Tudo envolve dinheiro

A maneira como você se relaciona com o dinheiro tem a ver com a sua história de vida

A nossa relação hoje com o dinheiro tem a ver com a nossa história | Crédito: Shutter

Kátia Avelar, via Vida Simples

Recentemente, enquanto aguardava o momento de dar uma palestra sobre construção da reserva financeira, numa grande empresa e para um público diversificado, passaram 2 pessoas por mim e uma falou para outra: “Tudo envolve dinheiro.” Imediatamente pensei: nossa que coincidência … e comecei a pensar em muitas coisas. Em que contexto elas estavam falando: vida pessoal ou trabalho ? Mas em seguida, concluí que isto era o que menos importava e o interessante foi que os meus pensamentos não pararam mais, coloquei algumas ideias num papel e já para a palestra levei este olhar tão humano sobre uma questão tratada em geral como exata, racional, “preto no branco”.

E daquele dia até hoje, este artigo começou a ser gerado !

Acompanhe-me nas situações a seguir, extraídas das páginas do meu diário.

Em casa … por volta dos meus 15 anos, meu pai servidor público passou a receber o seu salário com atraso por conta de problemas gerados pela gestão indevida do fluxo de caixa. Naquela época, não tinha conhecimento do que isto significava, mas foi uma lição de educação financeira para mim e minha família. Eu aprendi a negociar, pedir desconto na escola para compra das minhas apostilas, comprar produtos para revender, ser econômica. Meus pais, eu e minha irmã, fortalecemos nossos laços através do diálogo sobre o que estava ocorrendo e como podíamos contribuir com soluções para superar aquele momento.

Com os amigos … já na faculdade, tínhamos amigos que vinham de longe para estudar e suas economias para almoçar e fazer lanche eram “contadas”. Eu podia almoçar em casa todos os dias e lanchar o que eu quisesse, era maravilhoso. Aprendi como há diferenças econômicas e que saber conviver com elas, permitiu-me exercitar o sentimento de gratidão e do pensar transformador para contribuir com o processo de melhoria na sociedade, começando nos círculos de amizades. E até hoje, num simples chopp, a flexibilização do padrão de consumo em prol da participação de mais amigos é um exelente exercício para saber adaptar-se e ajustar a trajetória financeira nos diferentes momentos da minha vida.

No trabalho … numa equipe, além dos diferentes níveis salariais, cada um traz a sua história de vida e saber ouvir e acolher um colega de trabalho é mais uma oportunidade de ser solidário e de ajudá-lo a encontrar a forma de equilibrar a sua vida, incluindo as finanças. E isso foi um laboratório para construção do meu programa de finanças pessoais – o Detox dos Gastos.

No exercício da espiritualidade … vejo o dízimo como uma forma de expressar minha gratidão pelo que tenho e contribuir com as finanças sociais. Forma de movimentar o meu dinheiro e alimentar o fluxo da abundância em minha vida e na economia em geral. Não é mágica, é ação através da valorização das diferentes utilizações do dinheiro no dia a dia.

E nesta ciranda da vida, as tarefas do dia a dia são executadas através de ações individuais e relações humanas onde o afeto e o dinheiro são condutores que mantém a dinâmica na vida de cada um: objetivos são definidos e o acúmulo de patrimônio financeiro é o meio para exercermos a nossa liberdade de escolha.

Os conceitos, indicadores, produtos de investimentos podem ser adquiridos através da educação financeira e de um especialista que te oriente. O planejamento financeiro será o mapa para realizar os seus objetivos e o profissional um facilitador na clareza da sua dinâmica diária de lidar com a sua renda. Mas é a sua história de vida que produzirá necessidades, desejos e sonhos que são únicos e podem mudar com o tempo. Por que ? Pelo simples fato de que viver de forma abundante e próspera está à disposição de todos, mas cada um tem que “ajustar as velas do seu barco” – a vida que deseja ter e proporcionar aos que ama, a cada momento.

E agora, faz mais sentido o Prêmio Nobel 2017 ser dado para um trabalho no ramo da economia comportamental ? Então, como ressaltou o mestre Richard H. Thaler: “Para fazer uma boa economia, você deve ter em mente que as pessoas são humanas”.

Em uma era, em que as relações humanas estão passando por crises, reflexões e transformações, entender primeiro da porção humana em tudo na vida, é a chave para transformar realidades falidas em oportunidades de realização. Arrisco dizer que é a saída para os desequilíbrios instalados e intensificados nos últimos 15 anos no mundo. E cabe a cada um de nós, vivermos nossa humanidade, entender nossos limites, fortalecermos com o aprendizado e definirmos nossos processos de mudanças e vida com propósito !

Então, mãos à obra que o dinheiro está presente em tudo e é apenas mais uma questão a conhecer e desmistificar na sua vida !

* Kátia Avelar é economista e mestre em Economia, consultora em Finanças Pessoais. Trabalhou por 25 anos no mercado corporativo e há 2 anos criou o Detox dos Gastos. Conteúdos e trabalhos desenvolvidos são compartilhados no perfil do instagram @katia_avelar e em https://www.facebook.com/detoxdosgastos/

Você tem medo de desagradar os outros?

