SOBRE REALEZAS: Lady Di e Charles (OU: O verdadeiro conto fadas) 6

Mais do que o casamento entre Charles e Diana, o verdadeiro conto da fadas foi a relação extraconjugal do príncipe com a sua amante Camila. Não é fácil, imagino eu, trocar uma bela e jovem loira por uma velha sem graça e que foge completamente aos padrões de beleza

Permitam, meus caros leitores, sair um pouco do enfadonha pauta da política e comentar sobre um assunto que ganhou a mídia internacional nos últimos dias, qual seja a família real britânica a partir do casamento do príncipe Harry e a americana Meghan Markle.

Porém, não é especificamente sobre o casamento dos pombinhos reais Herry e Meghan  que vou tratar nestas mal traçadas linhas, mas sobre o relacionamento entre o pai de Herry, o príncipe Charles, e sua mãe, a legendária princesa da Diana.

Saio em defesa de Charles. E digo o porquê.

A princesa Diana virou um mito. Linda, carismática, humilde e dedicada às causas que dão sentido à vida, Lady Di conquistou o mundo com a sua simplicidade. Particularmente, sou fã da finada princesa.

Porém, vejo muita injustiça no que a mídia fez e faz com o herdeiro do trono da monarquia britânica, o príncipe Charles. É que santificaram a princesa e demonizaram o príncipe.

E para não parecer que seja machismo da minha parte, cito trechos de um texto da saudosa Heloneida Studart, mulher e feminista, que escreveu um dos mais belos artigos sobre relação de amor. Acompanhe. Volto em seguida.

Não me interesso por reis, nem os do baralho.

Mas como me interesso pelo amor e, principalmente, por histórias de amor, não pude evitar o envolvimento diante do final feliz da saga amorosa do príncipe Charles, herdeiro do trono da Inglaterra e daquela senhora de meia-idade, Camila Parker sua eterna namorada.

Trinta e quatro anos de dificuldades de toda ordem, imposições da família real, intrometimentos da igreja, casamentos com pessoas diferentes, cerimônias espetaculares (o casamento com Lady Di foi um dos eventos de maior pompa que o mundo já viu), e o amor dos dois lá, brilhando como a luz do sol.

O romance do feio e desengonçado filho da rainha Elizabeth com a feiosa Camila tinha fortes raízes eróticas, como mostrou o telefonema gravado de um diálogo entre os dois (“eu queria ser um tampax”).

Não valeu o tempo, não importaram as rugas e as pelancas.
O mundo inteiro, convertido aos mitos de beleza da juventude, torceu para que ele amasse a formosa Diana.

No entanto, o príncipe desengonçado só amou a sua bruxinha, com aquela cara amassada e cheia de marcas.

Camila Parker é uma vitória do amor sobre os estereótipos de nosso tempo.

Comigo de novo
Relações a dois nem sempre é como parece nos retratos ou, para ser mais moderno, nos selfies.

Esse caso do príncipe Charles e Diana – e a Camila “comendo e sendo comida por fora” – mostra que nem sempre os esteriótipos convencionais prevalecem.

Mais do que o casamento entre Charles e Diana, o verdadeiro conto da fadas foi a relação extraconjugal do príncipe com a sua amante Camila. Não é fácil, imagino eu, trocar uma bela e jovem loira por uma velha sem graça e que foge completamente aos padrões de beleza.

Mas, quem sabe da gente é a gente. No caso específico, quem sabe do Charles é o Charles!

A princesa Diana já não está mais entre nós. Morreu tragicamente junto com o seu amante, o bilionário Dodi al Fayed. Provavelmente estava feliz ao ter se “libertado” dos protocolos da realeza britânica.

Entre trocas de “chifres reais”, tanto Diana quanto Charles ao final foram felizes, pois souberam e tiveram a coragem de reconhecer que a falência do amor que sentiam um pelo outro era um fato.

Enfim, o príncipe ainda está vivo. Deve herdar o trono da monarquia e reinar a Grã-Bretanha por alguns anos.

Ao lado da mulher que sempre amou.

Isso sim é um conto de fadas!

Facebook tenta restringir difusão de notícias falsas com agências de checagem

Ainda que paliativa, medida é bem-vinda, como um remédio antitérmico em dias de gripe

Joel Pinheiro da Fonseca, via Estadão

Pabllo Vittar recebe R$ 5 milhões via Lei Rouanet para estrelar programa infantil na Globo. Filho do Lula é dono da Friboi. Bolsonaro tem mandado de prisão por crime de racismo. Dilma tentou se matar. Aécio é investigado por tráfico de drogas. Marielle Franco foi casada com traficante e eleita pelo Comando Vermelho.

