Do verbo faltar

É preciso tempo para transformar a ausência de alguém querido em lembrança boa, em saudade que não dói

O tempo nos ensina a conviver com a ausência | Crédito: Shutterstock.

Cris Guerra, via Vida Simples

Meu filho quer visitar o túmulo do pai. Será o primeiro encontro deles — Guilherme faleceu quando eu estava no oitavo mês de gravidez. Francisco tem 11 anos, a mesma idade da morte do pai — o tempo com um é o tempo sem o outro.
Seu pedido inédito me trouxe uma sensação contraditória. Fiquei contente ao vê-lo disposto a se apropriar dessa falta. Construir a saudade é tornar real sua história com o pai que ele não teve tempo de conhecer e de quem sente a ausência, mas não a falta.

Por outro lado, talvez eu preferisse poupá-lo da dor de alojar um buraco, esse silêncio que ensurdece. Quando minha mãe morreu, meu pai espalhou seus objetos pela casa, como rastros que pudessem contar uma história diferente. O chinelo, a cesta de tricô, os óculos. Sete anos depois, foi a vez dele. Da falta dos dois fiz um retrato de parede inteira para, ao acordar, continuar dizendo bom-dia.

A falta é uma porta por onde ninguém entra. Um eco dentro de nós. O outro fica blasé de repente: não nos dirige mais a palavra, não dá um telefonema, chega a causar antipatia.

A danada tem o poder de romantizar até o que nem foi. Transforma diálogo em monólogo, rouba o objeto do amor e o deixa tonto, sem saber pra onde ir. É um tempo em que nos perdemos de nós mesmos. Uma espécie de condenação, já que a morte é perpétua — a impressão é a de que morremos junto, tamanha a dor de existir. É muita falta para tanto tempo pela frente. E não adianta deitar e dormir, porque no dia seguinte a falta nasce de novo, junto com o sol. Pior: algumas presenças a aguçam. E aí quem quer faltar somos nós. Encolher e sumir de vez.

A falta costuma ocupar um espaço grande demais. Até que a gente saia em busca de nossa própria presença. Em nome de seguir em frente, fiz da ausência um hábito, até que ela virasse paisagem. Ao longo da estrada, confesso, de vez em quando entrava um vento de dor por uma fresta insuspeita, atingindo minha pele com um frio de tristeza. Eu pensava que sentiria esses arrepios para sempre, como quem tem uma doença crônica. Um reumatismo de amor que de vez em quando finca e maltrata.

Transformar falta em saudade é como fazer origami. Dobrar o papel branco até que ele voe. Até que fique mais o amor que a pessoa. Um sentimento emoldurado, um quadro que me conta uma história — que nem parece mais ser minha.

Com o tempo, aprendi a conviver com a ausência como se ela fosse uma pessoa — e é. Mais que uma interrupção, a falta é um jeito de ficar para sempre. Um seguir existindo, agora fazendo parte de quem amamos. Ao ritualizar a saudade do pai, Francisco nomeia suas dores e alegrias e dá a cada um o seu papel. Transforma a ausência em falta. Desenha sua origem, constrói um norte para onde olhar.

Cris Guerra é escritora e palestrante. Apaixonada por moda, acha que até as palavras servem para vestir.

Sobre a querida Hermanna que luta pela vida. 6

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Foto Facebook pessoal com a mãe Hilda.

Via Propagando

Muitos blogs noticiaram antecipadamente a morte da jovem médica radiologia Hermana da Ilha Maranhão, que teve uma parada cardiorrespiratória dentro de seu carro no estacionamento de um hospital de São Luís, sem se quer buscar a informação correta sobre o fato.

Hermana Maranhão além de médica ( trabalha em 3 hospitais) , é formada em relações internacionais e comércio exterior em São Paulo, fala fluentemente quatro idiomas,é pianista clássica e prestava serviços filantrópicos na pediatria.

Ela é muito religiosa e jamais cometeria suicídio. Todos os boatos sobre tentativas de suicídio anteriores são falsos. Hermana é casada, tem uma filha e ama a sua família ( Pai, Mãe e irmãos). 

É desrespeitoso as pessoas se aproveitarem de um momento crítico de outras pessoas, para criarem histórias fantasiosas, boatos, notícias falsas e tudo isso  para ganharem curtidas e compartilhamentos nas redes sociais.

Conforme informações da família, Hermana nunca foi depressiva, nunca usou medicamentos para emagrecer ou similares. É extremamente comprometida com o seu trabalho e tudo que se emprenhava a fazer.

Ela está viva e luta pela vida numa UTI em São Luís. O estado é delicado sim, mas para Deus nada é impossível.

