que nada têm de esotéricos, mostram que pensamentos ou produções mentais podem ser comunicadas e até criar efeitos físicos em objetos distantes.

A nossa mente está constantemente criando pensamentos em sua imensa maioria flashes fugazes (não será redundância?) que se dissipam no éter quase tão rápido quanto foram gerados.

Mas muitos pensamentos são criados por fortes e densas emoções. São os chamados pensamentos “pesados”. Esses ficam como nuvens carregadas, gordas e não se dissipam rapidamente, até por que são pesados e são realimentados pela fonte emocional que os gerou. Quando uma pessoa pensa com ódio e alguém, em geral existe um fato gerador externo (que permanece ativo) e uma filial interna que de fato gera o pensamento-ódio. O mesmo acontece com o pensamento-medo, e toda a “família Adams” de pensamentos destrutivos que nem é preciso mencionar.

Esses filhos das nossas paixões e febres emocionais, são entre tantos malefícios, causadores dos bloqueios da nossa capacidade psíquica, ou seja da nossa mediunidade. Eles ocupam um espaço de comunicação interna e às vezes externa por onde o fluxo de informação mediúnica deveria passar. Claro que estou me referindo a imensa maioria dos mortais. Grandes médiuns, grandes videntes também foram pessoas que trepidavam de paixões, e eram usinas ferozes de produção de pensamentos “obesos e sanguíneos”. Mas esse é outro texto, ou como diria meu pai, “são outros quinhentos”.

Meu alvo aqui é o sujeito comum, eu e você que está lendo agora. Algumas pessoas durante meus cursos de desenvolvimento de sensitividade me perguntam: Por que não tenho dons psíquicos? O que fazer para tê-los? Eu devolvo a pergunta e digo: O que é que você está fazendo para não tê-los?”

Posso dizer sem medo de estar sendo hipócrita, que todos nós temos algum grau de mediunidade. Todos estamos constantemente enviando e recebendo mensagens de fora da área intelectual de nossa mente, e até do espaço psíquico coletivo. O que acontece para que nada disso seja registrado e aproveitado? As grossas nuvens de pensamentos tenebrosos, que geramos em resposta a estímulos externos/internos, frutos de nosso analfabetismo emocional. Mas a coisa ainda pode ser pior que isso. Além de bloquear a nossa criatividade, muitas vezes estimulada por aliados psíquicos e espirituais, os pensamentos trovejantes podem, ao contrário, servir de antena para comunicações que lhes sejam afins.

Já escrevi nesta coluna há muitos anos, um artigo chamado Abandonando o Palco, sobre o que acontece no processo dos suicidas. Os pensamentos autodestrutivos gerados podem eventualmente atrair programas psíquico-espirituais de suicidas que se deram bem (conseguiram seu intento) e querem arrastar outros para seu inferno privê.

Nessa toada, os pensamentos de ódio, além de funcionarem como rolha impedindo o fluxo de comunicação saudável, também sintonizam seu criador com as estações da rádio Ódio & Rancor. Essa rádio vai reforçar o apetite dessa “coisa” por mais alimento-ódio, e isso pode acabar sendo um monotema sinistro na vida desse indivíduo. Assim o criador se une de forma simbiótica a criatura de maneira quase idêntica ao processo do vício e pimba, temos um refém, um prisioneiro de um inferno particular em vida.

Na Bíblia o rei Saul entra em pânico porque sente que “deus o abandonou, e não fala mais com ele, nem através das cartas, nem em sonhos…” e parte para em desespero consultar uma “feiticeira” que nada mais é do que uma médium, para que “lhe traga dos mortos o rei Samuel para orientá-lo”.

Minha interpretação dessa passagem não tem as piruetas de alguns exegetas, e é simples. O medo, (e outros sentimentos e emoções pesadas) bloqueou a comunicação de Saul, não com Deus, mas com seu próprio oráculo interno e com o Inconsciente Coletivo.

Saul como a maioria dos mortais resolve pegar um atalho, ao invés de olhar para si próprio em busca do curto-circuito.

Produzir pensamentos carregados de eletricidade e potencial destrutivo, é a maior razão do bloqueio de nossa sensitividade, é a explicação do porquê perdemos incontáveis tesouros de informações que poderiam enriquecer e libertar nossas vidas.

