Ninguém nasce empático

Empatia: se colocar na posição do outro

por Regina Wielenska, Vya Estelar

Atenção, leitores! Não estou a falar de simpatia, esse conceito todos entendem sem hesitação. A bola da vez hoje é a empatia. Entre as habilidades sociais que ajudam as pessoas a interagirem uma com as outras de modo sensível, respeitoso e afetuoso temos a empatia. Ela se refere à capacidade de se colocar na posição do outro, entendendo suas necessidades, sentimentos e propósitos.

Mais do que apenas compreender, espera-se que a pessoa seja capaz de ressoar afetivamente, com sintonia fina, agindo numa direção compatível com o que pode identificar. Seria como ser capaz de sentir algo próximo ao que meu semelhante está sentindo. Pessoas empáticas costumam sentir e produzir, reciprocamente.

Claro que tudo tem limite. Um médico no pronto-socorro precisa ser capaz de ler o que o outro, seu paciente, lhe traz de conteúdo, de sofrimento e dor. Entretanto, não pode perder a objetividade, a firmeza das decisões clínicas. Se ele se desesperar com a tragédia humana e mergulhar no desespero do outro a ponto de congelar ou perder o foco, adeus sucesso!

Também não se pode ser pseudoempático, como no caso de pessoas com comportamento antissocial. Indivíduos assim manipulam os sentimentos dos outros, que conseguem interpretar com precisão, apenas para tirar benefícios para si, sem consideração alguma para o sofrimento e prejuízo que a outra pessoa, sua vítima, possa vir a enfrentar.

Escrevo esta coluna ainda em contato com a tragédia aérea que terminou com a vida de repórteres e dirigentes esportivos e quase todo o time da Chapecoense. Em meio às transmissões de TV, havia um repórter começando a árdua tarefa de falar com uma senhora, que acabara de perder o filho e participava das homenagens. Ela falou sobre sua dor imensa e, de modo surpreendente, corta a entrevista e pergunta ao repórter: “E vocês, como estão se virando? Vocês perderam tantos amigos, né? Posso abraçar você?”.

Dá para imaginar que repórter e mãe órfã de filho se conectaram na dor, num longo abraço com lágrimas e muito amor. Deve ter sido duro para o cinegrafista que registrou tão delicada interação. Essa mãe é puro amor, sua dor terrível não lhe impediu de sentir a dor do outro e de se importar genuinamente com seu bem-estar emocional.

Ninguém nasce empático, isso se constrói nas pessoas por meio de exemplos de pessoas significativas, explicações e incentivos. Quem não teve a chance de refinar essa habilidade, pode ser ajudado terapeuticamente a desenvolver essa preciosa capacidade humana, capaz de promover o entendimento recíproco, estreitar laços, reduzir conflitos e muito mais.

REGINA WIELENSKA

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.

ESPAÇO FEMININO: Lorena Bobbitt e a história da mulher que castrou o marido virou série

Ela ficou famosa em 1993 ao cortar o pênis do marido com uma faca e jogar fora. 26 anos depois, Lorena Bobbitt conta seu lado da história.

(Amazon Prime Video/Divulgação)

Por Ligia Helena, via MdeMulher

Foi em 23 de junho de 1993, na cidade de Manassas, nos Estados Unidos, que Lorena Bobbitt, 24 anos, tomou a decisão que mudaria sua vida para sempre. Com uma faca de 30 centímetros, foi até o quarto, levantou o lençol sob o qual John Wayne Bobbitt, 26 anos, dormia, e cortou fora o pênis dele, com quem era casada havia quatro anos.
Com uma mão no volante e a outra segurando o pênis ensanguentado, Lorena tentava fugir. Para poder dirigir melhor, atirou o membro pela janela, e seguiu até o salão de beleza onde trabalhava como manicure.

Depois dessa noite, Lorena virou manchete em todo o mundo. Enquanto a imprensa estava preocupada em falar sobre a cirurgia que restaurou o pênis de John, e acompanhava a trajetória dele como ator pornô (sim!), a questão da violência doméstica contra ela nunca foi central.

Agora, 26 anos depois, a história dela – não mais Bobbitt, mas Lorena Gallo – será contada mais uma vez, em uma série documental de 4 episódios produzida por Jordan Peele (“Corra!”; “Infiltrado na Klan”; “Nós”) e dirigida por Joshua Rofé. A série estreia na sexta (15) na plataforma Amazon Prime Vídeo.

Foi Rofé quem procurou Lorena, com a ideia de contar a história dela, mas dessa vez focando nos abusos sofridos e que culminaram na castração do marido.

