Conheça as técnicas do melhor orador do mundo de 2017

O vencedor, o indiano Manoj Vasudevan, é empresário e consultor de gestão

Via Administradores.com

A convenção Toastmaster International elege anualmente o melhor orador do mundo. A disputa de 2017 durou seis meses e mais de 30 mil pessoas competiram pelo título. O evento final foi no final de agosto, em Vancouver, no Canadá, e contou com apenas nove concorrentes.

O vencedor, o indiano Manoj Vasudevan, é empresário e consultor de gestão. Ele venceu com a apresentação Pull Less, Bend More (em português, “puxe menos, empurre mais”). Em 2015, com o discurso We Can Fix It, Vasudevan ficou em terceiro lugar.

Neste blogpost, você confere nossa análise do roteiro e da performance de Vasudevan. Hora de aprender com o melhor Toastmaster do ano. A íntegra da palestra está aqui.

Mensagem impactante e sem enrolação

O roteiro da apresentação foi estruturado seguindo a lógica problema-solução. Nele, para falar da necessidade de evitarmos posições extremas nas relações – ideia que foi muito bem sintetizada no slogan Pull Less, Band More –, Vasudevan conta a história de como conheceu e, sobretudo, manteve a relação com a esposa.

O problema: ele buscando a si mesmo em relacionamentos amorosos – o que, implicitamente, sugere que o orador mantinha uma auto-imagem da perfeição. Ele buscava “a parceira perfeita”, alguém como ele.

Já a solução: buscar maior participação no universo do parceiro e adotar mutuamente uma postura mais flexível ante eventuais desentendimentos.

O fio condutor da história – elemento narrativo que auxilia na organização e clareza do texto – é a própria mãe do autor, que em momentos decisivos intervém para ajudá-lo.
A moral da história se vale de uma referência a algo estranho à cultura do empresário indiano. Para explicar que, após a paixão, é preciso flexibilidade para manter o amor, ele recorre ao mito grego do Cúpido.

Nas palavras dele, o que faz as pessoas se apaixonarem é a flecha, mas o que sustenta o amor é o arco, porque quanto mais você puxa a corda, mais o arco se estica e maior o risco de que se quebre. Portanto, Pull Less, Band More.

Confira agora em detalhes como a apresentação foi estruturada em começo, meio e fim ou, como chamamos, atos I, II e III

O ato I da apresentação traz o problema do personagem: manter um relacionamento. Após algumas frustrações e com a ajuda da mãe, ele finalmente encontra alguém que julga perfeita. Apaixonados, se casam, mas logo cedo descobrem uma séria de diferenças entre si que, ao que tudo indica, levará ao fracasso do relacionamento.
Note que ao final desse ato, gerou-se na audiência uma curiosidade imensa para saber se ocorrerá a separação do casal. Em uma apresentação, se ao final do ato I o orador conseguir esse resultado, missão cumprida.

Vale observar também que praticamente todo o discurso é marcado pelo humor, às vezes a partir de ironias, às vezes, autodeboche. Por exemplo, quando ele diz: “Eu tinha 24 anos, um bom emprego, um bom carro, um bom cabelo. Mesmo assim, minhas namoradas não ficavam comigo por muito tempo”. Vasudevan hoje é careca.

O humor sobre si mesmo é uma boa estratégia para quebrar o gelo – mesmo em apresentações corporativas. Mas, claro, alguns momentos exigem maior seriedade.
O ato II começa com o orador consultando um amigo, que havia acabado de se separar, sobre o que ele devia fazer para lidar com o problema amoroso. O amigo rapidamente o encoraja a buscar o divórcio, oferece inclusive o contato de um advogado.

No entanto, mais interessado em consertar o relacionamento, ele desiste do advogado e procura a mãe, que explica a ele a esposa, a partir da analogia do arco e flecha do Cupido, o que eles devem fazer para manter o casamento. E, então, ele conta como as coisas foram mudando, salvando assim o casal da separação.

Aqui cabe apontar que amigo e mãe representam visões de mundo diferentes: ele, inexperiente, imediatista e impulsivo, enquanto ela, mais experiente, parcimoniosa e sábia.