As afirmações acima são notícias falsas, frutos grotescos da falta de escrúpulos e da facilidade com que manchetes bombásticas se difundem nas redes sociais. Todas elas foram amplamente compartilhadas e visam a algum efeito político. Se a informação tem qualquer efeito sobre a sociedade, então o aumento na difusão de mentiras como essas é preocupante.

Restringir a difusão de notícias falsas; é isso que o Facebook tenta fazer ao fechar parceria com agências de checagem de fatos ao redor do mundo (no Brasil, a Aos Fatos e a Lupa).

Leitores submetem notícias à avaliação das agências e, se elas forem julgadas falsas, terão sua distribuição reduzida pelo algoritmo que determina a quantas pessoas cada conteúdo chega. Seria ótimo se todos tivessem senso crítico e tempo para checar notícias por conta própria. Dado que não têm, o trabalho de agências de checagem tem valor.

Por isso sou, em princípio, favorável à medida tomada pelo Facebook, embora considere legítimo o temor de que a rede social sucumba à censura ideológica. As agências terão de demonstrar sua imparcialidade e objetividade.

Uma parte já fazem: ambas são membros credenciados da International Fact-Checking Network, que avalia agências do mundo inteiro, segundo critérios bastante sensatos —por exemplo, transparência e abertura a correções— e cujos relatórios estão disponíveis online. Outro elemento para garantir objetividade é ter, em seus quadros, diversidade ideológica. Por falharem nisso, atraíram críticas fáceis.

A reação furiosa das últimas semanas, que inclui hostilizar os jornalistas que compõem agências de checagem, contudo, não parte da defesa da liberdade de expressão. É a reação de grupos que dependem da circulação de notícias falsas para repercutir sua mensagem e aumentar sua popularidade.

Seja como for, para reduzir o risco de censura, penso que as agências devem reservar sua condenação apenas para falsidades gritantes como as mencionadas no primeiro parágrafo, deixando imprecisões e afirmações controversas (“a Previdência é deficitária”; “mais armas, menos crimes”; “foi golpe”) abertas à livre circulação, ainda que sejam falsas.

Acertos e erros são parte do debate público. Limpar o lixo incontroverso que entulha as redes já será um bom serviço.

A checagem profissional não é panaceia. Ela não elimina a necessidade de cada um formar seu próprio senso crítico. Afinal, os checadores também erram, pelo que podem e devem ser corrigidos.

Além disso, ela é incapaz de ir às causas do problema das notícias falsas, que não estão tanto nas notícias em si, mas na disposição de milhões de pessoas de engolir mentiras tão facilmente, desde que confirmem suas convicções e ódios. Ainda que paliativa, é bem-vinda; como um remédio antitérmico em dias de gripe.

Com a radicalização crescente, manter uma plataforma de comunicação livre e descentralizada enquanto se combate a boataria profissional é do interesse de todos os cidadãos honestos.

Joel Pinheiro da Fonseca
É economista pelo Insper, mestre em filosofia pela USP e palestrante do movimento liberal brasileiro.

Neurótico só tem um problema, saudáveis têm vários; entenda por quê

Afinal, qual é o problema do neurótico?

Por Luís César Ebraico, via Via Estelar

Mais de uma vez recebi pacientes perturbados por ‘previsões’ de astrólogos incapazes de processar de maneira adequada as informações com que trabalham.

Recentemente, tive que lidar com a compreensível preocupação de uma mãe a quem foi dito, com base na análise do mapa astrológico de seu filho, que ela ou ele tinha que sair de casa, porque um dos dois iria matar o outro! Casos como esse levaram-me a ministrar, em um curso de formação de astrólogos, uma cadeira com o título de “Cuidados na Transmissão da Informação Astrológica”. Assisti a algumas cadeiras ministradas nesse curso e, numa delas, ouvi um diálogo inesquecível:

Neurótico tem um só problema, os saudáveis têm vários

PROFESSOR (logo no início da aula): – O neurótico tem um problema, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

ALUNA (passados já uns quarenta minutos do início da aula): – Mas, professor, afinal das contas, qual o problema que tem o neurótico?

