Derrote um sociopata com uma única palavra

via Fãs da Psicanalise

Não é necessariamente sobre ganhar ou perder, mas, quando se trata de tentar lidar com um sociopata, encontrei uma palavra que tem o potencial de derrotá-los: Pena!

Eu sei, por definição, que os sociopatas não sentem empatia ou têm uma consciência totalmente formada, mas compartilham traços de um narcisista, então, na minha experiência, a pior coisa que você pode fazer é expressar pena por alguém que o maltrata devido ao comportamento sociopata. Quer se trate de um amigo, um parente ou namorado, na maioria das vezes ninguém quer se envolver com um sociopata, mas, se você se encontrar preso na armadilha deles, sua única salvação é ter pena deles.

Os sociopatas são habilidosos na arte da manipulação. Se você se envolver profundamente com um deles, você pode ser tão manipulado que começa a questionar sua própria sanidade. Você pode se sentir preso em sua teia de mentiras, e uma vez que eles não sentem a dor que infligem em suas vítimas, muitas vezes você pode ficar preso, lutar e se perder de si mesmo. Isso não significa necessariamente que você deve se desapontar consigo mesmo, mas, se você honestamente não puder se livrar de um sociopata, tente dizer a eles que você sente pena deles.

No passado, eu convivia com alguém que era um sociopata. Levou anos para entender o comportamento deles, e mesmo quando consegui reconhecer suas características, ainda me sentia preso. Tive que planejar minha fuga. Eu estava sempre perdendo as discussões e sofria diariamente, então tentei encontrar empatia para lidar com isso. Um dia, simplesmente entendi. Isso é triste. Este comportamento deles se origina de uma educação difícil, e minha raiva e frustração se transformaram em pena.

No entanto, eu nunca tinha dito a palavra pena para enfrentar essa pessoa. Até que, um dia, no meio de uma discussão, ela disse: “Não tenha pena de mim!” Ela ficou muito nervosa, e ali mesmo eu sabia que tinha tido uma pequena vitória. Eu não podia acreditar. O simples pensamento de alguém com pena do sociopata era demais, e isso me assustou. Por que a pena seria um gatilho?

Bem, se eu realmente olhasse sob a superfície de um sociopata, eu perceberia que eles vivem uma vida de mentiras que parecem impossíveis de destruir. Estão presos em sua própria mente e comportamento, e mesmo que tivessem vontade de querer mudar, seriam realmente capazes de mudar? Assumindo que a resposta seja não, saber disso apenas frustraria um sociopata, e que alguém tivesse pena deles por algo que eles não podem mudar claramente colocaria essa pessoa acima deles.

Então, se você é alguém preso em algum tipo de relacionamento com um sociopata, tente. Tente dizer a eles que você tem pena deles e ficará surpreso. Como eu disse, não se trata de ganhar ou perder, mas às vezes é bom vencer um sociopata. Expressar pena pelo menos desencadeia algum tipo de resposta deles, o que lhe dá um motivo para se sentir melhor.

(Link original: psychcentral)
*Traduzido e adaptado por Marcela Jahjah, da equipe Fãs da Psicanálise

Setembro amarelo: mês internacional de prevenção ao suicídio 2

O argumento final contra o suicídio é a própria vida

Por Karina Okajima Fukumitsu, para Vya Estelar

Que possamos agir mais e falar menos neste mês de setembro amarelo que se inicia. Que nos ocupemos em ofertar espaços de hospitalidade para que possamos construir uma morada existencial. A morada existencial não se constrói na violência e se formos violentos conosco, não aceitando o que é nosso, tornar-nos-emos transgressores de nossas existências e das nossas vidas.