Saiba como fortalecer sua autoconfiança

Thaís Petroff, via Vya Estelar

Não é incomum conhecermos pessoas que sentem necessidade de agradar outras ou medo de desagradá-las.

Há a necessidade de se sentir aceito e a opinião do outro tem um peso muito grande sobre como a própria pessoa se percebe.

Se você se identifica com essa descrição, já parou para pensar o que te faz sentir assim?

Com que muitas vezes se torna mais importante agradar ao outro do que a si mesmo ou até abrir mão de coisas importantes para você em prol de não desagradar outra pessoa?

Talvez você tenha respondido que se sente inseguro(a) ou tem baixa autoestima. Se foi isso que pensou você acertou.

Para podermos ser assertivos e lidarmos com a possibilidade de desagradar o próximo (e ligado a isso o medo da rejeição) precisamos ter autoconfiança.

Nosso valor como pessoa nada tem a ver com a opinião dos outros

Saber do nosso valor como pessoa e que este nada tem a ver com a opinião dos outros a nosso respeito, ou seja, que se alguém discordar de nós ou mesmo não gostar de alguma escolha ou comportamento nosso, que isso não diminui o seu valor ou te torna alguém pior.

Como fazer isso?

Para poder ter mais autoconfiança e não depender tanto da opinião dos outros, primeiro é preciso saber o que você pensa e deseja. Sem autoconhecimento isso é impossível.

Portanto, o primeiro passo é ir percebendo cada vez mais o que você pensa e/ou sente diante das diversas situações que te aparecem.

Uma maneira bastante fácil de fazer isso é se perguntar sempre que te fazem um convite, que você precisa tomar uma decisão, que você precisa ter uma ação, o que você realmente pensa sobre isso ou como gostaria de proceder.

Mesmo que no início seja difícil de fazer o que você realmente gostaria (por medo de desagradar o outro) isso já te auxiliará a ir tomando mais consciência das suas opiniões e desejos.

Conforme você for percebendo isso melhor, vá aos poucos testando em uma situação ou outra colocar sua opinião e/ou vontade. Se for necessário comunique ao outro que isso é algo importante para você.

Boas relações são aquelas onde há respeito e cuidado. Se o outro não demonstra atenção ou abertura para suas vontades e opiniões, cabe uma reflexão sobre a funcionalidade e qualidade dessa pessoa em sua vida.

Conforme você for praticando isso aos poucos, perceberá que a insegurança vai diminuindo e paralelamente sua autoconfiança estará crescendo.

O mais difícil é começar, como um carro que precisa de muito mais força para sair da inércia (por isso a primeira marcha e a ré são as marchas mais potentes do carro) mas, após começar a andar, a força a ser despendida vai diminuindo pouco a pouco.

Permita-se!

ESPAÇO FEMININO: Feministas também podem sonhar com príncipes 2

Já tive casos como mulheres feministas, na juventude, e posso dizer com propriedade que por traz de toda mulher de “grelo duro” bate um coração mole

As feministas, ao menos na grande maioria, são chatas. Algumas vezes inconvenientes e mal educadas.

Não concordo, porém, com esteriótipos de que as feministas são, obrigatoriamente, mulheres feias, mal amadas, que não gostam de homens dominantes etc.

Já tive casos com mulheres feministas, na juventude, e posso dizer com propriedade que por traz de toda mulher de “grelo duro” bate um coração mole. Aqueles discursos “raivosos”, contundentes, antipáticos e gênios ranzinzas muitas vezes podem ser explicados por uma infância/adolescência complicada geralmente ligados à experiência traumatizantes no seio familiar.

Mas, vamos ao que interessa.

Descobri um belo artigo da jornalista, e feminista, Mariliz Pereira Jorge, publicado na originalmente na Folha de São Paulo, que trata sobre o comportamento de algumas feministas.

Mariliz, com esse nome a jornalista não tinha como deixar de ser feminista (rsrsrs), analisa comportamentos das mulheres de “grelo duro” à luz do romance do Príncipe Harry, herdeiro da monarquia inglesa, com atriz americana Meghan Markle.

“Ah, Bob, muito fácil para uma feminista falar em romance e contos de fadas quando uma delas é visgada por um príncipe da mais tradicional e poderosa realeza do mundo”, detonaria uma leitora lá não muito chegada às filosofias feministas.

De fato, qual feminista por dura e bem sucedida que seja não se renderia aos encantos de um príncipe de verdade, de carne e osso?

Bom, vou deixar que a própria Mariliz Pereira Jorge conte para vocês essahistória.

Fiquem com Feministas também podem sonhar com príncipes

por Mariliz Pereira Jorge, via Folha de SP

Parece que as pessoas não entenderam nada sobre o papo “mulher pode ser o que ela quiser”, a premissa básica do feminismo. Inclusive casar com um príncipe, veja só. Inclusive se casar. Inclusive ser feminista e ser pedida em casamento por um nobre que se ajoelhou e sacou um anel numa caixinha.

Sim, teve isso. Príncipe Harry fez como nos contos de fada, caiu de joelhos e pediu a mão da atriz americana Meghan Markle, que aceitou antes mesmo de ele terminar a proposta. Sim, sim, sim. Porque é isso que a maioria das pessoas faz quando se apaixona e é correspondida. Casa-se. Mesmo as feministas. Mesmo que seja com um príncipe.

