Roberto Rocha, o pai 6

Quem convive com o dia-a-dia da política frequentemente ouve o mesmo lamento dos políticos, sobre o tempo que a atividade rouba da presença com a família.

“Eu mal vi meus filhos crescerem”, ouvi certa vez de um deputado. É próprio da política não criar uma rotina de vida, estar imerso numa constante vertigem de tarefas que se sobrepõem umas às outras. E tudo se agrava se o político tem que ir para Brasília, cumprir sua jornada semanal como deputado ou senador.

As famílias, por sua vez, adaptam-se a essa presença errática, aos compromissos de última hora, à chegada de visitas em casa, a qualquer momento. Faz parte do jogo.

No entanto, longe de representar um afastamento, essa condição significa, para alguns, um engrandecimento do valor da família como o porto seguro, a fonte mais intensa de proteção pessoal e refúgio das atribulações que a vida pública impõe.

Um desses políticos é o senador Roberto Rocha. Desnecessário lembrar a devoção que guarda ao seu pai. No seu gabinete, em permanente prontidão, está um quadro a óleo do ex-governador Luiz Rocha. Na última semana fui testemunha de uma situação que contrapôs o político e o pai, em condições dramáticas. O senador desembarcou em Brasília para cumprir uma extensa agenda, que incluía a leitura do relatório da CPI do BNDES, já anunciada para a imprensa, a votação que autorizava a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, e a votação do seu projeto da ZEMA – Zona de Exportação do Maranhão. Três assuntos de alta voltagem política.

Mas seu pensamento estava a quilômetros dali. Poucas horas antes de desembarcar em Brasília, chegara a notícia de que seu filho caçula, recuperando-se de uma cirurgia em que teve um rim extraído, em São Paulo, recebera a biópsia com o terrível diagnóstico: câncer, de um tipo raro.

Nessa hora o pai tomou o lugar do senador. Foi o tempo de adiar a sessão da CPI, explicar ao seu partido as razões da ausência na votação e tomar o primeiro avião. Seguiram-se dois dias de angústia para consultas a especialistas e realização de exames mais completos para ver a extensão do quadro. Finalmente, a boa notícia: os exames mostraram que a doença não havia contaminado o organismo, restando encapsulada no tumor já retirado.

Foi assim também, meses atrás, quando seu irmão, Rochinha, teve que passar por delicada cirurgia. Não foi diferente, anos atrás, nos dias finais de seu pai. Nessas horas é claro que a atividade política fica em segundo plano. Ainda assim teve blog publicando post acusando que “teve senador que faltou à votação da intervenção e só volta semana que vem”. É um belo exemplo de, dizendo apenas verdades, não dizer a verdade.

Esse é um dos preços que os políticos pagam pela permanente exposição pública. A difícil arte de preservar seu núcleo familiar das luzes incandescentes da política, ao mesmo tempo jamais negando à família a presença nos momentos de dor ou de alegria.

Ser avô

Ele é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total.

Luiz Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

Avô é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total. O que pai faz por obrigação avô faz – ou não faz – por escolha. Pai tem que estar sempre pronto para mudar as fraldas da criança. Avô pode estabelecer limites às suas atribuições. Fralda com xixi, vá lá, numa emergência. Fralda com cocô, nunca.

Importante: o correto uso do colo. Existem dois tipos de colo, o utilitário e o festivo. Colo utilitário é quando a criança fica na vertical recebendo tapinhas nas costas, depois de mamar. Seu objetivo é provocar o arroto. Arroto e pum são as duas principais realizações da criança nos seus primeiros meses de vida. São recebidos com manifestações de entusiasmo da família, como se ela tivesse passado no vestibular.

O avô deve manter distância na hora do colo utilitário. Pode fazer parte da torcida, soltar um “Viva o Brasil” na hora do arroto, se for dos bons, ou de um pum particularmente ressonante. Ficar no apoio moral. Mas só. No colo vertical o avô não consegue desempenhar sua principal função, que é a de ficar olhando o rosto da criança, maravilhado. Depende da informação de terceiros para cumprir sua missão (“Ela tá de olho aberto? Fechado? Tá rindo?”). Já o colo festivo, na horizontal, é para a adoração e nada mais. No colo horizontal até um pum extemporâneo da criança pode ser tomado como uma deferência especial ao bobo que a segura.

Outra função importante de um avô é falar racionalmente, com voz normal, com a criança recém-nascida. Relatar os fatos do dia, pedir sua opinião, sugerir que ela não se desespere com as opções limitadas da sua alimentação no momento (só duas, peito direito e peito esquerdo) pois com o tempo as coisas melhorarão bastante. Logo virão as papinhas e as sopinhas e eventualmente os carrês de cordeiro com batatas Dauphine e cebolas carameladas, e arrotos com muito mais conteúdo.

Claro que o avô não espera que a criança o entenda, e muito menos que responda. É para ela saber que nem todos falam como bebê e fazem perguntas retóricas como “Cadê a coisinha mais fofa, cadê?” e que ela não caiu num mundo de malucos. E que o nível das conversas também melhorará com o tempo.

Passada a primeira fase, o avô deve acompanhar todas as etapas do crescimento da criança na capacidade que lhe for pedida, salvo risco de deslocamento da coluna. Se uma neta começar a estudar balé e exigir e que o avô faça pliês junto com ela, ele tem que obedecer. Quando chegar a minha hora não sei se conseguirei ficar de pé, mas estou preparado.

Seu carteiro. Aproveite o espírito de Natal e faça o seguinte: dê atenção ao seu carteiro. A mesma atenção que um dia eles mereceram, e aos poucos foram perdendo por culpa da crise social e da falta de segurança.

Quem não mora em casa com cerca eletrificada, arame farpado, seteira, guarita com metralhadora, jardim minado e a caixa de correio longe da porta mora em apartamento e, a não ser no caso de carta registrada, raramente vê a cara do seu carteiro. E eles devem ter uma certa nostalgia do tempo em que precisavam bater nas nossas portas, conversar um pouco, talvez ganhar um copo d’água.

Enfim, do tempo em que nos encontrávamos. E podem até ter saudade dos ataques dos nossos cachorros. Pelo menos era um contato.

Se encontrá-lo neste fim de ano, abrace seu carteiro e convide-o a entrar. Depois de se certificar, claro, que é carteiro mesmo e não um assaltante disfarçado.