O que eu aprendi sobre amor-próprio 2

Quando começamos a valorizar aquilo que somos, transformamos a nossa relação conosco e com o outro. E a vida ganha muito mais cor e alegria

Desenvolver amor-próprio tem a ver com olhar para si com mais generosidade | Crédito: Shutterstock

Tainá Goulart, via Vida Simples

“Gorda, baleia, saco de areia”, “Você é alta demais”, “Que cabelo estranho”, “Você vai usar essa roupa?! Não é melhor trocar?”, “Volta para o mar, Free Willy”… Essas eram algumas das tantas frases que me acompanharam ao longo da infância, adolescência e começo da vida adulta. Quando estava nas primeiras séries do colégio, eu era muito gorda. E sofria algo que na época não tinha nome, o bullying. Me lembro de nunca poder ter sido a Ranger Rosa, sonho de toda garota que assistia a Power Rangers. “Por acaso a Ranger Rosa é gorda assim como você? Não pode… Você vai ser um dos monstros que nos atacam”, diziam os meus colegas no intervalo da escola. Eu me sentia péssima, como se não houvesse mesmo um lugar para eu estar. Minha falta de amor-próprio também me levou a me tornar insegura com os garotos, e na adolescência tive um relacionamento muito abusivo. Meu então namorado me olhava e me dizia para trocar de óculos, pois os meus eram esquisitos demais, me falava para trocar de roupa, pois para ele eu não podia me vestir da forma como eu queria. E minhas respostas eram sempre “sim”. Afinal, ele era o único cara com quem eu, daquele jeito, seria capaz de namorar.

Na faculdade, me envergonhava ao passar perto das salas de engenharia, majoritariamente ocupadas por homens. Inconscientemente, o que eu sentia era que eu não era digna de estar ali, não estava dentro do padrão, não era bonita o suficiente para ser observada. Assim como muitas roupas e lugares também não eram para mim. Nem o biquíni, nem a praia. Acho que carreguei minha falta de amor-próprio por todos os lugares. No trabalho, uma das minhas chefes me causava calafrios, taquicardia e mãos suadas todas as vezes em que saía do elevador e entrava na redação. Era o início da minha carreira profissional, mas eu nunca pude ver que errar fazia parte desse começo e estava tudo bem. Então não confiava em mim. Achava sempre que nunca acertaria um texto, que nunca estaria bom o bastante, que aquela chefe nunca iria, finalmente, elogiar uma matéria minha. Quantas loucuras minha própria mente criou…

Hora de olhar para mim

Mas teve um momento em que decidi que não dava mais para viver naquela espiral da falta de amor-próprio e insegurança, que inclusive me trazia momentos de muita ansiedade. Eu tinha 24 anos, e então comecei a buscar ajuda para sair daquele buraco negro no qual eu estava por tantos anos da minha vida. Depois de conhecer alguns especialistas, encontrei uma terapeuta que, depois de algumas sessões, apelidei de “Mestre dos Magos”. A Daphne foi me ajudando a ver que eu mesma precisava achar o caminho. Aos poucos, fomos aprendendo a ver o que estava por trás dessa falta de segurança e quais eram os motivos que apertavam o gatilho para as crises de ansiedade.

E constantemente ela mostrava como eu ainda repetia esses meus padrões.
Mudar nem sempre é fácil; sair daquilo que estávamos acostumados a viver dá um trabalhão. Acho que um dos ensinamentos mais importantes que aprendi é estar no aqui e no agora. No momento presente. E por isso até tatuei essa frase no braço esquerdo. Para me manter neste presente durante uma crise de ansiedade, criei uma estratégia: passei a descrever o ambiente ao meu redor, detalhe por detalhe. As cores dos objetos, suas formas e tamanhos. Quando me dei conta, eu já não sentia mais calafrios quando a porta do elevador se abria e minha chefe chegava. E logo eu estava ali, na mesa dela, defendendo o trabalho que eu havia feito. Fui entendendo o meu lugar no mundo, fui olhando para mim como uma pessoa digna e capaz de fazer o que eu havia me proposto.

E que não podia mais permitir que alguém tentasse tirar aquilo de mim.
Mas ainda havia o quesito relacionamento amoroso, que, claro, envolvia o tal do amor-próprio. Bem, conheci um cara que mexeu muito com meus sentimentos. Ele se tornou uma obsessão na minha cabeça. Acho que a Daphne nunca chamou tanto a minha atenção para os meus padrões como nessa época. Eu não me olhava com amor, não acreditava em mim como mulher e profissional, e queria que ele me amasse. Como seria possível estar bem com alguém sem antes estar bem comigo mesma? Resultado: voltei às minhas crises de ansiedade. Não conseguia nem dormir sem pensar nele, sem querer mandar uma mensagem para dizer que eu estava ali, disponível. Foi um momento bem ruim, mas vejo que aquele episódio me mostrou o quanto era preciso me observar, enxergar o que ainda tinha que ser transformado em mim. Com paciência e amor, reprogramei a Tainá para viver diferente.

O efeito amor-próprio

Posso me lembrar exatamente quando o amor-próprio começou a fazer efeito em mim. Foi mágico. Eu recebi uma mensagem daquele cara e pensei: “Por que eu estou dando atenção a alguém que só faz eu me sentir mal?”. Naquele momento, uma sensação de liberdade cresceu no meu coração, como quando tomamos um remédio e ele, aos poucos, vai aliviando as nossas dores. Nas semanas seguintes, fui colocando nos meus momentos coisas que eu gostava muito de fazer, preenchendo minha mente com o que dava prazer: o texto que havia me dado trabalho mas que agora ficou incrível, o passeio com as amigas no final de semana… Fui trocando a palavra “complicado” por “desafiador”, e foi incrível como uma faísca de esperança começou a surgir. Logo o fogo se alimentou com minhas ações diárias para melhorar, para me ver como quem eu realmente era: forte, bonita, capaz de ter uma vida feliz.