A história de Lorena e John Bobbitt

Nascida no Equador e criada na Venezuela, Lorena realizou em 1987 o sonho que tinha de se mudar para os Estados Unidos. Com um visto de estudante, aos 18 anos ela se matriculou em uma faculdade e foi morar na Virgínia. Lá, estudava e trabalhava em um salão de beleza.

Quando conheceu John, ele era um soldado da Marinha norte-americana. Ela conta ter se apaixonado pelo homem no uniforme, lindo e de olhos azuis. Em 1989, quando John tinha 22 anos, e Lorena 20, eles se casaram.

Não demorou muito para Lorena descobrir que de sonho havia pouco no casamento dela. Ela afirma que John batia nela, a estuprava e a ameaçava de deportação. Eles brigavam muito, e chegaram e se separar, mas depois se reconciliaram.

Na noite de 23 de junho de 1993, John voltou para casa depois de uma noite bebendo com um amigo. De acordo com Lorena, John a estuprou mais uma vez naquela noite. Quando ela foi à cozinha, viu uma faca. Segundo ela, a ideia não era ensinar uma lição ao marido, mas sim uma questão de sobrevivência: ela não suportava mais viver daquele jeito.

Lorena Bobbitt em 1994, durante seu julgamento. (Jeffrey Markowitz/Sygma/Getty Images)

Tanto John quanto Lorena foram a júri popular após o ocorrido. Ele foi absolvido das acusações de violência sexual. Ela foi absolvida das acusações de ferimento intencional devido à insanidade temporária. Mas o fato é que, após o julgamento, em 1994 John foi preso por bater em Kristina Elliott, uma ex-stripper de 21 anos, e em 2003 e 2004 por bater na então esposa Joanna Ferrell.

Lorena, por sua vez, fugiu dos holofotes, e voltou a trabalhar como manicure. Na faculdade, conheceu David Bellinger, que depois se tornou seu marido. Juntos eles tiveram uma filha, Olivia, que hoje tem 14 anos. Deu algumas entrevistas pontuais, como à Oprah Winfrey, em 2009 e a Steve Harvey, em 2015. Em 2007 fundou uma organização de apoio a mulheres e crianças vítimas de violência doméstica, chamada Lorena’s Red Wagon.

Com uma vida tranquila, por que voltar a falar sobre o caso ocorrido há 26 anos? Lorena disse em entrevista ao The New York Times que com o tempo percebeu que muitas mulheres eram vítimas de abuso e violência doméstica. E que, como tantas outras mulheres na época, foi vitimada também pela mídia.

Em 2019, o clima parece mais favorável para as mulheres do que era nos anos 1990. E, depois de ter virado piada por tantos anos, ela acreditou que valia a pena colocar luz nessa história novamente – com o objetivo de enfrentar o problema da violência contra a mulher.

REFLEXÃO DA NOITE: Suicídio é a solução?

O suicídio pode causar dor ainda maior para os entes e amigos queridos que por aqui ficarão a sofrer pela ausência de quem partiu por ato e vontade própria.

No ultimo sábado, 02 de fevereiro, Sabrina de Campos Bittencourt entrou para a triste estatística de prática de suicídio no mundo.

A ativista, que recebeu as primeiras denúncias de abusos do médium João de Deus, resolveu tirar a própria na cidade de Barcelona, na Espanha, onde vivia

O ato revolucionário de tirar a própria vida – revolucionário no sentido de se tratar de uma decisão tão radical – vem aumentado de forma assustadora, no Brasil e no mundo, inclusive entre jovens e idosos.

A princípio pode parecer um atitude covarde, mas ninguém pode julgar, a priori, o que leva alguém atentar contra a sua própria vida. Um suicida sofre calado, ainda que possar dar, aqui e acolá, algumas pistas de que pode se matar a qualquer momento (reveja aqui).

Não é tão simples ou fácil, portanto, responder à pergunta que dá título a este post, uma vez que trata-se um tema muito complexo que envolve vários fatores: familiares, psicológicos, sociológicos, econômico-financeiros, religiosos, entre outros.

De qualquer modo, suicídio não pode ser analisado como coisa “doido”, “gente fraca”, “sem Deus no coração” etc. Não! Suicídio é coisa séria e quando pessoa recorre a ele via de regra quer dar cabo não à vida exatamente, mas a um sofrimento profundo que nem sempre é possível ser visto por terceiros, mesmo por familiares ou amigos próximos.

