Seu propósito é ser vocêDébora Zanelato

Para levar uma vida mais realizada e com mais sentido, o primeiro passo, diz a coach Paula Abreu, é descobrir quem somos de verdade

Débora Zanelato, via Vida Simples

Seu propósito de vida é ser você. Não se deixe levar pelo ego, não acredite que você existe para um propósito especial ou extraordinário. A sua existência já é extraordinária.” É assim que a coach Paula Abreu começa a falar em seu livro sobre uma questão tão recorrente em nossos dias: o propósito da nossa vida. A autora de Escolha Sua Vida (Sextante) defende que, para sermos felizes, o primeiro passo é mergulhar em uma autodescoberta. “Ficamos presos a conceitos e histórias que nos foram impostas, inclusive conceitos sobre o que é a felicidade”, ela diz. E o medo (de fracassar ou até mesmo de algo dar certo) precisa ser deixado de lado se quisermos realizar nossos sonhos.

De onde vem nosso medo de arriscar, de fracassar?

Você diz que tem a ver com nosso conceito de felicidade… Quando somos crianças, muitas vezes sabemos o que queremos. A gente pensa em algo que gostaria de fazer e ser feliz. Mas depois a gente cresce e descobre que ser feliz é algo complicado, temos que cumprir uma série de etapas, e assim você vai ganhando um montão de camadas que não eram suas. E, quando conseguimos nos despir dessas camadas, tudo o que é diferente disso dá medo. É o que eu brinco de “felicidade do Facebook”. Qual felicidade você quer? A de verdade ou aquela que você pode mostrar e todo mundo vai entender como felicidade? Tinha amigas que falavam ter inveja de mim. Porque eu tinha um emprego maravilhoso, um casamento dos sonhos, filho… Mas eu não estava feliz! Só que existe o medo de abandonar isso e o receio das críticas. Então eu digo que o medo vem, dentre alguns fatores, da falta de clareza. Não temos clareza do que realmente queremos.

E qual é a importância de ser quem somos nesse processo?

O seu propósito de vida deve ser você. Quando você descobre quem é e expressa a sua verdade, acontece um despertar. Você fica mais consciente dessas camadas e condicionamentos, que não são seus e não lhe representam. Percebo que as pessoas ficam tensas sobre qual é o seu propósito, e costumo dizer para ficarem calmas porque o propósito de vida de cada um é ser você mesmo e ser feliz. E o secundário, que é fazer o que você gosta, está alinhado a isso, a ser você mesmo. Ao descobrir quem você é de verdade, passa a ter menos medo. O que as pessoas vão falar não importa. Então você aprende a dizer não. Em geral, não conseguimos dizer não por medo de decepcionar o outro, e também pelo mal-estar de achar que, ao recusar, estamos perdendo alguma coisa muito legal. Mas, quando você sabe o que é e o que quer, se torna capaz de dizer não com liberdade e entende que isso é essencial para não tirá-lo daquilo que ama. Um não necessário é um sim para você.

Que caminhos você propõe para essa descoberta de nós mesmos?

O jeito mais eficiente é se fazer perguntas. Se não temos as respostas que queremos, precisamos criar perguntas diferentes. Reclamamos da nossa realidade em vez de procurar o que pode ser aprendido com o desafio. Eu incentivo as pessoas a criar um caderno do eu. Listar o que amam, odeiam, seus valores. E sugiro que, todos os dias, criem duas perguntas e saiam pelo mundo em busca de respostas. Enquanto cada um não parar para refletir sobre si mesmo nada vai mudar. Nosso eu está embaixo de camadas de crenças e valores. Se reparar, buscamos ser como todo mundo. E, segundo disse Carl Jung, imitar os outros é algo útil para o coletivo, mas muito nocivo para a individualidade.

Como expressar quem você verdadeiramente é?

O primeiro passo é saber que você não vai agradar a todos. É poder ser impopular. Quando a gente quer se expressar, tem que abraçar a vulnerabilidade. É muito melhor agradar quem tem a ver e quem vai gostar de você por ser quem você é. Não quero pessoas que gostem de mim pela roupa que estou usando ou pelo cargo que tenho. Porque amanhã posso não ser isso. Quero alguém que goste da minha essência. Eu sou coach e as pessoas têm a imagem de um profissional muito sério, contido. Eu já dei sessão em que toquei ukulelê (instrumento de cordas), fiz trampolim. Coach pode fazer trampolim? Não sei, mas eu faço. Tem gente que não virá até mim porque procura a imagem de uma pessoa respeitável, mas outros virão justamente por se identificarem com meu jeito.

E como lidar com as críticas?

Acredito que, quando você está tranquilo do que está fazendo, percebe que a crítica do outro, na verdade, tem a ver com ele próprio. Quando decidi não ter mais carro, as pessoas se incomodaram. Mas é um incômodo delas, percebe? Porque elas acreditam que não dá para viver sem um automóvel. A gente fica mais tranquilo quando entende que a história é só dela e não é mais minha. Ao fazermos uma escolha diferente, nos tornamos um holofote na vida do outro, e ele sente que também deveria estar fazendo algo diferente. Então, quando eu não tenho um carro, todas as pessoas que acham que isso é necessário são quase obrigadas a pensar que é possível não ter um carro. E isso gera um incômodo.

Você também diz que, além do receio de fracassar, o medo do sucesso também nos impede de realizar sonhos. Como é isso?

