O uso da autoridade para não admitir os próprios erros 2

A autoridade que admite e assume o seu erro não se enfraquece

Por Eduardo Carmello*, via Vya Estelar

Juízes, professores, administradores, líderes, pais e mães. Tudo ficaria bem melhor no que se refere ao relacionamento interpessoal maduro e também à produtividade no trabalho se assumissem uma postura de falibilidade (estão prontos para admitir e assumir seus próprios erros e corrigi-los, a favor da relação justa).

Mas, ao invés disso, preferem esconder os erros e incompetências, sobrepondo-os com o escudo da “autoridade”. Todo mundo viu que o juíz errou ao marcar o pênalti, que não existiu. Mas, já que ele sentenciou que o mesmo aconteceu, então não se pode voltar atrás. Como dizia José de Alencar, “Não havia meio de fazê-lo voltar atrás”.
Todo mundo sabe que o professor está desatualizado e tendencioso politicamente na matéria que ele leciona. Mas, se ousarmos atualizá-lo e evidenciar seu viés político, poderemos ser expulso da sala por desacato à autoridade ou ouvir aquela famosa frase “Quem manda nessa sala de aula sou eu”.

Conhecemos muito bem nossos administradores e líderes. Por vezes demoramos 30 minutos editando a “forma” como vamos conversar com ele sobre sua falta de habilidade em gerenciar projetos e conduzir reuniões, colocando a culpa sempre na equipe. Fazemos isso morrendo de medo dele se ofender, inflamar, de sofrer retaliação ou até de ser transferido de setor, pois “Quem é você para dizer como eu devo fazer o meu trabalho?”.

Fora os pais (eu, inclusive) que se assustam e imediatamente se irritam, quando os filhos (de 3 a 55 anos) escancaram uma verdade na nossa cara. Um erro, um mal funcionamento, uma atitude desrespeitosa, que deve ser ignorada ou relevada, pois somos “os pais”. Quantas vezes nos protegemos no nosso escudo de autoridade quando eles revelam nossas incoerências, ambiguidades e equívocos na “difícil arte de educar”.

Constato nos meus trabalhos que quando a pessoa erra e dá a “carteirada” da autoridade, muitos de nós até obedecem, para não piorar as coisas. Mas não esquecemos seus erros, diminuindo drasticamente o respeito, a confiança e a admiração que temos pela pessoa.

E, quando a mesma admite e assume seu erro, corrigindo a decisão equivocada, a ordem se restabelece, o respeito, a confiança e admiração aumentam.

A “autoridade” que admite e assume o seu erro não se enfraquece. Pelo contrário, sai mais fortalecido e respeitado por aqueles que prezam a justiça, o relacionamento maduro, a inteligência e o mérito.

*Diretor da Entheusiasmos Consultoria em Talentos Humanos, consultor e palestrante entre os 5 mais reconhecidos do país, segundo o Top of Mind de RH do jornal O Estado de S. Paulo. Autor dos livros Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor (2008, Editora Gente) e Supere: a arte de lidar com as adversidades (2004, Editora Gente).

IMAGEM DO DIA: Temendo protestos de movimentos culturais, governo adia “Diálogos” da cultura

Temendo protestos de várias entidades culturais, manifestações e brincadeiras folclóricas, o Governo do Maranhão achou por bem adiar o versão do “Diálogos pelo Maranhão”, também conhecido como “Gogó pelo Maranhão”, cuja temática desta vez seria a cultura e realizado na noite desta quarta-feira, 4.

A reclamação dos agentes culturais é ampla, geral e irrestrita, e vai desde a atraso de pagamento, falta de apoio e desprestígio das manifestações culturais do estado para beneficiar artistas de outros estados, como aconteceu nos festejos juninos de 2018, quando até o boêmio Agnaldo Timóteo embolsou uma mufufa, sem falar na “camarada” Leci Brandão, que já fatorou uma boa grana nestes quatros anos de governo do PCdoB, mesmo partido da sambista.

A previsão é que o evento ocorra na próxima segunda, dia 9.

Mas a depender do ânimo daqueles que realmente fazem a cultura popular… Sei não.

 

ANTES TARDE DO QUE NUNCA: Enfim, um pedido de impeachment de Flávio Dino 10

Se é verdade que o pedido de impeachment protocolado pelo deputado Edilázio Júnior não tem a mínima chance de vingar na Assembleia Legislativa do Maranhão, não é menos verdade que esse pedido, por si só, já gera um desgaste “miseravi” para Flávio Dino

Demorou, mas aconteceu.

Enfim, um deputado teve a coragem de apresentar um pedido de impeachment do governador Flávio Dino (PCdoB). E olha que não faltam motivos!

Veio do deputado Edilázio Júnior (PV) o pedido de afastamento do chefe do executivo estadual com o argumentando de que houve crime de responsabilidade de Flávio Dino ao usar a polícia do estado como uma polícia política para perseguir adversários.

“É notório que existe este abuso de poder usando uma polícia de estado como uma polícia política partidária para perseguir seus adversários”, declarou.

Segundo o parlamentar, em entrevista ao jornal O Estado do Maranhão, “se não houvesse acontecido o vazamento dos documentos ordenando a espionagem, a oposição estaria sendo monitorada pela PM até hoje”.

E olhem que essa história de fazer da polícia um instrumento de perseguição política contra adversário é o menor, digamos, dos crimes de responsabilidade de Flávio Dino.

Há os escândalos de corrupção na Secretaria de Saúde, esquemas na Emap, farra dos capelães, uso do Palácio dos Leões como palaque eleitoral, repasses fundo a fundo para cooptar prefeitos, uso indevido de recursos dos aposentados/servidores públicos para bancar o famigerado “Mais Asfalto” etc, etc, etc.

Emfim, se é verdade que esse pedido de impeachment protocolado pelo deputado Edilázio Júnior não tem a mínima chance de vingar na Assembleia Legislativa do Maranhão, não é menos verdade que o pedido, por si só, já gera um desgaste “miseravi” para Flávio Dino.

Que assim seja!

Coração é bicho vagabundo. Não confie nele! 2

“Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim”

Assim cantou Caetano Veloso na música “Coração Vagabundo”.

Símbolo do amor e de tudo que é sentimento nobre, o coração é um bicho vagabundo mesmo em todos os sentidos.

Do ponto de vista fisiológico/clínico, o coração pode trair qualquer um a qualquer momento. Seja um gordo sedentário ou um jovem atlético bem cuidado, o coração pode pagar uma peça sem avisar.

Não são poucos os casos, por exemplo, de jogadores de futebol morrem em pleno campo por conta de um ataque cardíaco.