Na última etapa do roteiro, o Vasudevan conta como estão hoje os personagens da história e mostra que a lição aprendida com a mãe pode, na verdade, ser aplicada a todas as relações, inclusive entre países. Para concluir o ato III, ele faz uma pergunta retórica para a audiência: “você tem puxado demais a corda do arco?” Ótima técnica para estimular a reflexão da audiência.

Agora representando visualmente a estrutura do roteiro:

Sem uma boa performance, Vasudevan não teria conquistado o título de melhor palestrante do mundo. Ter uma boa história para contar é apenas um dos elementos para conquistar a audiência. Continuar lendo

Encontre seu silêncio

Cada um precisa descobrir onde mora a sua quietude. E, acredite, muitas vezes isso não tem necessariamente a ver com a ausência de som, mas com o que reside dentro da gente

Bruna Próspero, via Vida Simples

Era uma semana turbulEnta e de muito barulho quando me inscrevi para participar de um “retiro de silêncio”. A algazarra vinha das buzinas que teimavam em gritar durante meu trajeto até o trabalho, dos carros com som alto e de alguns vendedores ambulantes. Tudo isso me atormentava, mas o ruído principal era o interno sobre o que eu deveria fazer para passar o tempo no feriado que se aproximava. Pois é, dependendo do alvoroço em que nos colocamos, até um feriado pode ser motivo para desespero, indecisão e gritaria mental. Praia? Serra? Aproveitar para finalizar o trabalho pendente? Ficar em casa? Acompanhada? Sozinha? Conhecer um lugar novo? Ou voltar para um lugar que já havia gostado? Até que me deparei com um texto do Rabino Nilton Bonder e uma frase me chamou atenção: “Os domingos precisam de um feriado”. No caso, minha mente era que necessitava de uma pausa. Suspeito que o burburinho mental seja o mais difícil de calar e, cá entre nós, muitas vezes nem nos damos conta de quanta energia desperdiçamos ao tagarelar mentalmente. A psicóloga e criadora do Portal Despertar, Flavia Melissa,
sugere que façamos um exercício para entender toda essa energia que subutilizamos quando insistimos em dar atenção à orquestra de perguntas e pensamentos dentro da nossa cabeça: “Pegue um gravador e durante dois minutos grave tudo que esteja passando pelos seus pensamentos naquele momento”. Talvez você, assim como eu, perceba que o maior incômodo não vem das buzinas alheias, mas da barulheira interna. Flavia explica que para o taoísmo, filosofia milenar chinesa, tudo que passa pela mente faz parte do chi, como chamam a energia vital. Ou seja, quando deixamos que os pensamentos nos dominem de forma desenfreada, estamos gastando essa carga desnecessariamente. Além do desperdício de vivacidade, o texto do rabino Nilton Bonder me alertou para a minha tentativa de preencher meu ócio com algo e como, atualmente, vivemos em busca de entretenimento para os nossos “domingos livres” – o que, paradoxalmente, nos sobrecarrega com mais barulhos. Percebi que estava na hora de parar de tentar só conhecer lugares novos – bairros, cidades, países – e olhar para dentro. O convite para ficar em silêncio absoluto me fisgou.

Auto-observação
Ficar em silêncio absoluto pode assustar. Confesso que me senti assim. Não me enxergava rodeada de gente sem poder trocar uma palavra ou olhar. Mas, no retiro, aprendi que o silêncio (aquele que eu tanto procurava) morava dentro de mim. O tema é tão relevante que o escritor alemão Eckhart Tolle escreveu um livro só para falar sobre isso, O Poder do Silêncio (Sextante). O título já nos faz pensar que a quietude pode realmente nos revelar muitas coisas poderosas. Em uma das passagens, o autor menciona o tédio e a ansiedade que podem surgir durante momentos de remanso. Esses, inclusive, são um dos maiores medos de quem se propõe a experimentar o silêncio por um longo período. Para Tolle, a alternativa é aceitar as sensações e os desejos que surgem e observar como você está se sentindo em relação a isso. Ainda segundo ele, a primeira reação que temos quando sentimos tédio é procurar algo para nos preencher, seja ler, fazer um telefonema, navegar pela internet, seja ir ao shopping. No entanto, quando escolhemos observar esses incômodos, percebemos que “não somos pessoas entediadas, e sim que o tédio é simplesmente um movimento de energia condicionada dentro de nós”. A questão é que hoje estamos permitindo que o barulho do mundo exterior emudeça o som do mundo interior. Além disso, quanto menos silenciamos, maior é a tendência de agirmos no piloto automático. Para a psicóloga Flavia Melissa, o silêncio muitas vezes tem mais a ver com o ato de não reagirmos com imediatismo do que simplesmente nos calarmos. “Durante a aquietação interna, conseguimos olhar para uma determinada situação como um observador atento da gente mesmo e, assim, percebemos como estamos verdadeiramente nos sentindo e temos a capacidade e a lucidez de escolher como agir.” Percebi que, através da minha experiência no retiro, pude experimentar exatamente essas sensações. Em muitos momentos em que pensava estar com fome ou com vontade de ler alguma coisa, na verdade isso tudo eram formas de preencher o tédio. Mas, em vez de responder de forma imediata, ao me aquietar e me ouvir de verdade, sem imediatismo, tive a oportunidade de perceber o que era real ou não.

