Toda e qualquer resposta simplista sobre suicídios tem grande possibilidade de erro

Suicídios: o que ainda precisa ser dito

Redação Vya Estelar

Por Maria J. Kovács

Suicídio é tema tabu, mesmo sendo um evento presente na história da humanidade desde a Antiguidade. O ato suicida pode ser visto como liberdade, domínio, autonomia e controle. Mas ainda é frequentemente julgado e condenado, visto como fraqueza ou covardia.

Toda e qualquer resposta simplista sobre suicídios tem grande possibilidade de erro. Nos últimos anos, observamos mudança na mentalidade de que o suicídio precisa ser ocultado. Não falar sobre suicídio não diminuiu seus índices, pelo contrário, eles têm aumentado. A perspectiva atual é falar sobre o tema, trazendo números e porcentagens, quais são as pessoas em risco, diferenças de gênero e, no extremo, chega-se a falar do número de tentativas de suicídio em minutos, dias, meses ou anos.

Tão importante quanto a prevenção, é a posvenção; entenda

Os dados epidemiológicos servem como alerta e fomentam programas de intervenção. Os índices de suicídio nos convocam a prestar atenção nas pessoas ao nosso redor. Junto com programas de prevenção temos que desenvolver, em nosso meio, também programas de posvenção (termo ainda pouco conhecido no Brasil), que têm como objetivo principal cuidar do sofrimento de pessoas com ideação e tentativa de suicídio e familiares enlutados, oferecendo acolhimento e psicoterapia.

Levando-se em conta o que foi apresentado acima, vamos trazer outras questões para reflexão, agora considerando as pessoas já atingidas pelo fenômeno do suicídio, por ideação ou atos suicidas e pelos familiares que perderam pessoas queridas por esse evento. Essas pessoas necessitam de escuta, apoio, acolhimento e cuidados em longo prazo, não querem saber de números, estatísticas ou porcentagens. Precisam falar de seu sofrimento existencial.

Estatísticas apontam tendências, dados epidemiológicos, estatísticas, fundamentando programas de saúde mental. Pessoas afetadas pelo suicídio precisam de particularização, singularidade, respeito pela sua história que tem um início e que ainda não foi finalizada. Pessoas com ideação, tentativa de suicídio e familiares enlutados demandam atendimento de qualidade com profissionais capacitados, psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, que possam acolher o sofrimento humano, cujo objetivo principal não deve ser evitar o suicídio a todo custo. Exemplificando, a atenção só voltada para impedir o suicídio pode restringir o sujeito, restringindo sua autonomia e liberdade.

Em casos extremos, pessoas podem ser amarradas no leito para que não realizem qualquer ação que possa colocar sua vida em risco. Essas ações podem resultar na diminuição do número de suicídios, mas o que podemos falar sobre a dor, falta de opção ou sofrimento dessa pessoa? Como profissionais de saúde mental nunca incentivaremos o suicídio, mas será que o impedir a todo custo não aumenta o sofrimento e a dor?

Temos poucas opções de cuidados contínuos em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial e nas Unidades Básicas de Saúde. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valorização da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento. É fundamental que o “Setembro Amarelo”, além de programas de prevenção proponha também a contratação e capacitação de profissionais especializados para atender em continuidade pessoas em sofrimento existencial, que buscam a morte para aplacar a profunda dor psíquica que estão vivendo. Alertamos que o atendimento psicoterápico e psiquiátrico deve ser realizado por profissionais competentes e especializados e não por estagiários ou voluntários.

É preciso diferenciar acolhimento em crise realizado pelo Centro de Valorização da Vida, que é muito importante, por ser, em muitos casos, o primeiro passo para o atendimento de pessoas com ideação ou tentativa de suicídio de um atendimento especializado, como por exemplo, o atendimento psicoterápico e medicamentoso. Em muitos casos é necessário o atendimento psicológico e psiquiátrico especializado para lidar com a difícil tarefa de compreender emoções intensas, a ambivalência entre o desejo de viver e morrer, ampliar a visão estreita que considera a morte como única solução para o sofrimento. Sentir-se aceito, compreendido e não julgado, ter o sofrimento respeitado podem ser caminhos importantes para pessoas encontrarem sentido para continuar vivendo.

Fonte: Maria J. Kovács é professora do Depto. de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP

Ser humano ou ter humano, qual o estado em que você se encontra? 2

Ter implica em criar vínculos com o tempo

Por Ricardo J.A. Leme, via Vya Estelar

É possível ser livre de tudo que se tem e, também, por incrível que pareça, ser escravo de tudo que não se tem. Posso ser possuído pelo que não possuo!

Ter e Ser, duas dimensões que eventualmente se tocam, apenas se tocam. Ser humano ou ter humano, qual o estado em que você se encontra?

Eu sou!

Ter é estado claro aos cinco sentidos, mas ilusório ao tempo. O tempo flui e ensina que tudo relacionado ao ter sofre degaste. Ou seja, ter implica em criar vínculos com o tempo. Ter é temporário, não é bom nem ruim, temporário apenas. Aqueles que entendem a passagem terrena baseada na leitura de princípio e fim, são de algum modo reféns ou comparsas do tempo. Temos tempo? Quanto tempo de vida terei? Quando tinha sua idade… Se eu tivesse escolhido diferente… Quando eu crescer… Quando eu me aposentar… Enfim, nuances de expressão de teres humanos, humanos que passam.