A criação e manutenção desses monstrengos mentais se constitui numa prisão sem grades, num sobrepeso que nos faz vergar; prejudica a nossa mobilidade, rouba a nossa liberdade e nos empobrece como seres destinados à Luz.

O empresário com síndrome de Down que criou um negócio milionário

DA BBC BRASIL

Ao completar 21 anos, em 2016, John Cronin confessou ao pai, Mark, que gostaria de ter
um negócio quando terminasse o ensino médio, mas ainda não tinha ideia do ramo em
que poderia atuar.

“Minha primeira sugestão foi uma loja que vendesse algo divertido, mas não sabíamos direito o que vender”, diz John, que vive em Long Island, em Nova York.

Depois, pensou em abrir um food truck, mas um problema fez com que os dois
mudassem de ideia: “Nós não sabemos cozinhar”, brinca Mark.

Logo eles tiveram uma ideia. “John sempre usou, a vida toda, meias coloridas, meiodoidas. Era algo que ele realmente gostava, e aí sugeriu que a gente vendesse meias”,conta o pai.

“Meias são divertidas, são criativas e coloridas. E elas me deixam ser eu mesmo”,
afirmou John, que tem síndrome de Down.

Foi assim que surgiu a “John’s Crazy Socks” (“As meias malucas do John”, em tradução
literal). Em um ano no mercado, eles contam que já conseguiram lucrar US$ 1,4 milhão
e arrecadaram US$ 30 mil para caridade. O negócio ficou tão famoso que chegou a
vender meias para o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e o ex-presidente
americano George W. Bush

BILHETES
A loja online tem cerca de 1,4 mil tipos diferentes de meias, com todos os desenhos que
se possa imaginar –de gatos e cachorros a até caricaturas de o presidente dos EUA,
Donald Trump.

Cada pedido é enviado no mesmo dia com um pacote de doces e um bilhete de agradecimento escrito a mão. E se o endereço for perto, John vai entregar as meias pessoalmente.

Como é “a cara” do negócio, John também frequenta eventos, fala com clientes e
fornecedores e cria campanhas como a “Meia do Mês”.

Já Mark lida com os aspectos mais técnicos envolvidos em uma empresa.

“John é realmente uma inspiração”, elogia o pai, que reforça que não há qualquer
tratamento “especial” ao filho no trabalho.

“Ele trabalha muito nessa empresa. Nós chegamos no escritório antes de 9h e saímos, na maioria das vezes, depois de 20h”, conta.

Em pouco mais de um ano, eles já enviaram 30 mil pedidos.

Pai e filho também doam 5% dos lucros da empresa para a instituição “Special Olympics”, que organiza eventos esportivos para pessoas com deficiência –John compete no basquete, no futebol e no hóquei.

Além disso, eles criaram “meias de conscientização” para arrecadar dinheiro para instituições de caridade como a Associação Nacional da Síndrome de Down e a Sociedade de Autismo da América.

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Entre o sangue da Direita e o sangue da Esquerda, a criatividade está no centro

O que será melhor: viver em uma sociedade com alta desigualdade, mas rica, ou em outra mais igualitária, porém pobre?

Vinícius Müller

E lá se foram 35 anos do lançamento da obra The Rise and Decline of Nations (Yale University Press, 1982), na qual Mancur Olson ampliou sua tese sobre a lógica da ação coletiva e explicitou os limites do crescimento e da própria sobrevivência de sociedades tomadas pelo o que chamava de esclerose institucional. Nessa situação, os grupos organizados de uma sociedade disputam entre si a atenção do Estado, pressionando-o em nome de seus interesses. E, além disso, tornam tal disputa motivo da esclerose, já que em algum momento impedem quaisquer tomadas de decisão pelo poder que isoladamente têm para brecá-las caso não se sintam premiados na mesma medida que supõem que outro grupo será. Assim, há um equilíbrio de forças entre os grupos que, ao contrário de ser justo, impede a sociedade de avançar a partir de decisões coletivas. Olson, quando escreveu sobre isso, olhava para a falência do Estado do bem-estar social europeu, característico dos países do continente após a Segunda Grande Guerra (1939-1945) e foi visto como patrocinador da parte sociológica da crítica que, na Economia, era encabeçada pelos economistas de Chicago sob a batuta de Milton Friedman.