Muita gente tem medo de fazer algo que dá certo. Quando pergunto quais são as consequências possíveis se aquele objetivo der certo, muitas vezes encontro algo que é resultado disso e a está impedindo de atingir a meta. Tive uma cliente que queria emagrecer, mas nunca conseguia. E chegamos à conclusão de que ela tinha a fantasia de que, quando ficasse magra, seria mais popular e não saberia como reagir a isso, pois era tímida. Ou seja, o medo criou uma história na cabeça dela. Ao longo do programa, coloquei como desafio que, todos os dias, ela tivesse uma conversa com um desconhecido. Costumo dizer que, além da clareza que ajuda a vencer o medo, você também precisa “queimar os barcos”, agir.

E quando a pessoa procrastina por um perfeccionismo?

Não existe pessoa que está empacada porque é perfeccionista. Quando ouço isso, digo que ela está mentindo para si mesma. Ninguém atinge a perfeição. Só se atinge a perfeição aperfeiçoando. Se está empacando porque fica planejando, pode no máximo chegar a um plano perfeito, mas todo plano precisa de um campo de batalha. Porque, na prática, as coisas serão diferentes, você verá o que precisa ser ajustado, mudado. Haverá obstáculos com os quais não contava. É proveitoso se colocar em movimento imediato. Quem coloca a culpa no perfeccionismo está com medo ou insegurança. A pessoa que espera ter a melhor câmera para começar a fotografar corre o risco de nunca fazer uma foto.

E a justificativa de que não faz nada para mudar porque não tem tempo?

Isso acontece porque, em geral, desperdiçamos horas a fio com o que não importa. Você diz que não tem tempo, mas assiste a várias novelas, fala no WhastApp em diversos grupos. Perdemos tempo em pedacinhos, que, quando acumulados, resultam em muito tempo. Cinco minutos aqui, 15 ali e, quando se vê, uma hora se passou, tempo suficiente para fazer algo que você ama. Indico que as pessoas façam uma lista com todas as atividades, durante uma semana inteira. Isso inclui até o tempo em que acordou e levou 40 minutos pra sair da cama. Essa grande lista vai ajudar a avaliar o que pode ser delegado ou eliminado.

Quando falamos de empreender, temos a ideia de que isso envolve criar uma empresa, sair do emprego. Esse é o caminho?

Não necessariamente. Empreender a si mesmo não é empreender um negócio. O pensamento não é o de que para ser feliz não posso trabalhar em uma empresa. Eu também tenho pessoas que trabalham comigo, quero que sejam felizes no que fazem. O mais importante é encontrar um trabalho, seja ele a sua própria empresa, seja algo que já existe, que esteja alinhado com seu propósito primário: ser quem você é. Muitas pessoas até redescobrem o próprio emprego quando mergulham em quem elas são e mudam a relação com o trabalho que já têm. Vale lembrar que nessa descoberta não existem regras ou um único caminho. O grande propósito é sempre ser você mesmo.

Número de pessoas com autismo aumenta em todo o Brasil

Um estudo divulgado pelo CDC (Center of Deseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, revela que uma criança a cada 100 nasce com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os dados revelam um aumento no número de casos de autismo em todo mundo. Até há alguns anos, a estimativa era de um caso para cada 500 crianças. Com isso, estima-se que no Brasil existem dois milhões de autistas, e o que torna a questão mais grave é o preconceito e a falta de tratamento adequado. As pesquisas ainda revelam que os meninos são mais afetados pelo transtorno do que as meninas.

Segundo a Associação Brasileira de Autismo, em sua cartilha sobre o tema, o Transtorno do Espectro Autista caracteriza-se por alterações presentes desde idades muito precoces, tipicamente antes dos três anos de idade, e que se define sempre por desvios qualitativos na comunicação, na interação social e no uso da imaginação. “A tríade é responsável por um padrão de comportamento restrito e repetitivo, mas com condições de inteligência que podem variar do retardo mental a níveis acima da média”.

As causas do Transtorno do Espectro Autista são, até hoje, desconhecidas, mas acredita-se que tem sua origem em anormalidades (de origem genética) em alguma parte do cérebro, ainda não definida de forma conclusiva. Ainda de acordo com a cartilha da ABA, o autismo pode manifestar-se desde os primeiros dias de vida, mas é comum pais relatarem que a criança passou por um período de normalidade anterior à manifestação dos sintomas.

Um dos principais problemas é o diagnóstico do transtorno. Como ainda não há marcadores biológicos e exames específicos para o autismo, o diagnóstico é clínico feito por meio de observação direta de comportamentos e uma entrevista com pais ou responsáveis.

Ângela Amaral, que é uma das fundadoras do Gaape (Grupo de Amigos dos Autistas de Petrópolis), conta que sua relação com o trabalho com os autistas começou quando descobriu que seu filho Hugo, hoje com 27 anos, nasceu com o transtorno. Ela conta que o diagnóstico só foi feito quando Hugo tinha 1 ano e 8 meses, pois em Petrópolis nenhum dos profissionais visitados foi capaz de dar uma resposta conclusiva a respeito do transtorno.

– Na época falavam que ele tinha um retardo, uma deficiência comportamental, mas nada de autismo. Muitos médicos ainda acreditavam que ele era surdo e pediram diversos exames, mas eu tinha certeza que esse não era o problema, pois meu filho gostava muito de música, – revela Ângela.

