Seu propósito é ser vocêDébora Zanelato

Para levar uma vida mais realizada e com mais sentido, o primeiro passo, diz a coach Paula Abreu, é descobrir quem somos de verdade

Débora Zanelato, via Vida Simples

Seu propósito de vida é ser você. Não se deixe levar pelo ego, não acredite que você existe para um propósito especial ou extraordinário. A sua existência já é extraordinária.” É assim que a coach Paula Abreu começa a falar em seu livro sobre uma questão tão recorrente em nossos dias: o propósito da nossa vida. A autora de Escolha Sua Vida (Sextante) defende que, para sermos felizes, o primeiro passo é mergulhar em uma autodescoberta. “Ficamos presos a conceitos e histórias que nos foram impostas, inclusive conceitos sobre o que é a felicidade”, ela diz. E o medo (de fracassar ou até mesmo de algo dar certo) precisa ser deixado de lado se quisermos realizar nossos sonhos.

De onde vem nosso medo de arriscar, de fracassar?

Você diz que tem a ver com nosso conceito de felicidade… Quando somos crianças, muitas vezes sabemos o que queremos. A gente pensa em algo que gostaria de fazer e ser feliz. Mas depois a gente cresce e descobre que ser feliz é algo complicado, temos que cumprir uma série de etapas, e assim você vai ganhando um montão de camadas que não eram suas. E, quando conseguimos nos despir dessas camadas, tudo o que é diferente disso dá medo. É o que eu brinco de “felicidade do Facebook”. Qual felicidade você quer? A de verdade ou aquela que você pode mostrar e todo mundo vai entender como felicidade? Tinha amigas que falavam ter inveja de mim. Porque eu tinha um emprego maravilhoso, um casamento dos sonhos, filho… Mas eu não estava feliz! Só que existe o medo de abandonar isso e o receio das críticas. Então eu digo que o medo vem, dentre alguns fatores, da falta de clareza. Não temos clareza do que realmente queremos.

E qual é a importância de ser quem somos nesse processo?

O seu propósito de vida deve ser você. Quando você descobre quem é e expressa a sua verdade, acontece um despertar. Você fica mais consciente dessas camadas e condicionamentos, que não são seus e não lhe representam. Percebo que as pessoas ficam tensas sobre qual é o seu propósito, e costumo dizer para ficarem calmas porque o propósito de vida de cada um é ser você mesmo e ser feliz. E o secundário, que é fazer o que você gosta, está alinhado a isso, a ser você mesmo. Ao descobrir quem você é de verdade, passa a ter menos medo. O que as pessoas vão falar não importa. Então você aprende a dizer não. Em geral, não conseguimos dizer não por medo de decepcionar o outro, e também pelo mal-estar de achar que, ao recusar, estamos perdendo alguma coisa muito legal. Mas, quando você sabe o que é e o que quer, se torna capaz de dizer não com liberdade e entende que isso é essencial para não tirá-lo daquilo que ama. Um não necessário é um sim para você.

Que caminhos você propõe para essa descoberta de nós mesmos?

O jeito mais eficiente é se fazer perguntas. Se não temos as respostas que queremos, precisamos criar perguntas diferentes. Reclamamos da nossa realidade em vez de procurar o que pode ser aprendido com o desafio. Eu incentivo as pessoas a criar um caderno do eu. Listar o que amam, odeiam, seus valores. E sugiro que, todos os dias, criem duas perguntas e saiam pelo mundo em busca de respostas. Enquanto cada um não parar para refletir sobre si mesmo nada vai mudar. Nosso eu está embaixo de camadas de crenças e valores. Se reparar, buscamos ser como todo mundo. E, segundo disse Carl Jung, imitar os outros é algo útil para o coletivo, mas muito nocivo para a individualidade.

Como expressar quem você verdadeiramente é?