A família e os amigos pedem que as pessoas orem por ela, uma menina cheia de alegria e amor, que está passando pelo pior momento de sua vida.

O Blog se solidariza com a família e os amigos e  está firme nessa corrente de oração, para que a vontade de Deus seja feita.

Com amor.

Ricardo Fonseca – Editor.

PS: Um suicida não faz isso num estacionamento de hospital.

“Eu não errei, amei” 7

Por mais que tenha feito o que fez a ponto de um caso de amor se transformar numa das tragédias cariocas mais famosas e um dos casos de tribunais mais movimentados do estado do Rio de Janeiro (veja aqui), essa frase da Saninha resume muito bem o sentimento de amor

Desejo é uma minissérie brasileira exibida pela Rede Globo no início da década de 90, cuja autora é a genial Glória Perez, com direção do não menos genial Wolf Maia.

A trama foi baseada em fatos reais a partir do episódio conhecido como “A Tragédia da Piedade”, quando o escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, foi morto por Dilermando de Assis, amante de sua mulher Ana Emília Ribeiro.

A produção foi a fundo no trabalho de pesquisa e reprodução dos acontecimento daquele fatídico domingo, 15 de agosto de 1909, com os antecedentes do fato ocorrido e, também, os desdobramentos do caso, que culminou na absolvição de Dilermando, que foi defendido por ninguém menos do que  o grande criminalista Evaristo de Morais.

O elenco, entre outros, era formado Tarcísio Meira (Euclides da Cunha); Vera Fischer, a Saninha (Ana de Assis); Guilherme Fontes (Dilermando de Assis); Marcos Winter (Dinorah) e Marcos Palmeira (Solón).

Desejo é uma daquelas minisséries que despertam emoções e sentimentos de toda ordem. Na época, torci muito para que Euclides da Cunha desse cabo no amante da sua esposa (Rsrsrs). Mas, infelizmente, ocorreu o contrário.

Entre tantas partes e frases marcantes de Desejo, duas frases jamais mais esqueci, curiosamente ditas pelo ex-casal Euclides da Cunha e Saninha. A dele: “Vim para matar ou morrer!”, dita assim que adentrou à casa de Dilermando com a intenção de defender a sua “honra”.

Bom, a frase da Saninha é a que dá título a este post: “Eu não errei, amei”, proferida no fechamento da minissérie.

Essa frase da Saninha não é apenas forte, mas muito simbólica quando o assunto é amor.

As pessoas fazem coisas por amor que a razão desconhece. Aliás, o saudoso Renato Russo resumiu bem essa assertiva quando na música Eduardo e Mônica poetizou:

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Por mais que tenha feito o que fez a ponto de um caso de amor se transformar numa das tragédias cariocas mais famosas de todos os tempos e um dos casos de tribunais mais movimentados do estado do Rio de Janeiro (veja aqui), essa frase da Saninha resume muito bem o sentimento de amor.

Por isso que o amor é um sentimento que desperta júbilo e medo num só tempo.

O amor é mistério.

E não adianta querer decifrá-lo.

Um ótimo e abençoado sábado para todos.

Até amanhã.

Vem da Tailândia a prova de que a humanidade ainda não está perdida 2

Não seria exagero afirmar que o fato da Tailândia ser um país asiático, com uma cultura muito arraigada na espiritualidade, contribuiu para que o final do drama vivido pelos “13 da caverna” fosse o melhor possível.

Momento em que mergulhadores encontram os 12 meninos e o treinador agrupados em uma pequena laje no interior da caverna, após 9 dias (AFP/ROYAL THAI NAVY)

Em meio a tanta desgraça, guerras, violência de toda ordem, terrorismo, assassinatos em massa etc., vem da Tailândia a prova de que a humanidade ainda não está perdida.

O resgate dos 12 meninos e seu técnico de futebol do interior da caverna de Tham Luang, no Norte da Tailândia, é um belo exemplo de que o ser humano ainda tem jeito.

Outra tantas tragédias já uniram o mundo em solidariedade é verdade, mas nesse caso particular havia toda uma circunstância que tornou esse episódio especial. Aliás, felizmente especial.

Emoção, ansiedade, tristeza, tensão, mas ao final tudo saiu muito bem, obrigado.

É de fascinar a vontade de viver daquelas 13 pessoas enclausuradas numa caverna que tinha tudo para se transformar na sepultura deles.

Fascina também a disciplina dos adolescentes diante do que devem ter recebidos de orientações do técnico, um ex-monge budista, que naquele momento certamente deixou de ser técnico e se tornou um líder, inclusive espiritual.

O contexto tinha tudo para que essa história terminasse em tragédia, mas quem somos nós para determinar o infortúnio ou sucesso de alguém, não é mesmo?

