Ser avô

Ele é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total.

Luiz Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

Avô é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total. O que pai faz por obrigação avô faz – ou não faz – por escolha. Pai tem que estar sempre pronto para mudar as fraldas da criança. Avô pode estabelecer limites às suas atribuições. Fralda com xixi, vá lá, numa emergência. Fralda com cocô, nunca.

Importante: o correto uso do colo. Existem dois tipos de colo, o utilitário e o festivo. Colo utilitário é quando a criança fica na vertical recebendo tapinhas nas costas, depois de mamar. Seu objetivo é provocar o arroto. Arroto e pum são as duas principais realizações da criança nos seus primeiros meses de vida. São recebidos com manifestações de entusiasmo da família, como se ela tivesse passado no vestibular.

O avô deve manter distância na hora do colo utilitário. Pode fazer parte da torcida, soltar um “Viva o Brasil” na hora do arroto, se for dos bons, ou de um pum particularmente ressonante. Ficar no apoio moral. Mas só. No colo vertical o avô não consegue desempenhar sua principal função, que é a de ficar olhando o rosto da criança, maravilhado. Depende da informação de terceiros para cumprir sua missão (“Ela tá de olho aberto? Fechado? Tá rindo?”). Já o colo festivo, na horizontal, é para a adoração e nada mais. No colo horizontal até um pum extemporâneo da criança pode ser tomado como uma deferência especial ao bobo que a segura.

Outra função importante de um avô é falar racionalmente, com voz normal, com a criança recém-nascida. Relatar os fatos do dia, pedir sua opinião, sugerir que ela não se desespere com as opções limitadas da sua alimentação no momento (só duas, peito direito e peito esquerdo) pois com o tempo as coisas melhorarão bastante. Logo virão as papinhas e as sopinhas e eventualmente os carrês de cordeiro com batatas Dauphine e cebolas carameladas, e arrotos com muito mais conteúdo.

Claro que o avô não espera que a criança o entenda, e muito menos que responda. É para ela saber que nem todos falam como bebê e fazem perguntas retóricas como “Cadê a coisinha mais fofa, cadê?” e que ela não caiu num mundo de malucos. E que o nível das conversas também melhorará com o tempo.

Passada a primeira fase, o avô deve acompanhar todas as etapas do crescimento da criança na capacidade que lhe for pedida, salvo risco de deslocamento da coluna. Se uma neta começar a estudar balé e exigir e que o avô faça pliês junto com ela, ele tem que obedecer. Quando chegar a minha hora não sei se conseguirei ficar de pé, mas estou preparado.

Seu carteiro. Aproveite o espírito de Natal e faça o seguinte: dê atenção ao seu carteiro. A mesma atenção que um dia eles mereceram, e aos poucos foram perdendo por culpa da crise social e da falta de segurança.

Quem não mora em casa com cerca eletrificada, arame farpado, seteira, guarita com metralhadora, jardim minado e a caixa de correio longe da porta mora em apartamento e, a não ser no caso de carta registrada, raramente vê a cara do seu carteiro. E eles devem ter uma certa nostalgia do tempo em que precisavam bater nas nossas portas, conversar um pouco, talvez ganhar um copo d’água.

Enfim, do tempo em que nos encontrávamos. E podem até ter saudade dos ataques dos nossos cachorros. Pelo menos era um contato.

Se encontrá-lo neste fim de ano, abrace seu carteiro e convide-o a entrar. Depois de se certificar, claro, que é carteiro mesmo e não um assaltante disfarçado.

‘Redes serão campo de batalha nas eleições’, diz pesquisador

Para Ruediger, presença do Estado no monitoramento dos robôs é essencial Foto: Fabio Motta/Estadão

A tentativa de manipulação do debate público e a disseminação de notícias falsas – fake news – nas redes sociais são fenômenos que atingirão escala jamais vista nas eleições de 2018 no Brasil e devem ser monitorados pelo Estado, segundo o pesquisador Marco Aurélio Ruediger.

Responsável pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV-DAPP) e coordenador da pesquisa Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil, Ruediger afirma que as redes sociais serão um campo de batalha e os robôs – programas usados para multiplicar mensagens na internet – terão presença significativa na discussão eleitoral.

Na pesquisa, ele verificou seis momentos-chave na política brasileira – como o primeiro turno das eleições de 2014 e a aprovação da reforma trabalhista no Senado – e constatou que a cada quatro segundos um robô enviou uma mensagem nas redes sociais.

Qual é a conclusão do estudo?

A conclusão é de que os robôs não são uma coisa episódica na política brasileira. Não é uma possibilidade, é uma certeza que acontecerá no próximo ano. Em função do que aconteceu no País nos quatro últimos anos, serão as eleições mais importantes das últimas décadas. As redes sociais serão um campo real de batalha e os robôs terão uma presença significativa. Isso deve ser monitorado.

Por que é importante mapear esses mecanismos?

A primeira importância é o quanto se consegue distorcer opiniões e orientar debates para além do que seria o espírito cívico e republicano. Ou seja: a construção de agendas e a deformação dos debates sobre essas agendas dentro desses meios. A outra é: quem no País se utiliza mais disso ou quem se favorece desses robôs? E fora do País? Existem robôs que favorecem agendas que interessam à política brasileira? As respostas são extremamente importantes.

Qual o peso que as redes sociais terão na próxima eleição?

Não tenho dúvida de que será muito maior. Mais pessoas utilizam redes sociais do que há quatro anos. As campanhas de rua ficaram muito caras e com poucos financiadores. Então, as redes se tornam atraentes porque o custo, em geral, é mais baixo. O problema é que será um “tiroteio” de vários lados, porque é frequente o uso das mídias sociais para deformar o debate público e todos os campos ideológicos usam esse tipo de instrumento. É disseminado no mundo da política e agora vai ser potencializado.

TSE, Ministério da Defesa e Abin traçam ações para barrar fake news. Como vê a iniciativa?

É necessário que o Estado brasileiro entenda que o monitoramento se tornará uma ação necessária e constante. Em algum momento, terá de haver uma regulação, uma construção legal mais avançada e, claro, que respeite o Marco Civil da Internet. Não se pode achar que só aconteceu na eleição. Essa hipótese nós já derrubamos. É o tempo inteiro e não é só na política, mas também na economia.

(As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)