ENTREVISTA: Waldir Maranhão abre o verbo e fala sobre a anulação do impeachment de Dilma e a decisão do desembargador Rogério Favreto de soltar Lula 4

“Mais importante do que estabelecer comparativos entre atos e fatos, cenários e seus personagens é ter a responsabilidade, a coragem e a competência de agir para transformar esse estado de coisas que aí está.”

Parte da mídia nacional, assim como parte da mídia local, acabaram associando Waldir Maranhão e Rogério Favreto. Waldir Maranhão, ex-presidente da Câmara Federal, anula a sessão que culminou com o impeachment da presidente Dilma. Rogério Favreto, desembargador do TRF4, autoriza a soltura do ex-presidente Lula.

Em entrevista exclusiva ao Jorna Extra, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, deputado Waldir Maranhão (PSDB) falou sobre a crise no Poder Judiciário a partir da decisão do desembargador Rogério Favreto em soltar o ex-presidente Lula, no domingo, 8, e ração de outros magistrados inclusive o juiz federal Sérgio Moro.

Na entrevista, Waldir Maranhão, que pré-candidato a senador da República, fez a defesa do ex-presidente Lula e acredita que a prisão do petista, bem como o impeachment da Dilma “têm, enquanto motivação preponderante, muito maior quantitativo político do que legal”.

O parlamentar tucano aproveitou ainda para contar um pouco sobre a participação do governador Flávio Dino naquele histórico episódio onde ele decidiu anular o impeachment da ex-presidente do PT.

Confira a íntegra da entrevista com Waldir Maranhão.

Como Vossa Excelência vê os personagens?

Pelo fato de não conhecer ao desembargador Rogério Favreto, para não cometer alguma injustiça do tipo daquelas que eu já sofri, quando uma série de inverdades foram ditas sobre mim e todas desprovidas de qualquer fundamento, eu vou me reservar ao direito de apenas ressaltar a coragem de um homem que ousou fazer o que milhares de brasileiros e brasileiras desejam ver feito. Sem adentrar ao mérito da questão, é inegável a constatação de que o Brasil está dividido entre dois movimentos, a saber, Lula preso e Lula Livre e o desembargador revela intrepidez ao revelar, claramente, a qual movimento está vinculado. Quanto a mim, eu sou imensamente agradecido a Deus porque todas as coisas cooperam para o bem daqueles que andam no bom caminho. O ato do desembargador Rogério Favreto, que para tantos não serviu de nada, para mim, está sendo de uma validade imensa visto que trouxe à tona, novamente, o meu gesto patriótico de tentar reverter aquilo que eu e milhões de cidadãos e cidadãs deste país entenderam como desprovido de qualquer fundamentação legal. Eu, enquanto deputado e presidente da câmara federal à época, fui até aos extremos daquilo que me estava ao alcance fazer com um único intuito: RESGUARDAR A SOBERANIA DEMOCRÁTICA DA SUPERIOR VONTADE POPULAR. Fui execrado por parte da população, pelo meu partido de então – o PP – pelos atuais inquilinos do poder, pela mídia e até mesmo por aqueles a quem me somei por partilharmos, então, das mesmas convicções cívicas e políticas, o PT e o PCdoB na figura do governador Flávio Dino. Para além do deputado federal e do presidente da câmara, o homem Waldir Maranhão toma posição a despeito de todas as adversidades que, sabidamente, me adviriam. Eu me vejo enquanto personagem de um dos capítulos mais importantes da história do Brasil, matéria de cursos criados em importantes universidades nacionais e discutido internacionalmente com um protagonismo que me fez mergulhar quase que até o fundo do poço, mas, de onde eu emergi mais forte e mais determinado a bem servir ao povo brasileiro. Mergulhou um deputado rodeado de FALSOS LÍDERES E FALSOS ALIADOS. Emergiu um homem livre capaz de olhar nos olhos das pessoas abrigado pelo sentimento do dever cumprido, fiel e sem nunca ter traído ou apunhalado a quem quer que seja. Mergulhou o Waldir Maranhão acusado de envolvimento na lava jato. Emergiu um DEPUTADO FEDERAL FICHA LIMPA.

Como Vossa Excelência analisa os fatos?