PROFESSOR: – Não, minha filha, você não entendeu. O neurótico tem UM problema, as pessoas saudáveis têm vários…

Raramente eu tinha ouvido um comentário que recobrisse de maneira tão perfeita minha experiência clínica. Com efeito, quanto mais neurótica, mais a pessoa é escrava de UM problema, que ocupa tal espaço em sua vida que os demais problemas deixam de receber a atenção que merecem. Uma paciente, por exemplo, vem a uma primeira sessão e diz que se sente extremamente rejeitada porque não agüenta o fato de que seu ex-marido, mal separou-se dela, já tenha iniciado uma relação estável com outra pessoa, relação que, desconfia ela, talvez já até existisse mesmo antes da separação; vem a uma segunda sessão e diz que que se sente extremamente rejeitada porque não consegue suportar o fato de seu ex-marido, mal separou-se dela, já tenha iniciado uma relação estável com outra pessoa, relação que, desconfia ela, talvez já até existisse mesmo antes da separação; vem a uma terceira sessão e fala que se sente extremamente rejeitada porque é realmente inadmissível que seu ex-marido, mal separou-se dela, já tenha iniciado uma relação estável com outra pessoa, relação que, desconfia ela, talvez já até existisse mesmo antes da separação; vem a uma quarta sessão…

Pois é, o professor de astrologia tinha razão: a pessoa neurótica tem UM problema, as pessoas saudáveis têm vários. Se, um belo dia, essa paciente esquece como se sentiu rejeitada pelo marido e chega dizendo que se sentiu rejeitada pela irmã, já acho que está melhorando; se diz que tem a impressão de que talvez ela paciente rejeite o síndico de seu prédio, está melhor ainda; se diz que talvez tenha inveja de uma amiga, ainda melhor; se raiva de seu dentista, também. Daqui a pouco, vai ter tantos problemas quanto qualquer pessoa saudável.

Não é curioso que minha função, como psicoterapeuta, seja a de AUMENTAR o número de problemas das pessoas?

Eduardo Yabusaki – Psicólogo e Sexólogo Especializado em Terapia Comportamental Cognitiva, Terapia de Casal e Terapia Sexual. Coordenador do Curso de Sexologia Clínica ministrado em diferentes cidades há mais de 15 anos. Docente convidado do Curso de Fromação em Sexologia Clínica de BH. Responsável pelo www.vidadecasalbh.com.br

Como ter conversas mais significativas? 2

Um bom diálogo envolve mais habilidades do que apenas falar e ouvir. É também saber lidar com os silêncios, compreender o ponto de vista do outro, perceber o que é dito nas entrelinhas. Estabelecer uma conversa, afinal, é algo que podemos aprender com o tempo, a prática e a disponibilidade para interagir com quem está ao redor

Um bom diálogo envolve mais habilidades do que apenas falar e ouvir | Crédito: Shutterstock.

Mônica Barroso, via Vida Simples

Mais do que nunca, as conversas têm despertado minha curiosidade e atenção, tanto na vida pessoal como profissional. Ainda mais depois de me deparar com a declaração do poeta inglês David Whyte, de que conversas verdadeiras são uma questão de vida ou morte. Como assim? Uma simples conversa teria mesmo todo esse poder?
Pessoalmente experimentei alguns saltos qualitativos ao reformular as questões que fazia em casa. Depois de muito tempo recebendo respostas monossilábicas dos meus filhos sobre o seu dia na escola, resolvi experimentar mudar a pergunta. Em vez do tradicional “Como foi a escola hoje?”, alterei para “Qual a coisa mais legal que aconteceu na escola hoje?”, e isso fez toda a diferença. As respostas vieram em forma de grandes pequenas aventuras, relatos sobre novidades, descobertas, aprendizados. Havia vida ali. E foi aí que percebi o quanto estava perdendo até então, por pura falta de curiosidade e ousadia — de simplesmente mudar a pergunta.
Na vida profissional, quando um cliente de coaching diz algo e em seguida fala que nunca tinha dito aquilo antes, sinto que um novo campo de conexão se formou entre nós, e que um canal se abriu dentro de seu coração. Um processo criativo aconteceu, dando espaço para o novo surgir. Uma comunicação profunda e honesta de coração a coração. De novo, há vida pulsante nessa troca.

Nas duas situações, grande parte do mérito é das perguntas, as respostas sendo mera consequência. Boas conversas são feitas de boas perguntas, mas, na ânsia pelo que virá depois, muitas vezes deixamos de nos dedicar à formulação dessas questões, que contêm a genialidade das respostas que tanto buscamos. E então deixamos de ouvir, pois estamos sempre formulando na nossa mente a resposta que devemos dar em seguida. Mas o que foi dito mesmo? E no lugar de um diálogo acontece um amontoado de argumentos, apenas fragmentos de ideias. Quem nunca se pegou numa situação assim?