Minha mãe mesmo, aos 42 anos, dormiu e não acordou mais após um ataque fulminante no miocárdio. E olha que Dona Waldeliz era magrinha, não bebia e nem fumava, porém… Nos deixou precocemente.

Mas o coração não é só vagabundo do ponto de vista orgânico.

Ele também é ordinário do ponto de vista afetivo, naquilo mais simboliza: o amor.

Quem vai negar que um dia o seu coração não pulsou (forte) por outro e/ou outra? Quem é capaz de dizer que nunca teve o coração, se não dividido, ao menos propenso a ser dividido?

Na verdade ninguém administra com 100% de segurança o coração, nem o órgão que irriga o sangue pelo nosso corpo, muito menos o órgão metafórico que simboliza o mais nobre dos sentimento que é o amor.

De fato o coração é vagabundo.

Pode nos trair a qualquer momento.

Cuidado com ele…

A Rede Globo matou o futebol brasileiro e vai continuar matando 16

De sorte que o futebol brasileiro morreu com a Rede Globo e o seu monopólio. Ela matou a arte, matou a garra, matou a torcida, matou a qualidade da transmissão, matou a análise, matou o amor pela bola. 

Gustavo Conde*, via 247

O bom de torcer contra a seleção ‘patrioteira’ de futebol é que mais cedo ou mais tarde, ela vai cair. Daí que o choro dos adultos que ainda se prestam a esse papel – de torcer para um pool de nichos corruptos organizados que é CBF, Globo e jogadores-sonegadores – não me comove.

Prefiro torcer para meu filho, no futebolzinho do fim de semana, muito mais emocionante e visceral. Aliás, o choro das crianças com a “derrota da seleção” (ai, que drama) também não me comove. Eles não sabem pelo que devem chorar nesse momento.

Eu chorei quando o Brasil perdeu em 82 e em 86. Lembro bem. Isso faz parte do meu caráter e eu sei o quanto é bom vivenciar uma dor, mesmo que ela seja proveniente de uma fraude. É o significante, a estruturação da subjetividade e tudo isso faz parte da realidade simbólica a qual não temos acesso, mas que é fundamental para a organização do nosso desejo. Ponto.

Em 82, havia “espírito” e a seleção já adentrava o combate ao golpe daquela época. Tinha Sócrates. Um jogador politizado já seria suficiente para que eu torcesse para “esta” seleção de 2018, por exemplo. Unzinho que fosse. Um que não fosse covarde. Ou seja: minha torcida em 82 habita minha memória sem passar vergonha.

Em 86, foi bem chato ver Zico perder aquele pênalti. Eu tinha 12 anos. Sofri. Mas também não me arrependo de ter “sofrido”. Era o primeiro ano de democracia no país e a gente respirava um pouco melhor. Havia esperança, havia empolgação real, utopia, sonho, ‘latino-americanidade’ (era a Copa do México, afinal).

Em 90, foi um vexame. Uma seleção horrorosa. O brasileiro torceu de nariz tapado. A derrota para a Argentina, naquele jogada de gênio em que Maradona enfiou a bola para Caniggia, foi qualquer coisa de cinematográfico. É bom perder para quem sabe jogar bola. É a construção do caráter.

Em 94, foi aquela catarse meio besta. Uma seleção mediana que foi ganhando de 1 a 0 e chegou lá. Ganhar nos pênaltis foi super estranho. Eu comemorei meio que por obrigação. Comemoração de futebol para mim foram os títulos do São Paulo em 91 e 92, os mundiais. Ali, eu senti um pouco do que era viver o futebol como torcedor, a inteligência do jogador, do técnico etc.

A copa da França, em 1998, era para ser algo bacana. Mas eu já tinha a consciência da mediocridade que era Galvão Bueno, CBF e Rede Globo. Isso afeta sim, e muito. E, afinal, aquela copa foi um vexame. A seleção era pessimamente administrada, sofria ingerência da Globo e do marketing. Tudo já era muito podre.

E a podridão da “convulsão” de Ronaldo foi difícil de engolir, como diria Zagalo – outro partícipe domesticado de todo o imbróglio que era e é a Rede Globo “Dona da Seleção” de Televisão. A narrativa extraoficial é que Ronaldo teve um ataque nervoso ao saber que o Pedro Bial teve um affair com a namorada dele, a Suzana Werner. Mas tudo isso deve ser fofoquinha, claro.

Só sei que os 3 a 0 para a França na final foi tão bizarro como o 7 a 1 para a Alemanha. Uma vergonha. Uma vergonha, não pela derrota em si, mas pela maneira com que essa derrota foi construída, com desinformação, chantagem e ameaças de patrocinadores. A partir dessa copa, ficou difícil levar a seleção brasileira a sério.

Em 2002, eu estava na Unicamp, curtindo muito a linguística. Era paixão mesmo. Torci, vibrei, mas não lembro de nada. Ronaldo com aquele cabelinho me dava nos nervos. Lembro do gol do Ronalducho e só. Basta. Ali, o Brasil jogou solto e mereceu vencer mesmo – se bem que o nível técnico daquela copa foi péssimo; até a Alemanha era um time ruim (só tinha o goleiro que, na final, jogou mal).

2006 e 2010, já era Rede Globo demais para a cabeça. Era só intriguinha e futriquinha. Nenhum time consegue ser campeão ou empolgar assim. O jornalismo da Globo matou o futebol da seleção, com suas entrevistas mal feitas (que estressavam o grupo), sua perguntas estúpidas e suas exigências contratuais. Acompanhar a seleção era assistir a um circo sem graça (ou a uma novela sem fim).

O vexame para Alemanha, em 2014, coroou o “globismo” da seleção brasileira. Quem perdeu mesmo ali foi a Rede Globo de Televisão. Tomou um cacete de 7 a 1. Foi uma questão emocional que abalou todo o time, questão emocional inoculada pela tensão que a Globo provoca com suas exigências e suas narrativas galvão-buênicas que reverberam nos vestiários. Eu ri muito com o 7 a 1. Foi gostoso de ver (na verdade, eu queria mais).

De sorte que o futebol brasileiro morreu com a Rede Globo e o seu monopólio. Ela matou a arte, matou a garra, matou a torcida, matou a qualidade da transmissão, matou a análise, matou o amor pela bola.

Essa, meus caros leitores, é a minha história de amor com a vulga seleção brasileira de futebol que, como tudo nessa vida, acaba.

*Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247

O que aprendi com o Transtorno Afetivo Bipolar

Um depoimento corajoso de quem aprendeu mais sobre si mesma após descobrir o transtorno bipolar

Luciana Candido, via Vida Simples

Este é um texto egoísta, egocêntrico, autocentrado e tudo mais que tiver a ver comigo mesma. Por quê? Porque em maio completo cinco anos sem crise. Podia parar por aqui: isso já é o suficiente para eu me dar parabéns.

Tenho Transtorno Afetivo Bipolar. Até onde lembro, comecei a apresentar os sintomas aos 17 anos. Fui diagnosticada aos 23 e, desde então, não interrompi o tratamento. Exceto quando mudei para outro estado e me vi perdida, sem médico, sem terapia… Foi justamente neste momento que tive a crise mais pesada da minha vida e que achei que não tinha mais volta.

É indescritível. Eu simplesmente não entendia porque tinha de continuar viva, sentindo aquela dor toda. Não fazia sentido: por que eu tinha de continuar vivendo se não escolhi estar no mundo? Viver era exaustivo, e eu não tinha mais forças.

Em setembro de 2012, resolvi que faria uma última tentativa. Juntei o restinho de força que me sobrara e fui buscar terapia. Nunca parei de tomar a medicação, mas faltava a parte mais importante do tratamento. O problema é que não havia encontrado ninguém até então e não tinha forças para buscar ajuda.

Em setembro de 2012, arrastei-me até uma clínica e tive minha primeira sessão com a minha atual terapeuta. Dá para deduzir que os parabéns são para ela também. Foi difícil. Eu só queria um anestésico qualquer que tirasse rápido aquela dor que começava a ultrapassar o limite do humanamente suportável. Estava muito cansada, e sabia que não ia conseguir carregar aquilo por muito tempo mais. E fui levando.

No dia 13 de abril de 2013, um episódio – que de importante, hoje, só guarda o fato de ter me empurrado para fora do poço – me fez dizer chega. Foi o meu gatilho do bem. Eu vinha dando passos desde setembro, mas ainda não havia virado a chave. Precisava olhar para mim mesma e assumir o controle de tudo aquilo. Esse “tudo aquilo” era a minha vida.

Isso quer dizer que desde então tudo foi fácil e bonito? De jeito nenhum.

Menos de um ano depois, tive de passar por uma das experiências mais doloridas que já tive fora das crises: o luto de uma separação. No entanto, também tive umas das minhas melhores férias antes disso, viajei de carro até o Uruguai, me diverti muito, retornei à vida social saudável, vivi um dos momentos mais importantes da história do país, em junho de 2013, entre tantas outras coisas.

Houve momentos em que a depressão bateu à porta. As recaídas nos dão alertas, e o mais incrível foi conseguir identificar antes que a crise entrasse. As crises não têm motivos, elas têm apenas gatilhos. Quando sentia que estava rondando, dava um tempo a mim mesma, não batia de frente com a doença. Em dois ou três momentos mais críticos, precisei de licença médica. Dormia um dia inteiro, chorava, me jogava no sofá e marcava hora para levantar. E todas as vezes eu levantei. Foi bem difícil, mas valorizo cada vez que consegui sentar na cama, escovar os dentes, comer.

Mas a vida não é só depressão. Tem a mania. Tenho dificuldades para falar sobre essa parte, não sei se por constrangimento, ou por amnésia alcoólica, ou pelas duas coisas misturadas. A depressão é aquela coisa: você sofre muito, normalmente sozinho. Na mania, a gente faz coisas que depois tem vontade de morrer, mas não é de depressão, é de vergonha mesmo.

Teve muitos porres, coisas que eu disse e fiz bêbada que eu queria que tivesse um shift + del da vida. Dias sem comer, dias comendo até as paredes, compromissos assumidos não cumpridos, tagarelice, acordar de madrugada para correr, projetos mirabolantes e tantas coisas que nem lembro. Devo ter a maior coleção autoral de músicas de um verso só, livros de uma página, desenhos incompletos.

Às vezes, acordava meio Carmen Miranda: “e o mundo não se acabou!” Eu sabia que depois disso o carrinho ia descer a ladeira. Então, em vez de dizer “nunca mais faço isso”, assumia as sandices. Pedi desculpas muitas vezes, aprendi a dizer não e quase quebrei o cartão de crédito. Também aprendi algumas técnicas de investigação tentando saber o que tinha acontecido na noite anterior.

E, sem saber, eu estive com a medicação errada durante a maior parte destes cinco anos.

Tudo isso foi episódico. Não cheguei nem perto do inferno que eu já tinha experimentado.

Em outubro, mudei de psiquiatra e acertamos a medicação. Recentemente, parei de beber. Não totalmente, nem quero, mas cortei as fugas e agora bebo muito pouco. Bom, as fugas eram quase tudo. Não tenho dinheiro. Engordei. Tenho ficado muito tempo sozinha. Minha coluna está arrebentada. O remédio me dá tremores e borra a visão.

Isso tudo se torna fácil quando lembro o que deixei para trás. Não acho que estou curada. Não tem cura. Não há nenhuma garantia de que eu não vá ter uma crise no futuro, mas faço o que posso para mantê-la lá fora. Estou estudando coisas que há tempos queria e não conseguia. Estou aprendendo outro idioma. Pratico atividade física e tomo muita água.

Estou leve e feliz.

É. Acho que estou indo bem. Não sou exemplo de nada para ninguém nem pretendo ser. Sou apenas um espécime, uma amostra, num universo imenso de pessoas como eu, de que é possível não só controlar a doença, mas viver.

Hoje me questiono sobre o que define o equilíbrio. Pessoas sem transtornos são sempre equilibradas? Pessoas com transtornos, como eu, não podem desequilibrar nunca sem que isso seja associado à doença? O que é equilíbrio? É estável? Instável? Indiferente? Como disse o Trovador Solitário, “consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”.*

Há pessoas maravilhosas ao meu redor que são importantíssimas nessa trajetória e têm um lugar especial na minha vida. Não esqueci e nunca vou esquecer. Só achei importante dar uma olhada para mim e para o que eu fiz, porque eu não quero nunca esquecer que eu tenho o controle da minha vida, aconteça o que acontecer, esteja eu com quem estiver.

*Legião Urbana, Sereníssima

UMA LIÇÃO DE VIDA QUE VEM DA BÉLGICA: “Tenho algumas coisas a dizer” 8

Recomendo a leitura até o final do impressionante depoimento do belga Romelu Lukaku ao “The Players Tribune”, tradução de Bruno Bonsanti, do sítio “Trivela”.

Eu me lembro do momento exato em que soube que estávamos quebrados. Ainda consigo visualizar minha mãe na geladeira e o olhar no rosto dela.

