Novas fichas para uma nova aposta no crescimento do Brasil

“Para dobrar a renda percapita é preciso que a taxa de investimento em produtividade aumente. Quando o investimento não é bom, a produtividade cai nos anos seguintes. Esse é um dos calcanhares de aquiles da economia brasileira” (João Alberto De Negri)

João Alberto De Negri (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

Por: Ricardo Machado, via IHU Unisinos

Um estudo de mais de 800 páginas realizado e publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA sugere que o Brasil pode retomar o crescimento econômico a partir de três estratégias: dobrar a renda per capta em relação ao Produto Interno Bruto – PIB, reduzir as desigualdades econômicas e investir em tecnologias críticas. A análise e as projeções foram apresentadas pelo professor doutor João Alberto De Negri, durante o evento Trajetória macroeconômica brasileira 2003-2017 e as políticas de ciência, tecnologia e inovação, que integra a programação do II Ciclo de Palestras. Trajetória da Política Econômica Brasileira 2003-2017.

Como bom economista, Negri baseia suas projeções em dados econométricos, em perspectiva com cenários globais. Na opinião do pesquisador, é possível transformar o Brasil no espaço de uma geração, algo entre 20 a 30 anos. “Isso é factível desde que caminhemos rápido. Nossa trajetória recente diz que não dá para fazer, mas é possível sim. Precisaria metas claras, consistência e persistência ao longo do tempo”, propõe.

Claro que todas essas transformações passam por um ajuste de coordenadas do paradigma das políticas públicas. “No caso do Brasil, as políticas públicas precisam pensar uma forma de romper o que temos vivido há algumas décadas, não basta imaginar políticas públicas da mesma forma. O país precisa aprender a fazer as coisas de uma forma diferente”, pontua. O professor ainda alerta para o fato de o Brasil ter perdido, ao longo das últimas quatro décadas, a capacidade de crescimento da produtividade. “Atualmente não temos mais janela de crescimento demográfico para possibilitar a ampliação da produtividade, razão pela qual necessitamos uma outra forma de pensarmos as políticas públicas”, frisa.

Investimento público

Na opinião do conferencista, o investimento público perdeu importância quando se trata de crescimento econômico. “O investimento público não é tão importante como já foi. O Brasil não conseguirá crescer nos próximos anos sem um amplo leque de reformas. Não é um ajuste de trajetória, mas um amplo processo de transformação econômica, social e política”, pondera. “A nova geração de políticas públicas deverá ser feita de forma público-privado. É preciso pensar logo, suar a camisa e começar a fazer”, complementa.

Outro setor sensível da economia é o fiscal, cuja perspectiva de mudança a curto ou médio é de inalterabilidade. “O problema fiscal deve seguir nos próximos quatro ou cinco anos, com uma dívida pública elevada. Precisamos resolver o problema fiscal e da qualidade do gasto público, o que é um problema global. É muito difícil de analisar a qualidade do gasto público porque só se pode estimar o investimento que foi feito, mas nada podemos estimar sobre aquilo que não escolhemos investir, então é uma análise sempre muito complexa”, analisa.

Mudanças chaves

De acordo com Negri, a possibilidade de haver crescimento na economia depende de algumas mudanças chaves na qualidade dos investimentos. “Para dobrar a renda percapita é preciso que a taxa de investimento em produtividade aumente. Quando o investimento não é bom, a produtividade cai nos anos seguintes. Esse é um dos calcanhares de aquiles da economia brasileira”, postula. Sem aprofundar muito em como reduzir as desigualdades, o pesquisador ressaltou uma vez a importância de avançar nesse sentido.

Outro eixo importante é o da produção do que o economista chama de “tecnologias críticas”. Para tanto, sustenta o conferencista, é preciso investir em pesquisa. “Os investimento em pesquisa científica precisam crescer 10% ao ano para sair dos atuais 28 bilhões para 60 bilhões ao ano. Ciência e tecnologia são investimentos de longo prazo muito importantes, é preciso acreditar”, ressalta. Tecnologia, no sentido apresentado por Negri, diz respeito à “forma como produzimos as coisas (o que importa é a intensidade de conhecimento)”.

Por fim, o professor detalhou os dezesseis pontos centrais que orientam o trabalho intitulado Desafios da Nação produzido pelo IPEA.

  1. Crescimento Econômico: Retomar a expansão acelerada da renda per capita
  2. Regime Fiscal: Regras para o crescimento sustentado
  3. Mercado de Trabalho: Mudanças institucionais e produtividade
  4. Reforma da Previdência: aspectos de uma reforma obrigatória
  5. Reforma Tributária: racionalizar o sistema tributário
  6. Financiamento do Desenvolvimento: enfrentar os obstáculos do longo prazo
  7. Educação Básica: a obrigação da reforma ampla
  8. Educação Superior: os caminhos para a modernização
  9. Saúde: como ser universal com qualidade
  10. Risco regulatório: sobra regulamentação, falta governança
  11. Modelo de Concessões: mais eficiência, mais investimento
  12. Pesquisa e Inovação: aprimorar políticas públicas de incentito à C&T
  13. Petróleo e Gás: Da crise à recuperação
  14. Energias renováveis: definir políticas para o setor
  15. Inserção Internacional: desenvolvimento exige uma nova agenda internacional
  16. Sustentabilidade: Objetivos de desenvolvimento sustentável nos Desafios da Nação

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