Meghan Markle é uma ativista declarada, do tipo que diz “nunca quis ser uma mulher que almoça, sempre quis ser uma mulher que trabalha” ou “uma mulher pode querer estar bonita e ainda assim lutar pela igualdade de gênero”.

É disso que trata o feminismo, oportunidades iguais, poder de decisão, escolhas, um mundo mais justo e menos violento para as mulheres.

E, que coisa, Meghan pode dizer “sim” a um príncipe porque quis. Não foi obrigada. Os dois se parecem exatamente como qualquer outro casal apaixonado, contando como se conheceram, como se envolveram e por que decidiram ficar juntos. Tudo isso enquanto assavam um frango. Verdade. Eles contaram num vídeo que circula na internet. Ok, é uma história com cifras milionárias e a coroa britânica. Mas as diferenças acabam aí.

Deixa eu contar uma coisa que talvez seja um pouco chocante. Feministas não apenas se casam, como têm filhos, algumas param de trabalhar, se dedicam à família. Ou não. Muitas não têm a menor intenção de juntar os trapinhos com alguém, não pensam em procriar. Feministas são médicas, advogadas, secretárias, engenheiras, atletas, empresárias, donas de casa, putas.

Se você acha que feminismo é sobre odiar os homens, saiba que está atrasado um capítulo nessa história. Tem feminista assim, um tipo que também precisa de reciclagem. Mas como eu disse, trata-se de um movimento que luta pelo direito da mulher de ser o que quiser e fazer o que bem entender. Só isso. Se você fizer um pouquinho de esforço, vai ver que não é complicado.

Meghan está exercendo o feminismo da sua maneira. Escolheu com quem quer casar e o tipo de vida que vai levar. As pessoas confundem os sinais. Tem cérebro fritando porque o príncipe não escolheu a dona Baratinha, mas uma mulher independente, separada, afrodescendente e mais velha do que ele. Deu bug na cabeça de gente que não entende que uma feminista pode mudar sua vida por amor. Uma história atual, fresca, digna dos novos tempos.

Eu esperei bastante que meu marido me pedisse em casamento. Pois é. Tão moderna, descolada, feminista. Tão tradicional. Nunca aconteceu. Era um desejo meu, não dele. Ele me fez perceber como eu estava sendo machista com essa expectativa. O que fiz? O pedido. Por Whatsapp. Escolhi o dia, o local, contratei uma agência e fui lá casar com o meu príncipe. Feministas também pode viver histórias da carochinha, com final feliz e tudo. Simples assim.

O grande engano está em olhar para fora antes de olhar para dentro

Aprenda a fechar os olhos…

por Samanta Obadia, via Vya Estelar

Existem momentos na vida em que o que os outros são ou fazem nos pesa demais, nos oprime. Na verdade, o que nos deixa mal é a nossa insatisfação pessoal. Mas perceber isso não é nada fácil. Depende de um longo caminho ao interior de si mesmo, que grande parte da humanidade não está disposta a percorrer. Pois é muito difícil lidar com nossos vazios e, consequentemente, com a inveja que alimentamos de quem aparenta estar mais feliz do que nós.

Estar triste, muitas vezes, nem é o maior problema. Mas suportar a alegria do outro diante da ausência da nossa é o que mais dói. Quando nossos ‘vales’ nos deixam afundar, o que devíamos buscar é a ajuda de alguém ou de algo que nos puxe pra cima.

Contraditoriamente, a maioria de nós, coloca uma música triste, busca a compulsão que nos atola no pior lugar de nós, e começa a arrastar as correntes de um passado mais feliz ou de um futuro almejado que ainda não chegou.

Abrir a janela para ver se a grama do vizinho está mais verde do que a nossa não é mais um recurso, até porque poucos de nós temos casa e jardim.

Contudo, há um simples movimento que com certeza nos deprimirá rapidamente e muito mais, nos levando ao fundo do poço: num toque, acessamos as redes sociais, onde todos são felizes, lindos, bem-sucedidos e em eventos fabulosos.

Por que a tragédia de nossas vidas é tão atraente?

Por que a tristeza e a melancolia têm poesia?

Por que nos comparamos aos outros se percebemos nossas diferenças e somos tão diversos?

Que necessidade de ser igual, de ser melhor é essa que nos remete a um lugar tão medíocre padronizado?

Por que acreditamos que temos de desejar o mesmo que os outros desejam?

A liberdade de ser o que se realmente é começa quando eu me permito pensar, perguntar, e experimentar-me antes de olhar para fora. O grande engano está em olhar para fora antes de olhar para dentro. Como disse sabiamente, William Shakespeare, “Quanto mais fecho os olhos, melhor vejo”.

ESPAÇO FEMININO: Fátima Bernardes aposta felicidade no amor em um jovem militante político 2

Afora o fato de ser uma estrela global, o legal nesse caso é a clareza de que nunca é tarde para ser feliz na vida e no amor, além de ninguém ser insubstituível. E que o amor entre Fátima e Túlio seja eterno enquanto dure.