Na prática
É comum encontrarmos o tal do silêncio quando entramos em um estúdio de ioga, visitamos um templo budista, indiano, uma igreja ou, claro, durante um retiro. Porém, como encontrar o silêncio em meio ao caos de uma cidade grande? O mestre espiritual Sri Prem Baba sugere que façamos apenas um minuto de silêncio, durante cinco momentos em nosso dia. Podemos considerar ao acordar, antes de iniciar uma refeição, antes de responder um e-mail, após um exercício físico e antes de deitar, por exemplo. Cinco minutos, dentro dos 1.440 minutos que temos em um dia inteiro, podem parecer nada, mas quem adotou a prática sente a diferença – e tem gente que já estendeu o “um minuto” para “muitas horas de silêncio”. É o caso da fisioterapeuta Milena Guimarães, que, após uma viagem à Índia, percebeu como encontrar momentos de interiorização mesmo em meio ao caos de um grande hospital. “Percebi que no Ocidente esperdiçamos muita energia ao nos expressarmos a todo momento”, reconhece. Para ela, o mais evidente, por exemplo, está no silêncio que não fazemos durante as refeições. Desde então, o seu tempo de almoço não é mais para conversar com os colegas de trabalho e desabafar, mas sim para apreciar o alimento. Além disso, antes de entrar no hospital, ela também tira 15 minutos para meditar e instituiu que um domingo por mês é o dia do silêncio dela. Mas não é só aos domingos que conseguimos silenciar o batuque mental (ufa!). Momentos de interiorização estão cada vez mais comuns em ambientes corporativos. Muitas empresas estão implementando medidas que ajudam as pessoas a manter o foco no presente, incentivam momentos de silêncio e práticas para olhar para dentro. Natasha Bontempi é uma das responsáveis por essa mudança na multinacional IBM, onde trabalha. Movida por sua busca pessoal, fez, de forma voluntária, um programa de mindfulness dentro da companhia. Em uma das sessões, os participantes são convidados, por exemplo, a permanecer em silêncio durante seis horas e, segundo Natasha, “muitos deles se surpreendem ao perceber como essa simples mudança traz um alívio na rotina e que nem é tão difícil assim”.

Silêncio não é tudo igual
É importante entendermos que, assim como o meu processo durante o retiro foi diferente daquele experimentado pelos participantes que estavam ali, os nossos silêncios também não são iguais. Cada um vai perceber o silêncio da sua maneira; afinal, se os barulhos que nos atormentam são variados, por que nossa quietude seria a mesma? Na busca pelo meu próprio silêncio, me lembrei das vezes em que mergulhei com cilindro de ar. A experiência de estar dentro do mar durante horas talvez tenha sido o momento mais silencioso que já presenciei. Ali, o foco na respiração fica mais evidente. Você, os peixes, os corais e a corrente marítima, é isso que te leva para um lado e para o outro. O mar também serve como refúgio para Felipe Roselli, professor de ioga e terapeuta que utiliza o surfe como caminho para o autoconhecimento.