Nesse sentido, julgo que o que se pretende com este artigo (veja aqui a primeira parte), é lançar um convite para a inovação do modo como estamos fazendo a prevenção ao suicídio. Em vez de falar apenas dos números e sobre o sofrimento dos envolvidos e impactados pelo suicídio, precisamos nos inserir em ações, em oferta de espaços de acolhimento e em atitudes que colocam “nossas mãos na massa” (http://karinafukumitsu.com.br/). Atualmente, dedico meu tempo para atuar tanto em escolas quanto em equipamentos de saúde pública e sinto que saí do falatório e tenho agido, ministrando cursos, orientando, informando, capacitando e conhecendo de perto as principais dificuldades envolvidas no amplo âmbito do suicídio. Passo horas a fio debruçando meus esforços para estar com os profissionais com o único objetivo de, enquanto não houver apoio das políticas públicas, encontrarmos estratégias de ações e de cuidados em saúde mental congruentes com suas necessidades.

Como nada é por acaso, enquanto escrevia este artigo, vi um post de Adriana Amaral em sua rede social, no qual estava escrito que “nossas palavras precisam estar apoiadas em ações”. Acredito ser possível a construção de uma morada existencial que consista em ser lócus, onde haja a crença de que é possível enfrentar as adversidades utilizando a característica peculiar do ser humano, que é a da transcendência, e ir além daquilo que conhecemos, descobrindo mais a respeito de nós mesmos.

A morada do processo de morrência talvez represente o “não-lugar”, que busca o resgate do equilíbrio da sanidade mental com as exigências diárias; do acolhimento do sofrimento existencial e do desrespeito para com o humano.

Que possamos agir mais e falar menos neste mês de setembro amarelo que se inicia. Que nos ocupemos em ofertar espaços de hospitalidade para que possamos construir uma morada existencial. A morada existencial não se constrói na violência e se formos violentos conosco, não aceitando o que é nosso, tornar-nos-emos transgressores de nossas existências e das nossas vidas.

A prevenção aos suicídios é prática que deve acontecer todos os dias e não somente em um mês, sobretudo por ressaltar a importância de manter a esperança de que é possível acolher o sofrimento humano. É, portanto, prática a ser inserida no dia a dia, ofertando esperança, amor e acompanhamento tête-à-tête na oferta de espaços de hospitalidade que favorecerão novas moradas existenciais.

Encerro com a importante frase de Alvarez (1999, p. 135): “Em outras palavras, o argumento final contra o suicídio é a própria vida”. Minha conduta diária está pautada em ser uma guardiã da vida que oferta amor, generosidade, cuidado e esperança. A cada tsuru (origami que significa o pássaro da esperança) presenteado ao final dos meus encontros com pessoas interessadas pelo tema, concretizo meu ensejo de que a esperança continue em nossos corações para que a vida possa valer a pena.

Referências

Alvarez, A. (1999). O deus selvagem: um estudo do suicídio. São Paulo: Companhia das Letras.
Fukumitsu, K. O. (2013). Suicídio e Luto: história de filhos sobreviventes. São Paulo: Digital Publish & Print.
Fukumitsu, K. O. (2016). A vida não é do jeito que a gente quer. São Paulo: Editora Digital Publish & Print.
Saramago, J. (1995). Ensaios sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras.

Fonte: Karina Okajima Fukumitsu é terapeuta e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP

Tem gente que pede socorro fazendo silêncio 2

Que possamos enxergar mais essas dores não vistas

Fonte: imagem Pixabay

Queria deixar um recado pra vocês. Tem gente que pede socorro fazendo silêncio, sabiam?

Muitas dores são sentidas e camufladas com o silêncio das palavras. O número de pessoas com depressão que nos procuram e atendemos na clínica só cresce infelizmente.

Lentamente a pessoa depressiva diminui a produção de serotonina e de noradrenalina no cérebro, e, assim, a vida vai ficando sem graça e sem prazeres. As dores vão sendo caladas pelos que não procuram ajuda. Desse modo, não podia deixar de conversar uns minutinhos com vocês aqui sobre a temática: suicídio! Pois é, muitas vezes, é nesse momento que essa opção vem à tona com os pensamentos disfuncionais das pessoas em sofrimento.