Daí que é muito importante perceber quando alguém da nossa relação demonstrar uma tristeza profunda e, principalmente, um quadro depressivo grave.

Particularmente, entendo que a vida vale muito a pena apesar deste mundo ordinário, de uma sociedade cada vez mais doente, de governos medíocres e de decepções que somos obrigado a encarar quase cotidianamente.

Nesse sentido, suicídio não é a solução.

Pode curar a dor de que o pratica, mas, por outro lado, pode causar dor ainda maior para os entes e amigos queridos que por aqui ficarão a sofrer pela ausência de quem partiu por ato e vontade própria recorrendo ao suicídio.

Boa noite a todos.

A saúde que a arte produz à mente 4

Janeiro e suas chuvas bem-vindas aqui na capital maranhense. O verde da cidade ganha vida e, entre um céu nublado, algumas manhãs têm revelado um azul acolhedor matizado de pinceladas brancas de nuvens esfarrapadas. Olhar para este céu pleno deste azul profundo dá uma agradável sensação de que é bom estar vivo.

Assim como os outros meses do ano, Janeiro ganhou a cor branca para chamar a atenção para um importantíssimo tema do cuidado com a saúde mental por meio da frase “Quem cuida da mente, cuida da vida”. Desde 2014 esta campanha se realiza para colocar na pauta um chamado ao zelo e atenção com a realidade cada vez mais presente dos males que a alma sofre. O mês foi escolhido por iniciar o ano e ser cenário do começo do cumprimento de muitas promessas que as pessoas fazem a si mesmas.

Nesse contexto, o trabalho desenvolvido pelos médicos é de fundamental importância. E em especial, daqueles que com sensibilidade e compaixão, conseguem aliviar males e amainar dores. Invoco a lembrança de Nise da Silveira, psiquiatra brasileira que alcançou reconhecimento internacional pelo impacto produzido a partir de suas ações libertadoras na forma de ver e tratar as pessoas portadoras de doença mental. Seu legado influenciou fortemente o movimento da luta antimanicomial e, sem dúvida nenhuma, redundou na lei da Reforma Psiquiátrica, quase quarenta anos depois.

Nise antecipou em mais de vinte anos o que protagonizou Franco Basaglia, na Itália, mas que depois de suas iniciativas tiveram alcance mundial. O paralelo entre os dois está, fundamentalmente, no olhar compreensivo e humanizador para o doente mental. Basaglia mereceu o reconhecimento, mas nossa Nise teve algo como uma antevisão de um futuro que, naquele momento (anos 1940) parecia algo mais insano do que os sintomas que seus pacientes apresentavam. Refiro-me ao fascinante trabalho que desenvolveu por meio da arte, da escuta e observação de cada paciente, como um ser único em sua individualidade e adoecimento.

O esforço de Nise rendeu mais de 350 mil trabalhos de arte produzidos por pacientes que, reunidos, tornaram-se o Museu de Imagens do Inconsciente. Este enorme acervo até hoje é fonte de estudos do que estava para além das lobotomias e choques elétricos dados sem qualquer critério – totalmente diferente da moderna eletroconvulsoterapia – e causava aquilo que Basaglia chamaria, em futuro não muito distante, de “duplo da doença mental”.

Para aqueles que querem conhecer um pouco mais do trabalho de Nise da Silveira, recomendo o excelente filme protagonizado pela atriz Glória Pires, “Nise, no coração da loucura”, que apresenta uma ideia muito próxima do que aquela nordestina sensível e visionaria produziu numa época em que quase não havia mulheres médicas, menos ainda psiquiatras.

A arte foi seu meio e seu instrumento. Seus insights sobre as mandalas produzidas por um paciente a aproximaram de Karl Jung e deste recebeu efusivos incentivos no aprofundamento de seus estudos, o que transformou Nise, algum tempo depois, na maior autoridade em abordagem junguiana, no Brasil. Nise tinha uma sensibilidade espontânea.

A propósito deste Janeiro Branco – e a despeito das vicissitudes que ele evoca – lembro da magistral obra de Machado de Assis, O Alienista. O médico Simão Bacamarte, “especialista nas mazelas da alma humana” é protagonista de uma história curiosa, cheia de detalhes impressionantes. A obra serve para desmistificar preconceitos em relação aos doentes mentais. A certa altura, o personagem constata: “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”. Ambos os médicos aqui citados – tanto a real Nise como o fictício Simão – têm algo a nos ensinar: a redenção que arte promove.