Eu tinha seis anos de idade e cheguei de casa para almoçar durante o intervalo da escola. Minha mãe me dava a mesma coisa todos os dias: pão e leite. Quando você é uma criança, nem pensa sobre isso. Mas acho que era tudo que podíamos comprar.

Naquele dia, eu cheguei em casa e entrei na cozinha e vi minha mãe na geladeira com uma caixa de leite, como sempre. Mas, naquela vez, ela estava misturando algo. Ela estava balançando, sabe? Eu não entendi o que estava acontecendo.

Ela estava misturando água no leite. Não tínhamos dinheiro suficiente para o resto da semana. Estávamos quebrados.

Meu pai havia sido um jogador profissional de futebol, mas estava no fim da sua carreira e não havia mais dinheiro. A primeira coisa que perdemos foi a TV a cabo. Acabou o futebol. Acabou o Match of the Day (famoso programa esportivo britânico). Acabou o sinal.

Chegava em casa à noite e as luzes estavam apagadas. Sem eletricidade por duas, três semanas de uma vez.

Eu queria tomar banho, e não havia mais água quente. Minha mãe esquentava a chaleira no fogão, e eu ficava em pé no chuveiro jogando água quente na minha cabeça com um copo.

Houve ocasiões em que minha mãe precisava pedir pão “emprestado” da padaria no fim da rua. Os padeiros nos conheciam, eu e meu irmãozinho, então deixavam que ela pegasse uma fatia de pão na segunda-feira e pagar apenas na sexta.

Eu sabia que tínhamos problemas. Mas, quando ela estava misturando água no leite, eu percebi que já era, sabe? Essa era nossa vida.

Eu não disse uma palavra. Não queria estressá-la. Eu apenas comi meu almoço. Mas eu juro por Deus, eu fiz uma promessa a mim mesmo naquele dia. Era como se alguém tivesse estalado os dedos e me acordado. Eu sabia exatamente o que fazer.

Eu não podia ver minha mãe vivendo daquele jeito. Não, não, não. Eu não aceitaria aquilo.

As pessoas no futebol amam falar sobre força mental. Bom, eu sou o cara mais forte que você vai conhecer. Porque eu me lembro de me sentar no escuro com meu irmão e minha mãe, rezando, e pensando, acreditando, sabendo… que um dia aconteceria.

Não contei minha promessa para ninguém por um tempo. Mas, alguns dias, eu chegava em casa da escola e encontrava minha mãe chorando. Então, eu finalmente a disse um dia: “Mãe, tudo vai mudar. Você vai ver. Eu vou jogar futebol pelo Anderlecht e vai acontecer rápido. Vamos ficar bem. Você não precisará mais se preocupar”.

Eu tinha seis anos. 

Eu perguntei para o meu pai: “Quando eu posso começar a jogar futebol profissional?”

Ele disse: “Dezesseis anos”

Eu disse: “Ok, dezesseis anos, então”.

Aconteceria. Ponto final.

Deixa eu dizer uma coisa – todo jogo que eu já disputei foi uma final. Quando eu jogava no parque, era uma final. Quando eu jogava no recreio do jardim de infância, era uma final. Eu estou falando sério para caralho. Eu tentava rasgar a bola todas as vezes que eu chutava. Força total. Não estava chutando com o R1, brother. Não era chute colocado. Eu não tinha o novo Fifa. Eu não tinha um Playstation. Eu não estava brincando. Eu estava tentando te matar.

Quando eu comecei a ficar mais alto, alguns dos professores e pais começaram a me estressar. Eu nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi um dos adultos dizer: “Ei, quantos anos você tem? Que ano você nasceu?”

E eu fiquei, tipo, o quê? Tá falando sério?

Quando eu tinha 11 anos, eu jogava pela base do Lièrse, e um dos pais do outro time literalmente tentou me impedir de entrar no gramado. Ele disse: “Quantos anos tem essa criança? Onde está o documento dela? Da onde ela veio?”

Eu pensei: “Da onde eu vim? O quê? Eu nasci na Antuérpia. Eu vim da Bélgica”.

Meu pai não estava lá porque ele não tinha carro para me levar aos jogos for a de casa. Eu estava completamente sozinho e precisava me impor. Eu fui pegar meu documento, na minha mala, e mostrei para todos os pais, e eles o passaram de mão em mão, inspecionando, e eu lembro do sangue me subindo à cabeça… e pensei: “Oh, eu vou matar o seu filho mais ainda agora. Eu já ia matá-lo, mas, agora, eu vou destruí-lo. Você vai levar seu filho para casa chorando agora”.

Eu queria ser o melhor jogador de futebol da história da Bélgica. Era esse meu objetivo. Não apenas bom. Não apenas ótimo. O melhor. Eu jogava com muita raiva por causa de muitas coisas… por causa dos ratos que viviam no nosso apartamento…. porque eu não podia assistir à Champions League… pela maneira como os outros pais olhavam para mim.

Eu estava em uma missão.

Quando eu tinha 12 anos, eu marquei 76 gols em 34 partidas.

Eu marquei todos eles usando as chuteiras do meu pai. Quando nossos pés ficaram do mesmo tamanho, nós as compartilhávamos.

Um dia, eu liguei para o meu avô – o pai da minha mãe. Ele era uma das pessoas mais importantes da minha vida. Ele era minha conexão com a República Democrática do Congo, da onde minha mãe e meu pai vieram. Então, eu estava no telefone com ele um dia, e eu disse: “Estou indo bem. Eu fiz 76 gols e ganhamos a liga. Os grandes times estão começando a me notar”.

E geralmente ele queria ouvir sobre os meus jogos. Mas, naquela vez, estava estranho. Ele disse: “Yeah, Rom, yeah, isso é ótimo. Mas você pode me fazer um favor?”

Eu disse: “Sim, qual?”

Ele disse: “Você pode cuidar da minha filha, por favor?”

Eu me lembro de ter ficado confuso. Sobre o que o vovô estava falando?

Eu disse: “A mamãe? Sim, estamos bem. Estamos ok”.

Ele disse: “Não. Você tem que me prometer. Você pode me prometer? Cuide da minha filha. Apenas cuide dela para mim. Ok?”

Eu disse: “Sim, vovô. Entendi. Eu prometo”.

Cinco dias depois, ele morreu. E, então, eu entendi o que ele queria dizer.

Eu fico muito triste pensando nisso porque eu gostaria que ele tivesse ficado vivo mais quatro anos para me ver jogar pelo Anderlecht. Para ver que eu cumpri minha promessa, sabe? Para ver que tudo ficaria bem.

Eu disse para minha mãe que eu conseguiria chegar lá quando tivesse 16 anos.

Eu errei por 11 dias.