O segredo que fui descobrindo ao me formar como coach e facilitadora é que não há uma lista-padrão de perguntas poderosas à nossa disposição, mas que as mais potentes de todas estão no outro. Confiar nisso requer saber escutar profundamente, e o mais difícil é sustentar momentos de silêncio, que são uma verdadeira mina de ouro de insights e conexões. O filósofo grego estoico Epicteto já dizia há mais de 2 mil anos: “Temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir duas vezes mais do que falamos”. Por trás dessa capacidade de escutar está outra habilidade, a curiosidade. Ela nos faz investigar a ponto de irmos além do que conseguimos enxergar a olho nu. A pergunta do bom curioso é “O que mais?”. O fato é que para chegarmos às boas perguntas é preciso sermos bons ouvintes, curiosos e presentes.

Para Sócrates, o filósofo grego que pode ser considerado o inventor da conversa no mundo ocidental, a conversa era um processo em que a dança das ideias podia ajudar as pessoas a se aproximarem de sua própria verdade pessoal. Na The School of Life, por exemplo, acreditamos que conversas baseadas em boas perguntas podem de fato nos levar a um patamar mais profundo de entendimento sobre o outro e sobre nós mesmos. E é exatamente isso o que vemos acontecer a cada jantar, café da manhã ou happy hour de conversas que organizamos. Como num passe de mágica as mesmas pessoas que chegam comentando sobre o tempo, a dificuldade em estacionar o carro ou sobre o trânsito congestionado saem falando sobre seus medos e ambições.

Durante minha investigação encontrei o significado original da palavra diálogo (do grego dia-logos, “fluxo de significado”). Aqui não se trata de concordar ou discordar, mas de se permitir visualizar o todo a partir das partes. Achei bonita essa ideia de os diferentes significados, ou perspectivas, fluírem de um lado para outro, sem interrupções ou prejulgamentos, até se formarem novos e inéditos significados. Ou, como disse o historiador Theodore Zeldin, “a conversa não embaralha as cartas apenas: ela cria novas cartas…”. Zeldin encara a conversa como uma experiência, e nos dá ideias de como romper os silêncios aos quais somos submetidos por convenções sociais ou familiares.

Um exemplo é convidar estranhos para se juntarem à mesa. Conversar fazendo algo prazeroso também pode permitir que nosso diálogo tome rumos inesperados. Há alguns anos, por exemplo, experimentei isso ao participar de um grupo de tricô com mães do jardim de infância de meus filhos e vivenciei momentos importantes de reflexões e revelações. Bolar projetos que provoquem conversas mais profundas também pode abrir canais que jamais surgiriam no dia a dia, como por exemplo entrevistar pais e avós sobre suas lições de vida.

Sem máscaras
Tudo isso parece fascinante, mas não posso deixar de revelar o outro lado da moeda. As conversas só cumprirão o seu verdadeiro papel de conexão quando ousarmos tirar nossas máscaras, que ao mesmo tempo que nos protegem também fazem o mesmo com os outros. Como disse Brené Brown, especialista americana em empatia e compaixão, é na vulnerabilidade que surge a conexão. Sair do diálogo superficial rumo a uma troca mais profunda é um ato de coragem, pois isso significa pisar fora da nossa zona de conforto — levando o outro junto com a gente. E, já que falamos sobre empatia, boas conversas podem, sim, nos tornar mais empáticos, pois é um meio pelo qual podemos enxergar além dos rótulos que usamos para identificar as pessoas. Escutar à procura de indícios de que ele/ela quer falar sobre determinado assunto e lhe dar a oportunidade, sem impor a nossa agenda. Esse exercício vai nos permitir algo muito difícil e necessário, que é dialogar com aqueles com quem não concordamos.

Também não podemos ignorar os efeitos da revolução da comunicação e da tecnologia sobre nossas conversas, e vale ficarmos atentos para que a TV, os videogames ou as redes sociais não substituam a experiência direta do mundo por versões secundárias e mediadas de experiência. É claro que as mídias digitais facilitam e expandem a comunicação, e agradeço a elas por permitirem, por exemplo, um contato antes inimaginável de meus filhos com seus avós, que moram na Suíça. A questão não é essa, mas sim o quanto essas milhares de mensagens que trocamos são trocas enriquecedoras, profundas e interessantes.

As conversas são como peças de artesanato, nunca haverá duas iguais, são sempre o resultado de um encontro único entre a matéria e as mãos do artesão. Sejamos, então, todos artesãos desse fluxo de significado. A vida agradece!