“Existem técnicas que nos ajudam a acessar esse silêncio na ioga, mas também existe o caminho da espontaneidade. Sinto que, quando começamos a aceitar ser o que somos e a fazer coisas que realmente amamos, também acessamos esse estado que o silêncio nos permite.”

Para ele, surfar passou a ser o instante em que consegue estar presente e aberto para fluir com o que cada onda pode lhe apresentar, sem tentativas de previsões. “Cada uma, nevitavelmente, vai quebrar de um jeito único”, diz. Mas alerta que a mágica só acontece quando está presente e sem expectativas: “Já surfei muito querendo mostrar algo para alguém, me provar alguma coisa, tentar prever o que iria acontecer, mas aí o silêncio não aparece”. Mas não é só perto do mar ou mesmo da natureza que o silêncio existe. O escritor Eckhart Tolle aborda isso muito bem. “Qualquer barulho perturbador pode ser tão útil quanto o silêncio.

De que forma? Abolindo a sua resistência interior ao barulho, deixando-o ser como é”, escreve. Se ficarmos presos à ilusão de que o silêncio só pode ser atingido em uma imagem clichê de um monge sentado no Himalaia, pensaremos que essa realidade está muito distante. A verdade é que o silêncio também pode ser sentido ao ouvir a gargalhada causada pelas cócegas que faz nos seus filhos ou depois de uma escalada em uma montanha. Podemos encontrá-lo também no som do suspiro ao terminarmos uma carta para uma pessoa querida. É como coloca Dan Pedersen, autor do livro What Does Silence Sound Like? (Como É Que Soa o Silêncio?, em tradução livre): “Não é fácil colocar essa ideia em palavras, temos que descobrir essas coisas para nós mesmos. Temos de dar espaço para o nosso próprio silêncio”. Retiros e dinâmicas em grupo em que a prática é exaltada nos ajudam a tomar consciência desse espaço, mas mais importante ainda é encontrarmos o silêncio que existe dentro de nós mesmos, seja qual for a rotina que tivermos. Desconfio que, quando encontramos o que nos faz sentir essa sensação de quietude e colocamos isso em nosso dia a dia, até o barulho das buzinas e da feira perto de casa passa a nos incomodar menos, bem menos.

BRUNA PRÓSPERO encontrou seu silêncio no mergulho, na ioga e também enquanto escreve.

Dica de saúde: Sobre tablets, smartphones e miopia

Especialista em saúde ocular dá dicas sobre a visão das crianças.

O especialista em saúde dos olhos, Dr Stephan Noleto diz que o uso de aparelhos eletrônicos tem impacto baixo sobre a visão das crianças em exposição à luminosidade de smartphones e tablets.

“Não é necessário proibir o uso de tablets e Smartphone; basta que os pais incentivem as crianças fazerem atividades de lazer em locais que sejam abertos, ao ar livre”.

Confira abaixo a opinião do oftalmologista, presidente da Associação Maranhense de Oftalmologia – AMO, Dr Stephan Noleto.

Suicídio é um ato de coragem e não de covardia

Ao contrário do que muitos podem afirmar, atentar contra a própria vida não é um ato de covardia, pelo contrário: é preciso ter muita coragem para desistir da própria existência.

Quem acompanha o Blog do Robert Lobato sabe do interesse desta página pelo tema suicídio.

Abordar o suicídio é ainda um tabu na sociedade.

Basta falar sobre o assunto para alguém ser mal compreendida ou mal interpretado. “Tá, maluco? Tá pensando besteira, rapá?”. É quase sempre assim como as pessoas reagem quando alguém aborda a questão.

Mas, tratar sobre o suicídio tornou-se quase uma obrigação da nossa sociedade uma vez que é crescente o número de casos no Brasil e no mundo.

Da cartilha “Suicídio: informando para prevenir”.

Agora mesmo o país viu o caso do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que se matou depois de denunciar “a humilhação e o vexame” que supostamente vinha sendo submetido pela operação Ouvidos Mouco, da Polícia Federal, uma investigação auxiliar da Lava Jato.

Semanas atrás foi o maranhense Victor Fontenelle, um dos fundadores e ex-presidente do MEI – Movimento Estudantil Independente -, que resolveu recorrer ao suicídio, chocando amigos e companheiros de movimento sociais e políticos.