Não seria exagero afirmar que o fato da Tailândia ser um país asiático, com uma cultura muito arraigada na espiritualidade – o budismo é a religião predominante, mas não oficial – contribuiu para que o final do drama vivido pelos “13 da caverna” fosse o melhor possível.

Claro, isso sem falar na coragem, dedicação, competência e determinação dos mergulhadores e de toda a equipe que participaram do resgate, e também na corrente de energia positiva que deu volta ao mundo em prol da vida daqueles jovens tailandeses.

E é exatamente esse aspecto dessa história, digna de roteiro de cinema, que faz a gente acreditar que a humanidade ainda não está perdida.

O mundo pode e dever ser bem melhor.

Só depende de nós.

No mais, que o “Javalis Selvagens”, nome do time da galera, tenham condições físicas e emocionais para assistir à final da Copa da Rússia, como prometeu o presidente da Fifa, Gianni Infantino, caso tudo acabasse bem.

Se depender da força dos “Javalis”, que Infantino vá logo providenciando um jato rumo a Moscou.

COPA DO MUNDO: Uma derrota a mais 4

por Juca Kfouri*

Não ganhar mais uma Copa do Mundo não tem a menor importância para o futuro do futebol brasileiro.

Tanto é verdade que já foram conquistadas cinco e o presente do nosso futebol é o que é, com clubes inadimplentes e cartolas corruptos ou fora do jogo, por causa do FBI e da Interpol, ou ainda dando as cartas, graças à leniência das autoridades brasileiras.

O futebol brasileiro ficou 24 anos sem passar do tri ao tetra e já está há 16 sem sair do penta ao hexa. E daí?

A Alemanha nem pentacampeã é e seu campeonato nacional beira os 45 mil torcedores em média por jogo.

No país cinco vezes campeão não chega aos 18 mil.

Ganhar Copas do Mundo, francamente, é o de menos, por maior que seja a comoção que afeta até crianças desligadas do futebol, mas capazes de chorar com a eliminação. Uma senhora em prantos que acompanhava o secretário-menor da CBF em Kazan chegou a dizer que estava de luto, e Renato Augusto comparou a derrota à morte de um parente. Menos, minha senhora, muito menos, Renato Augusto.

A Espanha só foi ganhar sua primeira Copa oito anos atrás e nem por isso o Real Madrid e o Barcelona eram menores do que são, ao contrário, tinham o mesmo tamanho.

É preciso entender de uma vez por todas que são clubes os responsáveis pela grandeza ou pequenez do futebol de um país, sem precisar exagerar como o presidente madridista que trabalha contra a seleção espanhola para não ver ofuscado o clube presidido por ele. Você sabe, rara leitora, você sabe, raro leitor: entre o seu clube campeão mundial e a seleção brasileira a escolha será quase sempre, mais de 90% das vezes, pelo clube.

E você que torceu contra, ou disse que torceu, porque o Temer não merece, o coronel Nunes também não, o Marco Polo que não viaja e o Caboclo que ele inventou muito menos, veja que quanto pior, pior mesmo, porque nada vai mudar.

Tanto que a seleção perdeu as últimas quatro Copas e nada mudou, assim como quando ganhou não foi por causa de Havelange e Teixeira, mas por causa de Pelé, Mané, Tostão, Rivellino, Romário, Rivaldo e Ronaldos.

O Brasil está fora da Copa, mas ela não acabou. Na terça-feira (10), em São Petersburgo, deveremos ter um recital de futebol: França x Bélgica, com ares de final antecipada, como seria França x Brasil. Só que seria e não será. Mas só mesmo.

*Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

O uso da autoridade para não admitir os próprios erros 2

A autoridade que admite e assume o seu erro não se enfraquece

Por Eduardo Carmello*, via Vya Estelar

Juízes, professores, administradores, líderes, pais e mães. Tudo ficaria bem melhor no que se refere ao relacionamento interpessoal maduro e também à produtividade no trabalho se assumissem uma postura de falibilidade (estão prontos para admitir e assumir seus próprios erros e corrigi-los, a favor da relação justa).

Mas, ao invés disso, preferem esconder os erros e incompetências, sobrepondo-os com o escudo da “autoridade”. Todo mundo viu que o juíz errou ao marcar o pênalti, que não existiu. Mas, já que ele sentenciou que o mesmo aconteceu, então não se pode voltar atrás. Como dizia José de Alencar, “Não havia meio de fazê-lo voltar atrás”.
Todo mundo sabe que o professor está desatualizado e tendencioso politicamente na matéria que ele leciona. Mas, se ousarmos atualizá-lo e evidenciar seu viés político, poderemos ser expulso da sala por desacato à autoridade ou ouvir aquela famosa frase “Quem manda nessa sala de aula sou eu”.

