O que eu aprendi sobre amor-próprio 2

Quando começamos a valorizar aquilo que somos, transformamos a nossa relação conosco e com o outro. E a vida ganha muito mais cor e alegria

Desenvolver amor-próprio tem a ver com olhar para si com mais generosidade | Crédito: Shutterstock

Tainá Goulart, via Vida Simples

“Gorda, baleia, saco de areia”, “Você é alta demais”, “Que cabelo estranho”, “Você vai usar essa roupa?! Não é melhor trocar?”, “Volta para o mar, Free Willy”… Essas eram algumas das tantas frases que me acompanharam ao longo da infância, adolescência e começo da vida adulta. Quando estava nas primeiras séries do colégio, eu era muito gorda. E sofria algo que na época não tinha nome, o bullying. Me lembro de nunca poder ter sido a Ranger Rosa, sonho de toda garota que assistia a Power Rangers. “Por acaso a Ranger Rosa é gorda assim como você? Não pode… Você vai ser um dos monstros que nos atacam”, diziam os meus colegas no intervalo da escola. Eu me sentia péssima, como se não houvesse mesmo um lugar para eu estar. Minha falta de amor-próprio também me levou a me tornar insegura com os garotos, e na adolescência tive um relacionamento muito abusivo. Meu então namorado me olhava e me dizia para trocar de óculos, pois os meus eram esquisitos demais, me falava para trocar de roupa, pois para ele eu não podia me vestir da forma como eu queria. E minhas respostas eram sempre “sim”. Afinal, ele era o único cara com quem eu, daquele jeito, seria capaz de namorar.

Na faculdade, me envergonhava ao passar perto das salas de engenharia, majoritariamente ocupadas por homens. Inconscientemente, o que eu sentia era que eu não era digna de estar ali, não estava dentro do padrão, não era bonita o suficiente para ser observada. Assim como muitas roupas e lugares também não eram para mim. Nem o biquíni, nem a praia. Acho que carreguei minha falta de amor-próprio por todos os lugares. No trabalho, uma das minhas chefes me causava calafrios, taquicardia e mãos suadas todas as vezes em que saía do elevador e entrava na redação. Era o início da minha carreira profissional, mas eu nunca pude ver que errar fazia parte desse começo e estava tudo bem. Então não confiava em mim. Achava sempre que nunca acertaria um texto, que nunca estaria bom o bastante, que aquela chefe nunca iria, finalmente, elogiar uma matéria minha. Quantas loucuras minha própria mente criou…

Hora de olhar para mim

Mas teve um momento em que decidi que não dava mais para viver naquela espiral da falta de amor-próprio e insegurança, que inclusive me trazia momentos de muita ansiedade. Eu tinha 24 anos, e então comecei a buscar ajuda para sair daquele buraco negro no qual eu estava por tantos anos da minha vida. Depois de conhecer alguns especialistas, encontrei uma terapeuta que, depois de algumas sessões, apelidei de “Mestre dos Magos”. A Daphne foi me ajudando a ver que eu mesma precisava achar o caminho. Aos poucos, fomos aprendendo a ver o que estava por trás dessa falta de segurança e quais eram os motivos que apertavam o gatilho para as crises de ansiedade.

E constantemente ela mostrava como eu ainda repetia esses meus padrões.
Mudar nem sempre é fácil; sair daquilo que estávamos acostumados a viver dá um trabalhão. Acho que um dos ensinamentos mais importantes que aprendi é estar no aqui e no agora. No momento presente. E por isso até tatuei essa frase no braço esquerdo. Para me manter neste presente durante uma crise de ansiedade, criei uma estratégia: passei a descrever o ambiente ao meu redor, detalhe por detalhe. As cores dos objetos, suas formas e tamanhos. Quando me dei conta, eu já não sentia mais calafrios quando a porta do elevador se abria e minha chefe chegava. E logo eu estava ali, na mesa dela, defendendo o trabalho que eu havia feito. Fui entendendo o meu lugar no mundo, fui olhando para mim como uma pessoa digna e capaz de fazer o que eu havia me proposto.