Das reflexões que surgiam com meu tratamento terapêutico, comecei a compor canções. Eu sempre fui apaixonada pela música, e escrever era uma forma de tirar de mim todos os sentimentos ruins. De alguma forma eu conseguia analisar meus pensamentos, os gatilhos dos velhos padrões e que, com o tempo, foram se tornando versos das minhas letras. Acabei compondo mais de 15 canções, tiradas de momentos de aprendizagem. Agora estou preparando meu primeiro disco. Quem sabe não me torno como Adele, cantando sobre minhas transformações psicológicas?

Hoje, depois de cinco anos de terapia, auto-observação e coragem para sair daquele mundo em que me colocava, sou capaz de me olhar com mais paciência e, principalmente, mais amor. Namoro há quase dois anos e sinto que, se não fosse por essas mudanças que aconteceram dentro de mim, não conseguiria viver esse relacionamento. No ano passado, até coloquei um biquíni na praia, algo inimaginável para a Tainá de antigamente. O padrão das pessoas passou a ser mais um na multidão. Comecei também não só a aceitar mais o meu corpo mas também a cuidar mais dele: me alimento melhor, me exercito e sinto confiança para me vestir da maneira como me sinto bem. “Quem manda nesse barco sou eu”, diz uma estrofe de Bússola, uma das minhas músicas. “Quem manda nesse barco sou eu, quem escolhe o destino sou eu. Quem se joga mar adentro, esse alguém sou eu.” Hoje, sou dona do meu barco. O mar pode estar revolto, mas sei navegar pelas ondas na direção de onde eu quero ir. Entendi que esse crescimento é eterno. As crises podem até voltar, mas agora estou preparada para combatê-las. O que costumo dizer, porque aprendi com a minha própria história, é: não espere se amar de hoje para amanhã. Mas comece a olhar para si de forma diferente a cada dia.

Tainá Goulart é cantora, compositora e jornalista. Vive em busca de evolução, seja individual ou coletiva.

Um café com: Diogo Antonio Rodriguez- Não acredite em tudo o que lê

Pode parecer exagero, mas não é. Em tempos de compartilhamento fácil da informação isso se faz mais do que necessário

Ana Holanda, via Vida Simples

As redes sociais podem nos aproximar de pessoas que admiramos, que moram longe ou para resgatar antigas amizades. E também costumam ser uma boa fonte de informação desde que você cheque o que lê antes de replicar. Isso mesmo. É cada vez maior a quantidade de notícias falsas, conforme alerta o jornalista e cientista social Diogo Antonio Rodriguez. “As mentiras hoje podem chegar a milhares de pessoas. Vidas podem ser arruinadas por conta de boatos. Pessoas podem ser expostas a humilhações públicas”, alerta. Diogo é criador do Me Explica?, plataforma de jornalismo explicativo, de política a tratamentos médicos. E é defensor da importância de checarmos toda notícia que nos é apresentada de maneira chamativa.

O que é a chamada pós-verdade?
“Pós-verdade” é um termo que entrou na moda. Ele descreve a ideia de um mundo em que mais importante que relatar fatos é ser convincente. Isso aconteceria devido à dificuldade de saber a verdade sobre qualquer assunto. A internet seria a culpada de nos inundar com informações, tornando a verificação de qualquer tipo de verdade impossível.

Como isso surgiu?
Esse termo começou a aparecer na internet de maneira espontânea e se tornou um chavão para falar do mundo em que vivemos. É essencial saber que, de fato, o mundo está repleto de informações e, mais importante, falsas. O fato de existir um termo como pós-verdade mostra que estamos com dificuldade de entender e contextualizar os acontecimentos. Hoje, recebemos diversos materiais pelo celular, muitas vezes vindos de familiares, falando sobre assuntos variados. Na grande maioria das vezes, é impossível saber se a informação é verdadeira. Como estamos muito ocupados, acabamos não pensando muito naquilo e, na dúvida, repassamos o conteúdo. Essa é uma das maneiras pelas quais ajudamos a construir a pós-verdade.

Devemos checar tudo o que lemos?
Pode parecer neurose, mas o ideal seria que checássemos tudo. Como isso é impossível, os jornalistas são, em teoria, os responsáveis por fazer isso. Mas um dos problemas que enfrentamos agora é que, na prática, qualquer um pode publicar o que quiser, seja verdade, seja mentira. Basta ter uma conexão com a internet. E muita gente se aproveita dessa facilidade para manipular a população. Existem indícios disso, no Brasil e no exterior. Um exemplo é a interferência da Rússia nas eleições americanas, um caso que está sendo investigado.