Conhecemos muito bem nossos administradores e líderes. Por vezes demoramos 30 minutos editando a “forma” como vamos conversar com ele sobre sua falta de habilidade em gerenciar projetos e conduzir reuniões, colocando a culpa sempre na equipe. Fazemos isso morrendo de medo dele se ofender, inflamar, de sofrer retaliação ou até de ser transferido de setor, pois “Quem é você para dizer como eu devo fazer o meu trabalho?”.

Fora os pais (eu, inclusive) que se assustam e imediatamente se irritam, quando os filhos (de 3 a 55 anos) escancaram uma verdade na nossa cara. Um erro, um mal funcionamento, uma atitude desrespeitosa, que deve ser ignorada ou relevada, pois somos “os pais”. Quantas vezes nos protegemos no nosso escudo de autoridade quando eles revelam nossas incoerências, ambiguidades e equívocos na “difícil arte de educar”.

Constato nos meus trabalhos que quando a pessoa erra e dá a “carteirada” da autoridade, muitos de nós até obedecem, para não piorar as coisas. Mas não esquecemos seus erros, diminuindo drasticamente o respeito, a confiança e a admiração que temos pela pessoa.

E, quando a mesma admite e assume seu erro, corrigindo a decisão equivocada, a ordem se restabelece, o respeito, a confiança e admiração aumentam.

A “autoridade” que admite e assume o seu erro não se enfraquece. Pelo contrário, sai mais fortalecido e respeitado por aqueles que prezam a justiça, o relacionamento maduro, a inteligência e o mérito.

*Diretor da Entheusiasmos Consultoria em Talentos Humanos, consultor e palestrante entre os 5 mais reconhecidos do país, segundo o Top of Mind de RH do jornal O Estado de S. Paulo. Autor dos livros Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor (2008, Editora Gente) e Supere: a arte de lidar com as adversidades (2004, Editora Gente).

Coração é bicho vagabundo. Não confie nele! 2

“Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim”

Assim cantou Caetano Veloso na música “Coração Vagabundo”.

Símbolo do amor e de tudo que é sentimento nobre, o coração é um bicho vagabundo mesmo em todos os sentidos.

Do ponto de vista fisiológico/clínico, o coração pode trair qualquer um a qualquer momento. Seja um gordo sedentário ou um jovem atlético bem cuidado, o coração pode pagar uma peça sem avisar.

Não são poucos os casos, por exemplo, de jogadores de futebol morrem em pleno campo por conta de um ataque cardíaco.

Minha mãe mesmo, aos 42 anos, dormiu e não acordou mais após um ataque fulminante no miocárdio. E olha que Dona Waldeliz era magrinha, não bebia e nem fumava, porém… Nos deixou precocemente.

Mas o coração não é só vagabundo do ponto de vista orgânico.

Ele também é ordinário do ponto de vista afetivo, naquilo mais simboliza: o amor.

Quem vai negar que um dia o seu coração não pulsou (forte) por outro e/ou outra? Quem é capaz de dizer que nunca teve o coração, se não dividido, ao menos propenso a ser dividido?

Na verdade ninguém administra com 100% de segurança o coração, nem o órgão que irriga o sangue pelo nosso corpo, muito menos o órgão metafórico que simboliza o mais nobre dos sentimento que é o amor.

De fato o coração é vagabundo.

Pode nos trair a qualquer momento.

Cuidado com ele…

UMA LIÇÃO DE VIDA QUE VEM DA BÉLGICA: “Tenho algumas coisas a dizer” 8

Recomendo a leitura até o final do impressionante depoimento do belga Romelu Lukaku ao “The Players Tribune”, tradução de Bruno Bonsanti, do sítio “Trivela”.

Eu me lembro do momento exato em que soube que estávamos quebrados. Ainda consigo visualizar minha mãe na geladeira e o olhar no rosto dela.

Eu tinha seis anos de idade e cheguei de casa para almoçar durante o intervalo da escola. Minha mãe me dava a mesma coisa todos os dias: pão e leite. Quando você é uma criança, nem pensa sobre isso. Mas acho que era tudo que podíamos comprar.

Naquele dia, eu cheguei em casa e entrei na cozinha e vi minha mãe na geladeira com uma caixa de leite, como sempre. Mas, naquela vez, ela estava misturando algo. Ela estava balançando, sabe? Eu não entendi o que estava acontecendo.

Ela estava misturando água no leite. Não tínhamos dinheiro suficiente para o resto da semana. Estávamos quebrados.