Amor sem ousadia, amor de fato não é.

A jornalista Fátima Bernardes, por exemplo, não só ousou, mas radicalizou em sua nova relação afetiva.

O felizardo é Túlio Gadêlha, um rapaz de 29 anos, pernambucano de Recife, e 36 anos mais jovem do que bela morena que está no auge do que costuma-se chamar de “idade da loba”.

O novo relacionamento de Fátima Bernardes surge pouco mais de um ano após anúncio da separação com o também jornalista global, o chato do William Bonner – o casal apresentava o Jornal Nacional e foram casados por quase três décadas.

Túlio é bacharel em direito e militante político do PDT, partido pelo qual é presidente da JSPDT (Juventude Socialista do PDT/PE).

Deve estar sendo uma gostosa novidade para Fátima Bernardes namorar um carinha que defende posições políticas e sociais mais progressistas do que as que o Bonner parecia defender. Aliás, essa “novidade”, inclusive, pode ser até excitante para uma mulher cujo círculo social e político, ao que parece, costumava ser marcado basicamente por gente conservadora e “Mauricinhos” de meia-idade.

“…quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer” Lô e Márcio Borges (Foto: Instagram de Fátima Bernades)

Por se tratar de uma celebridade é lógico que o novo relacionamento de Fátima Bernardes ganharia a repercussão que ganhou e ficaria entre os assuntos mais comentados na imprensa e nas redes sociais.

Porém, afora o fato de ser uma estrela global, o que é legal nesse caso é a clareza de que nunca é tarde para ser feliz na vida e no amor, além de ninguém ser insubstituível.

E que o amor entre Fátima e Túlio seja eterno enquanto dure.

A fila anda, meu caro Bonner…

Você confia verdadeiramente em si mesmo?

Individuação é um processo inerente à vida, através dele o ser humano torna-se o que realmente é

por Aurea Caetano, via Vya Estelar

O conceito junguiano de “Individuação” tem importância fundamental para a discussão acerca do processo de cura ou solução de problemas sobre o qual conversamos em texto anterior – veja aqui.

Para Jung, a individuação é um processo inerente à vida; através dele o ser humano torna-se o que realmente é, torna-se um ser inteiro, indiviso, único, sua melhor possibilidade de expressão.

A ideia da inteireza e unicidade aparece desde os antigos filósofos gregos, o “conhece-te a ti mesmo” é apenas um exemplo.

Hillman, importante pensador pós-junguiano propõe o que chama de “a teoria do fruto do carvalho”. Diz ele que cada um de nós tem dentro de si uma imagem, um daimon “cada um de nós tem seu feitio, cada um de nós é definitiva e até desafiadoramente um indivíduo singular”.

É essa singularidade que está em jogo quando pensamos em um processo de análise. Os conflitos ou problemas que surgem e que fazem com que sejamos procurados em nossos consultórios tem muito a dizer a respeito disso. Grande parte de nosso trabalho é abrir as janelas, deixar a luz entrar, limpar a casa, tirar o pó ou lixo lá acumulados para então decidir como lidar com aquilo que nos pertence, que nos aflige, que ocupa os porões de nossas casas. Definir o que fica e o que vai embora, o que pode ser reorganizado, o que não tem mais jeito e deve ser inutilizado, abrir espaço para o novo.

O fio condutor neste trabalho é o processo de individuação – estamos sempre tentando compreender qual o sentido daquele sintoma ou problema para aquela personalidade. Buscando sempre fazer contato, trazer à tona, o que é essencial, o que é realmente e desafiadoramente “o feitio de cada um”. É preciso discriminar que tipo de semente tenho dentro de mim, ou melhor, que tipo de semente verdadeiramente sou.

Conflitos surgem quando questões difíceis ou traumáticas obscurecem, incapacitam ou invalidam o caminho em direção à melhor realização do que é a minha semente.

Muitas vezes, esquecemos quem somos e o trabalho em psicoterapia passa por tentar fazer lembrar, despertar nossa individualidade, abrir espaço para que o processo de individuação possa acontecer.

Muitas vezes acreditamos que este é um processo fácil, se sou uma semente de carvalho então nada mais natural do que me tornar ao longo da vida um lindo espécime. Esquecemos desta forma nossa responsabilidade acerca deste processo.

Jung dizia que para que uma árvore possa brotar e crescer em todo seu esplendor é necessário, antes de mais nada, que ela possa estar bem plantada, com raízes profundas que possam sustentar seu pleno desenvolvimento.

Precisamos entrar em contato com aquilo que nos move, com o que faz de nós o que realmente somos e buscar nosso caminho verdadeiro. Este é o movimento que norteia o processo de análise e ele não é trilhado sem esforço. É preciso discriminar o que é real e o que é “acessório” ou ilusório e estar aberto a questionar isso o tempo todo. É preciso identificar e confiar em nosso bem mais precioso, nossa semente.

Meu filho fuma maconha e se autoflagela. O que faço?

