Contribuições de Freud à Psicologia do Amor

Freud destaca características que determinam a escolha da pessoa amada, demonstrando conflitos que ocorrem entre a capacidade de amar e desejar sexualmente o mesmo objeto.

Por Rodrigo de Souza, via Conti Outra

O modelo como alguns homens amam reproduz certas condições que são construídas no interior do processo de subjetivação do Complexo de Édipo. Em suas contribuições à psicologia do amor, no artigo “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, Freud (1912) destaca características que determinam a escolha da pessoa amada, demonstrando conflitos que ocorrem entre a capacidade de amar e desejar sexualmente o mesmo objeto. A harmonia de uma relação amorosa normal sustenta-se entre o equilíbrio das correntes eróticas e afetivas.

As correntes afetivas correspondem aos primeiros vínculos amorosos da criança com a mãe, cujas correntes eróticas, por sua vez, estão interligadas, visto que a sexualidade da criança se desenvolve junto ao corpo materno, que a recobre de amor e sensualidade. Freud, nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, foi claro ao evidenciar o chuchar como modelo da sexualidade infantil. Ou seja, – mesmo tendo a fome saciada, – a criança insiste em continuar mamando no seio materno, para satisfazer, assim, algo da ordem do erótico que se manifesta ali.

Com a entrada do menino na puberdade, as correntes eróticas que antes estavam misturadas com as correntes afetivas, precisam se separar do primeiro objeto de amor, de modo a redirecioná-las a outros objetos amorosos para fora da família. Trata-se, portanto, de seguir as regras impostas pela barreira do incesto ao exigir que a criança aprenda a amar e a desejar um outro objeto substituto. No entanto, tendo a mãe como primeiro modelo de amor, o adolescente, por fim, agora liberado para amar e transar, não consegue se organizar afetivamente a não ser pelo mesmo modelo primário reproduzido com a mãe, marca esta que o acompanhará ao longo da vida adulta.

A dificuldade, que se apresenta para este tipo particular de dinâmica do amor, reside na difícil tarefa de equilibrar as correntes eróticas e afetivas, sem levar o homem a incorrer em impotência psíquica ao não conseguir desejar a mulher para quem ofereceu seu amor.

Segundo Freud, – existe apenas um pequeno número de pessoas capazes de combinar adequadamente as duas correntes. Em outras palavras, amar sem que isto implique uma diminuição do desejo sexual. Quando essa harmonia não ocorre, o homem precisa recorrer a outra mulher que não seja digna de seu amor como, por exemplo, a prostituta, para assim extravasar seus impulsos sexuais selvagens inibidos pelo fantasma do amor incestuoso.

O que está em voga, nesses casos, para que o desejo sexual se mantenha vivo, é a possibilidade de poder depreciar e inferiorizar outra mulher. Expressões que compõem o jogo erótico como “sua vagabunda”, “vadia”, “cachorra”, ou tapas na cara, puxões de cabelo, dentre outros artifícios, fazem parte do repertório daquele que Freud designa como impotente psíquico devido ao fato de precisar se desvincular de toda e qualquer possibilidade de amar para se manter viril e desejoso.

Destaco aqui a fala de um paciente casado que sempre entrava em atrito com a amante quando ela o demandava afetivamente, exigindo dele algo para além do sexo casual. Esta pretensão da amante de querer namorá-lo o irritava porque, com isso, ela o impossibilitava de usá-la como objeto de seu desejo sexual. “É para isso que serve a amante, dizia ele, para que eu faça com ela o que eu não consigo fazer com a mulher para quem o meu amor está endereçado, a mãe do meu filho.” Ou seja, a esposa está para o amor assim como a amante para o desejo sexual. Este mesmo paciente relatou que decidiu ter um filho para tentar inibir ou deslocar as tentativas da esposa de querer tratá-lo como um bebê.

Freud, em 1914, no artigo sobre o narcisismo: uma introdução, destaca dois destinos da identificação amorosa: o narcísico e o anaclítico. O narcísico ocorre quando o sujeito ama a si próprio a partir do outro. Em outras palavras, ama no outro aquilo que foi, que é ou que gostaria de ser. A identificação amorosa anaclítica diz respeito ao tema sobre o qual estou abordando. Trata-se de amar no outro algum traço que remonte à parentalidade da primeira infância, como no caso agora citado do paciente que estava identificado com o fantasma da mãe reeditado na relação com a esposa.