Meu pai havia sido um jogador profissional de futebol, mas estava no fim da sua carreira e não havia mais dinheiro. A primeira coisa que perdemos foi a TV a cabo. Acabou o futebol. Acabou o Match of the Day (famoso programa esportivo britânico). Acabou o sinal.

Chegava em casa à noite e as luzes estavam apagadas. Sem eletricidade por duas, três semanas de uma vez.

Eu queria tomar banho, e não havia mais água quente. Minha mãe esquentava a chaleira no fogão, e eu ficava em pé no chuveiro jogando água quente na minha cabeça com um copo.

Houve ocasiões em que minha mãe precisava pedir pão “emprestado” da padaria no fim da rua. Os padeiros nos conheciam, eu e meu irmãozinho, então deixavam que ela pegasse uma fatia de pão na segunda-feira e pagar apenas na sexta.

Eu sabia que tínhamos problemas. Mas, quando ela estava misturando água no leite, eu percebi que já era, sabe? Essa era nossa vida.

Eu não disse uma palavra. Não queria estressá-la. Eu apenas comi meu almoço. Mas eu juro por Deus, eu fiz uma promessa a mim mesmo naquele dia. Era como se alguém tivesse estalado os dedos e me acordado. Eu sabia exatamente o que fazer.

Eu não podia ver minha mãe vivendo daquele jeito. Não, não, não. Eu não aceitaria aquilo.

As pessoas no futebol amam falar sobre força mental. Bom, eu sou o cara mais forte que você vai conhecer. Porque eu me lembro de me sentar no escuro com meu irmão e minha mãe, rezando, e pensando, acreditando, sabendo… que um dia aconteceria.

Não contei minha promessa para ninguém por um tempo. Mas, alguns dias, eu chegava em casa da escola e encontrava minha mãe chorando. Então, eu finalmente a disse um dia: “Mãe, tudo vai mudar. Você vai ver. Eu vou jogar futebol pelo Anderlecht e vai acontecer rápido. Vamos ficar bem. Você não precisará mais se preocupar”.

Eu tinha seis anos. 

Eu perguntei para o meu pai: “Quando eu posso começar a jogar futebol profissional?”

Ele disse: “Dezesseis anos”

Eu disse: “Ok, dezesseis anos, então”.

Aconteceria. Ponto final.

Deixa eu dizer uma coisa – todo jogo que eu já disputei foi uma final. Quando eu jogava no parque, era uma final. Quando eu jogava no recreio do jardim de infância, era uma final. Eu estou falando sério para caralho. Eu tentava rasgar a bola todas as vezes que eu chutava. Força total. Não estava chutando com o R1, brother. Não era chute colocado. Eu não tinha o novo Fifa. Eu não tinha um Playstation. Eu não estava brincando. Eu estava tentando te matar.

Quando eu comecei a ficar mais alto, alguns dos professores e pais começaram a me estressar. Eu nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi um dos adultos dizer: “Ei, quantos anos você tem? Que ano você nasceu?”

E eu fiquei, tipo, o quê? Tá falando sério?

Quando eu tinha 11 anos, eu jogava pela base do Lièrse, e um dos pais do outro time literalmente tentou me impedir de entrar no gramado. Ele disse: “Quantos anos tem essa criança? Onde está o documento dela? Da onde ela veio?”

Eu pensei: “Da onde eu vim? O quê? Eu nasci na Antuérpia. Eu vim da Bélgica”.

Meu pai não estava lá porque ele não tinha carro para me levar aos jogos for a de casa. Eu estava completamente sozinho e precisava me impor. Eu fui pegar meu documento, na minha mala, e mostrei para todos os pais, e eles o passaram de mão em mão, inspecionando, e eu lembro do sangue me subindo à cabeça… e pensei: “Oh, eu vou matar o seu filho mais ainda agora. Eu já ia matá-lo, mas, agora, eu vou destruí-lo. Você vai levar seu filho para casa chorando agora”.

Eu queria ser o melhor jogador de futebol da história da Bélgica. Era esse meu objetivo. Não apenas bom. Não apenas ótimo. O melhor. Eu jogava com muita raiva por causa de muitas coisas… por causa dos ratos que viviam no nosso apartamento…. porque eu não podia assistir à Champions League… pela maneira como os outros pais olhavam para mim.

Eu estava em uma missão.

Quando eu tinha 12 anos, eu marquei 76 gols em 34 partidas.

Eu marquei todos eles usando as chuteiras do meu pai. Quando nossos pés ficaram do mesmo tamanho, nós as compartilhávamos.