Natalino Salgado Filho
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* Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA

Yuval Noah Harari, autor de ‘Sapiens’: “A tecnologia permitirá ‘hackear’ seres humanos”

O historiador israelense de 42 anos, que vendeu cerca de 15 milhões de livros em todo o mundo, tornou-se um dos pensadores do momento. É o autor do fenômeno Sapiens, ensaio provocativo sobre como os humanos conseguiram dominar o planeta. Agora retorna às livrarias com 21 lições para o século 21 e nos recebe em Tel Aviv para conversar sobre os perigos do avanço tecnológico descontrolado, do fascismo e das notícias falsas.

Cristina Galindo, para o EL PAÍS

Há 10 anos, Yuval Noah Harari era um desconhecido professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Nada em sua carreira acadêmica —especializada em história mundial, medieval e militar— fazia pensar que se tornaria um dos pensadores da moda. Já vendeu 15 milhões de exemplares de seus ensaios em todo o mundo, passeia pelos fóruns de debate mais prestigiados, seus livros são recomendados por Bill Gates, Mark Zuckerberg e Barack Obama, e líderes políticos como Angela Merkel e Emmanuel Macron abrem espaço em suas agendas para trocar ideias com ele. A fama chegou de forma inesperada para esse israelense franzino, com um ensaio original e provocador sobre a história da humanidade. Sapiens: Uma breve história da humanidade (L&PM) foi um sucesso primeiro em Israel ao ser publicado em 2011 e depois em todo o mundo, com traduções para 45 idiomas. Em 30 de agosto, o historiador publica seu terceiro livro, 21 lições para o século 21 (Companhia das Letras), um guia para enfrentar as turbulências do presente.

Harari, de 42 anos, é vegano, medita duas horas por dia e não tem smartphone. Mora perto de Jerusalém em um moshav, tipo de comunidade-cooperativa rural formada por pequenas chácaras individuais que foi incentivada durante o século XX para abrigar imigrantes judeus. Como é morar em um lugar assim? Sorri. “Não tem nada de especial, na verdade agora é um bairro residencial tão normal quanto qualquer outro”, esclarece. Mas Harari não abre as portas de sua casa para a entrevista, organizada pela editora espanhola Debate para o lançamento mundial do novo livro. O encontro acontece em uma cobertura bem iluminada no centro de Tel Aviv que ele utiliza como base de operações na cidade. Nos primeiros minutos é acompanhado por seu marido, Itzik Yahav, seu braço direito em assuntos econômicos e de promoção, que sai assim que começam as perguntas. Casaram-se no Canadá, pois Israel só reconhece os casamentos civis, entre pessoas do mesmo sexo ou não, se foram realizados no exterior.

O historiador se criou em Haifa (norte do país) no seio de uma família laica com origens no Leste Europeu. Em 2002 obteve o doutorado na Universidade de Oxford (Reino Unido) e depois começou a dar aulas em Jerusalém. A inspiração para escrever Sapiens surgiu de um curso introdutório sobre história mundial que ofereceu porque seus colegas mais veteranos não aceitaram a incumbência. Nos meses de pesquisa que dedicou para escrevê-lo aprendeu muitas coisas, mas uma das que o marcou foi o uso impiedoso, em sua opinião, que o humano faz dos animais para seu próprio benefício. Desde então baseia sua dieta em alimentos de origem vegetal.

Depois do sucesso de Sapiens, publicou Homo Deus (Companhia das Letras), uma viagem a um futuro dominado pela tecnologia, que também foi muito bem recebido nas livrarias. Resta saber o que acontece com seu novo livro, que como o próprio Harari explicou foi inspirado em artigos dele publicados em vários jornais e debates que surgiram durante as conferências que pronunciou e as entrevistas que concedeu. Nele aparecem temas de seus livros anteriores, mas se o primeiro ensaio se concentrava no passado e o segundo no futuro, o terceiro se ocupa do presente.

Exemplares de seus livros traduzidos para vários idiomas se amontoam na mesinha de centro da sala do escritório de Harari em Tel Aviv. O historiador comenta, em um inglês fluido com sotaque hebraico, que lhe parece especialmente curiosa uma versão ao japonês que ficou tão longa que precisou ser publicada em dois volumes. Seu cachorro, chamado Pengo, grande e peludo, cochila no chão de madeira do apartamento, enquanto Harari, amável a todo momento e muito paciente ao posar para as fotografias, serve água fresca aos convidados para aliviar os efeitos do calor úmido que invade a rua em pleno mês de julho.