O diagnóstico exato só possível por meio de uma análise de um neuropsiquiatra, que atendia no Rio de Janeiro. Ele avaliou Hugo como autista clássico e também com hiperlexia, ou seja, era super dotado em leitura. Até então, esse diagnóstico não era uma novidade, já que muitos autistas têm capacidades para desenvolvimento de leitura, pensamento lógico, falam idiomas com facilidade, mesmo sem ter aprendido, dentre outras habilidades.

– Hugo é meu primeiro filho e ao saber do diagnóstico meu chão abriu, mas disse ao médico que estava disposta a ajudar meu filho a ter qualidade de vida. Com isso, fui buscar informações sobre o Transtorno do Espectro Autista e também procurar ajuda de especialistas fora de Petrópolis. Em Juiz de Fora achei o tratamento adequado para o caso do Hugo e os resultados apareceram em pouco tempo, – explica Ângela.

Ângela conta que os tratamentos devem ser feitos para sempre e, graças ao acompanhamento constante dos especialistas, Hugo continua apresentando progressos. “O único apoio de que tive foi de outros pais, que também tem filhos com autismo e, a partir daí, surgiu a ideia de criar o Gaape (Grupo de Amigos dos Autistas de Petrópolis), que acabou tornando-se referência em todo o estado do Rio quando se fala sobre tratamento do Transtorno do Espectro Autista. Todos os autistas têm muita capacidade de desenvolvimento, basta apenas ter muito estímulo e o tratamento adequado”, conclui.

Tipo de Autismo
Por ser um espectro, o autismo engloba vários e diferentes níveis de funcionamento e transtornos, tais como: Autismo Clássico, Síndrome de Asperger, Autismo Atípico, Autismo de Alto Nível Funcional, Perturbação Semântica-Pragmática, Perturbação do Espectro do Autismo (ASD).

Tratamento
O tratamento para o Transtorno do Espectro Autista envolve profissionais multidisciplinares, por meio de intervenções psicoeducacionais, orientação familiar, desenvolvimento da linguagem e comunicação. Cada paciente é avaliado e tem um programa específico a ser seguido, de acordo com suas necessidades. Alguns dos profissionais envolvidos no tratamento são: psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e educadores físicos.

(Fonte: Associação Inspirare)

O bebê tem fome de quê?

A mãe vê já na maternidade que o bebê humano é o mais tinhoso dos mamíferos

Berçário de hospital em Santa Catarina – Joel Silva – 1º.ago.2008/ Folhapress

Vera Iaconelli*

A porca se deita de lado permitindo que os porquinhos recém-nascidos tenham acesso a seu leite. Sabe-se, graças à infinita curiosidade humana, que cada porquinho vai eleger uma mama e mesmo de olhos fechados se dirigirá a ela toda vez –é só numerar a mama e o porquinho, e a prova científica está dada. Tendo cumprido sua função, a porca solta um grunhido assustador e a porcada sai correndo, pois percebe que a festa acabou –satisfeitos ou não– e não se fala mais nisso. A natureza é tão eficiente que a porcada cresce linda e forte, sem maiores problemas a não ser o destino de se tornar bacon, do qual nunca desconfiarão –santa ignorância.

Do outro lado do universo vivente, a mãe humana descobre, já na maternidade, que o “porquinho humano” é o mais tinhoso dos mamíferos. Pensemos no caso de uma mãe indiana desesperada com a recusa persistente de seu recém-nascido em mamar. O pediatra, para surpresa de todos, sugere incrementar a dieta da mãe com curry –tempero onipresente na culinária do país. Ato contínuo, o bebê começa a mamar com a voracidade esperada. Conclusão: acostumado a sentir no líquido amniótico o gosto da dieta caseira da mãe, o pequeno, não encontrando o paladar esperado, se recusa a mamar.

O estudo das competências do bebê recém-nascido é fascinante e nos alerta para a importância das experiências mais precoces. As competências são, digamos, “configurações de fábrica” para dar conta da vida aqui fora. O bebê, diferentemente dos outros mamíferos, nasce faminto pelos odores, as vozes, o toque e os gostos com os quais conviveu durante a gestação, sendo capaz, por exemplo, de reconhecer a voz do pai na sala de parto. Se as rotinas hospitalares de parto derem chance, ele virará a cabeça de olhos arregalados na direção da tão conhecida voz (sugiro assistirem “breast crawling” no YouTube).

Sabendo disso, talvez você se inquiete com um bebê que tenha sido separado da mãe logo ao nascer devido a uma internação na UTI, pela entrega em adoção ou, ainda, por uma separação evitável, como no caso de hospitais que seguem protocolos anacrônicos.

Mas é aí, nas situações adversas, que o bebê mostra que, diferentemente dos porquinhos, é a linguagem que nos faz humanos. Fazemos uso da linguagem de forma tão radical, que algumas intervenções verbais podem reverter quadros somáticos gravíssimos na UTI neonatal e outras podem pôr tudo a perder.

Enquanto os pais são bombardeados com disputas mercadológicas sobre o uso ou não da chupeta, do aleitamento, da cama compartilhada, do tipo de parto, busca-se ignorar que é da transmissão de nossas histórias e afetos –ambivalentes, falíveis– que o humano é feito.

Cabe ao bebê chorar e cabe ao adulto estar lá para tentar acalmá-lo, não supondo que deveria ser capaz de adivinhar o que o bebê quer –nunca saberemos realmente o que um bebê queria, mesmo quando conseguimos que ele pare de chorar! Trata-se de tentar transmitir ao bebê que, na hora do sofrimento, ele não está sozinho. Alguém, que se dirige a ele como semelhante, que tem uma voz, um cheiro e um olhar de compaixão, não o abandonará. Consolo imperfeito, que sempre deixa a desejar. E é disso que se trata criar seres humanos. Trata-se de criar seres desejantes, e não porquinhos.

