A insatisfação 2

Desconfortável e às vezes angustiante, esse sentimento também pode nos ajudar a trazer soluções novas e a buscar conquistas que tragam mais sentido para nós

Eugenio Mussak, via Vida Simples

“OBRIGADO, estou satisfeito!” Essa frase, acompanhada de um meio sorriso e de mãos espalmadas em direção à outra pessoa, costuma ser usada quando, já saciados, recusamos mais comida que alguém está nos oferecendo. Estar satisfeito tem, então, o significado de não querer mais, de rechaçar uma oferta, de abrir mão da oportunidade de aumentar a posse de um bem. No caso, de mais comida, mesmo sabendo que essa satisfação será temporária. Analisemos melhor essa questão: ao recusar o segundo prato você está sinalizando que já comeu o suficiente ou que não quer comer mais? Pode parecer a mesma coisa, mas há uma diferença sutil entre as duas possibilidades. Talvez você não queira mais por já ter comido muito, uma vez que a comida estava deliciosa. Mas talvez você não queira mais porque não gostou. Dessa forma, o “estou satisfeito” pode ser sincero, ao sinalizar que seu corpo e seu prazer já foram convenientemente atendidos, ou pode ser apenas uma força de expressão, pois na verdade você está mesmo é insatisfeito com o que está recebendo e, portanto, não quer mais. Essa pequena reflexão nos leva a outra, ligada com a essência da satisfação em si mesma. O que seria isso? A satisfação é uma coisa boa a ser perseguida? A insatisfação é, necessariamente, ruim? O que significa estar satisfeito? Vejamos, pois. A palavra satisfação, de origem latina, integra dois conceitos em sua estrutura. Satis significa bastante, suficiente, ou em quantidade adequada. Facere tem o sentido de fazer, realizar, ou atingir um objetivo. A etimologia, que sempre nos socorre, coloca a satisfação em uma ótima perspectiva. Deixa claro que a satisfação não vem apenas com o que conseguimos, mas também com a maneira como conseguimos. Eu fico realmente satisfeito quando consigo o que desejo através de minha atitude em relação a meu objetivo. A verdadeira satisfação tem a ver, então, com movimento, com realização, com trabalho. Isso explica por que pouco valorizamos aquilo que conseguimos sem esforço, gratuitamente, como mero regalo da vida. Gostamos mesmo é do que conseguimos a partir de nossa intenção e de nossa ação. Estar satisfeito, por outro lado, pode colocá-lo em uma situação de imobilidade. Eu me movimento para alcançar o que desejo e, uma vez atingido o objetivo, tal movimento perde sentido, eu então paro e me acomodo. Pessoas satisfeitas correm o risco de estacionar na vida, pois já têm o que desejam, o que nos leva a outra discussão, que é nossa relação com o desejo. Uma das vertentes, com o amparo da filosofia, relaciona desejo com amor. A lógica é que amamos o que desejamos, o que coloca o amor como algo volátil, que desaparece após o obtermos. Mas vamos com calma, pois essa é apenas uma das vertentes do amor, o Erótico, o mais comum e primitivo. Os outros seriam o amor Philos, fraternal, e o Ágape, o mais elevado, o afetivo, universal e desprovido de interesses. O amor Erótico é o amor pela posse, pela conquista, e que vale não apenas para o amor por outra pessoa mas também pelas coisas, por tudo aquilo que desejamos obter e possuir. Ele, claro, encontra sua essência em Eros, cujo nascimento parece explicar tudo. Os deuses estavam reunidos nos domínios de Zeus, em festa, para comemorar o nascimento de Afrodite, que seria a deusa da Beleza. Havia música, alegria, comida e bebida, e entre os mais alegres estava Poros, o deus da Riqueza. Embriagado, saiu para os jardins de Zeus, buscando sossego e ar puro. Espiando pela janela estava Pênia, a deusa da Pobreza, magra, curvada e andrajosa. Ao ver Poros sair, teve a ideia de seduzi-lo e conseguiu que ele a fecundasse, pois queria ter um filho que, ao ser filho da riqueza, também fosse rico e poderoso. O filho gerado a partir dessa união furtiva recebeu o nome de Eros, que, ao crescer, transformou-se, ele mesmo, em um deus muito especial: o deus do Amor. O amor é, então, filho da riqueza e da pobreza. Por isso é satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo e oscila entre esses dois extremos o tempo todo, na busca incessante de sua completude, que nunca poderá ser atingida. Esse é um dos clássicos da mitologia grega, que, como sabemos, é muito rica em elementos que nos ajudam a entender a essência humana. Não por acaso, a mitologia foi uma das principais fontes de inspiração de Freud, especialmente quando ele se deparava com alguma lacuna teórica para explicar seus conceitos. O amor erótico seria, então, o amor do desejo, e este, como sabemos, se extermina quando se completa. Em outras palavras, só desejamos o que não temos, pois, quando obtemos o que desejávamos, perdemos a justificativa para o desejo. Pode parecer paradoxal, mas não é. Faz sentido e pertence à qualidade humana da insatisfação, que se, por um lado, é causa de ansiedade, por outro, é origem de progresso. Voltando à satisfação, vale lembrar o que disse o escritor Guimarães Rosa sobre o assunto: “O animal satisfeito dorme”, sintetizou. Nessa curta frase, o mineiro, aliás autor do longo Grande Sertão: Veredas, define a satisfação como um bem tão precioso, capaz de gerar serenidade, conforto e, como consequência, sono. Mas também alerta para o fato de que o animal que dorme torna-se vulnerável, uma vez que perde o estado de alerta, necessário à sobrevivência no ambiente perigoso da natureza. Devemos, então, viver insatisfeitos para nos mantermos vivos? Esse é um tema recorrente em ambientes empresariais, nas escolas de negócio, nas denúncias da imprensa sobre os desmandos políticos. A insatisfação – dizem – mobiliza, energiza as ações diversas, promove mudanças, conquistas e, consequentemente, realizações. Somos animais insatisfeitos por natureza, o que não apenas nos manteve vivos até aqui como promoveu nossa evolução e nosso progresso. A satisfação é um prazer provisório, transitório, e é também necessário. A insatisfação é desconfortável, às vezes angustiante, mas também é necessária, e é do movimento dessa gangorra que tiramos nossa essência. Era isso por hoje. Espero, sinceramente, que a satisfação gerada pelas ideias deste texto só dure até que surja a expectativa pelo próximo. Assim continuaremos juntos…