Numa análise fria e objetiva dos fatos, a mais importante conclusão a que posso chegar é que, em ambos os casos, o impeachment da Dilma e a prisão do Lula têm, enquanto motivação preponderante, muito maior quantitativo político do que legal. Ambos os fatos da nossa história recentíssima extrapolam o previsto na lei de Murphy. Não Se trata apenas de achismo ou de pessimismo. Os dois fatos em questão não têm apenas “… a mais remota chance de darem errado…”. O impeachment da Dilma e a prisão do Lula reúnem todos os ingredientes necessários para darem errado e já estão produzindo e seguirão gerando incoerências e erros. E só para não ficar no limbo especulativo cito a greve dos caminhoneiros que parou o Brasil, afetou a economia nacional, ceifou vidas de brasileiros que tiveram suas rotinas alteradas para pior e revelou um governo fraco, perdido nas suas decisões e fadado ao caos. O governo segue entregando o nosso petróleo para quem nunca vai DAR MAIS, os combustíveis seguem sendo reajustados assim como a energia elétrica e a cor cinza dos botijões do gás de cozinha também parece pintar de chumbo o nosso horizonte eleitoral.

Como Vossa Excelência avalia os atos?

Eu avalio o meu ato (tentativa de anular o impeachment da Dilma) e o ato do desembargador Rogério Favreto (tentativa de libertar o Lula) sob a lente objetiva DEDUTIVA. Eu fui reitor da UEMA e aprendi na academia que a análise partindo do TODO para AS PARTES propicia a quem lê uma visão mais apurada dos atos e dos fatos. O TODO, do Favreto é o poder judiciário e o ministério público. Não dá pra sacar e crucificar ou santificar um desembargador de um tribunal regional, ainda que federal, e avaliá-lo isoladamente. Todo o sistema judiciário carece ser reformado e todos os seus atores avaliados nas suas práticas. O que dizer de juízes do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL libertando criminosos comprovadamente condenados ou ainda julgando casos de chegados e afins para os quais a configuração de notório impedimento é flagrante? Chegamos ao ponto de advogados e réus preferirem ter seus casos julgados pela turma tal não em razão de que esta se mostra mais justa, senão em razão de que a tal turma se têm revelado deveras mais indulgente. O TODO do deputado Waldir Maranhão é o poder legislativo. Em que pese o fato de eu ser um representante do povo do meu Estado, nem eu e nem ninguém em sã consciência negará as evidências de que se faz urgente e necessária a implementação de uma ampla reforma política nacional saneadora da democracia representativa. Um governo que tem rejeição popular de 72%, fosse verdadeira a representatividade dessa mesma população no congresso, esse tal governo, há muito, já deveria ter caído! Mas, os balcões de negócios operam e os valores financeiros suplantam outros valores. Assim é que, na minha avaliação, ambos os atos se diferem no que tange à vinculação com os respectivos planos gerais nos quais estão inseridos. Ambos os todos estão enfermos e carentes de reformas. Entretanto, enquanto o Favreto REPRODUZ o modus operandi do seu tecido geral, Waldir Maranhão ousa contrapor a todos os seus pares por entender que, maiores do que os deputados representantes são os eleitores que devem ser por eles representados. E só para que conste, o deputado federal Waldir Maranhão votou pela abertura de processo de investigação contra o atual governante fazendo eco aos 72% das vozes das ruas.

O que a associação de atos, fatos e personagens trás a lume?

O que está em jogo desde o impeachment da Dilma até a prisão do Lula e que completará um ciclo nas próximas eleições gerais de outubro vindouro é a soberania da vontade popular, é o estado democrático de direito e é a governabilidade desse gigante chamado BRASIL. Há forças e práticas retrógradas operando contra o Brasil e contra as brasileiras e brasileiros. E se o cenário verde e amarelo nacional é cada dia mais pródigo em tons de cinza, o vermelho com o qual pintam o nosso Maranhão só aponta para o rubro de vidas e esperanças que vão sendo derramadas na forma de sangue pelo caminho. O PSDB, partido que me abrigou sob a sua bandeira, aponta para projetos de governança nacional e estadual indicadores de novos rumos. Mais importante do que estabelecer comparativos entre atos e fatos, cenários e seus personagens é ter a responsabilidade, a coragem e a competência de agir para transformar esse estado de coisas que aí está.

Quais ganhos pedagógicos advém de tudo isso?