Ter um nome, uma cidade onde se reside, um bairro, uma profissão, uma família, propriedades e afins, não me define enquanto ser! São apêndices circunstanciais da essencialidade do ser.

Ser mãe ou ter um filho não soa como realidades distintas a você?

A maternidade é experiência única a ilustrar com clareza a tensão que reside entre ser e ter. Conheço mães que nunca geraram filhos. Há mulheres que não tiveram filhos e têm o dom da maternagem, que é o cuidar. Também conheço mulheres que geraram filhos e nunca alcançaram o status de mães. Percebe a diferença? É sutil e grosseira simultaneamente.

O ser é inefável e se manifesta em presente e presença que não passa, permanece. Ele é uma veste do eterno e da eternidade, sem princípio ou fim, quando *eles descem à terra, esse maravilhoso espaço onde os sentidos imperam. Mas, se os sentidos me permitem ter experiências, dificultam que eu seja; enquanto sou, fluo, passo, me solto, comungo o mundo à minha volta, não me sinto apegado ao que sinto, visto que não tenho a experiência, senão sou a própria! Ora, sendo a experiência, ela acontece em mim, assim como simultaneamente eu aconteço nela, **ela me aprende enquanto eu a aprendo.

Confuso? Não se fores ser! Mas se a opção foi pelo ter, talvez esteja estranhando. ***São as entranhas que estranham.

Ser não é superior ao ter, apesar de maior. Ser é apenas diferente. Ter, são os dois lados da moeda, ser é a moeda. O ser é vertical, é antigravitacional e aspira, já o ter é horizontal e inspira, moldado pela gravidade. Pela gravidade do que tive, do que tenho e do que terei e pelo desespero do que poderia ter tido e do que poderia ter sido. Tudo se torna grave quando o ter asfixia o ser. Uma gravidade que força o corpo a se curvar fisicamente em reverência à terra, pois que a alma se recusou a reverenciá-la e assim ser liberta.

O ter humano é biológico, tem DNA, mapa celular, tem predisposição; o ser humano é biográfico, tem mapa celeste, é campo de possibilidades.

Ter não é menos que ser, senão diferente, aliás a própria diferença. Agora, problema é não se saber enquanto ser humano ou ter humano, aí sim é o princípio do equívoco na aventura da vida, que é temporal para o ter e atemporal ao Ser.

Assim sendo, quem sabe na próxima, se a vida permitir, possamos pensar juntos como sermos humanos?

* O eterno e a eternidade: quando eles descem à terra – uma metáfora do tempo presente.

** Perceba que aprender é solto, mais leve e sugere uma experiência de SER e TRANSFORMAR-SE. Quando aprendo algo deixo de ser, ou renovo meu ser. Quando apreendo algo aumento meu ser. Sutilezas que geralmente passam despercebidas, não é mesmo? De qualquer modo deixo aqui minhas desculpas pela liberdade poética.

*** É nas entranhas e no profundo de nosso ser que habitam nossos saberes mais consolidados, mais entranhados. A pessoa que vive ancorada no modo ter, tem as entranhas endurecidas, aprende por acúmulo, construindo torres. Alimentos novos podem causar estranheza, devido ao costume habitual de alimentos e informações formatados. Informações que a pessoa está habituada. A pessoa que vive no modo ser é livre e com entranhas porosas e desobstruídas a novos saberes, pensares e possibilidades de trocas. O modo ser minimiza a sensação de estranhamento comum ao modo ter. Mais uma vez me desculpo pela liberdade poética que entendo às vezes transcende o rigor e a formatação da prosa.

Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU, morre aos 80 anos 2

O diplomata ganês ocupou durante dez anos o cargo mais alto da Organização das Nações Unidas (ONU), denunciou a guerra no Iraque e chegou a receber o Prêmio Nobel da Paz

Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU Foto: REUTERS/Valentin Flauraud/File Photo.

O ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, faleceu aos 80 anos, neste sábado, 18. A fundação que carrega seu nome anunciou sua morte, por meio de um comunicado, apenas indicando que ele teria sofrido uma doença súbita. Nascido em Gana em 1938, o africano foi um dos ganhadores do prêmio Nobel da Paz.

Chefe da diplomacia das Nações Unidas entre 1997 e 2006, ele foi internado às pressas num hospital de Berna, na Suíça. Os detalhes sobre seu funeral ainda estão sendo organizados.

António Guterres, atual secretário-geral da ONU, emitiu um comunicado expressando sua “profunda tristeza”. “De muitas formas, Annan era a ONU. Ele subiu dentro da organização para lidera-lá ao novo milênio, com dignidade e determinação”, escreveu. O português insistiu que Annan foi seu mentor e indicou que, “em tempos turbulentos”, ele nunca deixou de agir.