Sete anos depois de sua publicação, Sapiens continua aparecendo nas listas dos mais vendidos. Ridley Scott anunciou planos de adaptá-lo ao cinema. Por que o livro conseguiu interessar tanta gente?

Nossas vidas são afetadas por coisas que acontecem do outro lado do mundo, seja a economia chinesa, a política americana ou a mudança climática. Mas a maioria dos sistemas educacionais continuam ensinando história como algo local. As pessoas querem ter uma perspectiva mais ampla da história da humanidade. Além disso, é um livro bem acessível, com um estilo simples, que não foi escrito para leitores especializados. E, claro, é preciso levar em conta o trabalho do meu marido e de todas as pessoas que trabalham conosco, porque uma coisa é saber escrever um livro e outra é promovê-lo.

Que impacto o sucesso teve em sua vida?

A popularidade é muito agradável. Quem não quer ter sucesso, que as pessoas leiam seus livros, ter influência? Mas há um lado negativo. Tenho menos tempo para ler, pesquisar e escrever, porque viajo muito, dou entrevistas e coisas assim…. Também existe o risco de subir à cabeça, de seu ego crescer e você se tornar uma pessoa desagradável. Você começa a se achar muito inteligente, e que todos deveriam saber o que você diz. Quando as pessoas começam a ouvir demais uma pessoa, não é bom para ninguém. Seja em política, na religião ou na ciência. O fenômeno do guru pode ser perigoso. Espero que muita gente leia meus livros, mas não por ser um guru que tem todas as respostas, porque não tenho. Tratam-se das perguntas.

Que perguntas são importantes para você?

O maior problema político, legal e filosófico de nossa época é como regular a propriedade dos dados. No passado, delimitar a propriedade da terra foi fácil: colocava-se uma cerca e escrevia-se no papel o nome do dono. Quando surgiu a indústria moderna, foi preciso regular a propriedade das máquinas. E conseguiu-se. Mas os dados? Estão em toda parte e em nenhuma. Posso ter uma cópia de meu prontuário médico, mas isso não significa que seja o proprietário desses dados, porque pode haver milhões de cópias deles. Precisamos de um sistema diferente. Qual? Não sei. Outra pergunta-chave é como conseguir maior cooperação internacional.

Sem essa maior cooperação global, você argumenta em seu último livro, é complicado enfrentar os desafios do século.

Nossos três principais problemas são globais. Um único país não pode consertá-los. Falo da ameaça de uma guerra nuclear, da mudança climática e da disrupção tecnológica, em especial o desenvolvimento da inteligência artificial e da bioengenharia. Por exemplo, o que o Governo espanhol pode fazer contra a mudança climática? Mesmo que a Espanha se tornasse um país mais sustentável e reduzisse suas emissões a zero, sem a cooperação de China ou Estados Unidos isso não serviria para muita coisa. Em relação à tecnologia, apesar de a União Europeia proibir fazer experiências com os genes de uma pessoa para criar super-humanos, se a Coreia ou a China fizerem isso, o que se faz? É provável que a Europa acabasse criando seres superinteligentes para não ficar para trás. É difícil ir na direção contrária.

Em Sapiens, você argumenta que a cooperação em grande escala é uma das grandes especialidades humanas.

Os chimpanzés, por exemplo, só cooperam com outros de sua espécie que conhecem pessoalmente. Talvez 150, quando muito. Nós, humanos, somos capazes de cooperar com milhões de humanos sem conhecê-los. E é graças a essa capacidade de criar e acreditar em histórias. Histórias econômicas, nacionalistas, políticas, religiosas… O dinheiro, por exemplo. Trabalhamos em troca de euros, confiamos nisso, mas um macaco nunca te dará uma banana em troca de um pequeno pedaço de papel.

Como entender o mundo atual?

Está mudando de uma forma tão rápida que é cada dia mais difícil entender o que está acontecendo. Nunca tínhamos vivido de forma tão acelerada. Ao longo da história nós, humanos, não sabíamos com exatidão o que ia acontecer em 20 ou 30 anos, mas conseguíamos adivinhar o básico. Se você morasse em Castela [na atual Espanha] na Idade Média, em duas décadas aconteciam muitas coisas (talvez a união com Aragão, a invasão árabe…), mas o dia a dia das pessoas continuava sendo mais ou menos o mesmo. Agora não temos nem ideia de como será o mercado de trabalho e as relações familiares em 30 anos, que não é um futuro tão distante. Isso cria uma confusão enorme.

Qual é a reação diante disso?