Eu gosto muito de um pensamento do Nelson Mandela que diz o seguinte: “Eu nunca perco! Ou eu ganho ou eu aprendo.” Nas minhas andanças pelos rincões, principalmente, do Maranhão, eu tenho me deparado com um misto de desesperança e fé. Eu tenho testemunhado esses sentimentos, na maioria das vezes, em pessoas diferentes e só em raras vezes, os dois, manifestados pela mesma pessoa. Para os desesperançosos eu cito Mandela que apesar de aprisionado por lutar por igualdade, preferiu enxergar a prisão como um aprendizado e, sem perder a esperança, recobrou a liberdade e tornou-se presidente de uma África sem “apartheid”. Já com as mulheres e homens de fé com os quais eu me encontro eu partilho um abraço no qual eu sempre saio ganhando uma carga a mais de uma energia positiva que me revigora e reabastece para seguir na luta. Quanto aos casos raros de pessoas que se mostram inicialmente tristes, frustradas mas que demonstram ainda possuírem um naco de fé, a minha mensagem é a de que dentro de todos nós há duas feras e aquela a qual nós mais e melhor alimentarmos é a que restará de pé. O melhor do Brasil é o POVO BRASILEIRO. Um outro país e um outro Maranhão são possíveis! E cabe a cada um de nós fazer real o Brasil e o Maranhão que queremos.

Waldir Maranhão e Rogério Favreto: Diferenças fundamentais 2

O parlamentar maranhense está no Congresso Nacional através do voto popular e não deve nada ao PT, o que não se pode dizer o mesmo em relação ao desembargador do TRF-4 Rogério Favreto que deve tudo ao petismo

A jornalista Eliane Cantanhêde (Estadão) foi a primeira a tentar fazer um paralelo entre a decisão tomada pelo deputado Waldir Maranhão (PSDB) de anular o impeachment da presidente de Dilma Rousseff, quando estava no exercício da presidência da Câmara dos Deputados em 2016, e o mandado de soltura do ex-presidente Lula assinado pelo desembargador federal Rogério Favreto, no último domingo, 8.

Depois dos blogueiros maranhenses também tentaram fazer uma associação entre os dois casos.

Em “Rogério Favreto e Waldir Maranhão: chacota nacional”, Gilberto Léda sustenta que ambos os personagens viraram motivo de tudo que é tipo de sarro devido suas decisões. Ah! Assim como Eliane Cantanhêde, Gilberto também lembrou que o Waldir Maranhão cumpriu uma missão que lhe foi atribuída, entre outros, pelo governador Flávio Dino (PCdoB).

Já o blogueiro Ricardo Fonseca, por sua vez, viu heroísmo nos atos de Waldir Maranhão e Rogério Favreto no post “Waldir Maranhão e Rogério Favreto, dois heróis nacionais que a história nunca irá esquecer”.

O Blog do Robert Lobato entende que há diferenças fundamentais entre um e outro caso.

Em primeiro lugar, o episódio da anulação do impeachment foi algo articulado por várias forças e atores políticas que não somente Flávio Dino, mas ainda o então ministro José Eduardo Cardozo (PT), os deputados federais Orlando Silva (PCdoB) e Werverton Rocha (PDT), o secretário-chefe da Representação Institucional do Governo do Maranhão, Ricardo Cappeli, entre outros.

Portanto, Waldir Maranhão cumpriu uma missão expressamente política a partir teses jurídicas sustentadas por aliados.

“Ora, Bob Lobato, me compre um bode! O Rogério Favre também cumpriu uma missão expressamente política a partir teses jurídicas sustentadas por aliados”, pode argumentar um leitor anti-PT.

Sim, é verdade! Mas no caso do Waldir Maranhão, repito, o processo foi construído por várias forças políticas e não só por petistas como aconteceu com Favre ao atender pedido de Habeas Corpus de três deputados do PT. E mais: Waldir nunca foi petista, nunca teve cargos em governos do PT e muito menos chegou a um cargo de desembargador federal através de uma canetada!

O parlamentar maranhense está no Congresso Nacional através do voto popular e não deve nada ao PT, o que não se pode dizer o mesmo em relação ao desembargador do TRF-4 Rogério Favreto que deve tudo ao petismo! E isso não é nenhum demérito não, apenas uma constatação, diga-se.

Pelo contrário, se for feito, digamos, um “encontro de contas político”, chegaríamos à conclusão de que são o PT e parte das esquerdas brasileiras, inclusive o PCdoB de Flávio Dino, que devem Waldir Maranhão.

Não tenho dúvidas de que os verdadeiros democratas e patriotas querem ver o Lula livre, e que a atitude de Rogério Favreto pode ser até admirável do ponto de vista da sua coragem, mas mesmo a liberdade do ex-presidente não traria a paz política, social, jurídica e institucional para o país como traria o impeachment caso tivesse sido evitado.

Foi essa compreensão histórica que teve o deputado e então presidente da Câmara Federal Waldir Maranhão ao anular o afastamento de Dilma.

São essas as diferenças fundamentais entre Waldir Maranhão e Rogério Favreto.

É a opinião do Blog do Robert Lobato.