O que podemos fazer para checar minimamente uma informação?
Existem várias técnicas fáceis. Em primeiro lugar, não acredite em conteúdos que chegam sem links. Essa triagem já consegue eliminar uns 60% das notícias falsas. Mesmo que exista um link, olhe com cuidado se ele é mesmo do veículo que diz representar. Diversos sites confundem as pessoas usando nomes de jornais e revistas famosos com pequenas variações para “pegar” os leitores. Quando estiver lendo a matéria original no link, procure ler o texto até o fim. Muita gente usa uma velha técnica do mau jornalismo, o sensacionalismo, para espalhar informações falsas usando uma matéria verdadeira. Quando você lê o texto, não encontra a tal informação ali. Se você não souber se um site é confiável, olhe outras matérias. Veja se ele fala de outros assuntos, se usa manchetes sensacionalistas e catastróficas. Se sim, desconfie. Preste atenção também ao uso de adjetivos. Eles são um sinal de que ou o texto é opinativo, ou está tentando manipular sua opinião. Textos informativos evitam adjetivos.

Quais as consequências de compartilhar inverdades?
Informações falsas podem até matar. Em 2014, no Guarujá (SP), uma página de Facebook espalhou um retrato falado de uma mulher que supostamente usava crianças em rituais de magia negra. Uma mulher foi confundida com o retrato e, apesar de não ter qualquer relação com esse tipo de ritual, foi linchada e morreu. Imagine isso numa escala de milhares de pessoas. Podemos tomar decisões erradas a respeito do nosso voto, podemos acusar pessoas por crimes que elas não cometeram. Especialistas afirmam que Donald Trump se beneficiou de notícias falsas para ganhar a eleição presidencial nos eua, embora não se possa atribuir sua vitória apenas a isso. Outro caso famoso é o do referendo a respeito do Brexit, que também viu uma inundação de dados falsos a respeito da economia britânica, que podem ter induzido muita gente a votar pela saída do Reino Unido da União Europeia.

Que conselho você daria para evitar que as mentiras se propaguem?
Acho que as pessoas deveriam ter mais calma na hora em que recebem algo, principalmente em aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. Devem olhar para aquilo de maneira crítica: “Será que é verdade?”, “Onde posso encontrar uma fonte confiável para checar isso?”. Digo que, geralmente, se algo parece bom demais para ser verdade, geralmente esse algo é mentira. Conteúdos que dizem exatamente aquilo que a gente pensa podem ser armadilhas. Sempre tome cuidado com o que todo mundo diz que é verdade. Muitas vezes, a certeza das pessoas não se baseia em fatos. Todos temos o direito de ter opinião, mas não podemos usar mentiras para confirmar o nosso ponto de vista. Outra coisa importante é sempre procurar ler jornais, revistas, blogs e sites que fazem jornalismo de verdade. Os jornalistas são profissionais treinados e preparados para procurar fatos, confirmá-los, e contá-los a nós. Parece uma coisa fácil de ser feita, mas não é. Leva tempo, custa dinheiro e é necessário ter pessoas que sabem fazer isso. De novo, escrever na internet qualquer um consegue. Fazer jornalismo é outra história. E nós, hoje, precisamos de jornalistas mais do que nunca

Na mesma página

A raiz dos desentendimentos pode estar também na desigualdade da linguagem, e não apenas nas diferenças de opinião

via Vida Simples

Quando expliquei como eu queria que fosse a organização de cada capítulo, Leandro assentiu com a cabeça enquanto anotava no laptop, provavelmente já criando imagens, como é de seu jeito. Conversar com um criador de sites e portais é um exercício de imaginação, pois a cabeça desses jovens, que exercem uma profissão que há poucos anos não existia, funciona em permanente estado de prontidão criativa.

Eles são os responsáveis por criar mundos virtuais que representam fatos reais, como produtos, processos, serviços, histórias, e tudo o mais que faz parte da vida de uma pessoa ou empresa. Leandro é um webdesigner, portanto é em sua cabeça que começa a tradução do real para o virtual. Só depois entra em ação o programador.

Enquanto o primeiro imagina como será, o segundo traduz para a linguagem de programação. Não é incomum que nesses dois processos trabalhem grandes equipes, como também não é raro que apenas uma pessoa possa fazer os dois trabalhos.

Estamos falando do fantástico mundo da web, essa realidade paralela que interage com quase tudo o que fazemos atualmente. Estávamos trabalhando na criação de meu novo site, que terá uma parte dedicada a conteúdos de conceitos já consagrados e também de concepções pessoais sobre vários aspectos, especialmente sobre o comportamento na vida profissional da atualidade, apresentados em forma de vídeos curtos.

Quando falávamos sobre esses vídeos, Leandro, como que dirigindo-se a si mesmo, disse: “Cada capítulo terá um mínimo de dois e um máximo de quatro minutos…”.

“Não”— corrigi. “Cada capítulo terá um número variável de vídeos de três minutos em média”, disse.

Foi quando ele me olhou como quem olha para alguém que ainda não entendeu, no caso, eu. E emendou: “Não, capítulo é o mesmo que episódio, portanto, cada vídeo”. “Não!” — insisti. “O capítulo é o conjunto de vídeos, que, aliás, estão agrupados em séries.” “Mas as séries não seriam as temporadas?” — perguntou o webdesigner com genuíno sentimento de dúvida.

Nossa reunião já levava mais de meia hora e de repente percebi que estávamos patinando no vocabulário técnico escorregadio e dando voltas sem fim. Nossa dificuldade, concluí, não estava no entendimento do que deveria ser feito, da estrutura que deveríamos criar. A dificuldade estava no vocabulário, na confusão de comunicação entre dois cérebros que tinham, claramente, programações diferentes.

Para mim, capítulo era cada divisão de um livro. Para ele, capítulo era um episódio de uma série de TV via streaming. Gerações diferentes têm visões diferentes da vida. Simples assim.