Escutar alguém falar sobre a desvalia da vida, sobre a falta de motivação para viver e de seguir em frente, ou que quer desistir da vida, ou até mesmo o oposto disso, ou seja, um silêncio que chega, muitas vezes, a machucar os outros ao redor, são sinais de alerta! A preocupação aumenta quando o desejo de morrer está ligado à vontade de se matar.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio precisa “deixar de ser tabu”. Segundo estatísticas do órgão, tirar a própria vida já é a segunda principal causa da morte em todo o mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade – ainda que, estatisticamente, pessoas com mais de 70 anos sejam mais propensas a cometer suicídio. Por conseguinte 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. Para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

No Brasil, o índice de suicídios na faixa dos 15 a 29 anos é de 6,9 casos para cada 100 mil habitantes.

Todos esses dados nos deixam estarrecidos, pois são números altíssimos que, muitas vezes, ficamos paralisados com a tamanha falta de sentido de vida que tantos ainda sentem.

Que possamos enxergar mais essas dores não vistas. Que sejamos capacitados cada vez mais, como seres humanos, de julgarmos menos sobre quem se foi e quem fica. Porque tanto um como o outro precisam mesmo de ajuda e acolhimento emocional.

Convido você a refletir junto sobre a vida e a morte bem como sobre de que forma podemos ter um olhar diferenciado e acolhedor por quem tanto precisa de nós! E lembre-se sempre: tem gente que pede socorro fazendo silêncio!

Site de estudantes arrecada doações para crianças em tratamento

Plataforma “Somos Todos Heróis”, criada por alunos da USP, faz do financiamento coletivo um projeto social

Da esquerda para a direita, a equipe do Somos Todos Heróis: Marco Schaefer, Igor Marinelli e Fuad Schiavon (Crédito: Divulgação)

Raphael Concli/Jornal da USP, via Vida Simples

Com menos de um ano, Ana Clara sofreu um grave acidente de carro. Perdeu a mãe, um tio e sofreu uma grave lesão medular. Hoje ela luta para se recuperar. Além de roupas e alimentos, Ana precisa ser transferida da Santa Casa de São Carlos para outro hospital, onde possa responder melhor aos tratamentos. Ela é uma das crianças heroínas que foram atendidas pelo projeto social Somos Todos Heróis, um site de financiamento coletivo voltado a arrecadar doações para quem precisa de ajuda: seja um tratamento médico, a realização de uma cirurgia, auxílio para compra de alimentos ou materiais escolares.

Cada doação simboliza o envio de um acessório para fortalecer a criança e torná-la uma heroína ou herói. Cintos, varinhas, escudos, visão de raio laser, capas e anéis mágicos fazem parte do arsenal que pode “equipar” as crianças. Criado em 2016, o site não tem fins lucrativos e todos os valores doados são depositados via PagSeguro diretamente na conta dos responsáveis pela criança.

Linguagem atrativa

A ideia e implementação do site vem de Matheus Marchiori, aluno da Faculdade de Direito (FD) da USP, e de Igor Marinelli, estudante de Engenharia da Computação, curso oferecido em parceria pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, e pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC). Amigos desde o ensino médio, ambos decidiram iniciar o Somos Todos Heróis a partir da insatisfação com outros projetos sociais de que participavam, em especial por conta da falta de doações para crianças ou instituições carentes.

A temática de super-heróis mostrou-se uma forma de alcançar diversas idades. Como conta Igor, é algo que “mexe com muitas lembranças dos adultos e, ao mesmo tempo, inspira as crianças a pensarem em ações socialmente responsáveis desde pequenas”. Em seus dez meses de existência, o site já possibilitou que cinco missões fossem cumpridas, incluindo a de Ana Clara.