Meu filho necessita ser avaliado por um time de especialistas

Danilo Baltieri, via Vya Estelar

Meu filho necessita ser avaliado por um time de especialistas

Depoimento de uma leitora:

“Olá! O que fazer quando seu filho é usuário de maconha e sente cólicas abdominais que o levam a se autoflagelar? Nenhum médico conseguiu encontrar a raiz das dores. Pesquisando encontrei uma síndrome chamada Cannabis Hyperemesis, alguém pode me ajudar por favor?”

Resposta: As ações da maconha (?9 – tetrahydrocannabinol; THC) não se restringem ao cérebro, mas também atingem muitos outros sistemas orgânicos. No sistema gastrintestinal, por exemplo, as atividades da maconha parecem ser mediadas por um grupo de receptores endógenos para canabinoides, conhecido como CB1.

A ação do THC sobre estes receptores pode gerar retardo no esvaziamento gástrico, redução da secreção de ácido clorídrico, dor visceral, inflamação de partes do trato gastrintestinal e dificuldades para o relaxamento do esfíncter esofágico. Apesar deste efeito periférico – retardo do esvaziamento gástrico – poder, por si só, provocar náuseas e vômitos, este não é um sintoma comumente referido pelos usuários desta substância psicoativa. Isso se deve ao fato do THC também ter propriedades antieméticas (contra vômitos, náuseas, enjoos), oriundas da sua ação direta no próprio cérebro e estas atividades centrais inibidoras de náuseas e vômitos geralmente suplantam as ações periféricas.

A chamada Síndrome da Hiperemese Canábica foi descrita recentemente, no ano de 2004. Tipicamente, os portadores são jovens e apresentam história de consumo crônico de maconha. Na grande parte dos casos reportados na literatura, o quadro deu início após anos (3 a 15 anos) de uso da substância psicoativa e envolvendo sujeitos que faziam uso diário ou muito frequente da droga.

Critérios diagnósticos têm sido propostos para a Síndrome de Hiperemese Canábica, tais como:

a) consumo de THC por longo prazo;

b) náuseas e vômitos intermitentes e intensos;

c) redução significativa dos sintomas, quando o consumo de THC é interrompido;

d) busca frequente por pronto-socorros para obter o alívio do desconforto abdominal;

e) dor abdominal importante;

f) os sintomas são aliviados com banhos quentes;

g) os sintomas são mais frequentes pela manhã;

h) falta de antecedentes pessoais de problemas intestinais.

Alguns autores têm, também, dividido esta síndrome em três fases:

a) Fase Prodrômica ou Pré-Emética: nesta fase, o usuário de maconha acorda de manhã com leve sensação de náusea, tem medo de vomitar e reporta leve desconforto abdominal. Mesmo assim, seu padrão alimentar não tende a se modificar e o consumo da droga pode até mesmo aumentar, visto que o sujeito acredita que a maconha poderá “tratar” estes sintomas;

b) Fase Emética: nesta fase, o sujeito apresenta eventos paroxísticos (eventos súbitos) de intensa náusea, vômito e dor abdominal. De fato, são eventos súbitos e intermitentes (não contínuos), mas, muitas vezes, incapacitantes uma vez que o sujeito não consegue, nesta fase, desempenhar adequadamente suas atividades rotineiras. Um comportamento bastante reportado na literatura são os repetidos banhos quentes que os sujeitos tomam, como uma forma de aliviar o desconforto. Esta fase dura entre 24 e 48 horas, mas a recaída é elevada caso o sujeito mantenha o consumo de maconha;

c) Fase de recuperação: após a fase acima, o sujeito pode não sentir os sintomas gastrintestinais por semanas ou meses. Nesta fase, comumente, o sujeito volta a ganhar peso, mas, infelizmente, costuma retornar ao uso da maconha, acreditando, de fato, na sua inocuidade.

Na verdade, indivíduos que apresentam esta síndrome somente são corretamente diagnosticados após meses ou anos de investigação médica. Os sintomas da síndrome podem ser oriundos de diferentes doenças; logo, as investigações clínicas e laboratoriais realmente se impõem.

Um quadro clínico bastante similar à Síndrome da Hiperemese Canábica é a chamada Síndrome do Vômito Cíclico. Embora os sintomas sejam extremamente parecidos, na Síndrome do Vômito Cíclico, a coexistência de enxaquecas, sintomas depressivos e ansiosos é mais evidente. Além disso, o esvaziamento gástrico não costuma ser retardado.

O tratamento para esta condição combina ações clínicas e psiquiátricas. Naturalmente, na fase emética, dada a possibilidade de importante desidratação e desequilíbrio hidroeletrolítico, o sujeito precisa de atenção hospitalar. Algumas medicações de ação central podem ser aventadas nesta situação.

De qualquer forma, havendo a certeza, além de uma dúvida razoável, do diagnóstico da Síndrome de Hiperemese Canábica, é imprescindível que o portador cesse o consumo de maconha. Deixe-me repetir: o sujeito deve CESSAR o uso da maconha.

Comumente, nestes casos, existe grande dificuldade para o portador deixar de consumir THC. Assim, um tratamento psiquiátrico especializado deve compor o plano terapêutico.

É difícil, com apenas este relato, definir se de fato seu filho padece da Síndrome da Hiperemese Canábica, mesmo porque existe na sua pergunta uma palavra chamada “flagelo.” É fundamental que o médico psiquiatra que estiver acompanhando seu filho saiba exatamente ao que você está se referindo com esta palavra.