Poderíamos ficar o resto do dia debatendo e não chegaríamos a uma conclusão, pois estávamos falando línguas diferentes. Enquanto não criássemos um consenso, de pouco adiantava continuarmos a falar sobre a estrutura do portal. A retórica deveria anteceder a discussão sobre a estrutura, na verdade. Felizmente nos demos conta dessa dificuldade.

Ambos rimos e concordamos em “passar a régua” (esse ditado ambos conhecíamos). “Vamos começar do zero”— disse eu, ao mesmo tempo em que me levantava em direção a um flip-chart. Em comum acordo, criamos nosso próprio vocabulário.

A partir desse momento, a reunião foi superprodutiva, e chegamos rapidamente à estrutura que queríamos. Voltando para casa não pude não pensar sobre o acontecido.

A reunião havia durado cerca de três horas, mas pelo menos a metade dela foi dificultada pela diferença de vocabulário. Poderia ter sido mais rápida e produtiva se, antes, tivéssemos nos colado “na mesma página” vernacular.

Foi quando olhei pela janela e vi o carro ao meu lado, parado no farol. Parecia ser um casal. Talvez fossem colegas de trabalho, irmãos ou amigos, mas que parecia um casal, parecia. Ele estava dirigindo, com as mãos apertando o volante e balançando a cabeça. Ela olhava para ele e gesticulava com a mão, dedo indicador em riste.

Eu não conseguia ouvir (nem queria), mas fiquei com a impressão de que ela falava alto. Alguns decibéis a mais do que o necessário para se fazer entender dentro de um carro em movimento. Jamais saberei o que se passava ali, mas parecia um momento tenso, uma discussão séria. Torço que tenham encontrado o consenso e a paz rapidamente. O farol ficou verde e seguimos nossas destinações e nossos destinos. Seguimos iguais ou diferentes? Como a vida é um eterno aprendizado, e a cada instante acumulamos algo novo, somos diferentes do que éramos no instante anterior. Para mim isso foi evidente naquela ocasião. Eu não pude parar de pensar sobre o que havia visto naquele farol fechado, por causa do que tinha acabado de viver na reunião um pouco antes.

Será — pensei — que as discussões, desavenças, brigas acontecem por diferenças de opinião, mesmo? Será que a causa disso não teria a ver com as infinitas variações de modelos mentais que antecedem o momento em questão? Passamos a vida construindo um modelo de pensamento, uma maneira de ver os fatos e, principalmente, de comunicar o que pensamos e sentimos.

E todo esse repertório, elaborado lentamente a partir de experiências anteriores, é despejado sobre a bandeja da discussão de um fato pontual. A chance de haver distúrbios de entendimento é grande.

A partir daquele dia, começo as reuniões tratando de colocar todos “na mesma página” dos temas a serem tratados, dos objetivos a serem atingidos e, principalmente, do significado de cada abordagem. Ou seja, pessoal, vamos falar a mesma língua, por favor… Já se disse que é mais comum, em uma discussão, principalmente de um casal, que cada um tente impor sua razão, que passa, a partir de determinado ponto, a ser mais importante do que encontrar uma solução.

Talvez esteja aí a fonte da maior parte das desavenças. As diferenças de visão, de percepção e de opinião são importantes, caso contrário não poderíamos evoluir. Ficaríamos na mesmice.

Mas, para que essa fantástica diversidade do coletivo seja aproveitada, é preciso, antes, fazer com que os espíritos habitem a mesma esfera de compreensão, o que pressupõe, acima de tudo, o exercício da humildade, a condição básica para o entendimento e o crescimento conjunto.

Dilemas: cabeça quente

Tudo bem tomar uma decisão com a cabeça quente?

Via Vida Simples

Vivemos uma cultura em que manter a calma, diante de qualquer situação estressante ou irritante, é a alternativa mais equilibrada. Ficar tranquilo e embotar suas emoções diante de situações incômodas talvez não seja a solução – e explodir sempre também não. O que vale é se manter consciente, seja lá qual for a sua reação.

Não é de estranhar que, às vezes, a gente perca a calma dando um vexame público e piorando uma situação já difícil. Parece que a maravilhosa imagem de alguém que permanece calmo enquanto tem seu trabalho interrompido pela quinta ligação do telemarketing numa única manhã se esfacelou. Não seria ótimo respirar compaixão quando o elevador para no andar e o rapaz segura a porta, toda manhã, e todos ali dentro precisam esperar o filho dele correr de volta ao apartamento para procurar a lição de casa? Além disso, a vida seria linda se o chefe parasse de mudar as regras, de equipe e de ideia sobre quais são as prioridades a cada seis meses! Não é surpreendente explodirmos às vezes.

Um lado nosso pode já ter abraçado a ideia atual de que devemos permanecer calmos. A tendência cultural atual pende muito para que as pessoas mantenham o equilíbrio emocional e pensem positivo, mas e se eu tiver “sangue quente”? A maioria de nós nasceu no Brasil, não no Tibete ou no Butão. Qual é o valor de “manter a calma” se já explodi?

Para completar, muitas mudanças têm acontecido nos últimos anos – em todos os níveis da sociedade brasileira. É muito fácil cair no hábito de ser cada vez mais impaciente e esquentado. A pressão interna aumenta ainda mais se, por acaso, recebo um pagamento mensal que reflete, em parte, meu profissionalismo e minha capacidade de manter tudo sob controle em momentos de estresse. Meu chefe, por outro lado, pode não ter dificuldade alguma em perder a calma quando más notícias estão circulando.