A montagem das missões é feita por Igor, que vai à casa das crianças averiguar a solicitação de campanhas, procura novas crianças e faz o contato com famílias e instituições. Além dele, a equipe conta hoje com mais duas pessoas ativas: Fuad Schiavon, que cuida do design do site, e Marco Schaefer, programador e desenvolvedor, ambos também alunos de Engenharia da Computação em São Carlos. Matheus Marchiori compõe atualmente o conselho jurídico do projeto. E o time está aberto a quem quiser ajudar.

E agora, quem irá nos defender

O desenvolvimento da plataforma levou cerca de seis meses. Ainda que tenha um custo de manutenção baixo, o site conta com uma parceria com a empresa HomeHost do Rio de Janeiro, que lhe garante a hospedagem sem despesas. Porém, quando é feita uma campanha pela página do Facebook do projeto para incentivar a doação, os gastos com publicidade saem do bolso da equipe.

O site também deve receber novidades em breve. A equipe trabalha agora para gamificar mais a plataforma a fim de torná-la mais atrativa. Um sistema de conquistas está em desenvolvimento, no qual os usuários poderão subir de nível a partir de suas ações e doações e obter prêmios, como camisetas do Somos Todos Heróis.

Espiritualidade contemporânea

Nutro uma desconfiança profunda pela idolatria da vida como prosperidade eterna

Luiz Felipe Pondé

A espiritualidade está na moda. Muita gente diz que tem espiritualidade mas não tem religião. Com isso quer dizer que é legal, não é materialista, mas nada tem a ver com as barbaridades cometidas pelo cristianismo. Se tiver grana, será uma budista light. Aquele tipo de budista que frequenta templo de fim de semana e paga R$ 100 reais para lavar o chão a fim de sentir a dimensão espiritual do trabalho físico.

Poderia lavar de graça o banheiro da própria casa, mas esse banheiro não teria o mesmo valor do banheiro do mosteiro chique. Trata-se de um day temple e não day spa. Não vou entrar na questão técnica e histórica da relação entre espiritualidade e religião. Mas, sim, é possível uma pessoa cultivar uma busca de sentido na vida para além da banalidade das demandas e rotinas do cotidiano, estando ou não vinculada a alguma tradição religiosa.

O centro da busca é o reconhecimento de tensões nessa rotina que nos fazem sentir um esvaziamento de significado desta mesma rotina, sem necessariamente depender diretamente de conteúdos advindos das tradições religiosas à mão.

Mas um fato é necessário reconhecer, antes de tudo: as formas mais consistentes de busca espiritual estão associadas a temas concretos da vida e não a ET, Jedis, Thor ou bruxinhas de fim de semana.

A espiritualidade nasce da percepção de mal-estar da condição humana e da tentativa de lidar (ou superar esse mal-estar) e não apenas do deslumbramento com a série “Vikings”. Essa busca se iniciou no alto paleolítico quando o Sapiens começou a perceber que havia algo de “errado” em sua condição (sofrimento, insegurança, morte, violência e por aí vai).

Em termos contemporâneos, acho que três tópicos, entre outros possíveis, se prestam a uma inquietação espiritual. Um diretamente ligado ao mundo corporativo, mas que o transcende, outro ao avanço da longevidade, e outro mais derivado do impacto do avanço da inteligência artificial.

As grandes tradições espirituais sempre falaram de sofrimentos reais e não de modas culturais, como no caso que descrevi acima (day temple, Jedis, ET e semelhantes). Um dos temas contemporâneos mais avassaladores é a obrigação de ter sucesso e prosperar. Nesse contexto, repousar é justificado, apenas, se o repouso for causa de maior avanço.

A pessoa é chamada a ver a si mesma e a sua vida como um recurso a ser explorado e transformado em ganho de alguma espécie. Formas variadas de “coaching” apressados, assim como workshops de fim de semana “ensinam” as pessoas que timidez é pecado, insegurança é “justamente” punida com fracasso financeiro, recusa de escolher o que é “novo” é uma nova forma de doença mental.