Annan mantinha uma estreita amizade com Sergio Vieira de Mello, o brasileiro que liderou a ONU por algumas das maiores crises humanitárias e que morreu há 15 anos em Bagdá.

Annan ainda teve seu mandato marcado pela decisão de denunciar como “ilegal” a guerra de George W. Bush no Iraque. A partir de então, ele passou a ser alvo de ataques por parte da diplomacia americana. Meses depois de sua declaração, Annan viu seu filho acusado de envolvimento em escândalos de corrupção. O africano ficou abalado com a ofensiva contra ele e sua família e, por meses, chegou a perder sua voz.

Viver em democracia: a todo momento somos testados

Não raro, somos colados ao que defendemos

Por Blenda de Oliveira, via Vya Estelar

Como é desafiador o convívio na democracia! Vivemos um momento em que posicionamentos que não sigam o que alguns querem ouvir podem ser arriscados.

Numa simples discordância, pulam na sua jugular e logo qualquer um de nós faz parte das categorias de burros, ignorantes, fascistas, racistas, corruptos, contra a vida, contra a família, a favor da desordem, e por aí vamos…

Ser a favor de que uma mulher decida sobre seu corpo e a maternidade me faz uma assassina? Uma pessoa de segunda categoria? É isso?

Não ser a favor de que a lei seja branda com os bandidos e acreditar que alguns não têm recuperação me torna fascista? Intolerante?

Não tolerar qualquer forma de impedimento na liberdade individual (se não for para matar, traficar, roubar etc) me torna contra os bons costumes?

Ser a favor de toda forma de amor ou casamento me faz o quê? Uma doida?

Se eu quiser votar na direita, esquerda, centro, seja em quem for, mudo de identidade e passo a ter o nome do candidato?

Não raro, somos colados ao que defendemos.

Se votar nesse ou naquele, você É ESSE OU AQUELE?

Estamos num mundo cada vez mais difícil para definir categorias e enquadrar pessoas como se uma pessoa não pudesse ser mais que suas posições e opiniões.

As fronteiras desmoronam todos os dias, papéis se confundem, se misturam e mudam. MUDAM!

E vamos engalfinhando-nos para provar como somos corretos, poderosos e “do bem”. No fundo, ninguém está tão interessado em alternativas, mas, sim, nas próprias alternativas.

Apesar de tudo isso, sempre estarei defendendo uma vida democrática. Faço das tripas coração para continuar defendendo o direito à estupidez! Isso é democracia, um lugar de todos!

Ataque ao Judiciário: Um alerta necessário 2

“É de se imaginar: se nem uma juíza de direito, que tem atrás de si todo um aparado institucional sofre, por seu ofício, tantos ataques, o que não serão capazes de fazer com o cidadão comum? Como pessoas como eu ou você que não somos “ninguém”?”

Por Abdon Marinho

Com a publicação dos dois últimos textos versando sobre a sentença de primeiro grau de declarou a inelegibilidade do atual governador e mais três pessoas e as suas consequências no mundo jurídico, pensei haver esgotado minha participação no assunto.

Ledo engano, como cidadão, como advogado, como defensor do Estado Democrático de Direito e da democracia como uma conquista da civilização, não tenho o direito de ficar calado diante do que tenho assistido com relação a este episódio.

Morando e participando da vida política nesta Ilha de São Luís há mais de trinta anos, não me recordo – nem mesmo durante os estertores da ditadura –, de assistir a uma “caçada” tão inclemente e desrespeitosa quanto à que vem sofrendo a juíza eleitoral da zona de Coroatá. 

Desde que proferiu a decisão que cassou o mandato do prefeito e vice-prefeito daquele município e declarou a inelegibilidade do governador e de um ex-secretário e atual candidato a deputado federal, uma rede de blogues aliados politicamente ao grupo que se encontra no poder e outros que até recebem ou recebiam por anúncios e/ou assessorias no governo, têm se ocupado de vasculhar, denegrir, fazer ilações e insinuações sobre a magistrada e – pasmem –, sobre seus familiares.

Li, que fizeram, inclusive, uma busca nos arquivos do Tribunal de Justiça para investigar as condições de ingresso da mesma na magistratura maranhense. 

Um outro com insinuações sobre seu marido.

Tanto acusam Sarney de maquinações diversas, entretanto, o que assistimos é um espetáculo de horrores promovidos por aqueles que vieram em nome “novo” justamente prometendo que tais tais coisas não mais ocorreriam.

Vejo deputados, secretários, aliados, os mais diversos, além dos contumazes aduladores de plantão atentarem contra a honra e a dignidade de uma cidadã. Sim, antes de juíza, atentam, descaradamente, contra uma cidadã. 

Isso é o “novo”? Essa é a democracia e a liberdade prometidas? 

É de se imaginar: se nem uma juíza de direito, que tem atrás de si todo um aparado institucional sofre, por seu ofício, tantos ataques, o que não serão capazes de fazer com o cidadão comum? Como pessoas como eu ou você que não somos “ninguém”?

O comportamento do governador e seus aliados no episódio ultrapassa o limite aceitável em qualquer democracia.