Mônica Barroso é professora, coach e curadora de programas da The School of Life no Brasil, onde dá aulas sobre Como Encontrar um Trabalho Que Você Ame, Como Pensar com a Mente de um Empreendedor, entre outras. Recentemente, Mônica se descobriu como uma facilitadora de boas conversas.

 

Matemática

A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana. A aritmética dos gulags e dos expurgos stalinistas se justificava pelo ideal comunista

por Luis Fernando Verissimo, via Estado de S. Paulo

O presidente Abraham Lincoln escolheu o general Ulysses S. Grant para liderar as forças do Norte na Guerra Civil americana porque Grant, segundo Lincoln, não tinha medo da matemática.

Além de ser um reconhecido estrategista, Grant não hesitava em ordenar ataques frontais ao inimigo sabendo que a contagem de baixas seria horrorosa. A tétrica aritmética da Guerra Civil americana só seria superada pela da Grande Guerra de 1914, quando milhares de vidas podiam ser sacrificadas num só dia por nada – como na batalha do Somme, em que 50 mil soldados ingleses morreram avançando contra fogo alemão sem que um metro de terreno fosse conquistado. Na verdade, mais de três milhões de seres humanos foram sacrificados nos três anos da Primeira Guerra Mundial sem que a frente de batalha se movesse, para um lado ou para o outro, mais de algumas milhas. Nos dois lados havia generais dispostos a enfrentar a aritmética. Durante três anos, generais, governantes, políticos, intelectuais, imprensa e povo dos dois lados conviveram, patrioticamente, com a aritmética. Justificando-a ou – o mais cômodo, pelo menos para quem não estava numa trincheira – ignorando-a.

A Guerra de 14 foi um exemplo extremo de estupidez militar e civil e até hoje historiadores discutem as causas reais de tamanha insensatez coletiva. Mas ela teve seus justificadores. Era a Europa liberal resistindo ao militarismo alemão. A Guerra Civil americana também tinha tido, pelo menos na superfície, a justificativa nobre da abolição da escravatura. A aritmética do terror aéreo que a Alemanha lançou na outra grande guerra, a Segundona, depois de ensaiá-lo na Espanha, teve por trás o sonho pan-germânico de Hitler, que só virou coisa de louco porque ele perdeu. A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana. A aritmética dos bombardeios gratuitos de Dresden e de Hiroshima e Nagasaki se justificava como castigo para quem tinha começado a guerra. A aritmética dos gulags e dos expurgos stalinistas se justificava pelo ideal comunista. A aritmética do terrorista suicida palestino se justifica por uma causa, a aritmética da represália israelense se justifica por outra. E há tantas maneiras de ignorar a aritmética como há de defendê-la, ou exaltá-la como uma virtude militar, como Lincoln fez com Grant.

No Brasil convivemos com a desigualdade e com um exército de excluídos que não são menos vítimas de um descaso histórico por serem um genocídio distraído, com o qual nos acostumamos. Mas a matemática do descaso histórico nos bate na cara todos os dias.

Atenção pais: suas palavras têm muita força no desenvolvimento psíquico dos seus filhos

Princípios: pais devem ser firmes e coerentes

Fonte: imagem Pixabay.

Por Roberto Shinyashiki, via Vya Estelar

Num mundo de tantas mudanças, pressões, cobranças de resultados, precisamos respeitar nossos princípios. Nossos valores devem ser sólidos e não podem ficar abalados por nenhum dinheiro deste mundo. E os princípios exigem clareza e coerência.

As pessoas que têm princípios ambíguos e flexíveis acabam fragilizando sua dignidade.

É muito importante que mãe e pai mostrem seus princípios ao filho. Os pais que constantemente, e na prática, valorizam a honestidade, a lealdade, o respeito ao próximo, o sucesso através do trabalho dão aos filhos a certeza de que vale a pena cultivar essas qualidades.

No que diz respeito a esses valores, os pais devem ser firmes e coerentes. Mostre que a verdade sempre deve prevalecer sobre a mentira, que a justiça deve contrapor-se à mentalidade que prega a vantagem a qualquer preço. Todas as vezes em que os filhos (de qualquer idade) se mostrarem flexíveis quanto aos princípios, os pais devem conversar sobre o tema para demonstrar a necessidade da adesão total a esses princípios.

Por que dizer a verdade e rejeitar a mentira? Porque a pessoa que mente se enfraquece, cria laços com a angústia, com a ansiedade, com a insegurança e se torna vacilante no seu caminho de desenvolvimento humano. Educar com princípios é argumentar para que o filho entenda a razão pela qual precisa abraçar os valores.