Nesse contexto de produtividade opressiva, formas falsas de espiritualidade associadas ao mundo corporativo ou do trabalho crescem como um discurso que daria ao imperativo do trabalhar 24 horas por dia (24/7, como dizem os americanos) uma aura de movimento quântico em direção ao sucesso eterno.

Por isso, qualquer espiritualidade contemporânea deve olhar de forma desconfiada para essas tentativas de associar o sucesso ao universo espiritual. Ou a ideia de que produtividade e eficácia implicam uma melhor gestão do karma.

Se a espiritualidade toca em temas “negativos”, ou seja, nas contradições que somos obrigados a enfrentar na vida, ela não poder ser infantil como essas formas de idolatria do sucesso. Nutro uma desconfiança profunda por quem, o tempo todo, vê a vida como uma empreitada para a prosperidade.

Talvez uma das maiores formas de prosperidade seja a longevidade. Produto de alto valor no mercado das utopias. Palestras de todos os tipos vendem a longevidade como algo que será, um dia, vendido nas prateleiras do free shop. A ideia é de que a morte será eliminada ou adiada 500 anos.

Do ponto de vista espiritual, sendo a morte um dos temas que mais despertam indagações, a (quase) eliminação dela, ou a transformação dela em “opção”, traria elementos muito significativos para as inquietações humanas. Por que optar por virar pó (morrer) quando você poderia viver pra sempre? É bom mesmo estar consciente de si para a eternidade ou por 500 anos? Temo que não. A primeira reação minha seria uma profunda melancolia e tédio.

Outro tópico avassalador é a entrada da inteligência artificial no universo humano. Aqui a experiência mais assustadora será a da humilhação cognitiva que vamos experimentar. A humilhação sempre foi um alimento espiritual poderoso.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e
“Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP

Do verbo faltar

É preciso tempo para transformar a ausência de alguém querido em lembrança boa, em saudade que não dói

O tempo nos ensina a conviver com a ausência | Crédito: Shutterstock.

Cris Guerra, via Vida Simples

Meu filho quer visitar o túmulo do pai. Será o primeiro encontro deles — Guilherme faleceu quando eu estava no oitavo mês de gravidez. Francisco tem 11 anos, a mesma idade da morte do pai — o tempo com um é o tempo sem o outro.
Seu pedido inédito me trouxe uma sensação contraditória. Fiquei contente ao vê-lo disposto a se apropriar dessa falta. Construir a saudade é tornar real sua história com o pai que ele não teve tempo de conhecer e de quem sente a ausência, mas não a falta.

Por outro lado, talvez eu preferisse poupá-lo da dor de alojar um buraco, esse silêncio que ensurdece. Quando minha mãe morreu, meu pai espalhou seus objetos pela casa, como rastros que pudessem contar uma história diferente. O chinelo, a cesta de tricô, os óculos. Sete anos depois, foi a vez dele. Da falta dos dois fiz um retrato de parede inteira para, ao acordar, continuar dizendo bom-dia.

A falta é uma porta por onde ninguém entra. Um eco dentro de nós. O outro fica blasé de repente: não nos dirige mais a palavra, não dá um telefonema, chega a causar antipatia.

A danada tem o poder de romantizar até o que nem foi. Transforma diálogo em monólogo, rouba o objeto do amor e o deixa tonto, sem saber pra onde ir. É um tempo em que nos perdemos de nós mesmos. Uma espécie de condenação, já que a morte é perpétua — a impressão é a de que morremos junto, tamanha a dor de existir. É muita falta para tanto tempo pela frente. E não adianta deitar e dormir, porque no dia seguinte a falta nasce de novo, junto com o sol. Pior: algumas presenças a aguçam. E aí quem quer faltar somos nós. Encolher e sumir de vez.

A falta costuma ocupar um espaço grande demais. Até que a gente saia em busca de nossa própria presença. Em nome de seguir em frente, fiz da ausência um hábito, até que ela virasse paisagem. Ao longo da estrada, confesso, de vez em quando entrava um vento de dor por uma fresta insuspeita, atingindo minha pele com um frio de tristeza. Eu pensava que sentiria esses arrepios para sempre, como quem tem uma doença crônica. Um reumatismo de amor que de vez em quando finca e maltrata.