A boa notícia é que a ciência parece ter encontrado uma solução para esses infortúnios. No futuro próximo, dizem que planetas distantes se tornarão habitáveis para que as pessoas vivam a milhões de quilômetros daqui. Então poderemos ver as naves se encherem com aqueles que não concordam com nosso jeito, depois de ganharem uma passagem só de ida. Esse cenário também não dará certo no longo prazo: quem escolherá quem vai? Nossa capacidade de tomar boas decisões fica desconfortavelmente entre a cruz e a espada e, provavelmente para todos nós, nossas próprias emoções atrapalham a tranquilidade. Alguns recorrem à religião para orientação.

A mensagem nela pode, frequentemente, julgar a raiva e perturbações emocionais como incômodas, erradas e levar a um futuro muito sombrio. Junte a isso os diversos gurus espirituais orientais que nos pedem para meditar, mas que, nos últimos anos, foram rejeitados pelos discípulos pelo péssimo temperamento e táticas de poder.

Podemos saber que precisamos ser mais inteligentes emocionalmente e conhecer a ideia de que é possível expressar a raiva de maneiras limpas e úteis, mas como? Por que não liberar a raiva, expressá-la e arrumar a bagunça depois, com uma garrafa de vinho

Segundo pesquisas americanas, os millennials (aqueles entre 18 e 33 anos) são, de longe, os mais estressados. Entretanto, de acordo com esses estudos, eles tendem a optar, com frequência, por estratégias evasivas ou escapistas quando enfrentam o estresse. Em média, preferem lidar com isso usando redes sociais, vendo TV e ouvindo música.

Dá para culpá-los? No curto prazo, são soluções boas. Ao mesmo tempo, minha experiência, após 15 anos conduzindo programas de redução de estresse com base no mindfulness (atenção plena), mostra que há cada vez mais jovens indo a esses cursos, procurando ir fundo em sua experiência para ter soluções mais autênticas. Mesmo assim, eles são minoria. Eu diria que, quando somos mais jovens, é mais fácil tentar se desligar do estresse ou até ter orgulho de explosões de raiva. No entanto, uma vez a cada 33 anos (de acordo com os estudos americanos), as coisas parecem mudar. Essa tendência se encaixa com minha vivência em meus cursos.

Ser quem somos, humanos, nos coloca em contato com nossa instabilidade inerente várias vezes. Você pode optar por se distrair, mas a vida é intensa. Se você está realmente vivendo, terá de enfrentar as perguntas inevitáveis que ela apresenta. Uma delas é: vale ou não a pena tomar uma decisão com a cabeça quente? No dia a dia, somos forçados a encarar o que estamos fazendo conosco e com os outros, antes, durante e depois de perder a calma. Quando sentimos os efeitos palpáveis de nos mantermos como escravos de nossas reações automáticas, se as considerarmos chacoalhões inerentes da vida, começaremos a ficar cada vez mais conscientes. Para o ser humano médio, isso parece demorar um pouco.

No Brasil, a maioria das pessoas que faz cursos dedicados a lidar com estresse em geral tem mais de 30 anos. Com isso, aprendi que, emocionalmente, agimos como aqueles que desmaiaram em algum momento do passado e, agora, chegando à meia-idade, estão recobrando os sentidos. Depois de um tempo, alguns de nós parecem se cansar de fugir da situação real. Toda vez que explodo será mais fácil, para mim, explodir da próxima vez. Não é um ensino religioso, é a verdade!

As pessoas mais motivadas que conheço nesses cursos são movidas por uma sensação de que deve haver algo dentro de nós maior e melhor do que simplesmente repetir esses mesmos padrões emocionais. Isso não é algo intelectual. Elas já se conscientizaram do que está acontecendo e querem saber mais. Sentir que você está à mercê de seus hábitos impulsivos não é muito satisfatório quando se tem 30 e poucos anos. Se você já tem o hábito de perder o controle em situações estressantes, não adianta pensar que um novo curso, um livro ou um guru irão libertá-lo disso. No futuro próximo, é provável que sinta raiva de novo. Então, se quiser saber se vale ou não a pena tomar uma decisão com a cabeça quente, tente algo: dê seis meses a si mesmo. Em vez de tentar não explodir ou agradar o chefe, vá em frente: exploda! Só que, dessa vez, faça isso de forma consciente.

Participe do processo: início, meio e fim. Sinta, pela primeira vez, como é você explodindo – na fonte e enquanto isso acontece. Não observe de fora, como se fosse um astronauta. Isso é o que os psicólogos chamam de dissociação e vem com alguns efeitos colaterais desagradáveis. Sinta tudo, de dentro para fora. Pergunte a si mesmo quando está no olho do furacão: consigo ver o que está acontecendo de forma objetiva? Fique assim e continue investigando sua capacidade de ver o que está ocorrendo – até a chateação passar. Faça isso durante seis meses, todos os dias, gradualmente ganhando cada vez mais autoconsciência enquanto perde as estribeiras. Dedique-se a saber mais sobre si mesmo. Não há, de verdade, uma resposta simples. Assim, sugiro que você viva a questão.

A série dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A the school of life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo.

Stephen Little é físico, budista ordenado, especialista em atenção plena e diretor de aprendizagem na The School of Life no Brasil, onde dá aulas de mindfulness. É uma das pessoas responsáveis pela introdução do método por aqui e tem se dedicado à pesquisa e consultoria na área há mais de 20 anos.