Ao contrário do que muitos podem afirmar, atentar contra a própria vida não é um ato de covardia, pelo contrário: é preciso ter muita coragem para desistir de viver!

Há um conjunto de fatores que podem contribuir para que uma pessoa, ao não suportar a dor e o sofrimento pessoal que enfrenta, acabe por optar em tirar sua vida. Não é, portanto, um fator isolado somente, mas uma cadeia de eventos a partir um problema maior.

Da cartilha “Suicídio: informando para prevenir”

Prevenção

Segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 17% das pessoas no Brasil já pensaram, em algum momento, em tirar a própria vida. Estima-se ainda que pessoas que já tentaram suicídio têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente o suicídio. Outro dado curioso é que 50% dos que se suicidaram já haviam tentado previamente.

É nesse contexto de preocupação com o suicídio, que a ABP, em parceira com o Conselho Federal de Medicina (CFM), firmaram e criaram uma cartilha para orientar os médicos e profissionais da área de saúde em casos de tentativa de suicídio ou para identificarem possíveis casos em seus pacientes.

Trata-se a cartilha “Suicídio: informando para prevenir”.

A cartilha é um excelente instrumento não somente para profissionais da saúde, mas também para familiares e amigos que eventualmente enfrentam um ambiente com a presença de um potencial suicida.

Há outras ótimas alternativas para enfrentar quadros comportamentais que podem levar a pessoa a pensar em suicidar-se, tais como o encontro com a fé, a espiritualidade, a natureza, os animais…

Enfim, que aqueles que, por ventura, pensam em desistir da vida, desistam dessa ideia.

A insatisfação 2

Desconfortável e às vezes angustiante, esse sentimento também pode nos ajudar a trazer soluções novas e a buscar conquistas que tragam mais sentido para nós