Transformar falta em saudade é como fazer origami. Dobrar o papel branco até que ele voe. Até que fique mais o amor que a pessoa. Um sentimento emoldurado, um quadro que me conta uma história — que nem parece mais ser minha.

Com o tempo, aprendi a conviver com a ausência como se ela fosse uma pessoa — e é. Mais que uma interrupção, a falta é um jeito de ficar para sempre. Um seguir existindo, agora fazendo parte de quem amamos. Ao ritualizar a saudade do pai, Francisco nomeia suas dores e alegrias e dá a cada um o seu papel. Transforma a ausência em falta. Desenha sua origem, constrói um norte para onde olhar.

Cris Guerra é escritora e palestrante. Apaixonada por moda, acha que até as palavras servem para vestir.

Coração é bicho vagabundo. Não confie nele! 2

“Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim”

Assim cantou Caetano Veloso na música “Coração Vagabundo”.

Símbolo do amor e de tudo que é sentimento nobre, o coração é um bicho vagabundo mesmo em todos os sentidos.

Do ponto de vista fisiológico/clínico, o coração pode trair qualquer um a qualquer momento. Seja um gordo sedentário ou um jovem atlético bem cuidado, o coração pode pagar uma peça sem avisar.

Não são poucos os casos, por exemplo, de jogadores de futebol morrem em pleno campo por conta de um ataque cardíaco.

Minha mãe mesmo, aos 42 anos, dormiu e não acordou mais após um ataque fulminante no miocárdio. E olha que Dona Waldeliz era magrinha, não bebia e nem fumava, porém… Nos deixou precocemente.

Mas o coração não é só vagabundo do ponto de vista orgânico.

Ele também é ordinário do ponto de vista afetivo, naquilo mais simboliza: o amor.

Quem vai negar que um dia o seu coração não pulsou (forte) por outro e/ou outra? Quem é capaz de dizer que nunca teve o coração, se não dividido, ao menos propenso a ser dividido?

Na verdade ninguém administra com 100% de segurança o coração, nem o órgão que irriga o sangue pelo nosso corpo, muito menos o órgão metafórico que simboliza o mais nobre dos sentimento que é o amor.

De fato o coração é vagabundo.

Pode nos trair a qualquer momento.

Cuidado com ele…

O que aprendi com o Transtorno Afetivo Bipolar

Um depoimento corajoso de quem aprendeu mais sobre si mesma após descobrir o transtorno bipolar

Luciana Candido, via Vida Simples

Este é um texto egoísta, egocêntrico, autocentrado e tudo mais que tiver a ver comigo mesma. Por quê? Porque em maio completo cinco anos sem crise. Podia parar por aqui: isso já é o suficiente para eu me dar parabéns.

Tenho Transtorno Afetivo Bipolar. Até onde lembro, comecei a apresentar os sintomas aos 17 anos. Fui diagnosticada aos 23 e, desde então, não interrompi o tratamento. Exceto quando mudei para outro estado e me vi perdida, sem médico, sem terapia… Foi justamente neste momento que tive a crise mais pesada da minha vida e que achei que não tinha mais volta.

É indescritível. Eu simplesmente não entendia porque tinha de continuar viva, sentindo aquela dor toda. Não fazia sentido: por que eu tinha de continuar vivendo se não escolhi estar no mundo? Viver era exaustivo, e eu não tinha mais forças.

Em setembro de 2012, resolvi que faria uma última tentativa. Juntei o restinho de força que me sobrara e fui buscar terapia. Nunca parei de tomar a medicação, mas faltava a parte mais importante do tratamento. O problema é que não havia encontrado ninguém até então e não tinha forças para buscar ajuda.

