Quase prefeito de SP, Bruno Covas prevê gestão menos liberal que Doria

Tucano diz que prevê um governo social-democrata mais para o de Mario Covas

Ricardo Kotscho, via Folha de São Paulo

Qual era o sonho de menino de Bruno Covas Lopes?

“Eu sempre tive o sonho de ser prefeito de São Paulo.”

Já caiu a ficha?

“Ainda não…”

Ao final da conversa com a Folha em seu gabinete, no horário do almoço, Bruno Covas, 37, o ainda vice-prefeito, saiu para dar uma caminhada no centro de São Paulo. Da sede da prefeitura, no Viaduto do Chá, até a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde se formou.

No caminho, com passos largos e as mãos no bolso, ninguém reconheceu o jovem herdeiro da grife Covas.

Ninguém parou para pedir autógrafo ou fazer selfie com aquele que assumirá a prefeitura no início de abril, quando o titular, João Doria, também do PSDB, deixará o posto após 15 meses para disputar a eleição ao governo de SP.

Bruno vai completar 38 anos bem no dia previsto para sua posse, 7 de abril. Mas não será o prefeito paulistano mais jovem: como ele mesmo lembrou, Jânio Quadros foi prefeito pela primeira vez com apenas 36 anos.

Era uma figura folclórica que todo mundo já conhecia como vereador e chegaria à Presidência em 1960 montado numa vassoura para combater a corrupção. Renunciou oito meses depois.

Este não é o caso do jovem Covas, um típico garotão paulistano de classe média, que mora sozinho, é divorciado e tem um filho de 12 anos, gosta de viajar com os amigos, segue uma dieta rigorosa e vai à academia cinco vezes por semana. Mas ainda parece desconhecido pela maioria dos 12 milhões de habitantes da cidade que vai governar.

Mais alto e mais robusto, careca assumida e de barba bem cuidada, discreto e de fala mansa, em nada o novo prefeito lembra aquele que vai sair, após seguidas promessas de que se manteria no cargo os quatro anos de mandato.

Pelo centro velho paulistano, as pessoas que também andavam apressadas como ele pela Líbero Badaró reparavam apenas no repórter-fotográfico da Folha que o seguia, tentando adivinhar quem era o alvo dos cliques, um caso raro de governante que os governados só irão conhecer direito depois da posse.

Tão rapidamente como saiu, Bruno voltou ao Edifício Matarazzo para uma reunião de emergência com Doria e outros secretários no auge da crise provocada pela discussão da reforma da previdência municipal, que, no dia anterior, havia provocado um quebra-quebra na Câmara Municipal, com servidores feridos por guardas.

Durante a entrevista, a conversa com Bruno Covas tinha sido interrompida apenas uma vez, para atender a um telefonema justamente do ainda prefeito. Doria liga em média cinco vezes por dia para seu vice, que também acumula a Secretaria de Governo, responsável pelas articulações políticas com a Câmara.

Será que o futuro prefeito está muito preocupado com os complexos problemas que vai enfrentar no comando da maior cidade do país?

“Que nada… Assim que é bom! Eu gosto é disso. Não dá para deixar de ser feliz quando se faz o que gosta”, diz, ao voltar para a mesa e continuar contando a sua história.

Fazer o que gosta para Bruno é fazer política, uma arte que ele começou a aprender com 14 anos, quando saiu de Santos, onde nasceu, para morar no Palácio dos Bandeirantes com seu avô, Mario Covas, então governador. Não poderia encontrar escola melhor quem sempre pensou em seguir a carreira política.

VIDA NO PALÁCIO
Bruno estudou no mesmo Colégio Bandeirantes, por onde o avô já tinha passado, e depois foi professor de química. Cursou exatas, pensando em fazer engenharia como o pai, Pedro Lopes, que trabalha no porto de Santos desde 1983, e o avô, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo.

Mas, na fila da inscrição do vestibular, resolveu buscar uma vaga em direito na USP e, depois, ainda cursou economia na PUC paulistana.

“Eu adorava ano de eleição, sempre gostei disso. O avô Mario nada tinha a ver com o político, que tinha fama de bravo. Não me lembro de ter levado uma só bronca dele. Gostava de ir com ele para Brasília quando era senador. Em 1992, quando já estava doente, levou toda a família para a Argentina.”

Bruno só sairia do Palácio dos Bandeirantes quando Mario Covas morreu, em meio ao segundo mandato, em 2001.

Com 24 anos, Bruno se candidatou a vice-prefeito de Santos, na chapa de Raul Christiano. Foi sua primeira e única derrota em eleições. Dois anos depois, já presidente da Juventude do PSDB, elegeu-se deputado estadual, mais tarde federal e foi secretário de Meio Ambiente de Geraldo Alckmin, seu único cargo executivo antes de ser vice de Doria.

Bruno conheceu o empresário João Doria quando esse ajudava como voluntário os trabalhos sociais de sua avó, dona Lila. Nunca foram muito próximos no partido.