E que não podia mais permitir que alguém tentasse tirar aquilo de mim.
Mas ainda havia o quesito relacionamento amoroso, que, claro, envolvia o tal do amor-próprio. Bem, conheci um cara que mexeu muito com meus sentimentos. Ele se tornou uma obsessão na minha cabeça. Acho que a Daphne nunca chamou tanto a minha atenção para os meus padrões como nessa época. Eu não me olhava com amor, não acreditava em mim como mulher e profissional, e queria que ele me amasse. Como seria possível estar bem com alguém sem antes estar bem comigo mesma? Resultado: voltei às minhas crises de ansiedade. Não conseguia nem dormir sem pensar nele, sem querer mandar uma mensagem para dizer que eu estava ali, disponível. Foi um momento bem ruim, mas vejo que aquele episódio me mostrou o quanto era preciso me observar, enxergar o que ainda tinha que ser transformado em mim. Com paciência e amor, reprogramei a Tainá para viver diferente.

O efeito amor-próprio

Posso me lembrar exatamente quando o amor-próprio começou a fazer efeito em mim. Foi mágico. Eu recebi uma mensagem daquele cara e pensei: “Por que eu estou dando atenção a alguém que só faz eu me sentir mal?”. Naquele momento, uma sensação de liberdade cresceu no meu coração, como quando tomamos um remédio e ele, aos poucos, vai aliviando as nossas dores. Nas semanas seguintes, fui colocando nos meus momentos coisas que eu gostava muito de fazer, preenchendo minha mente com o que dava prazer: o texto que havia me dado trabalho mas que agora ficou incrível, o passeio com as amigas no final de semana… Fui trocando a palavra “complicado” por “desafiador”, e foi incrível como uma faísca de esperança começou a surgir. Logo o fogo se alimentou com minhas ações diárias para melhorar, para me ver como quem eu realmente era: forte, bonita, capaz de ter uma vida feliz.

Das reflexões que surgiam com meu tratamento terapêutico, comecei a compor canções. Eu sempre fui apaixonada pela música, e escrever era uma forma de tirar de mim todos os sentimentos ruins. De alguma forma eu conseguia analisar meus pensamentos, os gatilhos dos velhos padrões e que, com o tempo, foram se tornando versos das minhas letras. Acabei compondo mais de 15 canções, tiradas de momentos de aprendizagem. Agora estou preparando meu primeiro disco. Quem sabe não me torno como Adele, cantando sobre minhas transformações psicológicas?

Hoje, depois de cinco anos de terapia, auto-observação e coragem para sair daquele mundo em que me colocava, sou capaz de me olhar com mais paciência e, principalmente, mais amor. Namoro há quase dois anos e sinto que, se não fosse por essas mudanças que aconteceram dentro de mim, não conseguiria viver esse relacionamento. No ano passado, até coloquei um biquíni na praia, algo inimaginável para a Tainá de antigamente. O padrão das pessoas passou a ser mais um na multidão. Comecei também não só a aceitar mais o meu corpo mas também a cuidar mais dele: me alimento melhor, me exercito e sinto confiança para me vestir da maneira como me sinto bem. “Quem manda nesse barco sou eu”, diz uma estrofe de Bússola, uma das minhas músicas. “Quem manda nesse barco sou eu, quem escolhe o destino sou eu. Quem se joga mar adentro, esse alguém sou eu.” Hoje, sou dona do meu barco. O mar pode estar revolto, mas sei navegar pelas ondas na direção de onde eu quero ir. Entendi que esse crescimento é eterno. As crises podem até voltar, mas agora estou preparada para combatê-las. O que costumo dizer, porque aprendi com a minha própria história, é: não espere se amar de hoje para amanhã. Mas comece a olhar para si de forma diferente a cada dia.