Em setembro de 2012, arrastei-me até uma clínica e tive minha primeira sessão com a minha atual terapeuta. Dá para deduzir que os parabéns são para ela também. Foi difícil. Eu só queria um anestésico qualquer que tirasse rápido aquela dor que começava a ultrapassar o limite do humanamente suportável. Estava muito cansada, e sabia que não ia conseguir carregar aquilo por muito tempo mais. E fui levando.

No dia 13 de abril de 2013, um episódio – que de importante, hoje, só guarda o fato de ter me empurrado para fora do poço – me fez dizer chega. Foi o meu gatilho do bem. Eu vinha dando passos desde setembro, mas ainda não havia virado a chave. Precisava olhar para mim mesma e assumir o controle de tudo aquilo. Esse “tudo aquilo” era a minha vida.

Isso quer dizer que desde então tudo foi fácil e bonito? De jeito nenhum.

Menos de um ano depois, tive de passar por uma das experiências mais doloridas que já tive fora das crises: o luto de uma separação. No entanto, também tive umas das minhas melhores férias antes disso, viajei de carro até o Uruguai, me diverti muito, retornei à vida social saudável, vivi um dos momentos mais importantes da história do país, em junho de 2013, entre tantas outras coisas.

Houve momentos em que a depressão bateu à porta. As recaídas nos dão alertas, e o mais incrível foi conseguir identificar antes que a crise entrasse. As crises não têm motivos, elas têm apenas gatilhos. Quando sentia que estava rondando, dava um tempo a mim mesma, não batia de frente com a doença. Em dois ou três momentos mais críticos, precisei de licença médica. Dormia um dia inteiro, chorava, me jogava no sofá e marcava hora para levantar. E todas as vezes eu levantei. Foi bem difícil, mas valorizo cada vez que consegui sentar na cama, escovar os dentes, comer.

Mas a vida não é só depressão. Tem a mania. Tenho dificuldades para falar sobre essa parte, não sei se por constrangimento, ou por amnésia alcoólica, ou pelas duas coisas misturadas. A depressão é aquela coisa: você sofre muito, normalmente sozinho. Na mania, a gente faz coisas que depois tem vontade de morrer, mas não é de depressão, é de vergonha mesmo.

Teve muitos porres, coisas que eu disse e fiz bêbada que eu queria que tivesse um shift + del da vida. Dias sem comer, dias comendo até as paredes, compromissos assumidos não cumpridos, tagarelice, acordar de madrugada para correr, projetos mirabolantes e tantas coisas que nem lembro. Devo ter a maior coleção autoral de músicas de um verso só, livros de uma página, desenhos incompletos.

Às vezes, acordava meio Carmen Miranda: “e o mundo não se acabou!” Eu sabia que depois disso o carrinho ia descer a ladeira. Então, em vez de dizer “nunca mais faço isso”, assumia as sandices. Pedi desculpas muitas vezes, aprendi a dizer não e quase quebrei o cartão de crédito. Também aprendi algumas técnicas de investigação tentando saber o que tinha acontecido na noite anterior.

E, sem saber, eu estive com a medicação errada durante a maior parte destes cinco anos.

Tudo isso foi episódico. Não cheguei nem perto do inferno que eu já tinha experimentado.

Em outubro, mudei de psiquiatra e acertamos a medicação. Recentemente, parei de beber. Não totalmente, nem quero, mas cortei as fugas e agora bebo muito pouco. Bom, as fugas eram quase tudo. Não tenho dinheiro. Engordei. Tenho ficado muito tempo sozinha. Minha coluna está arrebentada. O remédio me dá tremores e borra a visão.

Isso tudo se torna fácil quando lembro o que deixei para trás. Não acho que estou curada. Não tem cura. Não há nenhuma garantia de que eu não vá ter uma crise no futuro, mas faço o que posso para mantê-la lá fora. Estou estudando coisas que há tempos queria e não conseguia. Estou aprendendo outro idioma. Pratico atividade física e tomo muita água.

Estou leve e feliz.