Toda conversa entre pais e filhos deve se basear na busca de um sentido para a vida. Você já pensou na força das palavras dos seus pais? Você já percebeu que tem 30, 40 ou 50 anos de idade e até hoje escuta na consciência a voz dos seus pais? Por isso, tenha também consciência de que suas palavras e orientações são decisivas na vida de seus filhos. Eles jamais esquecerão o que você lhes disser.

Às vezes os pais mentem por coisas muito pequenas que, aparentemente, não fazem grande diferença. E essas pequenas mentiras acabam fazendo um grande estrago na vida de uma pessoa. É fundamental percebermos como esses detalhes influenciam a educação dos filhos, mesmo que naquele minuto a mentira parecesse ser a saída mais fácil. Os pais devem ter bem claro que tudo o que dizem e fazem repercutirá para sempre na vida dos filhos.

As pessoas estão buscando a vitória a qualquer custo, e isso inclui passar por cima dos outros. Não podemos abrir mão dos princípios da honestidade e confundir a vitória com o sucesso nem a derrota com o fracasso. Na vida de uma pessoa de sucesso também acontecem derrotas. Na vida de uma pessoa que fracassa há também muitas vitórias. E precisamos entender que uma derrota pode nos ajudar a aprender mais sobre nós mesmos, sobre a vida, e com isso crescer para, no futuro, conquistar uma grande vitória.

Querer uma vitória agora e, para atingi-la, agir de maneira antiética e desonesta é, além disso, totalmente inútil. Chegará o dia em que a verdade prevalecerá e aquela falsa vitória se tornará uma grande derrota.

Quando converso com os atletas que oriento, digo-lhes sempre: “Vamos procurar vencer sempre, mas não de qualquer jeito”. Vencer de qualquer jeito causa nas pessoas a percepção de que a vitória não foi delas, mas fruto da trapaça, da enganação. Não foi o atleta que venceu, mas sua falta de honestidade. Conseqüência: será um eterno frustrado.

Uma vitória real e permanente só é possível quando construímos uma vida sobre bases sólidas.

Nossos filhos precisam desse exemplo.

Rede social do bem

Crowdfunding no site do projeto busca oferecer rede social mais segura e humana Vida Simples Digital

Dupla cria rede social do bem | Crédito: Divulgação

Via,Vida Simples Digital

Insatisfeitos com a grande quantidade de anúncios e a superficialidade das relações nas redes sociais, dois jovens de São Paulo decidiram projetar uma nova rede social que protege o tempo e os dados dos usuários. Sem propagandas e com feeds específicos para cada assunto, a COOLTZ promete promover temas como esporte, cultura, ativismo e arte.

A ideia nasceu a partir de estudos e notícias sobre o aumento de depressão e ansiedade em usuários de redes sociais. Foi então que Matheus Finardi, aluno de Medicina na USP, começou a pensar que algo não estava certo. “As redes sociais e a internet têm um potencial de aproximar e conectar pessoas como nenhum outro meio de comunicação na história, mas o resultado está sendo o contrário: estamos cada vez mais inseguros, alienados e isolados”, acredita. Para aliviar essa situação, ele se uniu a André Medeiros, programador e ex-aluno da USP e, juntos, conceberam uma rede social na qual as postagens são divididas por assunto. Dessa forma, a pessoa não perde tempo com postagens que não são interessantes para si e pode compartilhar sobre suas paixões de forma mais profunda, para quem realmente gosta.

As interações também serão mais humanas: o “like” será substituído por comentários, avaliações e compartilhamentos. Para deixar o uso gratuito sem precisar vender dados dos usuários para anunciantes, eles pretendem disponibilizar assinaturas (a um preço justo) para quem desejar  usar funções premium. Mas para que a COOLTZ vire realidade, a dupla precisa de ajuda. Até o final de abril, está aberto um crowdfunding solidário no site do projeto para arrecadar 35 mil reais, que serão usados para contratar programadores e lançar a versão Beta daqui a alguns meses. 10% de cada doação serão destinados a entidades filantrópicas, como Artemis , Instituto ADUS , Casa Um e Sonhar Acordado .

Polarização da sociedade gera comportamentos coletivos irracionais marcados pelo ódio

Psicólogo social afirma que redes sociais estimulam reações em grupo pouco fundamentadas e muito apaixonadas

Redação Vya Estelar

A situação política do Brasil nos últimos anos tem resultado na polarização da sociedade e em uma crise de representatividade generalizada.

Os sentimentos disseminados de indignação e desesperança contagiam os indivíduos, que passam a se comportar de forma coletiva, muitas vezes movidos exclusivamente por suas paixões, gerando acirrados confrontos. A opinião é de Antonio Euzébios Filho, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP.