Isso porque, ainda segundo Olson, havia uma combinação explosiva, que se amplificou no pós-Guerra, de três fatores: a ampliação do papel e da importância do Estado; a desproporção de poder de grupos ante ao que realmente representavam; e a sobrevalorização de algumas lideranças. Ou seja, quanto mais o Estado aumentava, mais os grupos buscavam influenciá-lo. E, para isso, mais identificavam suas origens e trajetórias como fator de legitimidade – assim como mais barulho faziam em torno de seus respectivos líderes. Quatro consequências, então, foram verificadas. A primeira era a excessiva burocratização do Estado, que precisava inchar seus quadros para absorver as demandas de grupos cada vez maiores e mais organizados. A segunda, em consequência da anterior, era a inviabilidade fiscal desse Estado. A terceira era a falsa sensação de representação que alguns grupos conseguiam reproduzir. Um sindicato, por exemplo, que no século anterior havia sido muito representativo e que, ao longo da história, transformou tamanha representação em outros aparatos sociais (como partidos políticos, clubes, associações, escolas e jornais), poderia usar a seu favor essa trajetória, mesmo que representasse muito menos do que décadas antes. E, por fim, uma quarta consequência, que foi a busca, pelos grupos organizados, de lideranças que poderiam, por meio de carisma ou qualquer outro atributo, aparentar representar mais pessoas do que realmente representavam.

Muitos identificaram na obra e na impecável lógica de Olson a justificativa para a diminuição do poder do Estado, conjugada à diminuição do poder dos grupos organizados, como sindicatos, por exemplo. Margareth Thatcher, então primeira ministra britânica, estava entre os que, simbioticamente, foram influenciados e usaram Olson como justificativa aos seus projetos e ações políticas. Contudo, havia mais do que isso.

Lá pelas tantas, Olson insinua que essa esclerose institucional, comum nos países europeus e mesmo nos EUA, afetou em menor escala os dois países derrotados na Segunda Guerra, ou seja, Alemanha e Japão. Assim, muitos não só justificaram suas decisões políticas, mas também entenderam que, às vezes, a melhor maneira de resolver essa armadilha da esclerose institucional é participando de uma guerra, mesmo que seu país seja derrotado, para, a partir daí, recomeçar, de uma suposta posição zero, a estruturação de suas instituições, evitando ou, ao menos adiando, a previsível esclerose, mesmo que os custos dessa solução sejam altíssimos.

Três décadas e meia depois, uma nova obra nos possibilita uma análise similar. Walter Scheidel, austríaco e professor da Universidade de Stanford, em seu mais novo e refinado livro (The Great Leveller: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century, 2017) nos brinda com uma apurada análise e coleta de dados sobre a desigualdade, e narra como ela se reproduziu ao longo da História. Na esteira da retomada do tema após o sucesso da obra de Piketty (O Capital no século XXI, 2014), Scheidel aponta para uma persistência histórica da desigualdade desde o surgimento da agricultura, na passagem para o período Neolítico (por volta do século X a.C.), até os nossos dias. Tal persistência ocorreria, ainda segundo Scheidel, mesmo em períodos de crescimento, assim como sob governos e/ou políticas abertamente voltados à redução da desigualdade.

Não que tais governos e políticas não tenham resultados favoráveis à redução da desigualdade. Contudo, não os garantem em prazos mais alongados. A tendência, então, é o retorno aos padrões anteriores de desigualdade. Mesmo que acompanhados de crescimento econômico. Nesse caso, a obra tangencia, acabando por inverter, o debate que norteou as últimas décadas da economia política. Ou seja, o que é melhor: viver em uma sociedade com alta desigualdade, mas rica, ou em outra mais igualitária, porém pobre? É famosa a metáfora que diz que quando a água sobe, tanto o grande navio quanto o barquinho também sobem. O que o historiador austríaco revela é que, mesmo assim, o grande ganha mais do que o pequeno e, desse modo, mantém e às vezes amplia a desigualdade até um ponto em que a sociedade se vê próxima da ruptura. Complemento dizendo que, mesmo sendo melhor viver em uma sociedade mais rica, porém mais desigual, do que em uma mais pobre e mais igualitária, em determinado ponto a desigualdade pode se tornar tão grande que atrapalha a criação de riqueza. Portanto, anula a possibilidade de escolha anterior.