Curioso é que, nas prévias do PSDB para a eleição de 2016, o futuro prefeito apoiou o deputado Ricardo Tripoli, e não Doria. Convidado, tornou-se vice a pedido do governador Alckmin, em uma tentativa de unir o partido.

No início do governo, ocupou o importante cargo de secretário das Prefeituras Regionais, de onde saiu dez meses depois, após uma série de atritos com o prefeito e outros auxiliares. Antes responsável pela zeladoria, uma das causas da queda de popularidade de Doria quando ainda queria ser candidato a presidente, o vice passou a acumular a função de articulador político.

“Tivemos divergências de entendimento em relação a algumas questões”, explica Bruno, sem entrar em detalhes. Ele também não quer falar sobre o que vai mudar na prefeitura, se vai manter o secretariado e quais são os seus planos para os quase três anos de mandato que terá pela frente.

Cuidadoso com cada palavra, não queria “sentar na cadeira antes da hora”, lembrando do episódio em que Fernando Henrique Cardoso posou para fotos no gabinete do prefeito poucos dias antes da eleição que perdeu para Jânio Quadros, em 1985. Ao assumir, Jânio desinfetou a cadeira.

COVAS OU DORIA
Diante da pergunta se a população deve esperar um prefeito mais para Mario Covas ou para João Doria, não titubeia e responde na lata.

“Mario Covas. Em função da convivência com ele, sou um social-democrata que entende que o Estado não deve participar de tudo, mas precisa dar atenção máxima a educação, saúde e segurança. Doria tem uma posição mais liberal, mas tudo é relativo.”

Entre os principais projetos de Doria está o programa de privatizações que, entre outros, prevê a passagem para a iniciativa privada de parques, terminais de ônibus, o autódromo de Interlagos e o estádio do Pacaembu.

Bruno lembra dos mutirões para fazer melhorias na periferia em que Mario Covas punha a mão na massa como engenheiro e proibia os assessores de avisarem a imprensa. Bem ao contrário de Doria, que não faz nada sem ser acompanhado de uma equipe de vídeo para alimentar suas redes sociais. Bruno não liga muito para isso e, embora seja afável com jornalistas, não gosta de se expor.

Só se anima mesmo quando fala da dieta que começou a fazer no ano passado, após o susto que levou durante uma viagem ao Marrocos, quando teve uma crise de pedra no rim. “Estava com mais de cem quilos, colesterol a mais de 400, taxa alta de triglicérides, pressão alta, então passei a rever alguns conceitos. Precisava me cuidar, senão não chegaria nem aos 40.”

Após perder 16 quilos, raspar os cabelos e deixar a barba crescer, só não mudou a forma de se vestir, mantendo estilo mais informal. E nega que siga orientação de marqueteiros para assumir uma imagem mais “prefeitável”.

“Não tenho dinheiro para marqueteiro”, brinca, antes de contar os segredos da dieta. No desjejum, chá verde, dez gramas de glutamina, um limão espremido e 20 gotas de própolis. Depois dos exercícios na academia, uma dose de Whey (proteína em pó).

No café da manhã, dois ovos mexidos, suco de abacaxi, limão e gengibre, quatro castanhas do Pará, dez castanhas de caju e 15 amêndoas. No almoço e no jantar, uma proteína (carne, frango ou peixe), salada à vontade, um pouco de legumes e o mínimo de carboidratos. O objetivo principal da dieta é trocar gordura por massa muscular para manter os 84 quilos.

Por enquanto, porém, isso não o ajudou a encontrar a futura primeira-dama. “Estou na praça… Aceitamos inscrições…”, ri dele mesmo. “Nem tenho tempo pra isso.”

DESIGUALDADE
O que mais gosta em São Paulo é do “dinamismo na cidade, ter tudo, as pessoas sempre com pressa para fazer as coisas, ir atrás da solução dos problemas”. O lugar preferido é “qualquer um onde possa estar com meu filho Tomás. Vou ao Pacaembu com ele ver o jogo do Santos”.

O que mais o desagrada é “a desigualdade social, isso incomoda demais, ver gente dormindo nas ruas. Na praça da Sé e no Pateo do Collegio ainda tem muita gente largada nas calçadas”.

Quem é, afinal, Bruno Covas, em poucas palavras?

“É um sonhador. Acredito muito na política, acredito nas pessoas e na democracia. É um cara feliz.”

Mais cedo do que poderia imaginar, agora ele vai sentar na cadeira que já foi do avô Mario Covas. Nas horas vagas, avisou que vai subir em palanques para apoiar as campanhas de Geraldo Alckmin a presidente e de João Doria a governador. “Eu sou um homem de partido.”

RAIO X
Idade
37 anos

Formação
Graduado em direito pela USP e economia pela PUC-SP

Carreira
Deputado estadual (2007-2010), secretário de Meio Ambiente de Alckmin (2011-2014), deputado federal (2015-2016) e secretário das Prefeituras Regionais de Doria

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