O professor explica que as redes sociais e seu caráter impessoal reforçam essa tendência ao tratar de temas complexos, como é a política, de forma rasa ou mesmo através de notícias falsas.

Opiniões desenvolvidas a partir de conteúdos desse tipo tendem a fomentar um comportamento irracional dos grupos, marcado pelo ódio e pela tentativa de anulação do outro.

O assassinato da vereadora Marielle Franco, que parecia ser motivo para comoção geral, gerou sérios desgastes. O caso é um exemplo dessa tentativa de se anular não só o indivíduo, mas uma proposta política alternativa, o que, para Antonio Euzébios, representa ódio de classe, acima de tudo.

Apesar do cenário de confusão ideológica observado hoje no Brasil e no mundo, o professor insiste em que a saída para esse problema passa pela elaboração de um projeto coletivo que rompa com tudo aquilo que é negativo para o País.

O incitamento ao individualismo precisa ser combatido. É injusta a responsabilização do indivíduo por problemas derivados de um sistema falido. Sendo assim, só a coletividade e a clareza em torno de um projeto político que rompa com o que está colocado, serão capazes de fazer com que nossa democracia amadureça, finaliza.

O que eu aprendi sobre amor-próprio 2

Quando começamos a valorizar aquilo que somos, transformamos a nossa relação conosco e com o outro. E a vida ganha muito mais cor e alegria

Desenvolver amor-próprio tem a ver com olhar para si com mais generosidade | Crédito: Shutterstock

Tainá Goulart, via Vida Simples

“Gorda, baleia, saco de areia”, “Você é alta demais”, “Que cabelo estranho”, “Você vai usar essa roupa?! Não é melhor trocar?”, “Volta para o mar, Free Willy”… Essas eram algumas das tantas frases que me acompanharam ao longo da infância, adolescência e começo da vida adulta. Quando estava nas primeiras séries do colégio, eu era muito gorda. E sofria algo que na época não tinha nome, o bullying. Me lembro de nunca poder ter sido a Ranger Rosa, sonho de toda garota que assistia a Power Rangers. “Por acaso a Ranger Rosa é gorda assim como você? Não pode… Você vai ser um dos monstros que nos atacam”, diziam os meus colegas no intervalo da escola. Eu me sentia péssima, como se não houvesse mesmo um lugar para eu estar. Minha falta de amor-próprio também me levou a me tornar insegura com os garotos, e na adolescência tive um relacionamento muito abusivo. Meu então namorado me olhava e me dizia para trocar de óculos, pois os meus eram esquisitos demais, me falava para trocar de roupa, pois para ele eu não podia me vestir da forma como eu queria. E minhas respostas eram sempre “sim”. Afinal, ele era o único cara com quem eu, daquele jeito, seria capaz de namorar.

Na faculdade, me envergonhava ao passar perto das salas de engenharia, majoritariamente ocupadas por homens. Inconscientemente, o que eu sentia era que eu não era digna de estar ali, não estava dentro do padrão, não era bonita o suficiente para ser observada. Assim como muitas roupas e lugares também não eram para mim. Nem o biquíni, nem a praia. Acho que carreguei minha falta de amor-próprio por todos os lugares. No trabalho, uma das minhas chefes me causava calafrios, taquicardia e mãos suadas todas as vezes em que saía do elevador e entrava na redação. Era o início da minha carreira profissional, mas eu nunca pude ver que errar fazia parte desse começo e estava tudo bem. Então não confiava em mim. Achava sempre que nunca acertaria um texto, que nunca estaria bom o bastante, que aquela chefe nunca iria, finalmente, elogiar uma matéria minha. Quantas loucuras minha própria mente criou…

Hora de olhar para mim

Mas teve um momento em que decidi que não dava mais para viver naquela espiral da falta de amor-próprio e insegurança, que inclusive me trazia momentos de muita ansiedade. Eu tinha 24 anos, e então comecei a buscar ajuda para sair daquele buraco negro no qual eu estava por tantos anos da minha vida. Depois de conhecer alguns especialistas, encontrei uma terapeuta que, depois de algumas sessões, apelidei de “Mestre dos Magos”. A Daphne foi me ajudando a ver que eu mesma precisava achar o caminho. Aos poucos, fomos aprendendo a ver o que estava por trás dessa falta de segurança e quais eram os motivos que apertavam o gatilho para as crises de ansiedade.