EUGENIO MUSSAK ama escrever, já se aprofundou em muita coisa, mas se diz insatisfeito com seus textos.

A chave para a felicidade é perceber que tudo é uma merda

Parece loucura, eu sei, mas é verdade

Ryan Holiday, via administradores.com.br

A chave para a felicidade, para o sucesso, para o poder – qualquer uma dessas coisas – não é querer muito. Não é colocar as coisas que você busca em um pedestal. A chave para a felicidade e o sucesso é perceber, em um nível granular, que as coisas que a maioria das pessoas desejam na verdade são uma merda.

Que ser rico não é tão bom. Que receber muita atenção é uma tarefa árdua. Que estar apaixonado também envolve muito trabalho. Que a visão mais bonita do mundo ainda tem mosquitos ou muito frio ou é quente como o inferno.

Não é que esta observação seja especialmente nova ou brilhante, mas não estou tocando neste assunto para reclamar. Quero falar sobre algo que vemos que os estóicos antigos praticavam quase como uma forma de arte: o desprezo.

Marcus Aurelius escreveu sobre sentar-se para um banquete generoso. Ele era o imperador no auge do poder de Roma, então deveria ser um jantar muito bem feito. Mas ele não notou o vinho elegante ou a alta cozinha. Ou talvez tenha notado, à primeira vista, mas se propôs a analisar tudo com mais cuidado. Quando fez isso, repetiu para si o que realmente viu:

“Este é um peixe morto. Um pássaro morto. Um porco morto… este vinho vintage e nobre é suco de uva, e as vestes roxas são lãs de ovelhas tingidas com sangue de marisco”.

Por que alguém faria isso? Por que alguém tiraria com desprezo toda a apresentação e antecipação de uma boa refeição? Ou do seu poder e majestade de seu papel como imperador? (Em Roma, só o imperador poderia usar o manto roxo). Bem, porque tudo isso é a maior besteira. E as pessoas que não vêem isso, aquelas que se orgulham dessas coisas, podem acabar obcecadas com ou viciadas nessas coisas. O ponto, Marcus escreveu depois, era usar esse exercício de objetividade brutal para ver as coisas em seu “nulo valor” e “despojá-las da ficção pela qual se vangloriam”.

Ele não limitou esse exercício apenas à alimentação ou ao poder. Ele chegou até a afirmar que o ato sexual é simplesmente “uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão”. É uma maneira grosseira e sem sentido de descrever algo que é agradável e uma expressão de amor, é claro. Mas ouvir isso também pode servir de alerta quando alguém está prestes a tomar uma decisão errada, quando a luxúria age e pode levar ao arrependimento.

Louis CK já falou sobre a mesma coisa. Ele contou que uma vez gastou milhares de dólares em uma trombeta, mesmo sabendo que não sabia tocar trombeta e que aquele era todo o dinheiro que tinha no banco na época. Ao voltar para casa, ele passou por uma dessas cabines de espetáculo indecentes e pagou para entrar. Foi só depois de bater uma que ele percebeu a idiotice que era comprar uma trombeta quando ele não tinha nenhum interesse real em ter uma. Ele se deixou levar pelo momento. Isso virou uma espécie de exercício mental para ele. Agora, quando ele realmente se vê querendo alguma coisa, ele pensa: eu ainda vou querer isso depois que fizer aquilo? Depois de superar o entusiasmo? (Mais sobre isso no maravilhoso livro The Philosophy of Louis CK.)