É. Acho que estou indo bem. Não sou exemplo de nada para ninguém nem pretendo ser. Sou apenas um espécime, uma amostra, num universo imenso de pessoas como eu, de que é possível não só controlar a doença, mas viver.

Hoje me questiono sobre o que define o equilíbrio. Pessoas sem transtornos são sempre equilibradas? Pessoas com transtornos, como eu, não podem desequilibrar nunca sem que isso seja associado à doença? O que é equilíbrio? É estável? Instável? Indiferente? Como disse o Trovador Solitário, “consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”.*

Há pessoas maravilhosas ao meu redor que são importantíssimas nessa trajetória e têm um lugar especial na minha vida. Não esqueci e nunca vou esquecer. Só achei importante dar uma olhada para mim e para o que eu fiz, porque eu não quero nunca esquecer que eu tenho o controle da minha vida, aconteça o que acontecer, esteja eu com quem estiver.

*Legião Urbana, Sereníssima

Decisões conscientes

Refletir sobre nossas atitudes é entender aquilo que realmente faz sentido para cada um de nós

Paula Abreu, via Vida Simples

Certa vez, escrevi sobre como deixamos de refletir antes de tomar decisões — muitas delas importantes — na nossa vida.  Sobre como muitas pessoas têm um carro sem nunca se questionarem se realmente precisam de um. Ou como casais decidem ter filhos sem avaliar se realmente ter um filho se encaixa no estilo de vida que levam — ou pretendem levar — e no tempo livre de que dispõem. Por conta desses questionamentos, uma leitora me escreveu o seguinte: “Nossa, mas se eu for pensar a cada vez que for tomar uma decisão, não vai ser muito cansativo?”. De fato, começar a fazer escolhas conscientes pode ser um tanto cansativo no começo. Muitas coisas na vida são assim.

Pense em um bebê aprendendo a andar. Ele levanta titubeando, se segura em um móvel e, quando sente que está de pé, se empolga e solta as mãos. Dá um pequeno passo, no máximo dois, e cai. Mas, em seguida, levanta e recomeça. Centenas de vezes. Certamente é cansativo… Até o momento em que não é mais! Vai ficando mais fácil, natural, se transforma em um hábito. A mesma coisa acontece quando aprendemos a andar de bicicleta ou dirigir.

Mesmo que você nunca tenha se dado conta da incrível possibilidade de controlar a sua própria mente, isso não significa que ela nunca foi controlada. Só significa que, até o momento, um outro alguém estava no controle.

Os seus valores, as suas crenças familiares ou culturais, a forma como você se posiciona diante do trabalho ou das dificuldades, dos relacionamentos, o seu desejo de ter coisas, e até mesmo que coisas você deseja ter, tudo isso foi escolhido por você a partir do mundo externo. Se você não controla a sua mente e não escolhe conscientemente a sua vida, nem mesmo os seus desejos são realmente seus.

Para sua felicidade, mudar essa situação está nas suas mãos. A cada novo dia, você tem a oportunidade de refazer as suas escolhas. De rever os caminhos que escolheu percorrer, as coisas, as pessoas, as opiniões e as conquistas a que escolheu dar valor. E ainda os seus conceitos sobre felicidade e sucesso.

Ao fazer isso, talvez descubra que a carreira que você foi pressionado a escolher aos 17 anos não faz mais sentido hoje. Ou que o relacionamento abusivo ou fracassado que você teima em manter para agradar a família não lhe faz bem. Ou que você detesta fazer crossfit, mas treina só porque está na moda, e o que gostaria mesmo é de escalar montanhas nos finais de semana.

Além de rever as escolhas que fez no passado, pode também começar a fazer novas escolhas com mais consciência. Você mesmo. Faça isso. Defina seus desejos. E, dessa forma, descubra seus próprios valores e crenças. Reprograme a sua atitude. Escolha sua vida.

Paula Abreu é coach e autora do livro Escolha Sua Vida. Oferece meditação gratuita no acreditaemedita.com.br