*Psicanalista, fala sobre relações entre pais e filhos, as mudanças de costumes e as novas famílias do século 21

Dilemas: A tecnologia ajuda nas relações?

É importante saber que a relação olho no olho ainda é a mais eficiente para que aprofundemos a conexão com as pessoas ao nosso redor e, principalmente, com a gente mesmo

David Baker Lettering: Tiago Gouvêa, via Vida Simples

O uso de computadores, tablets, smartphones e aplicativos pode, em muitos momentos, nos aproximar do outro, manter amizades ou ajudar a fazer novas. Mas é importante saber que a relação olho no olho ainda é a mais eficiente para que aprofundemos a conexão com as pessoas ao nosso redor e, principalmente, com a gente mesmo

todos podemos citar os benefícios da tecnologia digital que nos cerca: nos reconectarmos com velhos amigos no Facebook; usar aplicativos para chamar táxi, pedir comida; estudar com os melhores professores universitários em um curso online. No entanto, um novo estudo feito pelo departamento de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos eua, confirmou o que muitos de nós já pensamos há algum tempo: existe um lado negativo na revolução tecnológica — e que é mais grave do que imaginávamos. A professora Jean Twenge, que coordenou a pesquisa, avaliando dados recolhidos de mais de 500 mil adolescentes, concluiu que aqueles que gastavam mais tempo com as mídias digitais tinham maior tendência a concordar com frases como “Parece não haver esperança para o futuro” e “Acho que não consigo fazer nada certo”. E aqueles que passavam um tempo menor na internet estavam menos propensos a esse negativismo. Para Twenge, isso pode indicar não uma causalidade, mas uma correlação entre os fatos. “É possível que, em vez de mais tempo online causar depressão, a depressão é que faça a pessoa ficar mais tempo online”, explicou. Vale saber que outros estudos também sugeriram uma relação entre o uso da internet e problemas emocionais. Ou seja, parece, de fato, que a tecnologia está afetando, de alguma forma, a maneira como lidamos com os nossos sentimentos — ou, para usar uma expressão mais usual, a nossa inteligência emocional.

O peso das emoções
Em um mundo que valoriza tanto a inteligência cognitiva é uma tarefa árdua mostrar que as emoções também têm seu peso. Desde a primeira revolução industrial, que revelou a capacidade que as máquinas têm de aumentar a produtividade, tendemos a priorizar aptidões “técnicas”, como resolução de problemas, gerenciamento de projetos e a capacidade de usar recursos de forma eficiente. Assim, habilidades como empatia, compreensão, autoconhecimento, compaixão e resiliência passaram para o fim da lista de prioridades e a ser vistas como menos úteis e menos capazes de contribuir para o crescimento econômico. Isso continuou sendo uma tendência na revolução digital, que adicionou a isso a solidez dos dados. É por essa razão que agora temos aplicativos que (dizem que) irão aumentar nossa felicidade, estimular nosso senso de propósito e nos ajudar a encontrar o amor — áreas da vida que têm mais a ver com a emoção do que com a cognição. Mas, como algumas pessoas que tenham passado algum tempo no Tinder sabem, a tecnologia não tem proporcionado uma solução mágica. E o motivo é que ela (ainda) não é capaz de acessar apropriadamente as emoções. Inteligência emocional envolve aumentar nossa compreensão sobre a maneira como processamos sentimentos como coragem, determinação, ansiedade, felicidade, animação, constrangimento, confiança. A lista é longa e representa uma área inexplorada da nossa mente que a tecnologia tende a neglicenciar em favor do que é mecânico, cognitivo e racional. No entanto, essas emoções são tão reais quanto nossos pensamentos intelectuais e possivelmente mais potentes. E agora, com a inteligência artificial avançando em quase todas as áreas, é hora de encontrarmos maneiras de cultivar melhor também as nossas emoções. Sim, nós podemos cultivá-las. Nossa tendência é acreditar que isso é algo que algumas pessoas têm e outras não, algo nato (“Ela é muito confiante”, “Ele tem tendência à ansiedade”). Mas as emoções são ferramentas que usamos para lidar com o mundo. E elas têm vantagens universais, mesmo num mundo tecnológico em que tantas coisas podem fazer com que a gente se sinta como pequenas engrenagens numa grande máquina digital.