Boa sorte e não perca tempo! Seguramente, seu filho necessitará ser avaliado por um time de especialistas, incluindo psiquiatra e clínico especializado em doenças gastrintestinais (gastroenterologista).

A insatisfação 2

Desconfortável e às vezes angustiante, esse sentimento também pode nos ajudar a trazer soluções novas e a buscar conquistas que tragam mais sentido para nós

Eugenio Mussak, via Vida Simples

“OBRIGADO, estou satisfeito!” Essa frase, acompanhada de um meio sorriso e de mãos espalmadas em direção à outra pessoa, costuma ser usada quando, já saciados, recusamos mais comida que alguém está nos oferecendo. Estar satisfeito tem, então, o significado de não querer mais, de rechaçar uma oferta, de abrir mão da oportunidade de aumentar a posse de um bem. No caso, de mais comida, mesmo sabendo que essa satisfação será temporária. Analisemos melhor essa questão: ao recusar o segundo prato você está sinalizando que já comeu o suficiente ou que não quer comer mais? Pode parecer a mesma coisa, mas há uma diferença sutil entre as duas possibilidades. Talvez você não queira mais por já ter comido muito, uma vez que a comida estava deliciosa. Mas talvez você não queira mais porque não gostou. Dessa forma, o “estou satisfeito” pode ser sincero, ao sinalizar que seu corpo e seu prazer já foram convenientemente atendidos, ou pode ser apenas uma força de expressão, pois na verdade você está mesmo é insatisfeito com o que está recebendo e, portanto, não quer mais. Essa pequena reflexão nos leva a outra, ligada com a essência da satisfação em si mesma. O que seria isso? A satisfação é uma coisa boa a ser perseguida? A insatisfação é, necessariamente, ruim? O que significa estar satisfeito? Vejamos, pois. A palavra satisfação, de origem latina, integra dois conceitos em sua estrutura. Satis significa bastante, suficiente, ou em quantidade adequada. Facere tem o sentido de fazer, realizar, ou atingir um objetivo. A etimologia, que sempre nos socorre, coloca a satisfação em uma ótima perspectiva. Deixa claro que a satisfação não vem apenas com o que conseguimos, mas também com a maneira como conseguimos. Eu fico realmente satisfeito quando consigo o que desejo através de minha atitude em relação a meu objetivo. A verdadeira satisfação tem a ver, então, com movimento, com realização, com trabalho. Isso explica por que pouco valorizamos aquilo que conseguimos sem esforço, gratuitamente, como mero regalo da vida. Gostamos mesmo é do que conseguimos a partir de nossa intenção e de nossa ação. Estar satisfeito, por outro lado, pode colocá-lo em uma situação de imobilidade. Eu me movimento para alcançar o que desejo e, uma vez atingido o objetivo, tal movimento perde sentido, eu então paro e me acomodo. Pessoas satisfeitas correm o risco de estacionar na vida, pois já têm o que desejam, o que nos leva a outra discussão, que é nossa relação com o desejo. Uma das vertentes, com o amparo da filosofia, relaciona desejo com amor. A lógica é que amamos o que desejamos, o que coloca o amor como algo volátil, que desaparece após o obtermos. Mas vamos com calma, pois essa é apenas uma das vertentes do amor, o Erótico, o mais comum e primitivo. Os outros seriam o amor Philos, fraternal, e o Ágape, o mais elevado, o afetivo, universal e desprovido de interesses. O amor Erótico é o amor pela posse, pela conquista, e que vale não apenas para o amor por outra pessoa mas também pelas coisas, por tudo aquilo que desejamos obter e possuir. Ele, claro, encontra sua essência em Eros, cujo nascimento parece explicar tudo. Os deuses estavam reunidos nos domínios de Zeus, em festa, para comemorar o nascimento de Afrodite, que seria a deusa da Beleza. Havia música, alegria, comida e bebida, e entre os mais alegres estava Poros, o deus da Riqueza. Embriagado, saiu para os jardins de Zeus, buscando sossego e ar puro. Espiando pela janela estava Pênia, a deusa da Pobreza, magra, curvada e andrajosa. Ao ver Poros sair, teve a ideia de seduzi-lo e conseguiu que ele a fecundasse, pois queria ter um filho que, ao ser filho da riqueza, também fosse rico e poderoso. O filho gerado a partir dessa união furtiva recebeu o nome de Eros, que, ao crescer, transformou-se, ele mesmo, em um deus muito especial: o deus do Amor. O amor é, então, filho da riqueza e da pobreza. Por isso é satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo e oscila entre esses dois extremos o tempo todo, na busca incessante de sua completude, que nunca poderá ser atingida. Esse é um dos clássicos da mitologia grega, que, como sabemos, é muito rica em elementos que nos ajudam a entender a essência humana. Não por acaso, a mitologia foi uma das principais fontes de inspiração de Freud, especialmente quando ele se deparava com alguma lacuna teórica para explicar seus conceitos. O amor erótico seria, então, o amor do desejo, e este, como sabemos, se extermina quando se completa. Em outras palavras, só desejamos o que não temos, pois, quando obtemos o que desejávamos, perdemos a justificativa para o desejo. Pode parecer paradoxal, mas não é. Faz sentido e pertence à qualidade humana da insatisfação, que se, por um lado, é causa de ansiedade, por outro, é origem de progresso. Voltando à satisfação, vale lembrar o que disse o escritor Guimarães Rosa sobre o assunto: “O animal satisfeito dorme”, sintetizou. Nessa curta frase, o mineiro, aliás autor do longo Grande Sertão: Veredas, define a satisfação como um bem tão precioso, capaz de gerar serenidade, conforto e, como consequência, sono. Mas também alerta para o fato de que o animal que dorme torna-se vulnerável, uma vez que perde o estado de alerta, necessário à sobrevivência no ambiente perigoso da natureza. Devemos, então, viver insatisfeitos para nos mantermos vivos? Esse é um tema recorrente em ambientes empresariais, nas escolas de negócio, nas denúncias da imprensa sobre os desmandos políticos. A insatisfação – dizem – mobiliza, energiza as ações diversas, promove mudanças, conquistas e, consequentemente, realizações. Somos animais insatisfeitos por natureza, o que não apenas nos manteve vivos até aqui como promoveu nossa evolução e nosso progresso. A satisfação é um prazer provisório, transitório, e é também necessário. A insatisfação é desconfortável, às vezes angustiante, mas também é necessária, e é do movimento dessa gangorra que tiramos nossa essência. Era isso por hoje. Espero, sinceramente, que a satisfação gerada pelas ideias deste texto só dure até que surja a expectativa pelo próximo. Assim continuaremos juntos…