O futuro é tão incerto que as pessoas buscam certezas, se concentram nas histórias que conhecem e que lhes oferecem a promessa de uma verdade invariável. O cristianismo, o nacionalismo… E não faz sentido. Quantos anos tem o cristianismo? Dois milênios não são nada comparados com a história total da humanidade. Além disso, as religiões tradicionais não têm soluções para os problemas de hoje: a Bíblia não diz nada sobre inteligência artificial, engenharia genética ou mudança climática.

Há uma volta ao nacionalismo. Até que ponto é perigosa?

Em princípio, acredito que não há nada de ruim com o nacionalismo quando é moderado. Permite que milhões de desconhecidos compartilhem um sentimento, possam cooperar, às vezes para a guerra, mas sobretudo para criar uma sociedade. Eu pago impostos e o Estado dedica o dinheiro a proporcionar serviços para todos, apesar de não nos conhecermos. E isso é muito bom. Mas convém saber que o nacionalismo se torna fascismo quando dizem a você que sua nação não só é única como é superior, mais importante do que qualquer outra coisa no mundo. E você não tem obrigações especiais com seu país, apenas com sua nação e com ninguém mais, nem com sua família, nem com a ciência, nem com a arte… nem com o resto da sociedade. Assim, a maneira de julgar um filme bom reside, unicamente, em se serve aos interesses da nação. É a maneira fascista de ver as coisas.

Por que o fascismo continua sendo atraente?

Não sei como se ensina na Espanha, mas em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. A arte tradicional cristã já representava Satanás como um homem atraente. Por isso é tão difícil resistir às tentações do mal e, sem dúvida, do fascismo. Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente. O que acontece quando as pessoas começam a adotar pontos de vista fascistas? Que como lhes disseram que o fascismo é um monstro, custa a eles reconhecer nos demais e neles mesmos. Quando se olham no espelho, não veem esse monstro terrível, mas algo bonito. Não sou um fascista, dizem a si mesmos.

O Parlamento israelense aprovou uma lei que fala da “nação judaica” que foi muito criticada sobretudo pelos cidadãos árabes que vivem ali. No livro, o sr. afirma que seu país exagerou a influência real do judaísmo na história.

Muita gente tem uma imagem exagerada de si mesma como indivíduos e como coletivo. Coloco o exemplo de Israel porque é um país que conheço. Muitos israelenses acreditam que o judaísmo é a coisa mais importante que aconteceu na história. Ficam muito incomodados com as críticas sobre o que Israel está fazendo nos territórios ocupados. Têm uma imagem distorcida do lugar que ocupam no mundo e do que os israelenses estão fazendo agora em um contexto global. Aqui é muito difícil falar disso sem que taxem você de traidor. Sobre a lei da “nação judaica”, tenho orgulho de ser israelense, mas em meu país alguns direitos estão sendo restringidos.

O que mais o preocupa na tecnologia?

Os partidos fascistas nos anos trinta e a KGB soviética controlavam as pessoas. Mas não conseguiam seguir todos os indivíduos pessoalmente nem manipulá-los individualmente porque não tinham a tecnologia. Nós começamos a tê-la. Graças ao big data, à inteligência artificial e ao aprendizado por máquinas, pela primeira vez na história começa a ser possível conhecer uma pessoa melhor do que ela mesma, hackear seres humanos, decidir por eles. Além disso, começamos a ter o conhecimento biológico necessário para entender o que está acontecendo em seu interior, em seu cérebro. Temos uma compreensão cada vez maior da biologia. O grande assunto são os dados biométricos. Não se trata apenas dos dados que você deixa quando clica na web, que dizem aonde você vai, mas dos dados que dizem o que acontece no interior de seu corpo. Como as pessoas que usam aplicativos que reúnem informações constantes sobre a pressão arterial e as pulsações. Agora um governo pode acompanhar esses dados e, com capacidade de processamento suficiente, é possível chegar ao ponto de me entender melhor do que eu mesmo. Com essa informação, pode facilmente começar a me manipular e controlar da forma mais efetiva que jamais vi.

Isso soa um pouco como ficção científica, não?

Já estamos vendo como a propaganda é desenhada de forma individual, porque há informação suficiente sobre cada um de nós. Se você quer criar muita tensão dentro de um país em relação à imigração, coloque uns tantos hackers e trolls para difundir notícias falsas personalizadas. Para a pessoa partidária de endurecer as políticas de imigração você manda uma notícia sobre refugiados que estupram mulheres. E ela aceita porque tem tendência a acreditar nessas coisas. Para a vizinha dela, que acha que os grupos anti-imigrantes são fascistas, envia-se uma história sobre brancos espancando refugiados, e ela se inclinará a acreditar. Assim, quando se encontrarem na porta de casa, estarão tão irritados que não vão conseguir estabelecer uma conversa tranquila. Isso aconteceu nas eleições dos Estados Unidos de 2016 e na campanha do Brexit.