Como funcionamos
O primeiro passo para desenvolver a inteligência emocional é começar a olhar para os nossos sentimentos, tomar consciência de cada um deles. Em geral, não damos muita atenção ou não nos dedicamos em pensar sobre as emoções que brotam dentro da gente — exceto quando elas nos inundam, como quando estamos apaixonados, deprimidos ou em pânico. Uma forma de fazer isso é através do mindfulness (ou atenção plena), que consiste em focarmos nos pensamentos e sentimentos que estão transitando pela nossa mente. Outra forma é a psicoterapia, na qual falamos sobre pensamentos e emoções, trazendo-os à tona para, então, observá-los. Uma terceira maneira é escrever — ou filmar, ou gravar — como estamos nos sentindo. Vale fazer isso por dez minutos ao acordar ou depois de um evento que tenha sido especialmente desafiador. Não importa muito qual desses caminhos você escolha. Apenas encontre um que tenha mais a ver com você e faça isso regularmente, pelo menos uma vez por semana. Aos poucos, como qualquer habilidade, isso se tornará automático. Uma vantagem disso é que começamos a entender melhor como funcionamos ao sermos confrontados pelos pequenos desafios cotidianos. Esses exercícios tornam a vida mais agradável e sintonizada com o que queremos. Mas uma segunda — e, na minha opinião, ainda mais poderosa — vantagem é que isso também nos ajuda a entender melhor as outras pessoas. Todos temos inseguranças ou ficamos empolgados quando algo animador acontece; somos duros com a gente mesmo quando achamos que não estamos fazendo algo que deveríamos estar fazendo; e assim vai. É disso que nossos pensamentos e nossa vida emocional são feitos — e todos nós estamos experimentando as mesmas coisas. Quanto mais conseguirmos explorar as experiências emocionais alheias, mais vamos reconhecer os outros como pessoas de fato — em vez de como entidades sem corpo do mundo digital, pessoas que não parecem ter uma vida real, mas cujas opiniões sobre nós, reais e imaginadas, parecem importar. Sabemos que muita gente fica abalada com comentários online, mesmo os de estranhos. E sabemos que o contato olho no olho é muito mais recompensador do que conversar com alguém através de uma tela. Mas a comunicação online é tão atraente, fácil e menos arriscada do que na vida real que não surpreende estarmos todos digitando sem parar. A verdade é que estamos na adolescência da era digital. Estamos empolgados com as possibilidades maravilhosas que as novas tecnologias oferecem e apenas começando a entender o lado negativo. Mas, em vez de combatê-la — porque ela fará cada vez mais parte da nossa vida —, o mais recomendável é entender nossos sentimentos e como reagimos às adversidades. Isso fará bem para nós e para todos ao redor.

A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo

*David Baker é jornalista, escritor, coach, consultor, professor e um dos fundadores da The School of Life no Brasil. Ele foi, também, um dos criadores da revista Wired no Reino Unido, que trata sobre tecnologia. E escreve regularmente para algumas das mais reconhecidas publicações do mundo

Novos e velhos amigos, o melhor antídoto contra a solidão

Muito interessante esse artigo. Recomendo a leitura até o final.

Auge das conexões sociais de homens e mulheres se dá por volta dos 25 anos, mas interação é crítica para a saúde mental

Acho que está claro para todos nós que podemos nos sentir sozinhos mesmo que estejamos acompanhados. Quantas vezes já presenciamos casais que mal toleram dividir uma mesa de restaurante? Mas não é da solidão a dois que falo, e sim da sensação dolorosa de não ter ninguém para compartilhar uma alegria ou tristeza. Nesse caso, a solidão é como um ferimento que não sara. Estudo realizado em 2016 mostrou que o auge das conexões sociais de homens e mulheres se dá por volta dos 25 anos. A partir dessa idade, as pessoas passam a concentrar suas energias na carreira e nos relacionamentos estáveis, deixando de lado o círculo de amigos. À medida que envelhecemos, esse grupo se restringe ainda mais, principalmente depois da aposentadoria, mas a necessidade de interação social é crítica para a saúde mental. A maioria não se dá conta disso, acreditando que cultivar amizades é quase um penduricalho ou exigência da sociedade, mas a questão é tão séria que a Grã-Bretanha criou, mês passado, uma secretaria de Estado para cuidar dos cerca de nove milhões de britânicos que padecem do mal. Estima-se que ali metade das pessoas acima dos 75 anos viva só, sem interagir com ninguém durante dias. Nos EUA, segundo reportagem do jornal “The New York Times”, mais de 42 milhões de americanos acima dos 45 anos sofrem de solidão crônica. Esse blog também tratou do tema: seu impacto na saúde equivale a fumar 15 cigarros por dia.

Por isso, não se feche para os amigos, antigos ou recentes. Quando alguém entrar em contato, não diga apenas que está muito ocupado, porque isso vai soar como um fora. Se a semana estiver corrida, explique que na seguinte sua agenda estará livre. Cultive uma rotina de encontros: semanais, quinzenais, mensais. Os companheiros de infância valem ouro, nessas relações há afeto, reminiscências, laços que podem ser refeitos como se o tempo nem tivesse passado. Reencontre-os. Reconecte-se. Embora não se possa garantir que a experiência seja 100% satisfatória, talvez você se surpreenda com sentimentos que estavam adormecidos. E não fuja dos encontros familiares: batizados, casamentos e aniversários de bodas podem ser oportunidades para rever pessoas queridas.

Há quem fique ansioso ou estressado quando se trata de estabelecer contato com estranhos, mas há maneiras suaves para fazer essa ponte. Uma delas é buscar informações, com vizinhos, moradores do mesmo bairro, ou até em redes sociais, que sejam úteis para sua vida. Pode ser a indicação sobre um profissional para fazer reparos na casa; sobre um médico ou fisioterapeuta; ou sobre cuidados com animais de estimação – aliás, ter um cão ou um gato abre um enorme leque de possibilidades de interação. Esse pode ser o primeiro passo para estabelecer uma conexão e mapear interesses em comum, mas preste atenção para evitar armadilhas: dar conselhos que não foram solicitados, gabar-se ou se envolver em algum tipo de fofoca.

(Por Mariza Tavares, Rio de Janeiro, para o G1)

Raiva não é bom ou ruim: apenas é

Não culpe os outros pela sua raiva

Patricia Gebrim, Vya Estelar

Como seres humanos, acolhemos em nós todos os sentimentos que fazem parte de nossa experiência neste planeta. A raiva é um deles.