EUGENIO MUSSAK ama escrever, já se aprofundou em muita coisa, mas se diz insatisfeito com seus textos.

A chave para a felicidade é perceber que tudo é uma merda

Parece loucura, eu sei, mas é verdade

Ryan Holiday, via administradores.com.br

A chave para a felicidade, para o sucesso, para o poder – qualquer uma dessas coisas – não é querer muito. Não é colocar as coisas que você busca em um pedestal. A chave para a felicidade e o sucesso é perceber, em um nível granular, que as coisas que a maioria das pessoas desejam na verdade são uma merda.

Que ser rico não é tão bom. Que receber muita atenção é uma tarefa árdua. Que estar apaixonado também envolve muito trabalho. Que a visão mais bonita do mundo ainda tem mosquitos ou muito frio ou é quente como o inferno.

Não é que esta observação seja especialmente nova ou brilhante, mas não estou tocando neste assunto para reclamar. Quero falar sobre algo que vemos que os estóicos antigos praticavam quase como uma forma de arte: o desprezo.

Marcus Aurelius escreveu sobre sentar-se para um banquete generoso. Ele era o imperador no auge do poder de Roma, então deveria ser um jantar muito bem feito. Mas ele não notou o vinho elegante ou a alta cozinha. Ou talvez tenha notado, à primeira vista, mas se propôs a analisar tudo com mais cuidado. Quando fez isso, repetiu para si o que realmente viu:

“Este é um peixe morto. Um pássaro morto. Um porco morto… este vinho vintage e nobre é suco de uva, e as vestes roxas são lãs de ovelhas tingidas com sangue de marisco”.

Por que alguém faria isso? Por que alguém tiraria com desprezo toda a apresentação e antecipação de uma boa refeição? Ou do seu poder e majestade de seu papel como imperador? (Em Roma, só o imperador poderia usar o manto roxo). Bem, porque tudo isso é a maior besteira. E as pessoas que não vêem isso, aquelas que se orgulham dessas coisas, podem acabar obcecadas com ou viciadas nessas coisas. O ponto, Marcus escreveu depois, era usar esse exercício de objetividade brutal para ver as coisas em seu “nulo valor” e “despojá-las da ficção pela qual se vangloriam”.

Ele não limitou esse exercício apenas à alimentação ou ao poder. Ele chegou até a afirmar que o ato sexual é simplesmente “uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão”. É uma maneira grosseira e sem sentido de descrever algo que é agradável e uma expressão de amor, é claro. Mas ouvir isso também pode servir de alerta quando alguém está prestes a tomar uma decisão errada, quando a luxúria age e pode levar ao arrependimento.

Louis CK já falou sobre a mesma coisa. Ele contou que uma vez gastou milhares de dólares em uma trombeta, mesmo sabendo que não sabia tocar trombeta e que aquele era todo o dinheiro que tinha no banco na época. Ao voltar para casa, ele passou por uma dessas cabines de espetáculo indecentes e pagou para entrar. Foi só depois de bater uma que ele percebeu a idiotice que era comprar uma trombeta quando ele não tinha nenhum interesse real em ter uma. Ele se deixou levar pelo momento. Isso virou uma espécie de exercício mental para ele. Agora, quando ele realmente se vê querendo alguma coisa, ele pensa: eu ainda vou querer isso depois que fizer aquilo? Depois de superar o entusiasmo? (Mais sobre isso no maravilhoso livro The Philosophy of Louis CK.)