24 de maio de 2009.

A final do playoff. Anderlecht versus Standard Liège.

Aquele foi o dia mais doido da minha vida. Mas precisamos retroceder um pouco. Porque no começo da temporada, eu mal estava jogando pelo sub-19 do Anderlecht. O treinador me colocou na reserva. E eu pensava: “Como vou conseguir um contrato profissional no meu 16º aniversário se ainda estou no banco pelo sub-19?”.

Então, fiz uma aposta com o treinador.

Eu disse para ele: “Eu garanto algo a você. Se você me colocar para jogar, eu vou fazer 25 gols até dezembro”.

Ele riu. Ele literalmente riu da minha cara.

Eu disse: “Vamos fazer uma aposta”.

Ele disse: “Ok, mas se você não fizer 25 gols até dezembro, você vai para o banco de reservas”.

Eu disse: “Certo, mas, se eu vencer, você vai limpar todas as minivans que levam os jogadores para casa depois do treino”.

Ele disse: “Ok, fechado”.

Eu disse: “E mais uma coisa. Você tem que fazer panqueca para nós todos os dias”.

Ele disse: “Ok, certo”.

Foi a aposta mais estúpida que o homem já fez.

Eu tinha 25 gols em novembro. Estávamos comendo panqueca antes do Natal, bro. Que sirva de lição.

Você não mexe com um garoto que está com fome.

Eu assinei contrato professional com o Anderlecht no meu aniversário, 13 de maio. Fui direto comprar o novo Fifa e um pacote de TV a cabo. Já era o fim da temporada, então estava em casa relaxando. Mas a liga belga estava doida naquele ano, porque Anderlecht e Standard Liège terminaram empatados em pontos. Então, haveria um playoff de duas partidas para decidir o título.

Durante o jogo de ida, eu estava em casa assistindo à TV como um torcedor.

Então, no dia anterior ao jogo de volta, eu recebi uma ligação do técnico dos reservas.

“Alô?” “Alô, Rom. O que você está fazendo?”

“Saindo para jogar bola no parque”.

“Não, não, não, não, não. Faça suas malas. Agora mesmo”.

“Por quê? O que eu fiz?”

“Não, não, não. Você precisa sair para o estádio agora. O time principal pediu por você”.

“Yo….o quê? Eu?!”

“Sim. Você. Venha. Agora”.

Eu literalmente corri para o quarto do meu pai.

“YO! Levanta, porra. Precisamos correr, cara!”. “Huh? O quê? Pra onde?”.

“ANDERLECHT, CARA”.

Eu nunca vou esquecer. Eu cheguei ao estádio e praticamente corri para o vestiário. O roupeiro disse: “Ok, garoto, que número você quer?”.

E eu disse: “Me dá a 10”.

Hahahahahaha sei lá, eu era muito jovem para ter medo, acho.

E ele: “Jogadores da base usam números acima do 30.

Eu disse: “Ok, bem, três mais seis é igual a nove, e esse é um número legal, então me dá a 36”.

Naquela noite, no hotel, os jogadores adultos me fizeram cantar uma música para eles no jantar. Eu nem me lembro qual escolhi. Minha cabeça estava girando.

Na manhã seguinte, meu amigo literalmente bateu na porta da minha casa para ver se eu queria jogar futebol e minha mãe disse: “Ele saiu para jogar”.

Meu amigo: “Jogar onde?”

Ela disse: “Na final”.

Saímos do ônibus no estádio, e cada jogador estava usando um terno legal. Menos eu. Eu saí do ônibus usando um terrível agasalho e todas as câmeras de TV estavam na minha cara. A caminhada para o vestiário foi de talvez 300 metros. Talvez uma caminhada de três minutos. Assim que coloquei meu pé no vestiário, meu telefone começou a explodir. Todo mundo havia me visto na televisão. Eu recebi 25 mensagens em três minutos. Meus amigos estavam ficando loucos.

“Bro?! Por que você está no jogo?!”

“Rom, o que está acontecendo? POR QUE VOCÊ ESTÁ NA TV?”.

A única pessoa que respondi foi meu melhor amigo. Eu disse: “Brother, eu não sei se vou jogar. Eu não sei o que está acontecendo. Mas continua vendo TV”.

Aos 18 minutos do segundo tempo, o treinador me colocou em campo.

Eu corri no gramado pelo Anderlecht aos 16 anos e 11 dias.

Perdemos a final naquele dia, mas eu já estava no céu. Eu cumpri a promessa para a minha mãe e para meu avô. Aquele foi o momento em que eu soube que ficaríamos bem.

Na temporada seguinte, eu ainda terminava o meu último ano do colégio e jogava na Liga Europa ao mesmo tempo. Eu precisava levar uma grande mochila para o colégio para poder pegar um voo no fim da tarde. Vencemos a liga com folga. Foi…uma loucura!.

Eu realmente esperava que tudo isso acontecesse, mas talvez não tão rápido. De repente, a imprensa estava crescendo em torno de mim, e colocando todas essas expectativas nas minhas costas. Especialmente com a seleção nacional. Por algum motivo, eu não estava jogando bem pela Bélgica. Não estava funcionando.

Mas, yo – pera lá. Eu tinha 17 anos! 18! 19!

Quando as coisas corriam bem, eu lia os artigos de jornal e eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga.

Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses.

Se você não gosta do jeito como jogo, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Eu cresci na Antuérpia, em Liège e em Bruxelas. Eu sonhava em jogar pelo Anderlecht. Eu sonhava em ser Vincent Kompany. Eu começava uma frase em francês e terminava em holandês, e colocava um pouco de espanhol e português ou lingala, dependendo do bairro em que eu estivesse.

Eu sou belga. Somos todos belgas. É isso que faz este país legal, certo?

Eu não sei por que algumas pessoas do meu próprio país querem que eu fracasse. Eu realmente não entendo. Quando fui para o Chelsea e não estava jogando, eu os ouvi dando risada de mim. Quando fui emprestado para o West Brom, eu os ouvi dando risada de mim.

Mas tudo bem. Essas pessoas não estavam comigo quando colocávamos água no nosso cereal. Se vocês não estavam comigo quando eu não tinha nada, vocês realmente não podem me entender.

Sabe o que é engraçado? Eu perdi dez anos de Champions League quando era criança. A gente não podia pagar. Eu chegava à escola e todas as crianças estavam falando sobre a final e eu não sabia o que havia acontecido. Eu me lembro de 2002, quando o Real Madrid jogou contra o Bayer Leverkusen, e todo mundo falava “aquele voleio! Meu Deus, aquele voleio!”.

