Morre aos 95 anos marinheiro da célebre foto do beijo em Nova York

Imagem de homem beijando enfermeira correu o mundo e é uma das mais famosas do século 20

Foto de Alfred Eisenstaedt que retrata beijo de marinheiro George Mendonsa e enfermeira Greta Friedman em exposição em Roma Foto: GABRIEL BOUYS / AFP

O marinheiro que beija uma enfermeira na Times Square enquanto as pessoas comemoravam o fim da 2ª Guerra nas ruas de Nova York, protagonista da icônica foto conhecida como “O Beijo”, morreu aos 95 anos, informou sua filha ao Providence Journal.

Em 14 de agosto de 1945, as pessoas foram para as ruas de Nova York celebrar as notícias, quando George Mendonsa beijou Greta Friedman, que ele nunca conhecera. Na imagem, uma das quatro de Alfred Eisenstadt para a revista Life, Mendonsa é visto curvando-se sobre Greta Zimmer Friedman, uma assistente de dentista que vestia um uniforme de enfermeira.

Mendonsa serviu em um destroier durante a guerra e estava de licença quando o fim da guerra foi anunciado. Durante muito tempo, ele garantiu que era o marinheiro da foto, mas isso só foi confirmado recentemente com o uso da tecnologia de reconhecimento facial.

A imagem tornou-se uma das mais famosas fotografias do século 20.

Greta Zimmer Friedman, a mulher da foto, morreu em 2016 aos 92 anos.

A morte e o tempo verbal

A morte e o tempo verbal A primeira vez em que você precisa colocar uma pessoa no passado não é algo fácil de esquecer

Ruth Manus, via O Estado de S. Paulo

Eu não sei se morrer é difícil. Deve ser – em alguns casos mais do que em outros. Mas de uma coisa eu sei: ficar é muito difícil. Ficar é sangrento. Aliás, eu tenho muito mais medo de ir ficando do que de ir morrendo. Disse isso outro dia a uma amiga. Deus me livre de viver até os cento e poucos anos. Pra quê? Pra ver todo mundo morrendo antes de mim? Não, não estou disposta a ganhar essa competição.

Já aprendi que perder as pessoas é duro por muitos ângulos. Não se trata apenas da ausência. São as dúvidas. Por onde é que ele anda agora? Ou melhor, será que ele anda em algum lugar agora? E ele sabe que eu estou sofrendo? Ele sofre por eu estar sofrendo? São as hipóteses. E se ele ainda estivesse aqui? E se tivesse dado tempo de ele ficar mais um pouco? E se eu tivesse tido tempo de fazer diferente?

É difícil por muitas razões. Mas existe uma dificuldade muito pontual – e que até costuma ser rapidamente superada, mas que se alojou na minha memória como uma das partes mais cortantes desse processo. Trata-se da inusitada e inesquivável relação entre morte e tempo verbal.

A primeira vez em que você precisa colocar uma pessoa no passado não é algo fácil de esquecer. A primeira vez que você se flagra dizendo que ele “era”, que ele “gostava”, que “dizia e “frequentava” e “comia” e “dançava” e “fazia” e “ria” e “detestava” e “escrevia”.

A gente até pode se preparar para certas mortes. Podemos organizar a cabeça, preparar os documentos, pensar no rumo dos imóveis, na liberação do seguro e no advogado que cuidará do inventário. As mortes anunciadas têm essa incômoda vantagem. Mas ninguém se prepara para um verbo no passado.

E não importa quantas mortes a gente já tenha encarado: não existe experiência nem direito adquirido no ramo desses tempos verbais. Podemos nos habituar aos velórios, conhecer o melhor caminho para o cemitério, ter o contato do agente funerário na memória do celular, conhecer o juiz da Vara da Família e Sucessões pelo nome. Mas sempre que precisamos colocar alguém no pretérito imperfeito pela primeira vez é como se fôssemos absolutamente virgens naquela matéria.

A sensação é a de um abandono. Nosso para com eles, deles para conosco. Eles partiram e agora nós vamos colocá-los no passado. Eles já não são, eles eram. E não importa o quanto eles sigam sendo, no presente, dentro do nosso peito. Para o mundo, para o cartório, para a seguradora e para regência verbal, eles eram e já não são.

O Zé envernizava os móveis de madeira. A Má ria de absolutamente tudo. O Gabriel ia à igreja. O Cris cantava desde muito novo. O Paulinho velejava sob o céu azul. O Fernando dirigia televisão. O Chicão jogava handebol. O Marcito mergulhava no fundo do mar. O Urian pintava com maestria.

Dizendo hoje até pode soar bonito, como um passado consolidado em memória. Mas na primeira vez em que se diz, de bonito não tem nada. Nem na segunda e provavelmente na terceira também não. Dá vontade de não terminar a frase, porque dizer isso parece significar que o fio se rompeu em voz alta. É como consumar com palavras o conteúdo do atestado de óbito. Ninguém quer fazer isso.

Desculpem-nos por termos nos rendido às exigências mimadas dessa tal de gramática. Por nós, vocês continuariam no presente, ainda que fora do nosso alcance. Desculpem essa nossa fraqueza de ter medo que pensem que estamos loucos se continuarmos tratando vocês como vivos e permanentes. Esses padrões ideais de comportamento são mesmo muito incômodos.

O que interessa é que seguimos sendo capazes de ouvir suas vozes. Por vezes, até sabemos o conteúdo do que seria dito. O cheiro de vocês segue persistente. Memórias do passado seguem sendo capazes de construir quem somos no presente. O verbo, embora continue sendo inoportuno, segue sendo apenas um verbo.