Há um outro episódio no qual um paciente me declarou que sentia atração sexual por moradoras de rua e, – sempre quando possível, transava com elas, – afirmando que as condições precárias de higiene e clandestinidade o excitavam. Dominado pelos impulsos eróticos mais animalescos, sua satisfação sexual elevava-se à enésima potência através de uma certa mistura de medo, nojo, receio e desejo. Havia uma queixa em torno da frustração de não mais conseguir gozar plenamente com a esposa, alegando que o sexo cumpria apenas a função de satisfazer uma necessidade biológica de querer gozar para, em seguida, dormir. A impotência a qual Freud se refere para explicar o fato do homem não conseguir desejar quem ama não é peniana, e sim psíquica. Isto não quer dizer, vale lembrar, que também não possa haver impotência sexual em alguns casos. De modo geral, há ereção no órgão, o que não há, é “ereção” nas fantasias eróticas.

A forte fixação na mãe como modelo primário de amor o impede de recorrer às fantasias mais imorais que enriquecem a relação sexual, tal qual aquelas que acontecem com a amante. Existem vários graus de impotência psíquica. Há quem ao não conseguir depreciar a própria esposa para abrir as portas do desejo sexual precise buscar fora do casamento mulheres passíveis de depreciação e inferiorização, como no caso da moradora de rua. No entanto, o contrário também é verdadeiro. Vejamos este outro fragmento de caso clínico: uma paciente teve que fazer uma cirurgia nas costas e recorrer ao marido para ajudá-la a tomar banho em virtude do fato de estar quase toda enfaixada e imobilizada. Conclusão: sua vulnerabilidade frente ao marido e o mal cheiro que exalava das faixas o excitavam como na época em que começaram a namorar. Bastou ela se recuperar para o desejo sexual se apagar e seguir os moldes do sexo “arroz com feijão”; ou, como socialmente convencionado, “sexo papai e mamãe”.

Exemplos como estes ilustram o quanto a prevalência do amor diminui a libido sexual como marca atemporal da interdição do incesto que obriga a criança a não desejar a quem ama. Se o homem reproduz com a mulher amada o mesmo protótipo a partir do qual aprendeu a amar, sendo a mãe, sempre sagrada e idealizada, o erotismo, por outro lado, perde sua potência. Depreciar, portanto, seja saindo com a mendiga, com a prostitua ou com a esposa enfaixada, apresenta-se como recurso para este tipo de homem se afastar do inimigo número um do desejo sexual: o amor. Freud traduziu muito bem esta problemática, ao afirmar que os homens governados por esse conflito, quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar.

Como em todo e qualquer começo de relação, onde o amor ainda está em fase de construção, é comum que, do ponto de vista do homem, que padece desse conflito, a vida sexual seja mais rica e excitante. A combinação entre amor e desejo sexual é sempre muito delicada, principalmente quando a mulher decai da posição de mulher e assume o papel de mãe na relação, levando o homem a reproduzir o modelo primário que impossibilita a livre-expressão do erotismo.

Um outro exemplo que nos ajuda a entender melhor o conflito entre amor e desejo ocorre quando um casal briga. Por que se diz que entre briga de marido e mulher não se mete a colher? Porque acaba na cama! Isto é, uma boa briga, ao fazer emergir os conteúdos agressivos, removendo com isso os efeitos românticos do amor, traz à tona as correntes eróticas antes inibidas, levando o casal a transar como nos velhos e bons tempos. Há casais que precisam recorrer constantemente ao artificio da briga como uma alternativa possível para a manutenção da qualidade da relação sexual. Para quem não consegue conferir um equilíbrio saudável entre as correntes afetivas e eróticas, a vida sexual fica empobrecida, sem sal. O conflito entre amor e desejo apresenta-se com frequência na minha clínica e, de modo geral, atesta a impossibilidade da pulsão sexual produzir satisfação completa, sempre aquém daquela vivida nos primórdios do bebê com a mãe.

ESPAÇO FEMININO: Sobre carências 2

As mulheres, ao contrário dos homens, são emotivas. As meninas , na maioria das vezes, pensam mais com o coração do que com cérebro, por isso mesmo são seres especiais.

Duas amigas me estimularam, ou melhor falando, me inspiraram a escrever este post. Topei a parada. Vamos lá!

Mulheres são símbolos. Não falo daquelas feministas feias, mal amadas, traumatizas e complexadas, que acham que mulher tem que ter o “xiri fedido” para ter o cheiro de mulher”.

Não! Falo de mulher “mulher”, que tem sentimentos, que choram, que tem brilho e não sangue no olhar.

Há uma frase que li numa revista feminista, nos anos 90, que nunca esqueci e que diz mais ou menos assim: “Sem brilhos nos olhos não há beijo na boca; pior sob o capitalismo: concorrência, posse, dinheiro… Brilhar, beijar, ter brilhos nos olhos, beijo no olhar”.