E eu tinha que fingir que sabia do que estavam falando.

Duas semanas depois, estávamos sentados na aula de computação, e um dos meus amigos baixou o vídeo da internet, e eu finalmente vi Zidane mandar aquela bola no ângulo com a perna esquerda.

Naquele verão, eu fui para minha casa para assistir ao Ronaldo Fenômeno na final da Copa do Mundo. A história de todo o resto daquele torneio eu ouvi das crianças da escola.

Eu lembro que eu tinha buracos nos meus sapatos em 2002. Grandes buracos.

Doze anos depois, eu estava jogando a Copa do Mundo.

Agora, estou prestes a jogar outra Copa do Mundo e meu irmão está comigo desta vez (o texto foi provavelmente escrito antes da convocação final porque Jordan Lukaku, irmão de Romelu, estava na pré-convocação, mas não chegou à lista final). Duas crianças da mesma casa, da mesma situação, que deram certo. Sabe de uma coisa? Eu vou me lembrar de me divertir dessa vez. A vida é curta demais para estresse e drama. As pessoas podem dizer o que quiserem sobre nosso time, sobre mim.

Cara, escuta – quando éramos crianças, não podíamos pagar para ver Thierry Henry no Match of the Day! Agora, estamos aprendendo com ele todos os dias no time nacional (Henry é auxiliar de Roberto Martínez, técnico da Bélgica). Estou junto com a lenda, em carne e osso, e ele está me dizendo tudo sobre como atacar os espaços como ele costumava fazer. Thierry deve ser o único cara no mundo que vê mais jogos do que eu. Nós debatemos tudo. Estamos sentados e tendo debates sobre a segunda divisão da Alemanha.

“Thierry, você viu o esquema do Fortuna Düsseldorf?”

Ele: “Não seja tonto. Claro que vi”.

Isso é a coisa mais legal do mundo para mim.

Eu apenas realmente, realmente gostaria que meu avô estivesse vivo para ver isso.

Não estou falando da Premier League.

Nem do Manchester United.

Nem da Champions League.

Nem da Copa do Mundo.

Não é disso que estou falando. Eu apenas queria que ele estivesse vivo para ver a vida que temos agora. Eu gostaria de ter mais uma conversa com ele por telefone, para poder dizer para ele…

“Viu? Eu disse para você. Sua filha está bem. Não há mais ratos no nosso apartamento. Ninguém mais dorme no chão. Não há mais estresse. Estamos bem agora. Estamos bem.

…Eles não precisam mais checar nossos documentos. Eles conhecem nosso nome”.

Contra suicídios, a importância do apoio social e do cuidado com a saúde da mente 2

Paula Adamo Idoeta
Da BBC News Brasil em São Paulo

Depressão e transtornos mentais estão fortemente associados ao suicídio; no Brasil, há mais de 11 mil casos por ano, segundo Ministério da Saúde.

Nana Calimeris até hoje se vê diante de momentos em que fica mais retraída e isolada, suscetível a sensações de grande desilusão – e a pensamentos de suicídio.

Aos 43 anos, a escritora enfrenta a depressão e a ansiedade desde a adolescência, época em que começou a desenvolver “uma vontade muito grande de morrer”.

“Me sentia uma pessoa horrível. A sensação era a de que eu estava respirando o ar que deveria ser de outro ser humano.”

Casos recentes de grande repercussão de suicídio em colégios e universidades, bem como a morte de celebridades como o chef e apresentador Anthony Boudain e a designer Kate Spade – ambos no auge de suas vidas profissionais -, evidenciam a importância em falar sobre o tema e diminuir o estigma em torno da saúde mental.

Os números também são alarmantes: a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo, totalizando quase 800 mil mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde.

No Brasil, segundo o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, são mais de 11 mil suicídios por ano, e alguns especialistas temem que haja uma subnotificação de casos.

Não é possível saber o que está por trás de cada uma dessas histórias, uma vez que o suicídio é multicausal, ou seja, não há um único fator ou culpado.

Mas especialistas apontam que, em grande parte dos casos, há um histórico de transtornos mentais, diagnosticados ou não: depressão, ansiedade, esquizofrenia, bipolaridade, borderline (de comportamento impulsivo e compulsivo), entre outros.

“Não é possível reduzir o suicídio a uma única causa, mas a depressão causa uma disfunção dos neurotransmissores do cérebro. É parte de um conjunto de fatores psicológicos, culturais, físicos e bioquímicos”, diz à BBC News Brasil Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), em São Paulo.

Nana Calimeris até hoje se vê diante de momentos em que fica mais retraída e isolada, suscetível a sensações de grande desilusão – e a pensamentos de suicídio.

Aos 43 anos, a escritora enfrenta a depressão e a ansiedade desde a adolescência, época em que começou a desenvolver “uma vontade muito grande de morrer”.

“Me sentia uma pessoa horrível. A sensação era a de que eu estava respirando o ar que deveria ser de outro ser humano.”

Casos recentes de grande repercussão de suicídio em colégios e universidades, bem como a morte de celebridades como o chef e apresentador Anthony Boudain e a designer Kate Spade – ambos no auge de suas vidas profissionais -, evidenciam a importância em falar sobre o tema e diminuir o estigma em torno da saúde mental.

Os números também são alarmantes: a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo, totalizando quase 800 mil mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde.

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No Brasil, segundo o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, são mais de 11 mil suicídios por ano, e alguns especialistas temem que haja uma subnotificação de casos.

Não é possível saber o que está por trás de cada uma dessas histórias, uma vez que o suicídio é multicausal, ou seja, não há um único fator ou culpado.

Mas especialistas apontam que, em grande parte dos casos, há um histórico de transtornos mentais, diagnosticados ou não: depressão, ansiedade, esquizofrenia, bipolaridade, borderline (de comportamento impulsivo e compulsivo), entre outros.

“Não é possível reduzir o suicídio a uma única causa, mas a depressão causa uma disfunção dos neurotransmissores do cérebro. É parte de um conjunto de fatores psicológicos, culturais, físicos e bioquímicos”, diz à BBC News Brasil Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), em São Paulo.

‘Guardiões da vida’
Um apoio crucial para Nana vem do filho de 18 anos, que aprendeu a distinguir os momentos em que a saúde da mãe não está bem.

“Ele vê quando eu começo a me isolar, quando deixo de sair, e me alerta”, conta Nana.

Da mesma forma, pessoas atentas a sinais de isolamento de quem está ao seu redor podem ajudar na prevenção ao suicídio, explica Souza, do Pravida.

Ele tem ajudado na formação de “guardiões da vida” em escolas, instituições públicas e empresas cearenses.

