Na mesma página

A raiz dos desentendimentos pode estar também na desigualdade da linguagem, e não apenas nas diferenças de opinião

via Vida Simples

Quando expliquei como eu queria que fosse a organização de cada capítulo, Leandro assentiu com a cabeça enquanto anotava no laptop, provavelmente já criando imagens, como é de seu jeito. Conversar com um criador de sites e portais é um exercício de imaginação, pois a cabeça desses jovens, que exercem uma profissão que há poucos anos não existia, funciona em permanente estado de prontidão criativa.

Eles são os responsáveis por criar mundos virtuais que representam fatos reais, como produtos, processos, serviços, histórias, e tudo o mais que faz parte da vida de uma pessoa ou empresa. Leandro é um webdesigner, portanto é em sua cabeça que começa a tradução do real para o virtual. Só depois entra em ação o programador.

Enquanto o primeiro imagina como será, o segundo traduz para a linguagem de programação. Não é incomum que nesses dois processos trabalhem grandes equipes, como também não é raro que apenas uma pessoa possa fazer os dois trabalhos.

Estamos falando do fantástico mundo da web, essa realidade paralela que interage com quase tudo o que fazemos atualmente. Estávamos trabalhando na criação de meu novo site, que terá uma parte dedicada a conteúdos de conceitos já consagrados e também de concepções pessoais sobre vários aspectos, especialmente sobre o comportamento na vida profissional da atualidade, apresentados em forma de vídeos curtos.

Quando falávamos sobre esses vídeos, Leandro, como que dirigindo-se a si mesmo, disse: “Cada capítulo terá um mínimo de dois e um máximo de quatro minutos…”.

“Não”— corrigi. “Cada capítulo terá um número variável de vídeos de três minutos em média”, disse.

Foi quando ele me olhou como quem olha para alguém que ainda não entendeu, no caso, eu. E emendou: “Não, capítulo é o mesmo que episódio, portanto, cada vídeo”. “Não!” — insisti. “O capítulo é o conjunto de vídeos, que, aliás, estão agrupados em séries.” “Mas as séries não seriam as temporadas?” — perguntou o webdesigner com genuíno sentimento de dúvida.

Nossa reunião já levava mais de meia hora e de repente percebi que estávamos patinando no vocabulário técnico escorregadio e dando voltas sem fim. Nossa dificuldade, concluí, não estava no entendimento do que deveria ser feito, da estrutura que deveríamos criar. A dificuldade estava no vocabulário, na confusão de comunicação entre dois cérebros que tinham, claramente, programações diferentes.

Para mim, capítulo era cada divisão de um livro. Para ele, capítulo era um episódio de uma série de TV via streaming. Gerações diferentes têm visões diferentes da vida. Simples assim.

Poderíamos ficar o resto do dia debatendo e não chegaríamos a uma conclusão, pois estávamos falando línguas diferentes. Enquanto não criássemos um consenso, de pouco adiantava continuarmos a falar sobre a estrutura do portal. A retórica deveria anteceder a discussão sobre a estrutura, na verdade. Felizmente nos demos conta dessa dificuldade.

Ambos rimos e concordamos em “passar a régua” (esse ditado ambos conhecíamos). “Vamos começar do zero”— disse eu, ao mesmo tempo em que me levantava em direção a um flip-chart. Em comum acordo, criamos nosso próprio vocabulário.

A partir desse momento, a reunião foi superprodutiva, e chegamos rapidamente à estrutura que queríamos. Voltando para casa não pude não pensar sobre o acontecido.

A reunião havia durado cerca de três horas, mas pelo menos a metade dela foi dificultada pela diferença de vocabulário. Poderia ter sido mais rápida e produtiva se, antes, tivéssemos nos colado “na mesma página” vernacular.

Foi quando olhei pela janela e vi o carro ao meu lado, parado no farol. Parecia ser um casal. Talvez fossem colegas de trabalho, irmãos ou amigos, mas que parecia um casal, parecia. Ele estava dirigindo, com as mãos apertando o volante e balançando a cabeça. Ela olhava para ele e gesticulava com a mão, dedo indicador em riste.