Scheidel, entretanto, aponta para situações nas quais, de fato, a desigualdade diminuiu. Segundo ele, as causas foram rupturas, revoluções, guerras, catástrofes naturais, epidemias e afins, logo seguidas por uma reorganização social cujas bases e resultados garantiram uma redução da desigualdade. Ainda assim, os custos de tais transições históricas (imaginem o custo social, financeiro, humano etc. da Segunda Guerra Mundial ou da Peste Negra ou das Revoluções francesa e russa) foram muito altos.

E aqui as ideias de Olson e Scheidel (ou certas correntes interpretativas que possibilitam suas obras) convergem. E assim o fazem de modo no mínimo perigoso. Ao identificar na esclerose institucional o problema do Estado do bem-estar social da segunda metade do século vinte, Olson estava certo, mas justificou, no modo menos radical, a política de desmonte dos grupos organizados na Inglaterra de Thatcher, mesmo sob um custo muito alto. E, no modo mais radical, deu esperança àqueles que se apegaram à sua proposição sobre o crescimento de Alemanha e Japão no pós-Guerra. Serviu à justificativa de ruptura e desmonte das estruturas sindicais e de grupos que viviam próximos ao Estado, assim como à própria diminuição do Estado, para o horror de certa esquerda ideológica. Já Scheidel, mesmo correto em sua análise histórica sobre a desigualdade, pode insuflar aqueles que, em nome da justiça social e econômica – ou seja, daquilo que chamam de Igualdade –, pensam que a única saída é a ruptura, a guerra, a revolução, mesmo com um altíssimo custo, para o horror de certa direita ideológica.

Nem um, nem outro. Os dois estão corretos no modo em que reconstroem a História. Mas, isso não significa que o bom diagnóstico acarrete necessariamente um bom remédio, ou que a História, que nos serve primordialmente para levantar os problemas certos, nos sirva como única fonte para apresentarmos respostas aos mesmos problemas. À direita e à esquerda, as reconstruções históricas são pertinentes e muitas vezes corretas. Mas, não servem necessariamente para resolver nossos dilemas. Entre o sangue da direita e o sangue da esquerda, a História não cumpre todo o seu potencial. A criatividade que devemos ter para responder aos nossos problemas e a inspiração que podemos extrair da História está no centro. Para o horror de certa direita e de certa esquerda ideológicas.

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper

Não sou racista, minha obra prova 2

Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui

por William Waack

Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: “Aquilo foi uma piada —idiota, como disse meu amigo Gil Moura—, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão.”

Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.

Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo —racial, inclusive—, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso. Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: “Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português.”

Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião —ou pelo que dizem sobre política.

O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada “mídia tradicional” são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.

Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita “mídia tradicional”. Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).

Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.

Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.

Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento —nas palavras, nesta Folha, do filósofo Luiz Felipe Pondé— querem nos tirar.

Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades –nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.

Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.

Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.

Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.

Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.

WILLIAM WAACK, 65, é jornalista profissional desde os 17; trabalhou em algumas das principais redações do país e foi correspondente internacional por 21 anos na Europa e Estados Unidos

Oprah e Huck, tudo a ver

“O político pós-Trump ideal será, no mínimo, uma figura profundamente séria com uma ampla folha de serviço público por trás”

A empresária e apresentadora de TV Oprah Winfrey recebe prêmio no Globo de Ouro, no domingo (7)

por Clovis Rossi, via Folha de SP

Para quem gosta de coincidências como supostos sinais do além ou do destino, foi um prato cheio: no mesmo domingo (7), Luciano Huck no Brasil e Oprah Winfrey nos Estados Unidos fizeram aparições públicas “trending topics” que, naturalmente, serviram de combustível para a especulação de que podem ser candidatos à Presidência, cá e lá.

Bons candidatos? Minha opinião é rigorosamente a mesma de David Leonhardt, editor da “newsletter” de Opinião do “New York Times”, a saber: “Não acho que a situação ideal para os Estados Unidos seja uma sucessão de presidentes cuja qualificação inicial seja a celebridade”.

Vale para Oprah, vale para Huck, mesmo que, no caso deste, não haveria uma sucessão de presidentes célebres, até porque Michel Temer é o completo avesso de celebridade.

Como não tenho, ainda, como julgar se Oprah e Huck têm qualificações que vão além dessa característica inicial de celebridades que devem fama e fortuna à TV, o mais sensato é pular para a identificação do contexto em que nascem ambas as possibilidades de candidatura.