Encontre seu silêncio

Cada um precisa descobrir onde mora a sua quietude. E, acredite, muitas vezes isso não tem necessariamente a ver com a ausência de som, mas com o que reside dentro da gente

Bruna Próspero, via Vida Simples

Era uma semana turbulEnta e de muito barulho quando me inscrevi para participar de um “retiro de silêncio”. A algazarra vinha das buzinas que teimavam em gritar durante meu trajeto até o trabalho, dos carros com som alto e de alguns vendedores ambulantes. Tudo isso me atormentava, mas o ruído principal era o interno sobre o que eu deveria fazer para passar o tempo no feriado que se aproximava. Pois é, dependendo do alvoroço em que nos colocamos, até um feriado pode ser motivo para desespero, indecisão e gritaria mental. Praia? Serra? Aproveitar para finalizar o trabalho pendente? Ficar em casa? Acompanhada? Sozinha? Conhecer um lugar novo? Ou voltar para um lugar que já havia gostado? Até que me deparei com um texto do Rabino Nilton Bonder e uma frase me chamou atenção: “Os domingos precisam de um feriado”. No caso, minha mente era que necessitava de uma pausa. Suspeito que o burburinho mental seja o mais difícil de calar e, cá entre nós, muitas vezes nem nos damos conta de quanta energia desperdiçamos ao tagarelar mentalmente. A psicóloga e criadora do Portal Despertar, Flavia Melissa,
sugere que façamos um exercício para entender toda essa energia que subutilizamos quando insistimos em dar atenção à orquestra de perguntas e pensamentos dentro da nossa cabeça: “Pegue um gravador e durante dois minutos grave tudo que esteja passando pelos seus pensamentos naquele momento”. Talvez você, assim como eu, perceba que o maior incômodo não vem das buzinas alheias, mas da barulheira interna. Flavia explica que para o taoísmo, filosofia milenar chinesa, tudo que passa pela mente faz parte do chi, como chamam a energia vital. Ou seja, quando deixamos que os pensamentos nos dominem de forma desenfreada, estamos gastando essa carga desnecessariamente. Além do desperdício de vivacidade, o texto do rabino Nilton Bonder me alertou para a minha tentativa de preencher meu ócio com algo e como, atualmente, vivemos em busca de entretenimento para os nossos “domingos livres” – o que, paradoxalmente, nos sobrecarrega com mais barulhos. Percebi que estava na hora de parar de tentar só conhecer lugares novos – bairros, cidades, países – e olhar para dentro. O convite para ficar em silêncio absoluto me fisgou.

Auto-observação
Ficar em silêncio absoluto pode assustar. Confesso que me senti assim. Não me enxergava rodeada de gente sem poder trocar uma palavra ou olhar. Mas, no retiro, aprendi que o silêncio (aquele que eu tanto procurava) morava dentro de mim. O tema é tão relevante que o escritor alemão Eckhart Tolle escreveu um livro só para falar sobre isso, O Poder do Silêncio (Sextante). O título já nos faz pensar que a quietude pode realmente nos revelar muitas coisas poderosas. Em uma das passagens, o autor menciona o tédio e a ansiedade que podem surgir durante momentos de remanso. Esses, inclusive, são um dos maiores medos de quem se propõe a experimentar o silêncio por um longo período. Para Tolle, a alternativa é aceitar as sensações e os desejos que surgem e observar como você está se sentindo em relação a isso. Ainda segundo ele, a primeira reação que temos quando sentimos tédio é procurar algo para nos preencher, seja ler, fazer um telefonema, navegar pela internet, seja ir ao shopping. No entanto, quando escolhemos observar esses incômodos, percebemos que “não somos pessoas entediadas, e sim que o tédio é simplesmente um movimento de energia condicionada dentro de nós”. A questão é que hoje estamos permitindo que o barulho do mundo exterior emudeça o som do mundo interior. Além disso, quanto menos silenciamos, maior é a tendência de agirmos no piloto automático. Para a psicóloga Flavia Melissa, o silêncio muitas vezes tem mais a ver com o ato de não reagirmos com imediatismo do que simplesmente nos calarmos. “Durante a aquietação interna, conseguimos olhar para uma determinada situação como um observador atento da gente mesmo e, assim, percebemos como estamos verdadeiramente nos sentindo e temos a capacidade e a lucidez de escolher como agir.” Percebi que, através da minha experiência no retiro, pude experimentar exatamente essas sensações. Em muitos momentos em que pensava estar com fome ou com vontade de ler alguma coisa, na verdade isso tudo eram formas de preencher o tédio. Mas, em vez de responder de forma imediata, ao me aquietar e me ouvir de verdade, sem imediatismo, tive a oportunidade de perceber o que era real ou não.