Eu não conseguia ouvir (nem queria), mas fiquei com a impressão de que ela falava alto. Alguns decibéis a mais do que o necessário para se fazer entender dentro de um carro em movimento. Jamais saberei o que se passava ali, mas parecia um momento tenso, uma discussão séria. Torço que tenham encontrado o consenso e a paz rapidamente. O farol ficou verde e seguimos nossas destinações e nossos destinos. Seguimos iguais ou diferentes? Como a vida é um eterno aprendizado, e a cada instante acumulamos algo novo, somos diferentes do que éramos no instante anterior. Para mim isso foi evidente naquela ocasião. Eu não pude parar de pensar sobre o que havia visto naquele farol fechado, por causa do que tinha acabado de viver na reunião um pouco antes.

Será — pensei — que as discussões, desavenças, brigas acontecem por diferenças de opinião, mesmo? Será que a causa disso não teria a ver com as infinitas variações de modelos mentais que antecedem o momento em questão? Passamos a vida construindo um modelo de pensamento, uma maneira de ver os fatos e, principalmente, de comunicar o que pensamos e sentimos.

E todo esse repertório, elaborado lentamente a partir de experiências anteriores, é despejado sobre a bandeja da discussão de um fato pontual. A chance de haver distúrbios de entendimento é grande.

A partir daquele dia, começo as reuniões tratando de colocar todos “na mesma página” dos temas a serem tratados, dos objetivos a serem atingidos e, principalmente, do significado de cada abordagem. Ou seja, pessoal, vamos falar a mesma língua, por favor… Já se disse que é mais comum, em uma discussão, principalmente de um casal, que cada um tente impor sua razão, que passa, a partir de determinado ponto, a ser mais importante do que encontrar uma solução.

Talvez esteja aí a fonte da maior parte das desavenças. As diferenças de visão, de percepção e de opinião são importantes, caso contrário não poderíamos evoluir. Ficaríamos na mesmice.

Mas, para que essa fantástica diversidade do coletivo seja aproveitada, é preciso, antes, fazer com que os espíritos habitem a mesma esfera de compreensão, o que pressupõe, acima de tudo, o exercício da humildade, a condição básica para o entendimento e o crescimento conjunto.

A insatisfação 2

Desconfortável e às vezes angustiante, esse sentimento também pode nos ajudar a trazer soluções novas e a buscar conquistas que tragam mais sentido para nós