Nas democracias quando uma decisão é proferida, e alguém dela discorda, busca-se o caminho dos recursos próprios para revertê-la e não o linchamento moral de quem a proferiu. Colocar a família como alvo de ataques rasteiros é algo só foi ou é aceitável nas ditaduras mais atrasadas no mundo, como por exemplo na Coreia do Norte onde as punições “passam” da pessoa para alcançar seus familiares; ou como foi no regime stalinista da antiga União Soviética. 

Um comportamento tão incompatível com os ditames das democracias modernas, leva-nos  à conclusão que lhes faltam razão para desconstituição da decisão com argumentos jurídicos.

Quero acreditar que estas iniciativas não são orientadas a partir do palácio ou com a estrutura de estado, o que, decerto, caracteriza crime a merecer a investigação da Polícia Federal e a pronta reprimenda dos órgãos judiciais.

Quer dizer, então que agora um juiz, um desembargador, um ministro não pode mais proferir uma sentença, um despacho, que contrarie a vontade do governante sem ser linchado em praça pública? Sem ter expostos seus familiares aos achincalhes? Esse é o novo modelo de democracia do país?

Caso se confirme a ingerência institucional do governo estadual – ainda que indireta, através de veículos que recebem recursos públicos –, nessa tenebrosa tentativa de linchamento contra a magistrada, forçoso reconhecer que razão assiste ao ex-presidente Sarney ao reclamar, em artigo recente,  de práticas “stalinistas” do atual governo. 

E, pior, um stalinismo tosco, canhestro, perdido no espaço e no tempo, mas, ainda assim, capaz de muito mal causar à nossa jovem democracia.

Vejam, uma juíza apesar de suas relevantes funções é uma cidadã detentora de direitos, dentre os quais a vida privada. Não é aceitável – não numa democracia –, que seja achincalhada e exposta como vem sendo a magistrada que proferiu uma sentença que contrariou os atuais donos do poder. E, mais, que este tipo de violência se estenda à honra de seus familiares, que nada têm com sua função judicante.

Como dito anteriormente, você pode discordar de uma decisão – é um direito da defesa que isso ocorra -, o que não se pode é abrir-se uma “caça às bruxas” com investigações subterrâneas sobre a vida das pessoas com o intuito de, com argumentos laterais,  promover a desconstituição de uma sentença.

O caminho não é esse. As leis ensinam como se faz. Pode se buscar esclarecer a decisão, pode  se recorrer à segunda instância e, até mesmo, a uma instância superior. 

O mais grave que este episódio revela é que os atuais governantes –  e seus aliados –, perderam a medida do que podem ou não fazer. Como se fins justificassem os meios – quaisquer meios. 

É isso que as autoridades competentes deverão investigar. 

O TRE – a quem a juíza está subordinada por conta da judicatura eleitoral –, deverá, se ainda não o fez,  solicitar uma investigação à Polícia Federal para saber de onde partem os ataques à magistrada, se há uso do aparelho e de recursos estatais para o que veem fazendo. 

O mesmo comportamento deve ter o TJMA, buscando a preservação da integridade da magistratura estadual.

Veja que aqui não se fala em censura à imprensa, longe disso, o que clama apuração rigorosa é saber se há ingerência institucional nos ataques à magistrada e/ou familiares; se pessoas remuneradas, ainda que indiretamente pelo poder público, estão fazendo esse tipo de serviço sujo.

Em sendo verdade essa interferência do governo, estaremos diante de uma situação de gravidade impar: uma instituição de Estado, no caso o Poder Executivo, trabalhando para o desmerecimento de outra instituição, no caso o Poder Judiciário. 

Outra coisa que chama a atenção é que os demandados na ação em tela, copiando a estratégia do ex-presidente Lula, ao invés de discutir a matéria nos autos do processo, quer discuti-la nas redes sociais, jornais e blogues, avançando pela achincalhe e a “desconstrução” da juíza prolatora da decisão. 

A diferença entre o que fazem o ex-presidente e seus aliados é que aqueles utilizam suas estratégias de confronto com as instituições (Policia Federal, Ministério Público e Judiciário) na esfera privada, não se tratam (mais) de autoridades constituídas que têm o dever de zelar pelas leis e pelas instituições. 

Aqui não, são agentes públicos, governador, secretários, deputados, que “vestidos” como autoridades trabalham para desmerecer uma juíza e seus familiares. E não é só, utilizam-se de seus aliados – e ou subordinados, não se sabe, a PF precisa apurar isso com rigor –, na mídia para atacar, achincalhar e enxovalhar a honra das pessoas que os contrariam. 

Quando autoridades não compreendem o seu papel institucional faz-se necessário chamar a atenção para os riscos que corre a democracia. Autoridades não podem se comportar como “valentões” ou afrontar pessoas e instituições com o poder que detém em nome do povo. 

O poder pertence ao povo e foi conferido para o livre exercício na busca do bem comum e não dos próprios interesses.

Abdon Marinho é advogado.

