O Brasil, segundo o FMI

Por Eden Jr.*

No início deste mês de outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) – organismo criado ao final da Segunda Guerra Mundial, para garantir a estabilidade do sistema monetário internacional, bem como, para tratar de questões macroeconômicas e financeiras que influenciam no equilíbrio global – realizou mais uma de suas reuniões anuais em Washington/EUA. Na oportunidade, o FMI lançou alguns relatórios, entre os quais o “Panorama Econômico Mundial”, o “Monitor Fiscal” e o “Perspectivas Econômicas: as Américas”, que contêm as projeções da entidade acerca da economia do planeta para os próximos anos.

Conforme o FMI, após a grave crise internacional de 2008, os dados são inequívocos e apontam para a recuperação, tanto é que a produção mundial deve experimentar expansão de 3,6% neste ano e de 3,7% em 2018. No entanto, a melhora parece incompleta, já que os salários têm aumentado em pequena escala e a desigualdade cresceu, isso basicamente em razão da intensa mudança da tecnologia, que resulta em uma difícil adaptação dos trabalhadores às novas condições de trabalho. Ainda são citados como riscos iminentes: os conflitos regionais e turbulências políticas, o endividamento excessivo de empresas globais, os desdobramentos das “políticas monetárias frouxas” (juros baixos) – empregadas em parte das nações desenvolvidas para estimular a retomada dos negócios –, as incertezas em relação ao prosseguimento da regulação financeira do sistema bancário e o protecionismo comercial – esses dois últimos associados ao cumprimento de promessas feitas em campanha por Donald Trump ao seu eleitorado.

No que diz respeito à economia brasileira, o Fundo acredita, que depois de mais de dois anos, superamos a recessão e vamos crescer 0,7% ao final deste ano e 1,5% no próximo, abaixo, portanto, dos Estados Unidos (2,2% e 2,3%), da Zona do Euro (2,1% e 1,9%), da América Latina e Caribe (1,2% e 1,9%) e do Oriente Médio e da África do Norte (2,2% e 3,2%). Esses números confirmam, que depois dos experimentalismos petistas – especialmente da era Dilma – o Brasil é um pária da economia mundial. A exuberante safra agrícola registrada no primeiro semestre e a elevação no consumo, possibilitada, sobretudo, pela liberação das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), são tidos como fatores determinantes para a retomada da nossa economia.

Por outro lado, o descontrole das contas públicas enfrentado pelo país – outra “herança maldita” dos “anos Dilma” – preocupa sobremaneira o FMI. Nesse sentido, depois de cinco anos de déficits primários (antes do pagamento dos juros da dívida), somente em 2021 nossas contas serão superavitárias, na ordem de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa é a aposta da entidade. Já o déficit nominal do governo – que inclui o pagamento de juros – seguirá relevante, embora cadente, saindo de 9,2% do PIB neste ano, para 7,3% em 2022. Para seguir a trajetória de baixa, é necessário apostar, tenazmente, no esforço fiscal, insistindo em medidas impopulares, como o teto de gastos públicos – iniciativa tida como “progresso real na gestão fiscal brasileira” – e na aprovação da Reforma da Previdência. Como resultado da anarquia fiscal, o endividamento público segue elevado, alcançando 83,4% do nosso PIB este ano, e chegará a 96,9% ao final de 2022. Para efeito de comparação, nesse ano a dívida chilena será de 31,4% do PIB, a chinesa, de 62,6%, a russa, de 19,9%, e a indiana, de 59,6%.

Em contraste com a América Latina e o Caribe, o crescimento brasileiro em 2017, previsto para 0,7%, será melhor apenas do que o desempenho de Equador (0,2%), Porto Rico (-2,8%), Suriname (-1,2%), Trindade e Tobago (-3,2%) e Venezuela (-12%). No geral, a economia da região tem reduzida capacidade de expansão, necessitando de reformas e investimentos para ganhar impulso. O populismo é um risco para o continente, já que diversas nações realizarão eleições nos próximos 18 meses, e há dúvidas quanto à permanência das políticas reformistas.

O conjunto de soluções apontadas para os problemas brasileiros passa por: ajuste fiscal, investimentos em infraestrutura (notadamente de transporte), ações para melhorar o ambiente de negócios (reforma tributária, previsibilidade jurídica e redução da burocracia), garantir eficiência do gasto estatal (fortalecimento das instituições, aumento da transparência nas informações do governo e combate à corrupção), melhor formação de capital humano, ampliação da participação da mulher na força de trabalho e abrandamento do percentual de despesas públicas obrigatórias (Previdência e funcionalismo).

Houve também elogios ao Brasil. No quesito diminuição das desigualdades, o Programa Bolsa Família foi mencionado como importante vetor de suavização da disparidade de renda no país.

*Economista – Mestre em Economia (edenjr@edenjr.com.br)

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