Muitas vezes somos por ela tomados, agindo de forma que nos faz sentirmos dor ou arrependimento. O fato é que, lançada a pedra, não há como voltar atrás.

O que dizer desse sentimento que brota das profundezas da terra, eclode em nós e nos transforma numa espécie de vulcão?

Há quem a julgue, ache que raiva é coisa do mal, mas saibam, a raiva, como qualquer expressão na natureza humana, não é algo bom ou ruim. Apenas é. Como uma tempestade. Uma onda que chega à praia cheia de poder.
Um raio que cai do céu carregado de eletricidade.

Não julgamos a natureza por esses fenômenos e tampouco deveríamos julgar nossa própria natureza humana.

É preciso, no entanto, compreender que a raiva nos pertence. É preciso abraçá-la na inteireza do nosso ser. Parar de sair por aí buscando culpados. Sua raiva é assunto seu. Todo seu.

Mesmo que o outro tenha agido de forma inadequada, cabe a VOCÊ equilibrar o que sente.

Ouça… Você pode sentir “qualquer” coisa. Não há mal algum nisso. Mas despejar sobre o outro o que lhe pertence, é outra coisa. Isso sim causa imenso desequilíbrio. Causa dor em si mesmo e no outro. Embora pareça trazer, ao menos momentaneamente, um imenso alívio, uma descarga nociva de raiva nos fere a alma e entristece o mundo. Dói em nossas profundezas, naquele lugar onde não há separação entre nós e os outros. Deixa-nos na boca um amargo gosto de fel.

É também verdade que a raiva tem, algumas vezes, uma função positiva. De proteção. Quando sentimos raiva frente a uma injustiça, quando sentimos raiva frente a um ato que contrarie o amor… a vida.

Nesse caso não é nada inteligente desperdiçá-la numa erupção de vulcão. Entenda, a raiva vem carregada de imenso poder. Aprenda a canalizá-la e utilizá-la conscientemente, promovendo transformação, ações que resultem em evolução. Permita que o amor que o habita o ensine a lidar com a raiva, tornando-a um poderoso instrumento. Use essa energia com sabedoria, isso lhe trará imenso poder.

Respire fundo e prepare-se.

Faça o seu melhor na próxima vez em que a raiva emergir em você.

Aprenda.

Quanto maior a raiva, mais você precisa ancorar o amor em você.

O medo é uma viagem no tempo 2

Carregamos esse sentimento por situações que aconteceram no passado, ou porque imaginamos que algo vá dar errado no futuro

Paula Abreu, via Vida Simples

Se existe qualquer coisa que você teme na sua vida hoje, eu posso afirmar algo com 100% de certeza: você está viajando no tempo. O medo, todo e qualquer tipo de medo, só existe quando a gente se desconecta do momento presente. Algumas vezes, viajamos para o passado. Nesses casos, o medo é baseado em alguma experiência que aconteceu lá atrás e que você está revendo e revivendo de novo e de novo, às vezes por anos, ou até mesmo décadas da sua vida (e, se você acredita em reencarnação, talvez até mesmo por várias vidas!). Por exemplo, se você, em algum momento, já tentou empreender e não deu certo, é possível que hoje tenha medo de tentar de novo, mesmo estando infeliz no seu trabalho ou carreira. Se você já sofreu em um relacionamento abusivo, ou que terminou mal (quem nunca?), é possível que tenha medo de se envolver novamente, mesmo que seja com uma pessoa totalmente nova (e potencialmente ótima!). Você está revivendo apenas aquelas experiências do passado. E é isso que está gerando medo.

Outras vezes, a gente vai também para o futuro. Nesses casos, o pavor é baseado em um evento que ainda nem aconteceu. Pode ser que você nunca tenha tentado de fato empreender no passado, mas, mesmo assim, morra de medo de fazer isso agora, porque pensa que pode dar tudo errado, falir, e ficar na rua da amargura lá na frente. Ou porque sua família sempre falou que você precisa de estabilidade, e você fica só imaginando o que pode acontecer caso a sua empresa vá mal. Se a sua mãe, avó ou amigas vivem dizendo que homem nenhum presta, que todo homem é canalha, pode ser que você tenha receio de se envolver com alguém e encarar uma traição, mesmo que isso nunca tenha acontecido até então. Ou seja, você está pegando emprestado as crenças e o medo dos outros! Em casos como esses, o receio existe porque coisas ruins estão acontecendo em um futuro hipotético (que só existe dentro da sua cabeça).

Agora imagine como é que uma pessoa empreende ou começa um relacionamento (ou faz qualquer outra coisa) se ela estiver viajando no tempo e experimentando medos, sejam eles baseados no passado ou no futuro. Como ela pensa? Como ela se comporta? Quais são as atitudes dela? Como ela fala, como se comunica? Não sei o que você está refletindo aí do outro lado, mas eu aqui estou pensando que é muito provável que alguém assim vá de fato criar essa situação que tanto a apavora. Lembre que o momento presente é sempre perfeito. Se você conseguir ficar conectado com o agora, o medo não existirá. Como afirmei no início deste texto: o medo é uma viagem no tempo. Então experimente jogar sua âncora no tempo presente. E aproveite a paz interior.

PAULA ABREU é coach e autora do livro Escolha Sua Vida. Oferece meditação gratuita no acreditaemedita.com.br

Por que as pessoas estão a cada dia menos autênticas?