Dia dos Pais: por que falta de tempo para os filhos não tem nada a ver com disponibilidade

Vida profissional não é empecilho para se ter envolvimento emocional com os filhos; há como achar um ponto de equilíbrio.
Por Eduardo Shinyashiki, via Vya Estelar
O Dia dos Pais é uma data em que a reflexão sobre o relacionamento familiar é muito bem-vinda. Afinal de contas, os pais influenciam diretamente em muitos fatores da vida dos filhos, como a forma de enxergar o mundo e de reagir aos estímulos externos, por exemplo.

Para o saudável desenvolvimento afetivo das crianças, é fundamental que os pais estejam envolvidos em suas vidas, muito mais com disponibilidade emotiva do que de tempo. E, ao contrário do que muitos pensam, a vida profissional não é empecilho para isso. A receita para esse equilíbrio é simples: ter claras as próprias prioridades, pessoais e profissionais, dosar bem as energias e o tempo dedicados a essas prioridades.

Em síntese, o papel paterno representa a relação dos filhos com o mundo externo, ou seja, a abertura para a sociedade, o impulso para se tornarem adultos. Indica também o ingresso da criança ao contexto social, em contraposição ao universo íntimo representado pela relação entre mãe e filho. Ao mostrar, de maneira clara e serena, que existem regras e limites, o pai ajuda os filhos a crescerem emotivamente preparados para enfrentar com segurança o mundo externo.

São vários os pontos na atuação do pai que determinam a criação de uma base firme para a vida futura de seus filhos. E numa era em que muitos vivem conectados a smartphones e notebooks, sem limites e dosagem do tempo – que poderia ser dedicado a momentos de qualidade e olho no olho -, podemos falar sobre a importância da conexão entre pais e filhos.

Estudos afirmam que quanto mais os filhos se sentem em conexão com o pai, mais confiam na vida, em si mesmo e nos outros.
Quando a relação de confiança e proximidade é estabelecida quando criança, ela dura por toda a vida. E isso só acontece quando se constroem laços baseados no respeito à diversidade e à individualidade, e não na busca incansável de uma simples reprodução de comportamentos.

Cada um tem a sua própria jornada e, assim, melhor que guiar alguém, é caminhar ao lado. Transmita aos seus filhos valores sólidos, que fazem parte do seu dia a dia, e um legado será construído de forma tão forte que nada poderá corrompê-lo.

Permita que hoje e a cada dia da sua vida, sejam construídos momentos memoráveis com seus filhos, que podem ser um olhar, um sorriso, um abraço e, talvez, o mais importante: viver com eles aquilo que você sempre sonhou em viver com os seus pais, mas que por algum motivo não foi possível. Viva a intensidade desses momentos e o poder do agora na sua vida. Eternize este presente.
Feliz Dia dos Pais!

Fonte: Eduardo Shinyashiki é mestre em Neuropsicologia e Liderança Educadora, especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional e pessoal

Quando o medo te paralisa

Enfrentar nossos medos nos faz aprender, crescer e nos expandir

Por Thaís Petroff, via Vida Simples

O medo te faz parar e pensar ou ele te paralisa?

Medo é algo necessário para nossa sobrevivência, pois sem ele, com certeza, já teríamos nos colocado em apuros ou até nos machucado bastante. Quando você tem medo de dirigir muito rápido, de se debruçar sobre uma janela alta, de aceitar carona de um estranho, de andar só de madrugada etc esse medo está te protegendo e preservando sua sobrevivência. Ele faz com que você fique mais atento e tome mais cuidado em situações que são compreendidas como de risco.

Até aí está tudo certo. O problema se dá quando o medo ultrapassa o papel de alertar e passa a paralisar. Aí ele deixou de ser útil e está atrapalhando. Na verdade, é você quem está fazendo com o que o medo tome essa proporção entendendo que ficar paralisado é mais seguro do que se mover em qualquer direção. A grande questão, é que geralmente essas situações em que ficamos paralisados muitas vezes têm mais a ver com interpretações distorcidas nossas do que algo que efetivamente precisamos temer.

Associamos uma situação presente com algo ruim que vivemos no passado, duvidamos de nossa competência, pensamos o pior e então nossa reação fisiológica é como se estivéssemos em perigo; e dessa forma travamos.

Se você compreender que o medo deve ser como a luz amarela do semáforo, fazendo com que você preste mais atenção e fique mais alerta e não como a luz vermelha do semáforo, que pede que paremos; então você estará utilizando o medo apropriadamente.

Se o medo está te paralisando compreenda o que está passando em sua cabeça que está te deixando tão assustado; e trate de conversar com esses pensamentos. Enfrentar nossos medos nos faz aprender, crescer e nos expandir. Se ficar refém do medo, o sofrimento logo baterá à sua porta e você se sentirá tolhido de viver a sua vida.

Dilema: Ser legal

Dá para ser alguém legal, bondoso e bem-sucedido?