Mulher é um ser divino, ainda mais quando, além de mulher, é mãe!

Por que, então, há mulheres bonitas, cheirosas e inteligentes não conseguem ser felizes nos relacionamentos afetivos?

Minha impressão é que há mulheres que são exigentes consigo mesmo. Estão sempre a procura do “homem ideal”, do “parceiro ideal”, enfim, “do “amor ideal”.

Só que isso não existe! Homens, via de regra”, são reprodutores e querem manter-se simplesmente na sua condição de se relacionar para manter a especie.

Claro que existe romantismo, paixão e outros sentimentos que dão sentido à vida a dois, mas não adianta mulheres, ou não deve, alimentar certos sonhos e esperanças sobre relações afetivas. Não vale a pena sofrer por amor!

“E por que não Robert Lobato?”, pode perguntar alguma leitora apaixonada.

Simples: Amor é um conceito indefinido. Há amores e amores, mas quando isso é levado para o campo afetivo entre homem e mulher, ou, como está na moda, entre o mesmo gênero, a coisa vira algo muito complexo.

Mas, voltando ao tema principal deste post, a carência de “mulheres bonitas, cheirosas e inteligentes”, penso que isso deve ao fato delas exigirem muito de si.

As mulheres, ao contrário dos homens, são mais emotivas. As meninas, na maioria das vezes, pensam mais com o coração do que com cérebro, por isso mesmo são seres especiais.

Nós, homens, somos diferentes. Temos duas “cabeças”, e a rigor a de baixo prevalece sobre a de cima. Fato!

Então, meninas, procurem ver e encarar a realidade masculina

Vale a pena amar? Claro que sim.

Mas, sempre lembrem da frase feminista acima: “Sem brilhos nos olhos não há beijo na boca; pior sob o capitalismo: concorrência, posse, dinheiro… Brilhar, beijar, ter brilhos nos olhos, beijo no olhar”.

E viva as carentes a procura de amor e de amar.

Só não vale enganar-se….

“Eu não errei, amei” 7

Por mais que tenha feito o que fez a ponto de um caso de amor se transformar numa das tragédias cariocas mais famosas e um dos casos de tribunais mais movimentados do estado do Rio de Janeiro (veja aqui), essa frase da Saninha resume muito bem o sentimento de amor

Desejo é uma minissérie brasileira exibida pela Rede Globo no início da década de 90, cuja autora é a genial Glória Perez, com direção do não menos genial Wolf Maia.

A trama foi baseada em fatos reais a partir do episódio conhecido como “A Tragédia da Piedade”, quando o escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, foi morto por Dilermando de Assis, amante de sua mulher Ana Emília Ribeiro.

A produção foi a fundo no trabalho de pesquisa e reprodução dos acontecimento daquele fatídico domingo, 15 de agosto de 1909, com os antecedentes do fato ocorrido e, também, os desdobramentos do caso, que culminou na absolvição de Dilermando, que foi defendido por ninguém menos do que  o grande criminalista Evaristo de Morais.

O elenco, entre outros, era formado Tarcísio Meira (Euclides da Cunha); Vera Fischer, a Saninha (Ana de Assis); Guilherme Fontes (Dilermando de Assis); Marcos Winter (Dinorah) e Marcos Palmeira (Solón).

Desejo é uma daquelas minisséries que despertam emoções e sentimentos de toda ordem. Na época, torci muito para que Euclides da Cunha desse cabo no amante da sua esposa (Rsrsrs). Mas, infelizmente, ocorreu o contrário.

Entre tantas partes e frases marcantes de Desejo, duas frases jamais mais esqueci, curiosamente ditas pelo ex-casal Euclides da Cunha e Saninha. A dele: “Vim para matar ou morrer!”, dita assim que adentrou à casa de Dilermando com a intenção de defender a sua “honra”.

Bom, a frase da Saninha é a que dá título a este post: “Eu não errei, amei”, proferida no fechamento da minissérie.

Essa frase da Saninha não é apenas forte, mas muito simbólica quando o assunto é amor.

As pessoas fazem coisas por amor que a razão desconhece. Aliás, o saudoso Renato Russo resumiu bem essa assertiva quando na música Eduardo e Mônica poetizou:

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Por mais que tenha feito o que fez a ponto de um caso de amor se transformar numa das tragédias cariocas mais famosas de todos os tempos e um dos casos de tribunais mais movimentados do estado do Rio de Janeiro (veja aqui), essa frase da Saninha resume muito bem o sentimento de amor.

Por isso que o amor é um sentimento que desperta júbilo e medo num só tempo.

O amor é mistério.

E não adianta querer decifrá-lo.

Um ótimo e abençoado sábado para todos.

Até amanhã.