Um dia, eu liguei para o meu avô – o pai da minha mãe. Ele era uma das pessoas mais importantes da minha vida. Ele era minha conexão com a República Democrática do Congo, da onde minha mãe e meu pai vieram. Então, eu estava no telefone com ele um dia, e eu disse: “Estou indo bem. Eu fiz 76 gols e ganhamos a liga. Os grandes times estão começando a me notar”.

E geralmente ele queria ouvir sobre os meus jogos. Mas, naquela vez, estava estranho. Ele disse: “Yeah, Rom, yeah, isso é ótimo. Mas você pode me fazer um favor?”

Eu disse: “Sim, qual?”

Ele disse: “Você pode cuidar da minha filha, por favor?”

Eu me lembro de ter ficado confuso. Sobre o que o vovô estava falando?

Eu disse: “A mamãe? Sim, estamos bem. Estamos ok”.

Ele disse: “Não. Você tem que me prometer. Você pode me prometer? Cuide da minha filha. Apenas cuide dela para mim. Ok?”

Eu disse: “Sim, vovô. Entendi. Eu prometo”.

Cinco dias depois, ele morreu. E, então, eu entendi o que ele queria dizer.

Eu fico muito triste pensando nisso porque eu gostaria que ele tivesse ficado vivo mais quatro anos para me ver jogar pelo Anderlecht. Para ver que eu cumpri minha promessa, sabe? Para ver que tudo ficaria bem.

Eu disse para minha mãe que eu conseguiria chegar lá quando tivesse 16 anos.

Eu errei por 11 dias.

24 de maio de 2009.

A final do playoff. Anderlecht versus Standard Liège.

Aquele foi o dia mais doido da minha vida. Mas precisamos retroceder um pouco. Porque no começo da temporada, eu mal estava jogando pelo sub-19 do Anderlecht. O treinador me colocou na reserva. E eu pensava: “Como vou conseguir um contrato profissional no meu 16º aniversário se ainda estou no banco pelo sub-19?”.

Então, fiz uma aposta com o treinador.

Eu disse para ele: “Eu garanto algo a você. Se você me colocar para jogar, eu vou fazer 25 gols até dezembro”.

Ele riu. Ele literalmente riu da minha cara.

Eu disse: “Vamos fazer uma aposta”.

Ele disse: “Ok, mas se você não fizer 25 gols até dezembro, você vai para o banco de reservas”.

Eu disse: “Certo, mas, se eu vencer, você vai limpar todas as minivans que levam os jogadores para casa depois do treino”.

Ele disse: “Ok, fechado”.

Eu disse: “E mais uma coisa. Você tem que fazer panqueca para nós todos os dias”.

Ele disse: “Ok, certo”.

Foi a aposta mais estúpida que o homem já fez.

Eu tinha 25 gols em novembro. Estávamos comendo panqueca antes do Natal, bro. Que sirva de lição.

Você não mexe com um garoto que está com fome.

Eu assinei contrato professional com o Anderlecht no meu aniversário, 13 de maio. Fui direto comprar o novo Fifa e um pacote de TV a cabo. Já era o fim da temporada, então estava em casa relaxando. Mas a liga belga estava doida naquele ano, porque Anderlecht e Standard Liège terminaram empatados em pontos. Então, haveria um playoff de duas partidas para decidir o título.

Durante o jogo de ida, eu estava em casa assistindo à TV como um torcedor.

Então, no dia anterior ao jogo de volta, eu recebi uma ligação do técnico dos reservas.

“Alô?” “Alô, Rom. O que você está fazendo?”

“Saindo para jogar bola no parque”.

“Não, não, não, não, não. Faça suas malas. Agora mesmo”.

“Por quê? O que eu fiz?”

“Não, não, não. Você precisa sair para o estádio agora. O time principal pediu por você”.

“Yo….o quê? Eu?!”

“Sim. Você. Venha. Agora”.

Eu literalmente corri para o quarto do meu pai.

“YO! Levanta, porra. Precisamos correr, cara!”. “Huh? O quê? Pra onde?”.

“ANDERLECHT, CARA”.

Eu nunca vou esquecer. Eu cheguei ao estádio e praticamente corri para o vestiário. O roupeiro disse: “Ok, garoto, que número você quer?”.

E eu disse: “Me dá a 10”.

Hahahahahaha sei lá, eu era muito jovem para ter medo, acho.

E ele: “Jogadores da base usam números acima do 30.

Eu disse: “Ok, bem, três mais seis é igual a nove, e esse é um número legal, então me dá a 36”.

Naquela noite, no hotel, os jogadores adultos me fizeram cantar uma música para eles no jantar. Eu nem me lembro qual escolhi. Minha cabeça estava girando.

Na manhã seguinte, meu amigo literalmente bateu na porta da minha casa para ver se eu queria jogar futebol e minha mãe disse: “Ele saiu para jogar”.