Na prática
É comum encontrarmos o tal do silêncio quando entramos em um estúdio de ioga, visitamos um templo budista, indiano, uma igreja ou, claro, durante um retiro. Porém, como encontrar o silêncio em meio ao caos de uma cidade grande? O mestre espiritual Sri Prem Baba sugere que façamos apenas um minuto de silêncio, durante cinco momentos em nosso dia. Podemos considerar ao acordar, antes de iniciar uma refeição, antes de responder um e-mail, após um exercício físico e antes de deitar, por exemplo. Cinco minutos, dentro dos 1.440 minutos que temos em um dia inteiro, podem parecer nada, mas quem adotou a prática sente a diferença – e tem gente que já estendeu o “um minuto” para “muitas horas de silêncio”. É o caso da fisioterapeuta Milena Guimarães, que, após uma viagem à Índia, percebeu como encontrar momentos de interiorização mesmo em meio ao caos de um grande hospital. “Percebi que no Ocidente esperdiçamos muita energia ao nos expressarmos a todo momento”, reconhece. Para ela, o mais evidente, por exemplo, está no silêncio que não fazemos durante as refeições. Desde então, o seu tempo de almoço não é mais para conversar com os colegas de trabalho e desabafar, mas sim para apreciar o alimento. Além disso, antes de entrar no hospital, ela também tira 15 minutos para meditar e instituiu que um domingo por mês é o dia do silêncio dela. Mas não é só aos domingos que conseguimos silenciar o batuque mental (ufa!). Momentos de interiorização estão cada vez mais comuns em ambientes corporativos. Muitas empresas estão implementando medidas que ajudam as pessoas a manter o foco no presente, incentivam momentos de silêncio e práticas para olhar para dentro. Natasha Bontempi é uma das responsáveis por essa mudança na multinacional IBM, onde trabalha. Movida por sua busca pessoal, fez, de forma voluntária, um programa de mindfulness dentro da companhia. Em uma das sessões, os participantes são convidados, por exemplo, a permanecer em silêncio durante seis horas e, segundo Natasha, “muitos deles se surpreendem ao perceber como essa simples mudança traz um alívio na rotina e que nem é tão difícil assim”.

Silêncio não é tudo igual
É importante entendermos que, assim como o meu processo durante o retiro foi diferente daquele experimentado pelos participantes que estavam ali, os nossos silêncios também não são iguais. Cada um vai perceber o silêncio da sua maneira; afinal, se os barulhos que nos atormentam são variados, por que nossa quietude seria a mesma? Na busca pelo meu próprio silêncio, me lembrei das vezes em que mergulhei com cilindro de ar. A experiência de estar dentro do mar durante horas talvez tenha sido o momento mais silencioso que já presenciei. Ali, o foco na respiração fica mais evidente. Você, os peixes, os corais e a corrente marítima, é isso que te leva para um lado e para o outro. O mar também serve como refúgio para Felipe Roselli, professor de ioga e terapeuta que utiliza o surfe como caminho para o autoconhecimento.

“Existem técnicas que nos ajudam a acessar esse silêncio na ioga, mas também existe o caminho da espontaneidade. Sinto que, quando começamos a aceitar ser o que somos e a fazer coisas que realmente amamos, também acessamos esse estado que o silêncio nos permite.”

Para ele, surfar passou a ser o instante em que consegue estar presente e aberto para fluir com o que cada onda pode lhe apresentar, sem tentativas de previsões. “Cada uma, nevitavelmente, vai quebrar de um jeito único”, diz. Mas alerta que a mágica só acontece quando está presente e sem expectativas: “Já surfei muito querendo mostrar algo para alguém, me provar alguma coisa, tentar prever o que iria acontecer, mas aí o silêncio não aparece”. Mas não é só perto do mar ou mesmo da natureza que o silêncio existe. O escritor Eckhart Tolle aborda isso muito bem. “Qualquer barulho perturbador pode ser tão útil quanto o silêncio.

De que forma? Abolindo a sua resistência interior ao barulho, deixando-o ser como é”, escreve. Se ficarmos presos à ilusão de que o silêncio só pode ser atingido em uma imagem clichê de um monge sentado no Himalaia, pensaremos que essa realidade está muito distante. A verdade é que o silêncio também pode ser sentido ao ouvir a gargalhada causada pelas cócegas que faz nos seus filhos ou depois de uma escalada em uma montanha. Podemos encontrá-lo também no som do suspiro ao terminarmos uma carta para uma pessoa querida. É como coloca Dan Pedersen, autor do livro What Does Silence Sound Like? (Como É Que Soa o Silêncio?, em tradução livre): “Não é fácil colocar essa ideia em palavras, temos que descobrir essas coisas para nós mesmos. Temos de dar espaço para o nosso próprio silêncio”. Retiros e dinâmicas em grupo em que a prática é exaltada nos ajudam a tomar consciência desse espaço, mas mais importante ainda é encontrarmos o silêncio que existe dentro de nós mesmos, seja qual for a rotina que tivermos. Desconfio que, quando encontramos o que nos faz sentir essa sensação de quietude e colocamos isso em nosso dia a dia, até o barulho das buzinas e da feira perto de casa passa a nos incomodar menos, bem menos.

BRUNA PRÓSPERO encontrou seu silêncio no mergulho, na ioga e também enquanto escreve.

A insatisfação 2

Desconfortável e às vezes angustiante, esse sentimento também pode nos ajudar a trazer soluções novas e a buscar conquistas que tragam mais sentido para nós