Estamos perdendo nossa alma junto com a aura autêntica das belas palavras enviadas para pessoas queridas

por  Samanta Obadia, via Vya Estelar

Que a maioria das pessoas tem pouco a dizer, nós sabemos. Mas por que todos acham que devem continuar repetindo coisas que não são suas?

Nestes dois últimos eventos de 2017, Natal e Ano Novo, percebi esse fenômeno repetitivo no envio de mensagens copiadas e coladas no Messenger e no Whatsapp, de maneira absurda. Parece que todos se viram obrigados a enviar mensagens para a lista de nomes de seus contatos.

Antipática essa minha crítica, não? Pois sim. Não dá para ser simpática à ideia de que as pessoas estão cada vez mais inautênticas e idiotizadas.

Não sou contra o uso da reprodução em série de convites, avisos e informativos úteis, desde que verdadeiros. Mas mensagens de felicitações? Essas devem ser autênticas e pessoais (com exceção das corporativas e comerciais).

Digamos que você goste de enviar mensagens para muitos amigos, ora pelo menos escolha a sua, seja um verso de um poeta que lhe represente ou uma imagem que você admire. Mas receber e repassar mensagens que não lhe representam. Para quê? Para repetir o que todo mundo está fazendo. É o cúmulo da reprodução impensada. É uma repetição robotizada e sem sentido.

Como dizia sabiamente, o filósofo Walter Benjamim: “A autenticidade de uma coisa é a suma de tudo o que desde a origem nela é transmissível, desde a sua duração material ao seu testemunho histórico. Uma vez que este testemunho assenta naquela duração, na reprodução ele acaba por vacilar, quando a primeira, a autenticidade, escapa ao homem e o mesmo sucede ao segundo; ao testemunho histórico da coisa. (…) O que murcha na era da reprodutibilidade da obra de arte é a sua aura. O modo em que a percepção sensorial do homem organiza é condicionado não só naturalmente, como também historicamente”. Ou seja, estamos perdendo nossa alma junto com a aura autêntica das belas palavras enviadas para pessoas queridas.

Por que você deve ter muito cuidado com seus pensamentos

por Roberto Goldkorn, via Vya Estelar

Um dos livros que mais me impressionou foi o Formas Pensamento do Leadbeater, editado no Brasil pela Editora Pensamento.

Nesse trabalho o grande teósofo e clarividente inglês dizia que nossos pensamentos são coisas, têm uma concretude, têm forma, cores, cheiro e mobilidade.

O livro é ricamente ilustrado com as formas-pensamento que pairavam alguns instantes como nuvens sobre a cabeça que os havia gerado. Ódio, inveja, raiva, ressentimento, luxúria, devoção, etc. foram alguns dos pensamentos desenhados e analisados pelo autor.

Acredito nisso, embora tenha alguma dificuldade de aceitar aquela miríade de formas, cores e dinâmicas. A minha leve descrença se deve ao fato de que ninguém mais, mesmo os mais respeitados videntes e gurus desenharam as formas-pensamento com tanta riqueza de detalhes. E tenho sempre muita dificuldade com diagnósticos únicos, com exclusividades.

De qualquer forma não há razão para desacreditar que nossos pensamentos tenham uma materialidade uma vez que já sabemos que toda matéria é basicamente energia.

Muitas pesquisas feitas por cientistas que nada têm de esotéricos, mostram que pensamentos ou produções mentais podem ser comunicadas e até criar efeitos físicos em objetos distantes.

A nossa mente está constantemente criando pensamentos em sua imensa maioria flashes fugazes (não será redundância?) que se dissipam no éter quase tão rápido quanto foram gerados.

Mas muitos pensamentos são criados por fortes e densas emoções. São os chamados pensamentos “pesados”. Esses ficam como nuvens carregadas, gordas e não se dissipam rapidamente, até por que são pesados e são realimentados pela fonte emocional que os gerou. Quando uma pessoa pensa com ódio e alguém, em geral existe um fato gerador externo (que permanece ativo) e uma filial interna que de fato gera o pensamento-ódio. O mesmo acontece com o pensamento-medo, e toda a “família Adams” de pensamentos destrutivos que nem é preciso mencionar.

Esses filhos das nossas paixões e febres emocionais, são entre tantos malefícios, causadores dos bloqueios da nossa capacidade psíquica, ou seja da nossa mediunidade. Eles ocupam um espaço de comunicação interna e às vezes externa por onde o fluxo de informação mediúnica deveria passar. Claro que estou me referindo a imensa maioria dos mortais. Grandes médiuns, grandes videntes também foram pessoas que trepidavam de paixões, e eram usinas ferozes de produção de pensamentos “obesos e sanguíneos”. Mas esse é outro texto, ou como diria meu pai, “são outros quinhentos”.

Meu alvo aqui é o sujeito comum, eu e você que está lendo agora. Algumas pessoas durante meus cursos de desenvolvimento de sensitividade me perguntam: Por que não tenho dons psíquicos? O que fazer para tê-los? Eu devolvo a pergunta e digo: O que é que você está fazendo para não tê-los?”

Posso dizer sem medo de estar sendo hipócrita, que todos nós temos algum grau de mediunidade. Todos estamos constantemente enviando e recebendo mensagens de fora da área intelectual de nossa mente, e até do espaço psíquico coletivo. O que acontece para que nada disso seja registrado e aproveitado? As grossas nuvens de pensamentos tenebrosos, que geramos em resposta a estímulos externos/internos, frutos de nosso analfabetismo emocional. Mas a coisa ainda pode ser pior que isso. Além de bloquear a nossa criatividade, muitas vezes estimulada por aliados psíquicos e espirituais, os pensamentos trovejantes podem, ao contrário, servir de antena para comunicações que lhes sejam afins.