Dá vontade de ir morar em Marte…, de isolar-se. Como se concentrar no que é importante?

A atenção é um recurso muito disputado e está associado aos dados. Todo mundo quer atrair sua atenção. O modelo da indústria da informação foi completamente distorcido. Agora o padrão básico é que você recebe a maioria das notícias supostamente grátis (sejam reais ou falsas), mas na verdade faz isso em troca de sua atenção, que é vendida a outros. O novo símbolo de status é a proteção contra ladrões que querem captar e reter nossa atenção. Não ter um smartphone é um símbolo de status. Muitos poderosos não têm.

Mas parece que Donald Trump tem um smartphone, pelo menos passa o dia tuitando. O sr. também tem conta no Twitter desde janeiro de 2017.

Há pessoas administrando minha conta. Me parece que as redes sociais escravizam muito. Se quiser estar de verdade nelas, não se pode tuitar alguma coisa uma vez por mês. Precisa fazer o tempo todo. Eu não tenho tanto a dizer no Twitter!

Como você se organiza para manter sua atenção a salvo de sequestradores?

Tento limitar os tempos. Começo o dia com uma hora de meditação. Depois de tomar café olho os e-mails e tento responder todos. Tento zerar a caixa de entrada, porque, se deixo para depois, fica lotada. Então tento não olhar os e-mails o tempo todo. Como não tenho smartphone, não recebo notificações, nem tenho a tentação de entrar na Internet para ler alguma coisa. Simplesmente, pego um livro e leio. Uma ou duas horas. Só faço isso. Se tenho de escrever, escrevo. A prática de meditação me ajuda a manter a concentração.

Dizem que o sr. soube da vitória de Donald Trump várias semanas depois porque estava em um retiro meditando. Realmente. Soube algumas semanas depois.

Você acredita que a promoção do novo livro lhe deixará tempo para ir a um retiro este ano? Sem dúvida! Nunca falto. Vou para a Índia por 60 dias em dezembro.

 

Liderança e cultura organizacional

Os líderes do século 21 precisam entender o impacto de suas atitudes na construção de uma cultura conectada ao espírito do nosso tempo.

por Kaio Serrate, via administradores.com.br

A liderança no século 21 está cada vez menos fundamentada em poderes formais derivados da posição que o líder ocupa na cadeia de comando e controle.

A liderança exercida a partir da capacidade de articular uma visão de futuro por meio de relacionamentos significativos tende a ser cada vez mais valiosa. Em um contexto como esse, a execução está acima dos cargos; ser reconhecido como referência pelo time vale mais que autoridade; e, liderança circunstancial se sobrepõe à hierarquia.

A cultura organizacional, entendida como a ordem social invisível que molda comportamentos e atitudes de um grupo, é uma variável de importância crescente para as organizações que operam em uma lógica pós-digital.

Os líderes, mais do que nunca, precisam construir culturas que façam sentido no mundo de hoje, além de atuar como embaixadores dessas culturas em múltiplos níveis.

De acordo com um artigo publicado no início de 2018 pela Harvard Business Review, líderes que entendem profundamente os padrões complexos de comportamento em uma organização têm mais possibilidade de:

Avaliar a cultura da organização e seus efeitos intencionais e não intencionais.

Avaliar a consistência da visão dos funcionários sobre a cultura.

Identificar subculturas que expliquem desempenhos melhores e piores entre diferentes equipes.

Localizar diferenças culturais herdadas de fusões e aquisições.

Orientar os novos executivos sobre a cultura em que eles estão ingressando e ajudá-los a encontrar a melhor forma de liderar.

Perceber o grau de alinhamento entre estilos pessoais de liderança e a cultura organizacional para entender o impacto que cada líder pode ter.

Criar uma cultura aspiracional, traduzir e comunicar as mudanças necessárias para chegar lá.

Obviamente estas não são as únicas vantagens de um líder que chama para si o papel de articulador da cultura organizacional. O melhor é sempre considerar peculiaridades de cada organização e estar aberto às constantes transformações. Contudo, entender que a cultura é uma alavanca para os objetivos estratégicos ajuda a explicar o desempenho das empresas normalmente citadas como referências em inovação.