E constantemente ela mostrava como eu ainda repetia esses meus padrões.
Mudar nem sempre é fácil; sair daquilo que estávamos acostumados a viver dá um trabalhão. Acho que um dos ensinamentos mais importantes que aprendi é estar no aqui e no agora. No momento presente. E por isso até tatuei essa frase no braço esquerdo. Para me manter neste presente durante uma crise de ansiedade, criei uma estratégia: passei a descrever o ambiente ao meu redor, detalhe por detalhe. As cores dos objetos, suas formas e tamanhos. Quando me dei conta, eu já não sentia mais calafrios quando a porta do elevador se abria e minha chefe chegava. E logo eu estava ali, na mesa dela, defendendo o trabalho que eu havia feito. Fui entendendo o meu lugar no mundo, fui olhando para mim como uma pessoa digna e capaz de fazer o que eu havia me proposto.

E que não podia mais permitir que alguém tentasse tirar aquilo de mim.
Mas ainda havia o quesito relacionamento amoroso, que, claro, envolvia o tal do amor-próprio. Bem, conheci um cara que mexeu muito com meus sentimentos. Ele se tornou uma obsessão na minha cabeça. Acho que a Daphne nunca chamou tanto a minha atenção para os meus padrões como nessa época. Eu não me olhava com amor, não acreditava em mim como mulher e profissional, e queria que ele me amasse. Como seria possível estar bem com alguém sem antes estar bem comigo mesma? Resultado: voltei às minhas crises de ansiedade. Não conseguia nem dormir sem pensar nele, sem querer mandar uma mensagem para dizer que eu estava ali, disponível. Foi um momento bem ruim, mas vejo que aquele episódio me mostrou o quanto era preciso me observar, enxergar o que ainda tinha que ser transformado em mim. Com paciência e amor, reprogramei a Tainá para viver diferente.

O efeito amor-próprio

Posso me lembrar exatamente quando o amor-próprio começou a fazer efeito em mim. Foi mágico. Eu recebi uma mensagem daquele cara e pensei: “Por que eu estou dando atenção a alguém que só faz eu me sentir mal?”. Naquele momento, uma sensação de liberdade cresceu no meu coração, como quando tomamos um remédio e ele, aos poucos, vai aliviando as nossas dores. Nas semanas seguintes, fui colocando nos meus momentos coisas que eu gostava muito de fazer, preenchendo minha mente com o que dava prazer: o texto que havia me dado trabalho mas que agora ficou incrível, o passeio com as amigas no final de semana… Fui trocando a palavra “complicado” por “desafiador”, e foi incrível como uma faísca de esperança começou a surgir. Logo o fogo se alimentou com minhas ações diárias para melhorar, para me ver como quem eu realmente era: forte, bonita, capaz de ter uma vida feliz.

Das reflexões que surgiam com meu tratamento terapêutico, comecei a compor canções. Eu sempre fui apaixonada pela música, e escrever era uma forma de tirar de mim todos os sentimentos ruins. De alguma forma eu conseguia analisar meus pensamentos, os gatilhos dos velhos padrões e que, com o tempo, foram se tornando versos das minhas letras. Acabei compondo mais de 15 canções, tiradas de momentos de aprendizagem. Agora estou preparando meu primeiro disco. Quem sabe não me torno como Adele, cantando sobre minhas transformações psicológicas?

Hoje, depois de cinco anos de terapia, auto-observação e coragem para sair daquele mundo em que me colocava, sou capaz de me olhar com mais paciência e, principalmente, mais amor. Namoro há quase dois anos e sinto que, se não fosse por essas mudanças que aconteceram dentro de mim, não conseguiria viver esse relacionamento. No ano passado, até coloquei um biquíni na praia, algo inimaginável para a Tainá de antigamente. O padrão das pessoas passou a ser mais um na multidão. Comecei também não só a aceitar mais o meu corpo mas também a cuidar mais dele: me alimento melhor, me exercito e sinto confiança para me vestir da maneira como me sinto bem. “Quem manda nesse barco sou eu”, diz uma estrofe de Bússola, uma das minhas músicas. “Quem manda nesse barco sou eu, quem escolhe o destino sou eu. Quem se joga mar adentro, esse alguém sou eu.” Hoje, sou dona do meu barco. O mar pode estar revolto, mas sei navegar pelas ondas na direção de onde eu quero ir. Entendi que esse crescimento é eterno. As crises podem até voltar, mas agora estou preparada para combatê-las. O que costumo dizer, porque aprendi com a minha própria história, é: não espere se amar de hoje para amanhã. Mas comece a olhar para si de forma diferente a cada dia.

Tainá Goulart é cantora, compositora e jornalista. Vive em busca de evolução, seja individual ou coletiva.