Louis CK também fala sobre como seu sonho era sempre se apresentar como comediante no Carnegie Hall. Finalmente, depois de anos de trabalho árduo e sucesso, ele conseguiu a oportunidade. No entanto, quase imediatamente, sua mente começou a ver o outro lado, que aquilo não era o que ele tinha imaginado. “Eu pensei que receberia um envelope escrito de caligrafia dizendo ‘você foi convidado por este comitê’. Mas agora eu sei que Carnegie Hall é apenas o lugar que você aluga, e é melhor usar o Beacon. É um aluguel mais barato”.

Não é como se os estóicos fossem cínicos que renunciaram a todos os bens mundanos. Sêneca era bastante rico. Marcus tinha muito poder. Eles apenas entenderam o que essas coisas realmente eram. Foi o que lhes permitiu utilizá-las efetivamente, sem se tornar dependente delas.

Isso muitas vezes pode ser uma lição que você precisa experimentar para entender completamente. Você tem que chegar ao outro lado da cerca para entender que a grama do vizinho não é realmente mais verde.

No começo deste ano ganhei um Grammy por uma participação em um álbum. Foi muito emocionante me arrumar para ir. Mas como foi, realmente, receber um prêmio? Foi como qualquer outro evento que demora demais: uma chatice. Foram cinco ou seis horas para treze segundos de emoção (e ainda tive que encurtar uma entrevista importante sobre meu livro). E então, no final, a maioria dos produtores nem conseguiu o Grammy… Você tem que comprar sua própria placa online se desejar uma. Foi uma honra incrível e uma obrigação que provavelmente eu pularia na próxima vez, para ficar trabalhando. Certamente, ter feito isso agora diminui meu anseio por qualquer outro “prêmio”, posso garantir. Porque ter um não mudou a minha vida nem um pouco.

Quando somos jovens e ambiciosos, somos suscetíveis ao que os psicólogos chamariam de crença na “felicidade condicional”. Se tivéssemos isso, ganhássemos aquilo, fôssemos promovidos ou casados, de repente seríamos felizes, de repente nos sentiríamos bem.

É só com o tempo, e com a boa sorte necessária para obter essas coisas, que começamos a entender que tudo isso é apenas uma miragem sedutora e inalcançável. Assim que conseguimos essas coisas, queremos outras coisas – ou elas se revelam decepcionantes ou complicadas. Esperamos que essas situações venham livres dos nossos problemas atuais, mas isso não acontece, porque trazemos nossos problemas já existentes (e criamos novos problemas junto com elas).

Somente os filósofos e a sabedoria da idade podem nos fazer entender a verdade: tudo é meio que uma merda. Tudo tem seus problemas.

É um pensamento deprimente no início e muitas pessoas temem isso. Se tudo é uma merda, isso significa que é tudo sem sentido e que não há motivo para fazer nada? Isso significa que você nunca vai comer a boa refeição, comprar a trombeta, se apresentar no Carnegie Hall ou participar do Grammy?

Não, claro que não.

Basta entender o que essas coisas realmente são. O que significam de verdade. Não “vestidas de ficção”, mas no sentido real.

Compreender a verdadeira essência das coisas é o segredo da felicidade. Primeiro, porque pode fazer você feliz com o que você tem agora – eu posso te prometer, seja lá o que for, é suficiente. Em segundo lugar, porque permite que você aproveite o processo e o momento presente quando você se esforça. Eu não escrevo livros porque espero que eu possa finalmente ter um grande sucesso que me tornará rico e famoso e, portanto, feliz e livre. Eu escrevo livros porque, por mais trabalhoso que o processo possa ser, também é imensamente prazeroso e satisfatório. Eu não sou completamente indiferente aos resultados: eu quero sim que eles vendam bem e trabalho para isso. Mas fico bem se não venderem muito, e não tenho ilusões sobre o que o sucesso traz. Sem essa expectativa, sem querer que tudo ocorra de uma maneira específica, eu posso trabalhar melhor e tenho mais energia para direcionar ao que estou fazendo. Eu realmente posso viver a ideia de que o esforço é tudo o que temos, e o resultado é o extra. É como se diz no Bhagavad Gita: “O direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação”. Melhor ainda: nem precise do resultado da ação porque a ação é a única parte que não é uma merda.

Eu amo minha esposa, meu filho, minha casa, minha carreira e tenho muitos amigos que admiro e respeito. É muito tentador enxergar isso como um resumo da vida, ver essas coisas como perfeitas e imperecíveis. Mas isso é perigoso e delirante. Como todas as coisas externas, elas podem me decepcionar, acontecimentos trágicos podem tirá-las de mim – qualquer coisa pode acontecer. Também é bom ter sonhos, desejar coisas, se esforçar para ver o que você é capaz de fazer. Ainda assim, também é tentador pressupor que a felicidade e a autoestima virão naturalmente. Portanto, um pouco de desprezo é uma ferramenta útil para criar objetividade e perspectiva.

Marcus Aurelius ainda aproveitou sua boa refeição. Eu ainda gosto das coisas que eu amo. Gastar dois segundos para ver essas coisas por um novo ângulo? Esse é o segredo para aproveitar e apreciar e não ser escravizado por elas.

Tudo é uma merda. Eu sei disso. Você sabe. Deixe que isso te liberte.