Meu amigo: “Jogar onde?”

Ela disse: “Na final”.

Saímos do ônibus no estádio, e cada jogador estava usando um terno legal. Menos eu. Eu saí do ônibus usando um terrível agasalho e todas as câmeras de TV estavam na minha cara. A caminhada para o vestiário foi de talvez 300 metros. Talvez uma caminhada de três minutos. Assim que coloquei meu pé no vestiário, meu telefone começou a explodir. Todo mundo havia me visto na televisão. Eu recebi 25 mensagens em três minutos. Meus amigos estavam ficando loucos.

“Bro?! Por que você está no jogo?!”

“Rom, o que está acontecendo? POR QUE VOCÊ ESTÁ NA TV?”.

A única pessoa que respondi foi meu melhor amigo. Eu disse: “Brother, eu não sei se vou jogar. Eu não sei o que está acontecendo. Mas continua vendo TV”.

Aos 18 minutos do segundo tempo, o treinador me colocou em campo.

Eu corri no gramado pelo Anderlecht aos 16 anos e 11 dias.

Perdemos a final naquele dia, mas eu já estava no céu. Eu cumpri a promessa para a minha mãe e para meu avô. Aquele foi o momento em que eu soube que ficaríamos bem.

Na temporada seguinte, eu ainda terminava o meu último ano do colégio e jogava na Liga Europa ao mesmo tempo. Eu precisava levar uma grande mochila para o colégio para poder pegar um voo no fim da tarde. Vencemos a liga com folga. Foi…uma loucura!.

Eu realmente esperava que tudo isso acontecesse, mas talvez não tão rápido. De repente, a imprensa estava crescendo em torno de mim, e colocando todas essas expectativas nas minhas costas. Especialmente com a seleção nacional. Por algum motivo, eu não estava jogando bem pela Bélgica. Não estava funcionando.

Mas, yo – pera lá. Eu tinha 17 anos! 18! 19!

Quando as coisas corriam bem, eu lia os artigos de jornal e eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga.

Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses.

Se você não gosta do jeito como jogo, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Eu cresci na Antuérpia, em Liège e em Bruxelas. Eu sonhava em jogar pelo Anderlecht. Eu sonhava em ser Vincent Kompany. Eu começava uma frase em francês e terminava em holandês, e colocava um pouco de espanhol e português ou lingala, dependendo do bairro em que eu estivesse.

Eu sou belga. Somos todos belgas. É isso que faz este país legal, certo?

Eu não sei por que algumas pessoas do meu próprio país querem que eu fracasse. Eu realmente não entendo. Quando fui para o Chelsea e não estava jogando, eu os ouvi dando risada de mim. Quando fui emprestado para o West Brom, eu os ouvi dando risada de mim.

Mas tudo bem. Essas pessoas não estavam comigo quando colocávamos água no nosso cereal. Se vocês não estavam comigo quando eu não tinha nada, vocês realmente não podem me entender.

Sabe o que é engraçado? Eu perdi dez anos de Champions League quando era criança. A gente não podia pagar. Eu chegava à escola e todas as crianças estavam falando sobre a final e eu não sabia o que havia acontecido. Eu me lembro de 2002, quando o Real Madrid jogou contra o Bayer Leverkusen, e todo mundo falava “aquele voleio! Meu Deus, aquele voleio!”.

E eu tinha que fingir que sabia do que estavam falando.

Duas semanas depois, estávamos sentados na aula de computação, e um dos meus amigos baixou o vídeo da internet, e eu finalmente vi Zidane mandar aquela bola no ângulo com a perna esquerda.

Naquele verão, eu fui para minha casa para assistir ao Ronaldo Fenômeno na final da Copa do Mundo. A história de todo o resto daquele torneio eu ouvi das crianças da escola.

Eu lembro que eu tinha buracos nos meus sapatos em 2002. Grandes buracos.

Doze anos depois, eu estava jogando a Copa do Mundo.

Agora, estou prestes a jogar outra Copa do Mundo e meu irmão está comigo desta vez (o texto foi provavelmente escrito antes da convocação final porque Jordan Lukaku, irmão de Romelu, estava na pré-convocação, mas não chegou à lista final). Duas crianças da mesma casa, da mesma situação, que deram certo. Sabe de uma coisa? Eu vou me lembrar de me divertir dessa vez. A vida é curta demais para estresse e drama. As pessoas podem dizer o que quiserem sobre nosso time, sobre mim.