“Trata-se de um grupo atento e treinado para identificar pessoas que estejam faltando, se isolando, chorando. E que se perguntem: ‘será que que ela está deprimida? Vou falar com ela'”, diz o psiquiatra.

“É preciso ter esses guardiões também dentro da família, que percebam quando é hora de conversar, de levar (o parente) para uma avaliação médica, para que dê tempo de tratá-lo.”

Os sinais a prestar mais atenção são, segundo Souza e Barros:

– Mudanças de comportamento e perda de interesse pelas coisas de que a pessoa gostava;

– Crises de choro, ideias pessimistas e de nulidade;

– Comportamentos compulsivos ao extremo;

– Pessoas que perderam alguém de que tenham grande dependência emocional;

– Pessoas que já tenham histórico familiar de depressão e suicídio.

Casos assim têm de ser “avaliados imediatamente”, adverte Souza. Mas como distinguir tristezas passageiras de casos de alta gravidade?

“Na dúvida, considere aquela pessoa em perigo”, opina o psiquiatra. “Pode ser uma tristeza, pode não ser. É bom buscar uma avaliação de um especialista em saúde mental. É melhor ter certeza, porque não podemos arriscar aquilo que não podemos (nos dar ao luxo de) perder.”

Rede de proteção social
Ao longo do tratamento, as redes de apoio social têm um papel fundamental para pessoas com doenças mentais.

“Tenho amigos que são imprescindíveis”, relata Nana. “Fez toda a diferença para mim ter um amigo virtual com quem eu falava por Skype em momentos difíceis. Ele me ouvia mesmo quando eu me repetia; ele lia os textos que eu escrevia. São pequenas coisas que fazem muita diferença.”

Nesses momentos, o que um amigo deve ou não dizer?

Para Nana, os amigos ajudam ao serem genuinamente presentes.

“É querer saber de verdade como você está, e não apenas querer ouvir um ‘estou bem’. É dizer ‘estou aqui’. Tenho um amigo que me traz uma lembrancinha sempre que viaja, e é algo que me toca profundamente”, diz.

“O que não ajuda, nos momentos de depressão, é dizer ‘vamos sair, vamos tomar um sol’. Não adianta. A gente não falaria isso para alguém doente de câncer, então não adianta falar para alguém doente de depressão.”

A escritora e psicanalista Paula Fontenelle, autora de Suicídio: O Futuro Interrompido – Guia para Sobreviventes, acha que devemos evitar meias palavras se estivermos preocupados com um amigo deprimido.

“Uma amiga me telefonou certa vez, e notei que ela estava ligando para se despedir de mim. Perguntei sem rodeios se ela estava pensando em tirar a própria vida. Ela desatou a chorar e contou que sim, que já havia planejado tudo”, diz Fontenelle, que acabou conseguindo que a amiga buscasse tratamento, no qual está até hoje.

“É preciso ser direto e ouvir sem julgamento, porque não tem certo ou errado nessas horas. O que a pessoa quer é acabar com a própria dor, não necessariamente morrer. E como a dor é muito grande e muita gente não tem com quem conversar, se você abre a porta para um diálogo, já está ajudando muito.”

Abuso de substâncias químicas é um fator de risco para o suicídio – mesmo a maconha, percebida como inócua, pode favorecer a depressão e a esquizofrenia.

Na juventude, drogas e excessos digitais
Mundialmente, o suicídio já é a segunda maior causa de mortes de jovens entre 15 e 29 anos. E, no Brasil, pesquisas indicam que a morte autoinfligida de crianças de 10 a 14 anos aumentou 65% entre 2000 e 2015.

É preciso lembrar que o cérebro juvenil está exposto a um desequilíbrio no amadurecimento: o hipocampo e a amígdala, regiões cerebrais responsáveis pelos sentimentos e pelo armazenamento de emoções, amadurecem mais rapidamente que o córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional e de impulsos. Essa disparidade dura até os 25 anos de idade.

“Temos de ensinar isso aos mais jovens: o seu cérebro ainda está sendo gestado”, opina Souza, do Pravida. “Quanto mais saudável o cérebro, menos vulnerável ele estará à depressão e ao suicídio. E por isso é tão importante evitar álcool e drogas. Há uma percepção de que a maconha é inócua, mas ela favorece a depressão, a esquizofrenia e o suicídio.”

Essa faixa etária enfrenta ainda outro desafio moderno: a excessiva valorização da vida digital em detrimento das relações presenciais.

“Existe um desequilíbrio grande e uma ausência de espaços para desabafar e conversar, em vez de apenas olhar a ‘revista digital’ do Instagram, onde você não vê quem está mal ou sofrendo, porque essas pessoas estão sozinhas em seus quartos”, diz o psiquiatra.

Proteção e diagnóstico
Por fim, Souza destaca o papel das políticas públicas de prevenção, algo que passa por diminuir o tabu em torno das doenças mentais e aumentar a proteção em edifícios e espaços públicos e privados – por exemplo, grades em pontes e estações de metrô, redes protetoras em varandas públicas ou ao redor de escadarias.

“Há quem diga, ‘ah, mas quem quer se matar vai encontrar um modo’. Mas como o suicídio tem um componente muito forte de impulsividade, a dificuldade de acesso já vai ter um impacto”, opina Souza.

O Ministério da Saúde tem uma “agenda estratégica” de combate ao mal, com a meta de reduzir em 10% a mortalidade por suicídio até 2020 por meio de “ampliação da vigilância, prevenção e atenção integral”, mas Souza opina que são necessárias campanhas de saúde pública mais amplas, a exemplo do que é feito com doenças infecciosas.

“O Brasil tem campanhas sistemáticas contra a dengue, que matou 200 pessoas no ano passado. Pelo suicídio morreram quase 12 mil”, compara.

Do ponto de vista clínico, ele defende um prontuário único para pacientes do SUS, que permitisse acompanhar o histórico de saúde mental de pacientes e a dosagem de medicamentos receitados – evitando algo comum, que é um paciente obter o mesmo medicamento tarja preta de vários médicos e acabar tendo em mãos uma dose potencialmente mortal.

E ele ressalta que é possível, sim, tratar a depressão e a intenção suicida. “Não nos deixemos levar pelo ‘não tem jeito’. Tem tratamento sim, e é eficaz”, diz.

Nana Calimeris se diz um exemplo disso. Nos últimos anos ela passou a se dedicar à carreira de escritora, e seu livro A Biblioteca de Alexandria tem como personagem principal uma jovem que convive com a depressão.

