A vida de acordo com os indicados ao Oscar

O que cinco candidatos ao maior prêmio do cinema mundial nos dizem sobre o amor?

Ademir Correa, via Vida Simples

O despertar do verão – Me Chame Pelo Seu Nome

Me Chame Pelo Seu Nome, filme de Luca Guadagnino baseado no livro homônimo de André Aciman, acompanha o nascer da paixão e a descoberta do amor de Elio (Timothée Chalamet) por Oliver (Armie Hammer). A história que se passa na Riviera italiana é de rara beleza – a fotografia encanta pelas paisagens campestres e o clima solar da estação traz ao filme uma atmosfera única e um deleite aos olhos – como se estivéssemos dentro de uma pintura em tela (ao vivo).

Ao tratar de um relacionamento entre dois homens, Me Chame Pelo Seu Nome ultrapassa a bandeira do amor gay e torna-se um libelo universal sobre paixão, carinho, desilusão, desencontros, despertar. Elio está se descobrindo. Então ele encontra o amor em Oliver e também em Marzia (Esther Garrel). Esta possibilidade de experimentar sem rótulos mostra que a vida – a da película – não é passível de julgamentos.  Créditos finais, ao som de ‘Mistery of Love’, de Sufjan Stevens, fecham a obra e convidam às lágrimas – as de Elio e as dos cinespectadores.

Todas as formas de amor – A Forma da Água

O longa de Guillermo del Toro mostra o afeto improvável de Elisa (Sally Hawkings), zeladora em um laboratório do governo, e uma criatura fantástica mantida em cativeiro.  A protagonista, que é muda, preocupada com as condições precárias em que o ser da água é mantido para pesquisa, desenvolve uma amizade através de visitas diárias e amplia a possibilidade de diálogos entre os dois através da linguagem de sinais. A esperada tomada erótica entre a personagem e o monstro transforma o sexo em amor em uma das cenas esteticamente mais belas da película.

A Forma da Água é um conto de fadas que fala sobre desajustados, aceitação e empatia – é como se A Bela e a Fera (2017) encontrasse O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) em meio a uma enxurrada.

O amor próprio quer voar – Lady Bird

A estreia de Greta Gerwig (que ganhou notoriedade com seu papel em Frances Ha, de 2012) na direção com Lady Bird já é um convite para o vislumbre de universo feminino bastante particular.

Christine Lady Bird MacPherson (Saoirse Ronan) precisa escolher que carreira quer seguir após a escola. Deslocada dos jovens de sua idade em Sacramento, Califórnia, ela busca compreender-se como futura artista enquanto mostra seu cotidiano cercado de incertezas comuns da idade somadas a uma conturbada relação familiar. O que está em jogo ali é a jornada da mulher – que não está em busca de um par perfeito. As personagens femininas dominam e conduzem a trama que fala sobre amadurecer sem perder a ternura.

Há limites para o amor de uma mãe? – Três Anúncios Para Um Crime

Segundo Três Anúncios Para Um Crime, não.  Mildred Hayes (Frances McDormand), inconformada com a polícia de Ebbing (pequena cidade do Missouri) que cessou as investigações sobre o assassinato de sua filha, resolve desafiar a corporação com mensagens nada edificantes colocadas em três outdoors. O pedido de socorro público mobiliza a localidade – para o bem e para o mal, despertando a natureza vil de algumas personagens e os silêncios que são necessários para manter o status quo de uma vida pacata.

Três Anúncios Para Um Crime, dirigido por Martin McDonagh, investiga este crime do título, mas ainda discute questões como racismo, misoginia e violência doméstica – atrocidades vistas com ares de normalidade nesta cidadela que representa os Estados Unidos mais profundo. Também é sobre amor e esperança, sobre a dor da maternidade diante da injustiça e sobre a força do feminino em um mundo predominantemente masculino.

É um dos favoritos a levar a estatueta de melhor filme, bem como a de melhor atriz – para Frances McDormand – e a de melhor ator coadjuvante – para Sam Rockwell (que vive um policial alcoólatra e corrupto).

Quando o amor é tóxico – Trama Fantasma

Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson – diretor notório pela sua chuva de sapos em Magnólia (1999), acompanha a trajetória regrada do costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), que veste a realeza e as grandes damas da sociedade inglesa no período do pós-guerra, e seu relacionamento com a modelo de prova Alma (Vicky Krieps). Esta, que sofre o desdém do renomado designer, encontra uma solução para esta relação desigual. Invisível diante dos olhos do amado, ela o envenena gradativamente com cogumelos tóxicos – porque doente ele se torna frágil e aberto aos cuidados.

Deste amor doentio-sadio, surge o amor que faz mal (para os envenenados e envenenadores) mesclado ao glamour das roupas e vestidos da época. Amar é poder, amar é aparência, poderia dizer o filme.

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