Contexto que foi bem resumido também no “Times” por Thomas Chatterton Williams, negro, especialista em identidade racial e que confessa não ser imune ao “charme de Oprah”, mas desaconselha sua candidatura. “[A possível candidatura] sublinha a extensão com que o ‘trumpismo’ —reverenciar a celebridade e os índices de audiência, o repúdio à experiência e à expertise— infectou nossa vida cívica.”

O efeito Trump, aliás, está presente em 11 de cada 10 análises sobre a eventual candidatura da estrela da TV americana. No “Le Monde”, William Galston (Brookings Institution) diz que “Donald Trump produziu a prova do efeito letal da notoriedade”.

Meu palpite: Trump, na verdade, é mais consequência do desgaste do mundo político convencional, um fenômeno que está atingindo o paroxismo em todo o planeta. É natural, embora lamentável, que se beneficie desse desgaste quem tem notoriedade, passo preliminar para angariar votos.

Essa constatação serve para Huck. Afinal, uma pesquisa divulgada no fim do ano passado pelo Fórum Econômico Mundial mostrou que os políticos brasileiros são considerados os menos confiáveis do mundo -pelo menos entre os países em que se fez a pesquisa.

No caso de Oprah, à notoriedade soma-se o messianismo apontado pelo colunista Ross Douthat no “Times” desta quarta-feira (10): “Ela é uma pregadora, uma guru espiritual, uma apóstola e uma profeta. De fato, se há uma religião especificamente americana, […] Oprah fez dela própria o seu papa” [papisa, no caso].

Sem tanta carga messiânica, Huck não deixa de ser uma espécie de profeta da autoajuda, da realização pessoal por meio da fé em si mesmo.

Como sou fortemente refratário a qualquer tipo de messianismo, prefiro o perfil de candidato desenhado pelo já citado Thomas Chatterton Williams: “O político pós-Trump ideal será, no mínimo, uma figura profundamente séria com uma ampla folha de serviço público por trás”.

No pós-Temer, então, esse perfil é ainda mais necessário.

Mas será que existe?

Assédio é crime. Paquera deve ser usada sem moderação

Somos adultos para entender que não dá para encarar elogio, desejo, cobiça, investida romântica, sacanagem da boa, seja na rua, no trabalho ou na balada, da mesma forma que uma encoxada no metrô ou uma promessa de promoção em troca de um boquete

por Mariliz Pereira Jorge, via Folha de SP

Você é #teamOprah ou #teamDeneuve nessa disputa que se instaurou nas redes sociais nos últimos dias? Você acha que a hora chegou e sente-se orgulhosa e inspirada por todas as mulheres fortes o suficiente e empoderada para falar e compartilhar suas histórias pessoais, como disse Oprah? Ou você acredita que pode batalhar para que seu salário seja igual ao de um homem e gostar de ser objeto sexual dele, como sugeriu o manifesto assinado por cem intelectuais e atrizes francesas, entre elas Catherine Deneuve?

Uma fala não invalida a outra. Eu fico no meio do caminho, porque os dois lados têm razão e também cometem excessos. E essa queda de braço só enfraquece todas as mulheres nesse embate desnecessário. Como eu sempre digo, a sororidade acaba quando a outra mulher não levanta o punho para o discurso com o qual eu concordo, não é mesmo?

Ao contrário do que muita gente achou, não vi no manifesto francês uma resposta ao Time’s Up, um fundo de defesa legal às vítimas de assédio sexual no trabalho e que teve seu ponto alto no lindo discurso feito pela apresentadora Oprah na noite do Globo de Ouro. Embora o timing tenha sido muito ruim, entendo como uma reação à parte reacionária do movimento feminista, que acredita que todas têm que se moldar ao que essas correntes pregam e não admitem que haja pensamento diverso. Quer saber? Muitas mulheres, também feministas, estão entaladas com tantas regras e normas.

Repito o que já disse uma vez: de que adianta me livrar do patriarcado para ter no meu cangote patrulha de mulher dizendo o que e como devo fazer? Um dos maiores erros do feminismo moderno é tentar nos convencer de que as lutas são iguais para todas. Não são. Queremos igualdade salarial, combater a violência doméstica, ter mais direitos, reconhecimento, representatividade, liberdade sexual. Ponto.