Alain de Botton, via Vida Simples

Aprendemos que devemos ser legais, bacanas, bonzinhos. Mas, contraditoriamente, quando somos assim no trabalho, ou nos assumimos dessa forma publicamente, corremos o risco de ser tachados de bobos ou de alguém que nunca vai chegar ao topo, ao sucesso. Está na hora de mudarmos esse padrão e termos relações mais compassivas
Decidir se tornar uma pessoa mais doce e amável parece ser uma ambição profundamente insípida e desanimadora. Teoricamente, amamos a docilidade, mas, na prática, o conceito parece ser vergonhosamente insignificante, fraco, tedioso e até desinteressante. Ser uma pessoa legal, boa, generosa parece algo que tentaríamos apenas quando outras alternativas mais ousadas e recompensadoras fracassassem. Na verdade, “ser legal” é uma ideia profundamente mal apreciada. Muito do que valorizamos é preservado pela gentileza e compatível com ela. É uma virtude com diversas qualidades sutis. O que se destaca é a forma como você faz isso. Ser alguém legal, bacana, generoso com o outro pode não ter o apelo imediato do dinheiro e da fama, mas é uma qualidade tremendamente importante mesmo assim, que negligenciamos a nosso próprio risco. Ser legal é uma virtude aguardando nossa redescoberta e nossa valorização renovada e sem conflitos. Qual se parece mais com você?

Com atenção 
O bom ouvinte sabe que nos beneficiamos imensamente do encorajamento para elaborar, entrar em detalhes, ir um pouco além. Precisamos de alguém que, em vez de retrucar, simplesmente diga uma rara palavra mágica: “Continue…”.  Quem é legal de uma forma atenciosa é movido por um desejo de entender adequadamente as pessoas, cavar um pouco mais fundo e conhecer melhor o outro. Ele para enquanto o outro fala, faz comentários de apoio, gestos suaves e positivos: um suspiro de solidariedade, um balanço encorajador com a cabeça. Tudo isso para que nós, que falamos, possamos nos sentir acolhidos e entendidos.

 De uma forma aberta
Há determinadas pessoas que são capazes de desconsiderar a nossa essência logo de cara – as quais generosamente chamamos de “mente-aberta”. Elas pressupõem que ser humano é algo confuso e imoral e que qualquer pessoa que encontrem provavelmente carregará em si aspectos longe de ideais, estando às vezes à beira da loucura. Ser legal de uma maneira aberta significa deixar o julgamento de lado e não ter medo do que está dentro da alma do outro. É algo motivado por um desejo de ver o lado bom das pessoas, independentemente das circunstâncias em que encontremos essa bondade.

Com educação 
Por mais que amem a verdade, boas pessoas têm um compromisso ainda maior com outra coisa: ser gentis com as outras. Entendem (e permitem) a facilidade com que uma verdade pode produzir convicções nada úteis na mente dos outros e, portanto, não estão excessivamente comprometidas com a precisão em cada aspecto. Ser legal de uma forma educada é algo motivado por um desejo de proteger o sentimento do outro. É entender que querer o melhor para as outras pessoas às vezes exige que as protejamos com a educação, escolhendo nossas palavras com cuidado para não perturbá-las nem causar preocupação desnecessária.

Com acolhimento 

A pessoa acolhedora pode não ter uma teoria explícita sobre o que está fazendo, mas a raiz de sua conduta se baseia em uma compreensão de que não importa o quão sólido e digno alguém pareça ser por fora, nos bastidores inevitavelmente haverá um lado seu em dificuldade, possivelmente sem jeito, facilmente desconcertado, rodeado por apetites físicos, à beira da solidão – e frequentemente precisando de nada mais sutil ou elevado do que um pequeno elogio. Ser legal de uma forma acolhedora significa que você deseja profundamente que os outros se sintam aceitos – apreciados e valorizados independentemente de seus defeitos ou peculiaridades.

De uma forma tímida 

A timidez está enraizada na discrição e no silêncio, mas também tem dimensões profundas. É preenchida por uma consciência de que podemos estar incomodando alguém com nossa presença, baseada em uma noção aguda de que um estranho pode ficar insatisfeito ou incomodado conosco. A pessoa tímida é comoventemente atenta aos perigos de ser uma perturbação. Ser tímido frequentemente significa que você não quer incomodar ninguém. Você fica preocupado com o conforto dos outros e, assim, prefere ficar fora das coisas em vez de assumir o risco de não ser bem-vindo.