O primeiro passo é saber que você não vai agradar a todos. É poder ser impopular. Quando a gente quer se expressar, tem que abraçar a vulnerabilidade. É muito melhor agradar quem tem a ver e quem vai gostar de você por ser quem você é. Não quero pessoas que gostem de mim pela roupa que estou usando ou pelo cargo que tenho. Porque amanhã posso não ser isso. Quero alguém que goste da minha essência. Eu sou coach e as pessoas têm a imagem de um profissional muito sério, contido. Eu já dei sessão em que toquei ukulelê (instrumento de cordas), fiz trampolim. Coach pode fazer trampolim? Não sei, mas eu faço. Tem gente que não virá até mim porque procura a imagem de uma pessoa respeitável, mas outros virão justamente por se identificarem com meu jeito.

E como lidar com as críticas?

Acredito que, quando você está tranquilo do que está fazendo, percebe que a crítica do outro, na verdade, tem a ver com ele próprio. Quando decidi não ter mais carro, as pessoas se incomodaram. Mas é um incômodo delas, percebe? Porque elas acreditam que não dá para viver sem um automóvel. A gente fica mais tranquilo quando entende que a história é só dela e não é mais minha. Ao fazermos uma escolha diferente, nos tornamos um holofote na vida do outro, e ele sente que também deveria estar fazendo algo diferente. Então, quando eu não tenho um carro, todas as pessoas que acham que isso é necessário são quase obrigadas a pensar que é possível não ter um carro. E isso gera um incômodo.

Você também diz que, além do receio de fracassar, o medo do sucesso também nos impede de realizar sonhos. Como é isso?

Muita gente tem medo de fazer algo que dá certo. Quando pergunto quais são as consequências possíveis se aquele objetivo der certo, muitas vezes encontro algo que é resultado disso e a está impedindo de atingir a meta. Tive uma cliente que queria emagrecer, mas nunca conseguia. E chegamos à conclusão de que ela tinha a fantasia de que, quando ficasse magra, seria mais popular e não saberia como reagir a isso, pois era tímida. Ou seja, o medo criou uma história na cabeça dela. Ao longo do programa, coloquei como desafio que, todos os dias, ela tivesse uma conversa com um desconhecido. Costumo dizer que, além da clareza que ajuda a vencer o medo, você também precisa “queimar os barcos”, agir.

E quando a pessoa procrastina por um perfeccionismo?

Não existe pessoa que está empacada porque é perfeccionista. Quando ouço isso, digo que ela está mentindo para si mesma. Ninguém atinge a perfeição. Só se atinge a perfeição aperfeiçoando. Se está empacando porque fica planejando, pode no máximo chegar a um plano perfeito, mas todo plano precisa de um campo de batalha. Porque, na prática, as coisas serão diferentes, você verá o que precisa ser ajustado, mudado. Haverá obstáculos com os quais não contava. É proveitoso se colocar em movimento imediato. Quem coloca a culpa no perfeccionismo está com medo ou insegurança. A pessoa que espera ter a melhor câmera para começar a fotografar corre o risco de nunca fazer uma foto.

E a justificativa de que não faz nada para mudar porque não tem tempo?

Isso acontece porque, em geral, desperdiçamos horas a fio com o que não importa. Você diz que não tem tempo, mas assiste a várias novelas, fala no WhastApp em diversos grupos. Perdemos tempo em pedacinhos, que, quando acumulados, resultam em muito tempo. Cinco minutos aqui, 15 ali e, quando se vê, uma hora se passou, tempo suficiente para fazer algo que você ama. Indico que as pessoas façam uma lista com todas as atividades, durante uma semana inteira. Isso inclui até o tempo em que acordou e levou 40 minutos pra sair da cama. Essa grande lista vai ajudar a avaliar o que pode ser delegado ou eliminado.

Quando falamos de empreender, temos a ideia de que isso envolve criar uma empresa, sair do emprego. Esse é o caminho?

Não necessariamente. Empreender a si mesmo não é empreender um negócio. O pensamento não é o de que para ser feliz não posso trabalhar em uma empresa. Eu também tenho pessoas que trabalham comigo, quero que sejam felizes no que fazem. O mais importante é encontrar um trabalho, seja ele a sua própria empresa, seja algo que já existe, que esteja alinhado com seu propósito primário: ser quem você é. Muitas pessoas até redescobrem o próprio emprego quando mergulham em quem elas são e mudam a relação com o trabalho que já têm. Vale lembrar que nessa descoberta não existem regras ou um único caminho. O grande propósito é sempre ser você mesmo.

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