Principalmente na mulher: ‘doenças da beleza’ são reais e cruéis

Em uma sociedade tão estimulada por imagens, é possível que sejamos todos cúmplices desta construção de valores

Redação Vya Estelar

Ao passar os olhos pelos noticiários, além das negativas manchetes sobre política, crise e violência, também é possível notar muitos casos sobre erros em procedimentos estéticos, por vezes realizados por pessoas sem qualificação. E, surpreendentemente, em um mesmo telejornal convivem notícias sobre a prisão do médico Denis César Barros Furtado que realizava bioplastias em seu apartamento (o Dr. Bumbum) e, “dicas de saúde e beleza”. Estas últimas, promovendo mudanças na alimentação, treinamentos físicos intensos e cuidados embelezadores diversos em corpos esbeltos e bem torneados, com forte valorização da concepção de beleza vigente em nossa sociedade. Um curioso ciclo de estímulos, referenciais e consequências, que se repete sem muita reflexão sobre causas e efeitos.

Diante dos casos de pessoas que perderam as suas vidas, ao se submeterem a alterações estéticas em clínicas clandestinas, é necessário resistir à tentação de julgamento antecipado. As “doenças da beleza” são reais e cruéis, em especial com as mulheres. E em uma sociedade tão estimulada por imagens, é possível que sejamos todos cúmplices desta construção de valores, que para algumas pessoas, podem representar motivação convincente para justificar qualquer sacrifício.

Os Transtornos Dismórficos Corporais, ou TDC, que até podem estar relacionados a outras patologias e vivências subjetivas de cada indivíduo, em grande parte dos casos poderão ser classificados também como um transtorno obsessivo compulsivo (TOC). E mesmo que nem sempre contemplem uma rígida restrição alimentar, em muitos sintomas, revelam características similares às da bulimia e da anorexia (veja aqui), e às das não tão comentadas, porém atuais, ortorexia (saiba mais) e vigorexia (saiba mais). No TDC a preocupação com um ou mais defeitos da aparência, que podem ser sutis ou até inexistentes, causa angústia e, em muitos casos, afeta a capacidade funcional da pessoa. Ou seja, o que pode começar, por exemplo, como o hábito de verificar a silhueta no espelho e conferir um ou outro detalhe, algumas vezes ao dia, evolui para uma insatisfação tão intensa com o tamanho dos seios, que a pessoa deixa de participar em situações sociais com receio de expor a sua “deformidade”.

TDC é doença silenciosa, que começa e evolui através de pequenas “manias”, normalmente relacionadas à preocupação com saúde e beleza – atenção socialmente valorizada. Um sentimento de ansiedade pelo horário do treino na academia ou por “queimar as calorias ingeridas no jantar”, e que com o tempo, se transforma em angústia. A pessoa sofre por não dedicar ainda mais que as longas horas aos exercícios, ou à rigidez com que a dieta é empreendida, ou à recorrência com que cirurgias estéticas são realizadas, entre muitos exemplos. Quem padece de TDC precisa de auxílio médico especializado.

A aceitação social sempre será relevante para os seres humanos. Porém, na sociedade interconectada digitalmente, as palavras estão notadamente perdendo espaço para as imagens. E nesse contexto, as inocentes “selfies” adquirem função de construção identitária, e indicam a aceitação do indivíduo em seus grupos de afinidade. Aquela “vaidade imatura” começa a ganhar relevância e, por vezes, a se tornar perigosa.

Fonte: José Toufic Thomé é Médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Psiquiatra e Psicoterapeuta Psicodinâmico

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