Eugenio Mussak, via Vida Simples

“OBRIGADO, estou satisfeito!” Essa frase, acompanhada de um meio sorriso e de mãos espalmadas em direção à outra pessoa, costuma ser usada quando, já saciados, recusamos mais comida que alguém está nos oferecendo. Estar satisfeito tem, então, o significado de não querer mais, de rechaçar uma oferta, de abrir mão da oportunidade de aumentar a posse de um bem. No caso, de mais comida, mesmo sabendo que essa satisfação será temporária. Analisemos melhor essa questão: ao recusar o segundo prato você está sinalizando que já comeu o suficiente ou que não quer comer mais? Pode parecer a mesma coisa, mas há uma diferença sutil entre as duas possibilidades. Talvez você não queira mais por já ter comido muito, uma vez que a comida estava deliciosa. Mas talvez você não queira mais porque não gostou. Dessa forma, o “estou satisfeito” pode ser sincero, ao sinalizar que seu corpo e seu prazer já foram convenientemente atendidos, ou pode ser apenas uma força de expressão, pois na verdade você está mesmo é insatisfeito com o que está recebendo e, portanto, não quer mais. Essa pequena reflexão nos leva a outra, ligada com a essência da satisfação em si mesma. O que seria isso? A satisfação é uma coisa boa a ser perseguida? A insatisfação é, necessariamente, ruim? O que significa estar satisfeito? Vejamos, pois. A palavra satisfação, de origem latina, integra dois conceitos em sua estrutura. Satis significa bastante, suficiente, ou em quantidade adequada. Facere tem o sentido de fazer, realizar, ou atingir um objetivo. A etimologia, que sempre nos socorre, coloca a satisfação em uma ótima perspectiva. Deixa claro que a satisfação não vem apenas com o que conseguimos, mas também com a maneira como conseguimos. Eu fico realmente satisfeito quando consigo o que desejo através de minha atitude em relação a meu objetivo. A verdadeira satisfação tem a ver, então, com movimento, com realização, com trabalho. Isso explica por que pouco valorizamos aquilo que conseguimos sem esforço, gratuitamente, como mero regalo da vida. Gostamos mesmo é do que conseguimos a partir de nossa intenção e de nossa ação. Estar satisfeito, por outro lado, pode colocá-lo em uma situação de imobilidade. Eu me movimento para alcançar o que desejo e, uma vez atingido o objetivo, tal movimento perde sentido, eu então paro e me acomodo. Pessoas satisfeitas correm o risco de estacionar na vida, pois já têm o que desejam, o que nos leva a outra discussão, que é nossa relação com o desejo. Uma das vertentes, com o amparo da filosofia, relaciona desejo com amor. A lógica é que amamos o que desejamos, o que coloca o amor como algo volátil, que desaparece após o obtermos. Mas vamos com calma, pois essa é apenas uma das vertentes do amor, o Erótico, o mais comum e primitivo. Os outros seriam o amor Philos, fraternal, e o Ágape, o mais elevado, o afetivo, universal e desprovido de interesses. O amor Erótico é o amor pela posse, pela conquista, e que vale não apenas para o amor por outra pessoa mas também pelas coisas, por tudo aquilo que desejamos obter e possuir. Ele, claro, encontra sua essência em Eros, cujo nascimento parece explicar tudo. Os deuses estavam reunidos nos domínios de Zeus, em festa, para comemorar o nascimento de Afrodite, que seria a deusa da Beleza. Havia música, alegria, comida e bebida, e entre os mais alegres estava Poros, o deus da Riqueza. Embriagado, saiu para os jardins de Zeus, buscando sossego e ar puro. Espiando pela janela estava Pênia, a deusa da Pobreza, magra, curvada e andrajosa. Ao ver Poros sair, teve a ideia de seduzi-lo e conseguiu que ele a fecundasse, pois queria ter um filho que, ao ser filho da riqueza, também fosse rico e poderoso. O filho gerado a partir dessa união furtiva recebeu o nome de Eros, que, ao crescer, transformou-se, ele mesmo, em um deus muito especial: o deus do Amor. O amor é, então, filho da riqueza e da pobreza. Por isso é satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo e oscila entre esses dois extremos o tempo todo, na busca incessante de sua completude, que nunca poderá ser atingida. Esse é um dos clássicos da mitologia grega, que, como sabemos, é muito rica em elementos que nos ajudam a entender a essência humana. Não por acaso, a mitologia foi uma das principais fontes de inspiração de Freud, especialmente quando ele se deparava com alguma lacuna teórica para explicar seus conceitos. O amor erótico seria, então, o amor do desejo, e este, como sabemos, se extermina quando se completa. Em outras palavras, só desejamos o que não temos, pois, quando obtemos o que desejávamos, perdemos a justificativa para o desejo. Pode parecer paradoxal, mas não é. Faz sentido e pertence à qualidade humana da insatisfação, que se, por um lado, é causa de ansiedade, por outro, é origem de progresso. Voltando à satisfação, vale lembrar o que disse o escritor Guimarães Rosa sobre o assunto: “O animal satisfeito dorme”, sintetizou. Nessa curta frase, o mineiro, aliás autor do longo Grande Sertão: Veredas, define a satisfação como um bem tão precioso, capaz de gerar serenidade, conforto e, como consequência, sono. Mas também alerta para o fato de que o animal que dorme torna-se vulnerável, uma vez que perde o estado de alerta, necessário à sobrevivência no ambiente perigoso da natureza. Devemos, então, viver insatisfeitos para nos mantermos vivos? Esse é um tema recorrente em ambientes empresariais, nas escolas de negócio, nas denúncias da imprensa sobre os desmandos políticos. A insatisfação – dizem – mobiliza, energiza as ações diversas, promove mudanças, conquistas e, consequentemente, realizações. Somos animais insatisfeitos por natureza, o que não apenas nos manteve vivos até aqui como promoveu nossa evolução e nosso progresso. A satisfação é um prazer provisório, transitório, e é também necessário. A insatisfação é desconfortável, às vezes angustiante, mas também é necessária, e é do movimento dessa gangorra que tiramos nossa essência. Era isso por hoje. Espero, sinceramente, que a satisfação gerada pelas ideias deste texto só dure até que surja a expectativa pelo próximo. Assim continuaremos juntos…

EUGENIO MUSSAK ama escrever, já se aprofundou em muita coisa, mas se diz insatisfeito com seus textos.