Não queremos ser legais

Nossa noção do que é ser legal pode parecer pessoal, mas tem uma longa história, trazendo o sedimento de pelo menos quatro grandes correntes culturais que vale a pena tentar entender. A primeira delas é nosso legado do cristianismo: é bonzinho, legal, mas fraco. Durante séculos, o cristianismo foi a força mais poderosa que moldou nossos horizontes intelectuais e esteve profundamente comprometido em promover a bondade no mundo. Com a melhor estética e recursos intelectuais, louvou o perdão, a caridade, a ternura e a empatia. No entanto – e infelizmente para a bondade, o ser legal com o outro –, o cristianismo não a deixou simplesmente ali. Também sugeriu que pode haver uma oposição fundamental entre ser legal e ser bem-sucedido. Pessoas bem-sucedidas não eram, como os crentes ouviam, exatamente muito legais – e pessoas legais não eram, exatamente, bem-sucedidas. Parecia que candidatos ao reino dos céus tinham uma escolha a fazer: ser legais ou ter sucesso. Com um só golpe, a dicotomia maculou profundamente o apelo da bondade a qualquer um com a mais remota chama de ambição saudável e secular no coração. O cristianismo pode ter lutado para nos incentivar a ser legais e bondosos, mas, ao conectar a bondade tão firmemente com o fracasso, criou uma permanente sensação de que essa era, essencialmente, uma qualidade de interesse sobretudo para perdedores. A segunda corrente está relacionada ao legado do romantismo: bonzinho, mas tedioso. Nos últimos 200 anos, fomos muito influenciados pelo movimento cultural conhecido como romantismo e, para os românticos, a pessoa admirável é sinônimo de alguém empolgante, intenso e criativo, volátil e espontâneo, que pode perturbar a tradição e ousar. E ser até mesmo enérgico ou rude, em nome de seguir o chamado do coração. O oposto diametral dessa figura heroica era alguém calmo e respeitável, discreto e conservador, modesto e quieto – em outras palavras, a pessoa tediosa. Aqui, também, parece haver uma escolha radical a fazer: impulsivo, imprevisível e brilhante ou quieto, convencional e sempre indo cedo para a cama. A terceira corrente diz respeito ao legado do capitalismo: bonzinho, mas falido. O capitalismo acrescentou a essa lista de cargos de gentileza mais uma acusação: apresentar uma interpretação do mundo como uma arena profundamente competitiva na qual todas as empresas estavam comprometidas em forjar uma batalha contínua por participação de mercado, em uma atmosfera marcada por impiedade, determinação e impaciência. Quem tinha sucesso precisava saber como destruir a concorrência, sem um pingo de emoção. Uma pessoa legal e boa, não disposta a reduzir salários ou superar um oponente, acabaria falida. A quarta e última corrente é a do erotismo: legal, mas nada sexy. Uma última, e mais pessoal, associação paira sobre a bondade. Ela diz respeito à crença de que ser legal não pode ser sexualmente desejável, porque as qualidades que nos tornam eróticos estão vinculadas à posse de lados brutais, dominadores, que brigam com a ternura e o aconchego. Mais uma vez, uma escolha esquisita se apresenta: entre o amigo agradável com quem ir ao parque e a companhia perigosa com quem desaparecer porão adentro com algemas e um chicote. Apesar de tudo isso, gostamos da bondade e dependemos dela. A questão é que as lembranças ligadas a isso foram suprimidas por uma cultura que injustamente não nos faz sentir inteligentes por aprová-la. Todas as qualidades que aprendemos a pensar como opostas a ser legal são altamente compatíveis e, às vezes, dependentes dela. Independentemente do quanto estamos comprometidos com o sucesso, durante boa parte da vida, somos criaturas vulneráveis à mercê da bondade dos outros. Só conseguimos ter sucesso porque outras pessoas, normalmente nossas mães, abriram mão de parte de sua vida para serem generosas conosco. Quanto à empolgação, essa também pode ser uma fase, como todos aqueles que deram contribuições reais para a humanidade sabem. Dias tranquilos, rotina doméstica e horários regulares para dormir são precondições necessárias para picos criativos. Não há nada mais estéril do que uma exigência para que a vida seja sempre empolgante. Por outro lado, o capitalismo pode recompensar a competição entre empresas, mas depende da colaboração dentro delas. Nenhuma companhia pode funcionar por muito tempo sem confiança e laços de afeto pessoal. Para frustração dos chefes, dinheiro não pode garantir o comprometimento necessário dos funcionários; apenas sentido e espírito de companhia garantirão. Finalmente, a excitação sexual da obscenidade só seduz adequadamente em condições de confiança. Não importa o quanto fantasiemos sobre uma noite com um conquistador impiedoso, seria alarmante encontrar um exemplo real. Precisamos saber que alguém é de fato bondoso antes de um chicote, algemas e palavras indecentes se tornarem algo interessante. Tanto do que valorizamos é, na verdade, preservado pela bondade e compatível com ela. Podemos ser legais e bem-sucedidos, legais e empolgantes, legais e ricos e legais e potentes. Ser alguém legal, bonzinho – como muitos rotulam –, é uma virtude que aguarda nossa redescoberta e nossa valorização renovada e sem conflitos.
A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.
Alain de Botton é filósofo, escritor e ficou conhecido por aplicar conceitos filosóficos para resolver dilemas do dia a dia. É um dos idealizadores da The School of Life e autor de diversos livros sobre amor, viagens e arquitetura.

Tem gente que pede socorro fazendo silêncio 2

Que possamos enxergar mais essas dores não vistas

Fonte: imagem Pixabay

Queria deixar um recado pra vocês. Tem gente que pede socorro fazendo silêncio, sabiam?

Muitas dores são sentidas e camufladas com o silêncio das palavras. O número de pessoas com depressão que nos procuram e atendemos na clínica só cresce infelizmente.

Lentamente a pessoa depressiva diminui a produção de serotonina e de noradrenalina no cérebro, e, assim, a vida vai ficando sem graça e sem prazeres. As dores vão sendo caladas pelos que não procuram ajuda. Desse modo, não podia deixar de conversar uns minutinhos com vocês aqui sobre a temática: suicídio! Pois é, muitas vezes, é nesse momento que essa opção vem à tona com os pensamentos disfuncionais das pessoas em sofrimento.