Louis CK também fala sobre como seu sonho era sempre se apresentar como comediante no Carnegie Hall. Finalmente, depois de anos de trabalho árduo e sucesso, ele conseguiu a oportunidade. No entanto, quase imediatamente, sua mente começou a ver o outro lado, que aquilo não era o que ele tinha imaginado. “Eu pensei que receberia um envelope escrito de caligrafia dizendo ‘você foi convidado por este comitê’. Mas agora eu sei que Carnegie Hall é apenas o lugar que você aluga, e é melhor usar o Beacon. É um aluguel mais barato”.

Não é como se os estóicos fossem cínicos que renunciaram a todos os bens mundanos. Sêneca era bastante rico. Marcus tinha muito poder. Eles apenas entenderam o que essas coisas realmente eram. Foi o que lhes permitiu utilizá-las efetivamente, sem se tornar dependente delas.

Isso muitas vezes pode ser uma lição que você precisa experimentar para entender completamente. Você tem que chegar ao outro lado da cerca para entender que a grama do vizinho não é realmente mais verde.

No começo deste ano ganhei um Grammy por uma participação em um álbum. Foi muito emocionante me arrumar para ir. Mas como foi, realmente, receber um prêmio? Foi como qualquer outro evento que demora demais: uma chatice. Foram cinco ou seis horas para treze segundos de emoção (e ainda tive que encurtar uma entrevista importante sobre meu livro). E então, no final, a maioria dos produtores nem conseguiu o Grammy… Você tem que comprar sua própria placa online se desejar uma. Foi uma honra incrível e uma obrigação que provavelmente eu pularia na próxima vez, para ficar trabalhando. Certamente, ter feito isso agora diminui meu anseio por qualquer outro “prêmio”, posso garantir. Porque ter um não mudou a minha vida nem um pouco.

Quando somos jovens e ambiciosos, somos suscetíveis ao que os psicólogos chamariam de crença na “felicidade condicional”. Se tivéssemos isso, ganhássemos aquilo, fôssemos promovidos ou casados, de repente seríamos felizes, de repente nos sentiríamos bem.

É só com o tempo, e com a boa sorte necessária para obter essas coisas, que começamos a entender que tudo isso é apenas uma miragem sedutora e inalcançável. Assim que conseguimos essas coisas, queremos outras coisas – ou elas se revelam decepcionantes ou complicadas. Esperamos que essas situações venham livres dos nossos problemas atuais, mas isso não acontece, porque trazemos nossos problemas já existentes (e criamos novos problemas junto com elas).

Somente os filósofos e a sabedoria da idade podem nos fazer entender a verdade: tudo é meio que uma merda. Tudo tem seus problemas.

É um pensamento deprimente no início e muitas pessoas temem isso. Se tudo é uma merda, isso significa que é tudo sem sentido e que não há motivo para fazer nada? Isso significa que você nunca vai comer a boa refeição, comprar a trombeta, se apresentar no Carnegie Hall ou participar do Grammy?

Não, claro que não.

Basta entender o que essas coisas realmente são. O que significam de verdade. Não “vestidas de ficção”, mas no sentido real.

Compreender a verdadeira essência das coisas é o segredo da felicidade. Primeiro, porque pode fazer você feliz com o que você tem agora – eu posso te prometer, seja lá o que for, é suficiente. Em segundo lugar, porque permite que você aproveite o processo e o momento presente quando você se esforça. Eu não escrevo livros porque espero que eu possa finalmente ter um grande sucesso que me tornará rico e famoso e, portanto, feliz e livre. Eu escrevo livros porque, por mais trabalhoso que o processo possa ser, também é imensamente prazeroso e satisfatório. Eu não sou completamente indiferente aos resultados: eu quero sim que eles vendam bem e trabalho para isso. Mas fico bem se não venderem muito, e não tenho ilusões sobre o que o sucesso traz. Sem essa expectativa, sem querer que tudo ocorra de uma maneira específica, eu posso trabalhar melhor e tenho mais energia para direcionar ao que estou fazendo. Eu realmente posso viver a ideia de que o esforço é tudo o que temos, e o resultado é o extra. É como se diz no Bhagavad Gita: “O direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação”. Melhor ainda: nem precise do resultado da ação porque a ação é a única parte que não é uma merda.

Eu amo minha esposa, meu filho, minha casa, minha carreira e tenho muitos amigos que admiro e respeito. É muito tentador enxergar isso como um resumo da vida, ver essas coisas como perfeitas e imperecíveis. Mas isso é perigoso e delirante. Como todas as coisas externas, elas podem me decepcionar, acontecimentos trágicos podem tirá-las de mim – qualquer coisa pode acontecer. Também é bom ter sonhos, desejar coisas, se esforçar para ver o que você é capaz de fazer. Ainda assim, também é tentador pressupor que a felicidade e a autoestima virão naturalmente. Portanto, um pouco de desprezo é uma ferramenta útil para criar objetividade e perspectiva.

Marcus Aurelius ainda aproveitou sua boa refeição. Eu ainda gosto das coisas que eu amo. Gastar dois segundos para ver essas coisas por um novo ângulo? Esse é o segredo para aproveitar e apreciar e não ser escravizado por elas.

Tudo é uma merda. Eu sei disso. Você sabe. Deixe que isso te liberte.