Eugenio Mussak, via Vida Simples

“OBRIGADO, estou satisfeito!” Essa frase, acompanhada de um meio sorriso e de mãos espalmadas em direção à outra pessoa, costuma ser usada quando, já saciados, recusamos mais comida que alguém está nos oferecendo. Estar satisfeito tem, então, o significado de não querer mais, de rechaçar uma oferta, de abrir mão da oportunidade de aumentar a posse de um bem. No caso, de mais comida, mesmo sabendo que essa satisfação será temporária. Analisemos melhor essa questão: ao recusar o segundo prato você está sinalizando que já comeu o suficiente ou que não quer comer mais? Pode parecer a mesma coisa, mas há uma diferença sutil entre as duas possibilidades. Talvez você não queira mais por já ter comido muito, uma vez que a comida estava deliciosa. Mas talvez você não queira mais porque não gostou. Dessa forma, o “estou satisfeito” pode ser sincero, ao sinalizar que seu corpo e seu prazer já foram convenientemente atendidos, ou pode ser apenas uma força de expressão, pois na verdade você está mesmo é insatisfeito com o que está recebendo e, portanto, não quer mais. Essa pequena reflexão nos leva a outra, ligada com a essência da satisfação em si mesma. O que seria isso? A satisfação é uma coisa boa a ser perseguida? A insatisfação é, necessariamente, ruim? O que significa estar satisfeito? Vejamos, pois. A palavra satisfação, de origem latina, integra dois conceitos em sua estrutura. Satis significa bastante, suficiente, ou em quantidade adequada. Facere tem o sentido de fazer, realizar, ou atingir um objetivo. A etimologia, que sempre nos socorre, coloca a satisfação em uma ótima perspectiva. Deixa claro que a satisfação não vem apenas com o que conseguimos, mas também com a maneira como conseguimos. Eu fico realmente satisfeito quando consigo o que desejo através de minha atitude em relação a meu objetivo. A verdadeira satisfação tem a ver, então, com movimento, com realização, com trabalho. Isso explica por que pouco valorizamos aquilo que conseguimos sem esforço, gratuitamente, como mero regalo da vida. Gostamos mesmo é do que conseguimos a partir de nossa intenção e de nossa ação. Estar satisfeito, por outro lado, pode colocá-lo em uma situação de imobilidade. Eu me movimento para alcançar o que desejo e, uma vez atingido o objetivo, tal movimento perde sentido, eu então paro e me acomodo. Pessoas satisfeitas correm o risco de estacionar na vida, pois já têm o que desejam, o que nos leva a outra discussão, que é nossa relação com o desejo. Uma das vertentes, com o amparo da filosofia, relaciona desejo com amor. A lógica é que amamos o que desejamos, o que coloca o amor como algo volátil, que desaparece após o obtermos. Mas vamos com calma, pois essa é apenas uma das vertentes do amor, o Erótico, o mais comum e primitivo. Os outros seriam o amor Philos, fraternal, e o Ágape, o mais elevado, o afetivo, universal e desprovido de interesses. O amor Erótico é o amor pela posse, pela conquista, e que vale não apenas para o amor por outra pessoa mas também pelas coisas, por tudo aquilo que desejamos obter e possuir. Ele, claro, encontra sua essência em Eros, cujo nascimento parece explicar tudo. Os deuses estavam reunidos nos domínios de Zeus, em festa, para comemorar o nascimento de Afrodite, que seria a deusa da Beleza. Havia música, alegria, comida e bebida, e entre os mais alegres estava Poros, o deus da Riqueza. Embriagado, saiu para os jardins de Zeus, buscando sossego e ar puro. Espiando pela janela estava Pênia, a deusa da Pobreza, magra, curvada e andrajosa. Ao ver Poros sair, teve a ideia de seduzi-lo e conseguiu que ele a fecundasse, pois queria ter um filho que, ao ser filho da riqueza, também fosse rico e poderoso. O filho gerado a partir dessa união furtiva recebeu o nome de Eros, que, ao crescer, transformou-se, ele mesmo, em um deus muito especial: o deus do Amor. O amor é, então, filho da riqueza e da pobreza. Por isso é satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo e oscila entre esses dois extremos o tempo todo, na busca incessante de sua completude, que nunca poderá ser atingida. Esse é um dos clássicos da mitologia grega, que, como sabemos, é muito rica em elementos que nos ajudam a entender a essência humana. Não por acaso, a mitologia foi uma das principais fontes de inspiração de Freud, especialmente quando ele se deparava com alguma lacuna teórica para explicar seus conceitos. O amor erótico seria, então, o amor do desejo, e este, como sabemos, se extermina quando se completa. Em outras palavras, só desejamos o que não temos, pois, quando obtemos o que desejávamos, perdemos a justificativa para o desejo. Pode parecer paradoxal, mas não é. Faz sentido e pertence à qualidade humana da insatisfação, que se, por um lado, é causa de ansiedade, por outro, é origem de progresso. Voltando à satisfação, vale lembrar o que disse o escritor Guimarães Rosa sobre o assunto: “O animal satisfeito dorme”, sintetizou. Nessa curta frase, o mineiro, aliás autor do longo Grande Sertão: Veredas, define a satisfação como um bem tão precioso, capaz de gerar serenidade, conforto e, como consequência, sono. Mas também alerta para o fato de que o animal que dorme torna-se vulnerável, uma vez que perde o estado de alerta, necessário à sobrevivência no ambiente perigoso da natureza. Devemos, então, viver insatisfeitos para nos mantermos vivos? Esse é um tema recorrente em ambientes empresariais, nas escolas de negócio, nas denúncias da imprensa sobre os desmandos políticos. A insatisfação – dizem – mobiliza, energiza as ações diversas, promove mudanças, conquistas e, consequentemente, realizações. Somos animais insatisfeitos por natureza, o que não apenas nos manteve vivos até aqui como promoveu nossa evolução e nosso progresso. A satisfação é um prazer provisório, transitório, e é também necessário. A insatisfação é desconfortável, às vezes angustiante, mas também é necessária, e é do movimento dessa gangorra que tiramos nossa essência. Era isso por hoje. Espero, sinceramente, que a satisfação gerada pelas ideias deste texto só dure até que surja a expectativa pelo próximo. Assim continuaremos juntos…

EUGENIO MUSSAK ama escrever, já se aprofundou em muita coisa, mas se diz insatisfeito com seus textos.