Escutar alguém falar sobre a desvalia da vida, sobre a falta de motivação para viver e de seguir em frente, ou que quer desistir da vida, ou até mesmo o oposto disso, ou seja, um silêncio que chega, muitas vezes, a machucar os outros ao redor, são sinais de alerta! A preocupação aumenta quando o desejo de morrer está ligado à vontade de se matar.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio precisa “deixar de ser tabu”. Segundo estatísticas do órgão, tirar a própria vida já é a segunda principal causa da morte em todo o mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade – ainda que, estatisticamente, pessoas com mais de 70 anos sejam mais propensas a cometer suicídio. Por conseguinte 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. Para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

No Brasil, o índice de suicídios na faixa dos 15 a 29 anos é de 6,9 casos para cada 100 mil habitantes.

Todos esses dados nos deixam estarrecidos, pois são números altíssimos que, muitas vezes, ficamos paralisados com a tamanha falta de sentido de vida que tantos ainda sentem.

Que possamos enxergar mais essas dores não vistas. Que sejamos capacitados cada vez mais, como seres humanos, de julgarmos menos sobre quem se foi e quem fica. Porque tanto um como o outro precisam mesmo de ajuda e acolhimento emocional.

Convido você a refletir junto sobre a vida e a morte bem como sobre de que forma podemos ter um olhar diferenciado e acolhedor por quem tanto precisa de nós! E lembre-se sempre: tem gente que pede socorro fazendo silêncio!

Site de estudantes arrecada doações para crianças em tratamento

Plataforma “Somos Todos Heróis”, criada por alunos da USP, faz do financiamento coletivo um projeto social

Da esquerda para a direita, a equipe do Somos Todos Heróis: Marco Schaefer, Igor Marinelli e Fuad Schiavon (Crédito: Divulgação)

Raphael Concli/Jornal da USP, via Vida Simples

Com menos de um ano, Ana Clara sofreu um grave acidente de carro. Perdeu a mãe, um tio e sofreu uma grave lesão medular. Hoje ela luta para se recuperar. Além de roupas e alimentos, Ana precisa ser transferida da Santa Casa de São Carlos para outro hospital, onde possa responder melhor aos tratamentos. Ela é uma das crianças heroínas que foram atendidas pelo projeto social Somos Todos Heróis, um site de financiamento coletivo voltado a arrecadar doações para quem precisa de ajuda: seja um tratamento médico, a realização de uma cirurgia, auxílio para compra de alimentos ou materiais escolares.

Cada doação simboliza o envio de um acessório para fortalecer a criança e torná-la uma heroína ou herói. Cintos, varinhas, escudos, visão de raio laser, capas e anéis mágicos fazem parte do arsenal que pode “equipar” as crianças. Criado em 2016, o site não tem fins lucrativos e todos os valores doados são depositados via PagSeguro diretamente na conta dos responsáveis pela criança.

Linguagem atrativa

A ideia e implementação do site vem de Matheus Marchiori, aluno da Faculdade de Direito (FD) da USP, e de Igor Marinelli, estudante de Engenharia da Computação, curso oferecido em parceria pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, e pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC). Amigos desde o ensino médio, ambos decidiram iniciar o Somos Todos Heróis a partir da insatisfação com outros projetos sociais de que participavam, em especial por conta da falta de doações para crianças ou instituições carentes.

A temática de super-heróis mostrou-se uma forma de alcançar diversas idades. Como conta Igor, é algo que “mexe com muitas lembranças dos adultos e, ao mesmo tempo, inspira as crianças a pensarem em ações socialmente responsáveis desde pequenas”. Em seus dez meses de existência, o site já possibilitou que cinco missões fossem cumpridas, incluindo a de Ana Clara.

A montagem das missões é feita por Igor, que vai à casa das crianças averiguar a solicitação de campanhas, procura novas crianças e faz o contato com famílias e instituições. Além dele, a equipe conta hoje com mais duas pessoas ativas: Fuad Schiavon, que cuida do design do site, e Marco Schaefer, programador e desenvolvedor, ambos também alunos de Engenharia da Computação em São Carlos. Matheus Marchiori compõe atualmente o conselho jurídico do projeto. E o time está aberto a quem quiser ajudar.

E agora, quem irá nos defender

O desenvolvimento da plataforma levou cerca de seis meses. Ainda que tenha um custo de manutenção baixo, o site conta com uma parceria com a empresa HomeHost do Rio de Janeiro, que lhe garante a hospedagem sem despesas. Porém, quando é feita uma campanha pela página do Facebook do projeto para incentivar a doação, os gastos com publicidade saem do bolso da equipe.

O site também deve receber novidades em breve. A equipe trabalha agora para gamificar mais a plataforma a fim de torná-la mais atrativa. Um sistema de conquistas está em desenvolvimento, no qual os usuários poderão subir de nível a partir de suas ações e doações e obter prêmios, como camisetas do Somos Todos Heróis.