A forma como nos relacionamos com o mundo e com os homens não tem que ser enquadrada por textos lacradores de pensadoras e filósofas que muitas vezes se autointitulam porta-vozes e, aqui entre nós, perceberam que feminismo dá dinheiro, prestígio e fama. Não, obrigada.

A fala de Oprah marca um momento importante e, sim, pode encorajar e fortalecer mulheres ao redor do mundo que sofrem assédio e violência. As acusações que envolvem produtores e famosos de Hollywood são sérias e apenas uma pontinha do que acontece aqui na vida real. Sim, agora é a hora. E isso foi defendido no manifesto francês, é bom esclarecer para quem leu o texto com o fígado e absorveu apenas os trechos que poderia odiar.

Mas ignorar o ponto de vista das francesas porque há críticas a algumas nuances do feminismo é uma bobagem tão grande quanto a parte do texto que defende os “coitados” dos homens das acusações que estão sofrendo. Foi desnecessário. Homens sabem se defender e terão que enfrentar a parte da “histeria” que existe no momento. Aceitem.

Indispensável liberdade de ofender, clamam as francesas. E elas estão certas porque o limite do que ofende uma mulher pode ser um tanto mais flexível para outra. Não fosse assim, o movimento Chega de Fiu-Fiu não seria chamado até hoje de mimimi por muitas pessoas, incluindo as próprias interessadas. De um lado estão as que encaram esse tipo de abordagem como uma violência e do outro quem não se incomode. Não é preciso escolher quem tem razão. O que não dá é colocar no pacote do machismo a mulher que diz não se importar ou até mesmo gostar de tais manifestações.

Como as francesas disseram: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e gostar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma vil cúmplice do patriarcado.

De fato, também não me reconheço no tipo de feminismo apontado no manifesto, que toma forma de ódio aos homens e à sexualidade. “A liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. É preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra forma que se encerrando no papel de presa.”

Esse é outro ponto em que fica difícil discordar da turma de Deneuve e de Catherine Millet. “É mais sensato criar nossas filhas pra que sejam suficientemente informadas e conscientes para viver suas vidas sem se deixar intimidar ou culpabilizar.” É mais sensato, o que não exclui também educar os filhos homens dentro de uma visão feminista.

Na semana passada, escrevi exatamente sobre a “fragilidade” feminina sempre usada pelos movimentos, como se fôssemos eternas vítimas. Todas as vezes que leio por aí que o mundo é horrível e as mulheres são frágeis, que todo homem é um estuprador em potencial (uma das maiores bobagens já ditas), que somos vítimas da sociedade, penso que não sou essa mulher e nem convivo no meu círculo mais íntimo com caras com essa índole.

Talvez eu tenha sorte ou apenas tenha recebido educação para ser independente e corajosa. Por isso, não aceito esses rótulos que muitas vezes são usados e que colocam a mulher num eterno papel vulnerável. Entendo que muitas mulheres se vejam dessa forma. Não é meu caso.

Felizmente posso dizer que não sou vítima do machismo. Não aceito ser tratada com inferioridade no mercado de trabalho, não me vejo dessa forma e nem acho que seja vista assim. Não deixo que homens tomem a palavra quando ela está comigo.

Tenho educação, conhecimento, as ferramentas necessárias para combater o machismo (sim, ele existe, e muitas vezes o mundo é um lugar mais difícil para as mulheres), mas não aceito esse papel passivo, o da vítima que precisa se proteger o tempo todo em um ambiente hostil e predatório.

Entendo e me solidarizo com as que se sentem assim. Deve ser muito difícil acordar todos os dias e saber que o mundo lá fora só quer fazer da sua vida um inferno e você não sabe como se defender.

Tenho medo de ser estuprada? Claro. Mas tanto medo quanto tenho de ser morta num assalto.

O que me assusta ainda mais é a confusão na cabeça das pessoas sobre o que é assédio e o que é paquera. Somos adultos para entender que não dá para encarar elogio, desejo, cobiça, investida romântica, sacanagem da boa, seja na rua, no trabalho ou na balada, da mesma forma que uma encoxada no metrô ou uma promessa de promoção em troca de um boquete.

Assédio é crime. Paquera deve ser usada sem moderação. O tempo é agora para as mulheres escolherem suas brigas, sem deixar que o puritanismo se sobreponha em nome de uma falsa segurança e de um mundo mais igual. Isso só serve, como diz o manifesto das francesas, aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários. E são as mulheres quem mais perderão com isso.