“E pensar que eu estava disposta a ir embora sem ter realizado esse sonho de ser escritora”, pondera. “Por isso acho que é preciso sempre falar em prevenção. As pessoas julgam: ‘mas essa pessoa tinha tudo; por que ela se matou?’. Vai ver que ela se matou porque não deu conta. O suicídio existe e precisamos falar a respeito.”

* O Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio emocional e preventivo ao suicídio. Se você está em busca de ajuda, ligue para 188 (número gratuito) ou acesse www.cvv.org.br. (Até 30 de junho de 2018, o CVV atende pessoas de Maranhão, Bahia, Pará e Paraná no número 141; após essa data, o atendimento ao país inteiro migrará para o 188.)

A ZEMA avança

Via blog do Sérgio Muniz

No dia 13 de junho deste ano o Maranhão obteve, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, uma vitória histórica que pode vir a transformar sua realidade, de sua Capital e do seu povo. Nesse dia, o Projeto que cria a Zona de Exportação do Maranhão-ZEMA, de autoria do Senador Roberto Rocha e relatado pelo Senador Edison Lobão, foi aprovado com quase a unanimidade dos votos, exceção do voto da representante do PC do B, coincidentemente o partido do atual governante do nosso Estado. Seria mera coincidência?

Durante os últimos 10 (dez) dias este blog aguardou que essa alvissareira notícia tivesse a devida divulgação pelos órgãos de imprensa do Estado. Ledo engano. Silêncio sepulcral. Os órgãos ligados ao Governo do Estado não publicaram uma linha, o que reforça o entendimento de que abafar agora seria a melhor política. Afinal, o autor do projeto já não é aliado comunista; o relator do projeto é candidato ao Senado em chapa oposta a do atual ocupante dos Leões; e, por fim, o sonho sonhado ainda na década de 60 (sessenta) pelo ex-Governador José Sarney de um porto moderno como agente de desenvolvimento do Estado não mereceria qualquer destaque.

Por muitos anos, o Porto do Itaqui, o segundo de maior profundidade do mundo, se manteve como ferramenta de uma economia de enclave, aquela em que o Porto se destina a exportação sem, contudo, deixar no Estado grandes riquezas e gerando poucos empregos. A ZEMA cria um mecanismo de fomento à instalação, na área do Distrito Industrial, mediante incentivos fiscais, de grandes empresas com produtos voltados para a exportação. Um fantástico projeto que tende a transformar completamente o Maranhão.

No último dia 13 de junho, os parlamentares maranhense lutaram uma batalha como gigantes que olham de cima a melhor estratégia da vitória. Lobão fez um relatório digno de sua brilhante trajetória no Senado e mostrou a viabilidade do projeto. Feliz do Estado que pode ter um parlamentar da envergadura de Lobão como seu Senador. Roberto Rocha exibiu aos Senadores o vídeo acima, demonstrando a todos que o Brasil tem no Maranhão um presente de Deus. O Porto do Itaqui pode fazer nascer na América do Sul uma nova Singapura ou uma nova Hong Kong. Mesmo contra a vontade e o voto do PC do B de Flávio Dino e graças à ação firme de Roberto Rocha e Edison Lobão, a ZEMA avança. Que venha a Comissão de Assuntos Econômicos. Um futuro de crescimento industrial e econômico nos espera.

De parabéns Roberto Rocha e Edison Lobão. Vocês dignificam a política do Maranhão.

Sabe o que gera engajamento? Humor

A palavra de lei do brasil é: a zoeira never ends. Seguir nesse caminho requer destreza – e não é para todas as empresas – mas pode gerar ótimos resultados

Jorge Albuquerque, Administradores.com

Se você não é bombardeado por mensagens, vídeos e gifs engraçados, inúmeras vezes ao dia, você certamente está morando fora do país e não interage conosco. Você pode até pensar que isso é novidade, coisa da geração atual e tudo mais, entretanto, ao meu ver, só está agora nos meios digitais o que o brasileiro sempre foi: uma pessoa divertida.

Essa “pegada” da comicidade está tão forte e enraizada que começou a chegar até nossas empresas. Elas agora utilizam memes, fazem referência à cultura pop e possuem informalidade na comunicação. Isso tudo, provavelmente, graças a uma percepção de dados de mercado, enxergando grande potencial nas novas formas de humor desenvolvidas pelas redes sociais.

Você acha que essas empresas fazem isso apenas por comodismo ou achar engraçado? Funcionários “normais” até que poderiam fazer por esses motivos, mas essas ações vêm da diretoria e visam apenas uma coisa: lucro. A comicidade, entretenimento e informalidade trazem engajamento dos usuários e repercussões na mídia.

Palavras como repercussão, impacto e engajamento estão sempre atreladas ao conceito de SEO, termo em inglês para Search Engine Optimization. Em português significa otimização para mecanismos de busca.

Aliado a uma tendência mundial da informalidade, downsizing, startups, jovens irreverentes, além de boa parte das maiores empresas do mundo seguirem essa linha (como Facebook, Google e Netflix), criamos um mercado, pelo menos a nível B2C, bastante dinâmico e engraçado.

Acredito que, junto ao humor, conteúdos sobre conflitos (notícias, fofocas, problemas) e celebridades (atores, atletas, blogueiros) fazem um tripé das maiores buscas, curtidas e compartilhamentos dos tempos atuais. Se existir uma notícia sobre Neymar terminar com Bruna Marquezine e uma foto engraçada, temos certamente uma vaga garantida no Google Trends.

Isso nada mais é do que as empresas surfando na onda dos conteúdos virais. Elas não estão “inventando a roda”, atrelar a imagem de produtos e/ou marcas à astros e celebridades já é uma estratégia batida. O diferente, dessa vez, são duas coisas: ver grandes varejistas, indústrias e empresas sérias “apelando” para a comicidade e a importância que o humor vem tomando à medida que a internet ganha força.

Fazer uma propaganda afirmando a qualidade do seu produto, todos seus benefícios e um preço matador pode não trazer tanto engajamento quanto uma postagem usando um clássico meme com Rodrigo Hilbert e sua perfeição.

O humor e a informalidade trazem as empresas para mais perto de seus usuários. A não ser que você esteja vendendo conteúdos para classe A++ Plus VIP, boa parte da sua comunidade vai entender as suas referências e as repercussões, se a estratégia for bem executada, será bastante positiva.

Antigamente, seriedade era sinônimo de profissionalismo. Padrões, elegância, etiqueta estava atrelado a tudo que era bom, a informalidade sempre remetia a coisas baratas, de uma qualidade normal ou ruim e, em resumo, coisa de empresa pequena. Hoje em dia, não é que houve uma inversão, mas agora propagandas engraçadas e ações de marketing são feitas por empresas bilionárias também!