Cara, escuta – quando éramos crianças, não podíamos pagar para ver Thierry Henry no Match of the Day! Agora, estamos aprendendo com ele todos os dias no time nacional (Henry é auxiliar de Roberto Martínez, técnico da Bélgica). Estou junto com a lenda, em carne e osso, e ele está me dizendo tudo sobre como atacar os espaços como ele costumava fazer. Thierry deve ser o único cara no mundo que vê mais jogos do que eu. Nós debatemos tudo. Estamos sentados e tendo debates sobre a segunda divisão da Alemanha.

“Thierry, você viu o esquema do Fortuna Düsseldorf?”

Ele: “Não seja tonto. Claro que vi”.

Isso é a coisa mais legal do mundo para mim.

Eu apenas realmente, realmente gostaria que meu avô estivesse vivo para ver isso.

Não estou falando da Premier League.

Nem do Manchester United.

Nem da Champions League.

Nem da Copa do Mundo.

Não é disso que estou falando. Eu apenas queria que ele estivesse vivo para ver a vida que temos agora. Eu gostaria de ter mais uma conversa com ele por telefone, para poder dizer para ele…

“Viu? Eu disse para você. Sua filha está bem. Não há mais ratos no nosso apartamento. Ninguém mais dorme no chão. Não há mais estresse. Estamos bem agora. Estamos bem.

…Eles não precisam mais checar nossos documentos. Eles conhecem nosso nome”.

Sabe o que gera engajamento? Humor

A palavra de lei do brasil é: a zoeira never ends. Seguir nesse caminho requer destreza – e não é para todas as empresas – mas pode gerar ótimos resultados

Jorge Albuquerque, Administradores.com

Se você não é bombardeado por mensagens, vídeos e gifs engraçados, inúmeras vezes ao dia, você certamente está morando fora do país e não interage conosco. Você pode até pensar que isso é novidade, coisa da geração atual e tudo mais, entretanto, ao meu ver, só está agora nos meios digitais o que o brasileiro sempre foi: uma pessoa divertida.

Essa “pegada” da comicidade está tão forte e enraizada que começou a chegar até nossas empresas. Elas agora utilizam memes, fazem referência à cultura pop e possuem informalidade na comunicação. Isso tudo, provavelmente, graças a uma percepção de dados de mercado, enxergando grande potencial nas novas formas de humor desenvolvidas pelas redes sociais.

Você acha que essas empresas fazem isso apenas por comodismo ou achar engraçado? Funcionários “normais” até que poderiam fazer por esses motivos, mas essas ações vêm da diretoria e visam apenas uma coisa: lucro. A comicidade, entretenimento e informalidade trazem engajamento dos usuários e repercussões na mídia.

Palavras como repercussão, impacto e engajamento estão sempre atreladas ao conceito de SEO, termo em inglês para Search Engine Optimization. Em português significa otimização para mecanismos de busca.

Aliado a uma tendência mundial da informalidade, downsizing, startups, jovens irreverentes, além de boa parte das maiores empresas do mundo seguirem essa linha (como Facebook, Google e Netflix), criamos um mercado, pelo menos a nível B2C, bastante dinâmico e engraçado.

Acredito que, junto ao humor, conteúdos sobre conflitos (notícias, fofocas, problemas) e celebridades (atores, atletas, blogueiros) fazem um tripé das maiores buscas, curtidas e compartilhamentos dos tempos atuais. Se existir uma notícia sobre Neymar terminar com Bruna Marquezine e uma foto engraçada, temos certamente uma vaga garantida no Google Trends.

Isso nada mais é do que as empresas surfando na onda dos conteúdos virais. Elas não estão “inventando a roda”, atrelar a imagem de produtos e/ou marcas à astros e celebridades já é uma estratégia batida. O diferente, dessa vez, são duas coisas: ver grandes varejistas, indústrias e empresas sérias “apelando” para a comicidade e a importância que o humor vem tomando à medida que a internet ganha força.

Fazer uma propaganda afirmando a qualidade do seu produto, todos seus benefícios e um preço matador pode não trazer tanto engajamento quanto uma postagem usando um clássico meme com Rodrigo Hilbert e sua perfeição.

O humor e a informalidade trazem as empresas para mais perto de seus usuários. A não ser que você esteja vendendo conteúdos para classe A++ Plus VIP, boa parte da sua comunidade vai entender as suas referências e as repercussões, se a estratégia for bem executada, será bastante positiva.

Antigamente, seriedade era sinônimo de profissionalismo. Padrões, elegância, etiqueta estava atrelado a tudo que era bom, a informalidade sempre remetia a coisas baratas, de uma qualidade normal ou ruim e, em resumo, coisa de empresa pequena. Hoje em dia, não é que houve uma inversão, mas agora propagandas engraçadas e ações de marketing são feitas por empresas bilionárias também!