Já escrevi nesta coluna há muitos anos, um artigo chamado Abandonando o Palco, sobre o que acontece no processo dos suicidas. Os pensamentos autodestrutivos gerados podem eventualmente atrair programas psíquico-espirituais de suicidas que se deram bem (conseguiram seu intento) e querem arrastar outros para seu inferno privê.

Nessa toada, os pensamentos de ódio, além de funcionarem como rolha impedindo o fluxo de comunicação saudável, também sintonizam seu criador com as estações da rádio Ódio & Rancor. Essa rádio vai reforçar o apetite dessa “coisa” por mais alimento-ódio, e isso pode acabar sendo um monotema sinistro na vida desse indivíduo. Assim o criador se une de forma simbiótica a criatura de maneira quase idêntica ao processo do vício e pimba, temos um refém, um prisioneiro de um inferno particular em vida.

Na Bíblia o rei Saul entra em pânico porque sente que “deus o abandonou, e não fala mais com ele, nem através das cartas, nem em sonhos…” e parte para em desespero consultar uma “feiticeira” que nada mais é do que uma médium, para que “lhe traga dos mortos o rei Samuel para orientá-lo”.

Minha interpretação dessa passagem não tem as piruetas de alguns exegetas, e é simples. O medo, (e outros sentimentos e emoções pesadas) bloqueou a comunicação de Saul, não com Deus, mas com seu próprio oráculo interno e com o Inconsciente Coletivo.

Saul como a maioria dos mortais resolve pegar um atalho, ao invés de olhar para si próprio em busca do curto-circuito.

Produzir pensamentos carregados de eletricidade e potencial destrutivo, é a maior razão do bloqueio de nossa sensitividade, é a explicação do porquê perdemos incontáveis tesouros de informações que poderiam enriquecer e libertar nossas vidas.

A criação e manutenção desses monstrengos mentais se constitui numa prisão sem grades, num sobrepeso que nos faz vergar; prejudica a nossa mobilidade, rouba a nossa liberdade e nos empobrece como seres destinados à Luz.

O cara que bebia Itaipava mas queria consumir Heineken

Não consumimos produtos. Consumimos marcas. Mais que isso: consumimos todo o poder simbólico que as marcas nos oferecem

Marcos Hiller, via Administradores.com

Nesse início de ano fomos surpreendidos por um vídeo de um anônimo em um praia qualquer despejando a lata de uma cerveja Itaipava dentro de uma garrafa long neck verdinha da Heineken. Muito mais do que um vídeo até meio engraçado, e além de qualquer julgamento de valor (não nos cabe isso) sobre o ato do cidadão, o que vimos ali é algo muito revelador sobre o consumo e como esse fenômeno assume lugar primordial para entender as nossas lógicas sociais, assim como construímos até a mesmo a nossa identidade.

E apesar desse processo soar como algo aparentemente complexo, ele não é. Podemos entender até com certa facilidade. Primeiro que esse comportamento do cidadão com a cerveja na praia é algo que já presenciamos com certa recorrência e com outras categorias de produtos. Quem nunca viu alguém colocar o adesivo da maçãzinha mordida da Apple em um laptop de outra marca? Ou até mesmo colar esse adesivo da Apple no próprio carro? Já vimos na rua gente que afixa as 4 argolas da marca Audi em carros populares. A própria pirataria é uma prática super disseminada em todo o mundo e que surfa exatamente nessa onda. Não consumimos produtos. Consumimos marcas. Mais que isso: consumimos todo o poder simbólico que as marcas nos oferecem.

O que parece ficar evidente no vídeo do colega na praia é que, para ele, deve ser muito mais bacana segurar uma long neck de Heineken do que uma lata de Itaipava. Acho que ele entende que construirá uma imagem mais favorável dele mesmo para demais pessoas por estar segurando uma long neck Heineken. Por mais que o design da lata Itaipava tenha passado por uma modernização recente, não interessa. Ele prefere Heineken. O fato é que, na nossa vida contemporânea, consumimos não apenas bens e serviços. Consumimos modos de ser, sensações, percepções, sentimentos. E o consumo é uma potente desculpa que encontramos para construir nossa identidade. Pela via do consumo, sobretudo pelo consumo de marcas, contamos pro mundo quem nós somos e quem nós não somos. Fica muito claro isso no vídeo do amigo na praia bebendo Itaipava mas consumindo Heineken. Consumimos estilos de vida, consumimos a vida dos outros, sobretudo nas efêmeras redes sociais. E tudo que fazemos (consciente ou inconscientemente) na nossa vida, sempre projetamos o olhar do outro. Já bem disse isso o antropólogo canadense Erving Goffman, que escreveu na década de 50 um livro atemporal chamado “A representação do eu na vida cotidiana”.

Trocando em miúdos. A gente parece muito mais culto e descoladão tomando um café do Starbucks do que no FRANS café, certo? É bem mais legal dar check-in no RÁSCAL do que num kilão do bairro, correto? É muito mais sexy postar um selfie no aeroporto de Guarulhos do que na feiosa rodoviária do TIETÊ. Isso não é de hoje. Isso não é das redes sociais. Isso é do ser humano. Leia Goffman!