Em egotrip sexual, mulher se permite priorizar atração física 4

por MARILIZ PEREIRA JORGEm via Folha de SP

Kristen Roupenian, autora do conto ‘Cat Person’

Um beijo bem dado é meio caminho andado. Se tivesse usado esse critério, a personagem da história que pode ser considerada a pior trepada de 2017 teria se livrado de embaraço. Mas não haveria crônica, e o mundo não estaria falando sobre o assunto.

“Cat Person”, publicado na “New Yorker” e um dos mais lidos do site neste ano, traz mais do que reflexões sobre as expectativas frustradas em um relacionamento, que
começa por mensagens de texto, a “gordofobia” de Margot, apontada por algumas pessoas nas redes sociais, ou temas mais profundos como assédio, estupro e consentimento.

Esses últimos numa clara demonstração de que a barra pode ser forçada quando queremos encaixar pautas necessárias para discutir um episódio, ainda que fictício. A experiência de Margot passa longe de qualquer uma dessas questões.

O que fica evidente é a manipulação da personagem do começo ao fim da história.

Margot não só ignora os sinais de incompatibilidade com Robert, como aquela relação passa a ser apenas um desafio para ela. Existia um ego para ser alimentado e ela percebeu que havia encontrado alguém para “comer em sua mão”, mesmo que
inconscientemente.

Da insegurança que sente durante boa parte da troca de mensagens até o primeiro encontro quando vão ao cinema, o jogo vira quando ela se dá conta de que o inseguro da história é ele.

O beijo péssimo deveria ter sido suficiente para que ela terminasse a noite, cada um para seu lado, como Robert sugere. Mas ela recupera o poder de decisão sobre o desfecho quando decide ir para a casa dele.

Ao ver Robert sem roupa, vem a prova definitiva de que não se sente atraída, muito menos para fazer sexo. Em parte dos diversos textos dedicados a interpretar reações do casal, há uma tese interessante sobre a dificuldade que mulheres têm em voltar atrás na decisão de transar após terem ido tão longe. Margot, de fato, questiona como faria isso sem ferir os sentimentos de Robert.

Mas eis que ao vê-la com os peitos de fora, Robert não disfarça seu encantamento. E Margot sente muito tesão, mas não pelo homem, que ostenta barriga peluda e caída. Ela fica excitada pelo fascínio que seus atributos despertam no outro e deixa que o desastre seja consumado, apesar de não estar nem um pouco interessada. É uma egotrip sexual frustrada. Só.

A repulsa pelo corpo dele é apontada como “gordofobia”. Parece apenas que finalmente as mulheres se permitem sentir tesão pelo tesão, colocam a atração física em primeiro lugar, sem romantizar a relação ou se interessar sexualmente por alguém apenas porque é interessante ou inteligente. Lidem com isso.