Eugenio Mussak, via Vida Simples

“OBRIGADO, estou satisfeito!” Essa frase, acompanhada de um meio sorriso e de mãos espalmadas em direção à outra pessoa, costuma ser usada quando, já saciados, recusamos mais comida que alguém está nos oferecendo. Estar satisfeito tem, então, o significado de não querer mais, de rechaçar uma oferta, de abrir mão da oportunidade de aumentar a posse de um bem. No caso, de mais comida, mesmo sabendo que essa satisfação será temporária. Analisemos melhor essa questão: ao recusar o segundo prato você está sinalizando que já comeu o suficiente ou que não quer comer mais? Pode parecer a mesma coisa, mas há uma diferença sutil entre as duas possibilidades. Talvez você não queira mais por já ter comido muito, uma vez que a comida estava deliciosa. Mas talvez você não queira mais porque não gostou. Dessa forma, o “estou satisfeito” pode ser sincero, ao sinalizar que seu corpo e seu prazer já foram convenientemente atendidos, ou pode ser apenas uma força de expressão, pois na verdade você está mesmo é insatisfeito com o que está recebendo e, portanto, não quer mais. Essa pequena reflexão nos leva a outra, ligada com a essência da satisfação em si mesma. O que seria isso? A satisfação é uma coisa boa a ser perseguida? A insatisfação é, necessariamente, ruim? O que significa estar satisfeito? Vejamos, pois. A palavra satisfação, de origem latina, integra dois conceitos em sua estrutura. Satis significa bastante, suficiente, ou em quantidade adequada. Facere tem o sentido de fazer, realizar, ou atingir um objetivo. A etimologia, que sempre nos socorre, coloca a satisfação em uma ótima perspectiva. Deixa claro que a satisfação não vem apenas com o que conseguimos, mas também com a maneira como conseguimos. Eu fico realmente satisfeito quando consigo o que desejo através de minha atitude em relação a meu objetivo. A verdadeira satisfação tem a ver, então, com movimento, com realização, com trabalho. Isso explica por que pouco valorizamos aquilo que conseguimos sem esforço, gratuitamente, como mero regalo da vida. Gostamos mesmo é do que conseguimos a partir de nossa intenção e de nossa ação. Estar satisfeito, por outro lado, pode colocá-lo em uma situação de imobilidade. Eu me movimento para alcançar o que desejo e, uma vez atingido o objetivo, tal movimento perde sentido, eu então paro e me acomodo. Pessoas satisfeitas correm o risco de estacionar na vida, pois já têm o que desejam, o que nos leva a outra discussão, que é nossa relação com o desejo. Uma das vertentes, com o amparo da filosofia, relaciona desejo com amor. A lógica é que amamos o que desejamos, o que coloca o amor como algo volátil, que desaparece após o obtermos. Mas vamos com calma, pois essa é apenas uma das vertentes do amor, o Erótico, o mais comum e primitivo. Os outros seriam o amor Philos, fraternal, e o Ágape, o mais elevado, o afetivo, universal e desprovido de interesses. O amor Erótico é o amor pela posse, pela conquista, e que vale não apenas para o amor por outra pessoa mas também pelas coisas, por tudo aquilo que desejamos obter e possuir. Ele, claro, encontra sua essência em Eros, cujo nascimento parece explicar tudo. Os deuses estavam reunidos nos domínios de Zeus, em festa, para comemorar o nascimento de Afrodite, que seria a deusa da Beleza. Havia música, alegria, comida e bebida, e entre os mais alegres estava Poros, o deus da Riqueza. Embriagado, saiu para os jardins de Zeus, buscando sossego e ar puro. Espiando pela janela estava Pênia, a deusa da Pobreza, magra, curvada e andrajosa. Ao ver Poros sair, teve a ideia de seduzi-lo e conseguiu que ele a fecundasse, pois queria ter um filho que, ao ser filho da riqueza, também fosse rico e poderoso. O filho gerado a partir dessa união furtiva recebeu o nome de Eros, que, ao crescer, transformou-se, ele mesmo, em um deus muito especial: o deus do Amor. O amor é, então, filho da riqueza e da pobreza. Por isso é satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo e oscila entre esses dois extremos o tempo todo, na busca incessante de sua completude, que nunca poderá ser atingida. Esse é um dos clássicos da mitologia grega, que, como sabemos, é muito rica em elementos que nos ajudam a entender a essência humana. Não por acaso, a mitologia foi uma das principais fontes de inspiração de Freud, especialmente quando ele se deparava com alguma lacuna teórica para explicar seus conceitos. O amor erótico seria, então, o amor do desejo, e este, como sabemos, se extermina quando se completa. Em outras palavras, só desejamos o que não temos, pois, quando obtemos o que desejávamos, perdemos a justificativa para o desejo. Pode parecer paradoxal, mas não é. Faz sentido e pertence à qualidade humana da insatisfação, que se, por um lado, é causa de ansiedade, por outro, é origem de progresso. Voltando à satisfação, vale lembrar o que disse o escritor Guimarães Rosa sobre o assunto: “O animal satisfeito dorme”, sintetizou. Nessa curta frase, o mineiro, aliás autor do longo Grande Sertão: Veredas, define a satisfação como um bem tão precioso, capaz de gerar serenidade, conforto e, como consequência, sono. Mas também alerta para o fato de que o animal que dorme torna-se vulnerável, uma vez que perde o estado de alerta, necessário à sobrevivência no ambiente perigoso da natureza. Devemos, então, viver insatisfeitos para nos mantermos vivos? Esse é um tema recorrente em ambientes empresariais, nas escolas de negócio, nas denúncias da imprensa sobre os desmandos políticos. A insatisfação – dizem – mobiliza, energiza as ações diversas, promove mudanças, conquistas e, consequentemente, realizações. Somos animais insatisfeitos por natureza, o que não apenas nos manteve vivos até aqui como promoveu nossa evolução e nosso progresso. A satisfação é um prazer provisório, transitório, e é também necessário. A insatisfação é desconfortável, às vezes angustiante, mas também é necessária, e é do movimento dessa gangorra que tiramos nossa essência. Era isso por hoje. Espero, sinceramente, que a satisfação gerada pelas ideias deste texto só dure até que surja a expectativa pelo próximo. Assim continuaremos juntos…

EUGENIO MUSSAK ama escrever, já se aprofundou em muita coisa, mas se diz insatisfeito com seus textos.