A chave para a felicidade é perceber que tudo é uma merda

Parece loucura, eu sei, mas é verdade

Ryan Holiday, via administradores.com.br

A chave para a felicidade, para o sucesso, para o poder – qualquer uma dessas coisas – não é querer muito. Não é colocar as coisas que você busca em um pedestal. A chave para a felicidade e o sucesso é perceber, em um nível granular, que as coisas que a maioria das pessoas desejam na verdade são uma merda.

Que ser rico não é tão bom. Que receber muita atenção é uma tarefa árdua. Que estar apaixonado também envolve muito trabalho. Que a visão mais bonita do mundo ainda tem mosquitos ou muito frio ou é quente como o inferno.

Não é que esta observação seja especialmente nova ou brilhante, mas não estou tocando neste assunto para reclamar. Quero falar sobre algo que vemos que os estóicos antigos praticavam quase como uma forma de arte: o desprezo.

Marcus Aurelius escreveu sobre sentar-se para um banquete generoso. Ele era o imperador no auge do poder de Roma, então deveria ser um jantar muito bem feito. Mas ele não notou o vinho elegante ou a alta cozinha. Ou talvez tenha notado, à primeira vista, mas se propôs a analisar tudo com mais cuidado. Quando fez isso, repetiu para si o que realmente viu:

“Este é um peixe morto. Um pássaro morto. Um porco morto… este vinho vintage e nobre é suco de uva, e as vestes roxas são lãs de ovelhas tingidas com sangue de marisco”.

Por que alguém faria isso? Por que alguém tiraria com desprezo toda a apresentação e antecipação de uma boa refeição? Ou do seu poder e majestade de seu papel como imperador? (Em Roma, só o imperador poderia usar o manto roxo). Bem, porque tudo isso é a maior besteira. E as pessoas que não vêem isso, aquelas que se orgulham dessas coisas, podem acabar obcecadas com ou viciadas nessas coisas. O ponto, Marcus escreveu depois, era usar esse exercício de objetividade brutal para ver as coisas em seu “nulo valor” e “despojá-las da ficção pela qual se vangloriam”.

Ele não limitou esse exercício apenas à alimentação ou ao poder. Ele chegou até a afirmar que o ato sexual é simplesmente “uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão”. É uma maneira grosseira e sem sentido de descrever algo que é agradável e uma expressão de amor, é claro. Mas ouvir isso também pode servir de alerta quando alguém está prestes a tomar uma decisão errada, quando a luxúria age e pode levar ao arrependimento.

Louis CK já falou sobre a mesma coisa. Ele contou que uma vez gastou milhares de dólares em uma trombeta, mesmo sabendo que não sabia tocar trombeta e que aquele era todo o dinheiro que tinha no banco na época. Ao voltar para casa, ele passou por uma dessas cabines de espetáculo indecentes e pagou para entrar. Foi só depois de bater uma que ele percebeu a idiotice que era comprar uma trombeta quando ele não tinha nenhum interesse real em ter uma. Ele se deixou levar pelo momento. Isso virou uma espécie de exercício mental para ele. Agora, quando ele realmente se vê querendo alguma coisa, ele pensa: eu ainda vou querer isso depois que fizer aquilo? Depois de superar o entusiasmo? (Mais sobre isso no maravilhoso livro The Philosophy of Louis CK.)

Louis CK também fala sobre como seu sonho era sempre se apresentar como comediante no Carnegie Hall. Finalmente, depois de anos de trabalho árduo e sucesso, ele conseguiu a oportunidade. No entanto, quase imediatamente, sua mente começou a ver o outro lado, que aquilo não era o que ele tinha imaginado. “Eu pensei que receberia um envelope escrito de caligrafia dizendo ‘você foi convidado por este comitê’. Mas agora eu sei que Carnegie Hall é apenas o lugar que você aluga, e é melhor usar o Beacon. É um aluguel mais barato”.

Não é como se os estóicos fossem cínicos que renunciaram a todos os bens mundanos. Sêneca era bastante rico. Marcus tinha muito poder. Eles apenas entenderam o que essas coisas realmente eram. Foi o que lhes permitiu utilizá-las efetivamente, sem se tornar dependente delas.

Isso muitas vezes pode ser uma lição que você precisa experimentar para entender completamente. Você tem que chegar ao outro lado da cerca para entender que a grama do vizinho não é realmente mais verde.