Dentre outros motivos, uma cultura alinhada ao espírito do nosso tempo libera energia criativa (que seria gasta com processos gerenciais inúteis e controles excessivos) para a construção da visão de futuro compartilhada.

Se você é ou deseja ser líder deveria entender que a cultura é o código-fonte das estratégias empresariais.

Ou, como disse Peter Drucker:

Cultura come estratégia no café da manhã.

VÍDEO: Por que é tão difícil mudar?

Muito interessante o vídeo do doutor em Ciências em Psiquiatria e Psicologia Médica, Pedro Calabrez, sobre o poder do cérebro. É um pouco longo, mas vale a pena assistir até o final. Confira

“Quando você tem a plena consciência que cada segundo da vida é precioso, não volta e é um investimento, você começa a valorizar aquilo que há de melhor na vida e para cada um de vocês é diferente…”

Carlos Brandão sanciona Lei de Cafeteira que determina Censo para população autista no MA

A Lei é fruto de uma Audiência Pública, realizada em dezembro de 2018, e visa estabelecer normas para uma efetiva promoção de inclusão escolar para crianças com transtornos funcionais específicos.

Na última semana, o vice-governador Carlos Brandão (PSDB), que exercia interinamente a função de governador do estado, sancionou uma proposição aprovada na Assembleia Legislativa do Maranhão, de autoria do deputado Rogério Cafeteira (DEM), que dispõe sobre a implantação do Programa Censo de Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e seus familiares.

O objetivo da Lei sancionada é o de identificar, mapear e cadastrar o perfil socioeconômico das pessoas com TEA e de seus familiares, para garantir uma maior eficácia na elaboração de Políticas Públicas de Saúde, Educação, Trabalho e Lazer no Maranhão.

“Recebi com muita alegria a notícia da sanção desta Lei, cujo objeto, o Censo, será um norte e um avanço muito importante na elaboração de Políticas Públicas para a população de autistas em nosso Estado. Agradeço ao vice-governador Carlos Brandão, que assinou a sanção, e ao governador Flávio Dino, pela sensibilidade, carinho e cuidado com que tratam as pessoas com deficiência no Maranhão”, destacou o parlamentar.

Como funcionará

De acordo com a Lei, a cada quatro anos, deverá ser realizado um Censo para identificação e mapeamento dos autistas e o Estado poderá dispor de mecanismos que permitam atualização dos dados, mediante um auto cadastramento.

Entre as informações que deverão constar no questionário, estão: tipos e graus de autismo, localização, grau de escolaridade, renda e profissão das pessoas com TEA e familiares, entre outros dados.

(Assecom / Dep. Rogério Cafeteira)

ROBERTO ROCHA: De pai para filhos

Deixo para os leitores o emocionante artigo da lavra do senador Roberto Rocha em que faz, não apenas referência sobre a importância da relação amiga e fraterna entre irmãos, mas um justo reconhecimento ao seu filho primogênito, Roberto Rocha Júnior, pela dedicação com que passou as últimas semanas cuidando do irmão mais novo Paulo Roberto, que tem lutado pela vida como um leão.

Trata-se de uma declaração de amor de um pai para seus filhos e família. Confira.

Irmão Amigo

Uma pesquisa publicada em 2007 no Journal of Child Psychology and Psychiatry mostra que bons relacionamentos entre irmãos incluem o efeito protetor do mais velho pelo mais novo. O irmão mais velho tem uma função muito importante na família ao dar apoio a seus irmãos menores. Ou seja: sentir a necessidade de proteger seu irmãozinho ou irmãzinha é algo positivo nessa relação.

O irmão mais velho carrega uma carga maior de responsabilidade pelos pais, de acordo com uma pesquisa publicada em 2008. As expectativas sobre ele são mais elevadas, e os pais tendem a ser mais rigorosos nas cobranças. Isso reflete que o filho mais velho é visto como mais responsável e que tem uma probabilidade maior de se conformar com as adversidades.

O primogênito normalmente assume um papel natural de liderança em relação a seus irmãos menores – afinal, é ele quem normalmente manda quando os pais estão ausentes. Crescer com esse papel influencia na própria vida, de acordo com a escola Harvard Business: filhos mais velhos têm mais facilidade de assumir papéis de liderança.

Desta forma, quero dizer da minha alegria e satisfação em ver meu filho mais velho, Roberto Rocha Junior, cuidar com tanta dedicação, amor e carinho do seu irmão Paulo Roberto. Parabéns e obrigado, meu filho. Todos nós estamos muito orgulhosos de você, principalmente suas duas irmãs.