No começo deste ano ganhei um Grammy por uma participação em um álbum. Foi muito emocionante me arrumar para ir. Mas como foi, realmente, receber um prêmio? Foi como qualquer outro evento que demora demais: uma chatice. Foram cinco ou seis horas para treze segundos de emoção (e ainda tive que encurtar uma entrevista importante sobre meu livro). E então, no final, a maioria dos produtores nem conseguiu o Grammy… Você tem que comprar sua própria placa online se desejar uma. Foi uma honra incrível e uma obrigação que provavelmente eu pularia na próxima vez, para ficar trabalhando. Certamente, ter feito isso agora diminui meu anseio por qualquer outro “prêmio”, posso garantir. Porque ter um não mudou a minha vida nem um pouco.

Quando somos jovens e ambiciosos, somos suscetíveis ao que os psicólogos chamariam de crença na “felicidade condicional”. Se tivéssemos isso, ganhássemos aquilo, fôssemos promovidos ou casados, de repente seríamos felizes, de repente nos sentiríamos bem.

É só com o tempo, e com a boa sorte necessária para obter essas coisas, que começamos a entender que tudo isso é apenas uma miragem sedutora e inalcançável. Assim que conseguimos essas coisas, queremos outras coisas – ou elas se revelam decepcionantes ou complicadas. Esperamos que essas situações venham livres dos nossos problemas atuais, mas isso não acontece, porque trazemos nossos problemas já existentes (e criamos novos problemas junto com elas).

Somente os filósofos e a sabedoria da idade podem nos fazer entender a verdade: tudo é meio que uma merda. Tudo tem seus problemas.

É um pensamento deprimente no início e muitas pessoas temem isso. Se tudo é uma merda, isso significa que é tudo sem sentido e que não há motivo para fazer nada? Isso significa que você nunca vai comer a boa refeição, comprar a trombeta, se apresentar no Carnegie Hall ou participar do Grammy?

Não, claro que não.

Basta entender o que essas coisas realmente são. O que significam de verdade. Não “vestidas de ficção”, mas no sentido real.

Compreender a verdadeira essência das coisas é o segredo da felicidade. Primeiro, porque pode fazer você feliz com o que você tem agora – eu posso te prometer, seja lá o que for, é suficiente. Em segundo lugar, porque permite que você aproveite o processo e o momento presente quando você se esforça. Eu não escrevo livros porque espero que eu possa finalmente ter um grande sucesso que me tornará rico e famoso e, portanto, feliz e livre. Eu escrevo livros porque, por mais trabalhoso que o processo possa ser, também é imensamente prazeroso e satisfatório. Eu não sou completamente indiferente aos resultados: eu quero sim que eles vendam bem e trabalho para isso. Mas fico bem se não venderem muito, e não tenho ilusões sobre o que o sucesso traz. Sem essa expectativa, sem querer que tudo ocorra de uma maneira específica, eu posso trabalhar melhor e tenho mais energia para direcionar ao que estou fazendo. Eu realmente posso viver a ideia de que o esforço é tudo o que temos, e o resultado é o extra. É como se diz no Bhagavad Gita: “O direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação”. Melhor ainda: nem precise do resultado da ação porque a ação é a única parte que não é uma merda.

Eu amo minha esposa, meu filho, minha casa, minha carreira e tenho muitos amigos que admiro e respeito. É muito tentador enxergar isso como um resumo da vida, ver essas coisas como perfeitas e imperecíveis. Mas isso é perigoso e delirante. Como todas as coisas externas, elas podem me decepcionar, acontecimentos trágicos podem tirá-las de mim – qualquer coisa pode acontecer. Também é bom ter sonhos, desejar coisas, se esforçar para ver o que você é capaz de fazer. Ainda assim, também é tentador pressupor que a felicidade e a autoestima virão naturalmente. Portanto, um pouco de desprezo é uma ferramenta útil para criar objetividade e perspectiva.

Marcus Aurelius ainda aproveitou sua boa refeição. Eu ainda gosto das coisas que eu amo. Gastar dois segundos para ver essas coisas por um novo ângulo? Esse é o segredo para aproveitar e apreciar e não ser escravizado por elas.

Tudo é uma merda. Eu sei disso. Você sabe. Deixe que isso te liberte.