Tainá Goulart é cantora, compositora e jornalista. Vive em busca de evolução, seja individual ou coletiva.

A Baixada e a Praia Grande 6

por Chico Gomes*

Historicamente, o território da Baixada Maranhense foi palco de um enredo formado por brancos europeus colonizadores, negros africanos e índios nativos ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX. Nessa microrregião eram geradas riquezas oriundas da produção do algodão, da cana-de-açúcar, do arroz, da farinha de mandioca, da pecuária, do extrativismo do babaçu etc., comercializadas na Capital e destinadas ao consumo interno e à exportação para a Europa, principalmente do açúcar e do algodão.

A Baixada Maranhense contribuiu decisivamente para conduzir o Maranhão ao segundo lugar nacional na produção de algodão e uma das províncias mais prósperas do nosso país, ombreada com Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

A fartura proveniente da nossa região impulsionou a construção dos suntuosos casarões de até quatro pavimentos, que serviam de residência para as famílias abastadas (fazendeiros da Baixada e ricos comerciantes de São Luís) e abrigavam os pontos comerciais da Praia Grande.

As embarcações que transportavam as nossas mercadorias para a Europa, traziam, no seu retorno a São Luís, lastros de pedras de cantaria e azulejos portugueses, os quais até hoje adornam as calçadas e fachadas dos sobrados desse cenário urbano e arquitetônico que vivenciou períodos áureos de progresso e opulência.

Todo o lucro obtido com a produção e o comércio permanecia concentrado nas mãos de uma aristocracia formada por fazendeiros e grandes comerciantes da Praia Grande. Os seus filhos estudavam nas melhores escolas da Europa ou nos centros mais desenvolvidos do nosso país – a Bahia e o Rio de Janeiro.

Como em todo o Brasil, na Baixada também os escravos africanos constituíram a base de sustentação da economia colonial e imperial. Sem o auxílio de máquinas e exaurindo a força dos seus braços, com jornadas de doze a quinze horas por dia, a vida útil de trabalho de um escravo durava de dez a quinze anos. Na Cafua das Mercês, na Praia Grande, funcionava o mercado de venda dos cativos procedentes da África e que abastecia com mão de obra graciosa as fazendas da Baixada e de outras regiões do Estado.

Na segunda metade do século XIX, os negros escravizados nas fazendas da Baixada, não suportando mais o perverso regime a que foram subjugados por séculos, promoveram diversas rebeliões, segundo relatos da professora e pesquisadora Mundinha Araujo, no seu brilhante livro “A Insurreição dos Escravos em Viana – 1867”.

Após essa sublevação libertária e de resistência à opressão escravagista, irradiada por toda a Baixada, os quilombos se multiplicaram e a economia baixadeira começou a estagnar. Vinte e um anos depois, com o advento da Lei Áurea, que aboliu o regime escravocrata de 350 anos (o mais longo da história das Américas), a atividade produtiva da Baixada entrou em decadência.

O declínio econômico da Baixada provocou a ruína do faustoso comércio da Praia Grande e o abandono dos luxuosos sobrados pelos seus moradores, que se deslocaram em sua maioria para o Rio de Janeiro.

Desde a época colonial até os tempos hodiernos, São Luís sempre foi vocacionada para o mercado externo, por meio de seus portos. Nos tempos da colonização, a maioria dos artigos exportados era produzido no continente, notadamente na Baixada, daí a conclusão de que o comércio da Praia Grande floresceu e conheceu o seu apogeu por força da pujança econômica da Baixada Maranhense.

Os barcos a vela realizavam a travessia para a Capital do Estado, atracando nos armazéns e de lá retornando com as mercadorias de consumo para abastecer as fazendas e o comércio da Baixada. A decadência de uma provocou a derrocada da outra.

Com o passar dos anos, a Praia Grande passou a ser identificada como o Centro Histórico de São Luís e, em dezembro de 1997, por reconhecimento da UNESCO, foi tombada como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

Hoje, nós baixadeiros, reconhecemos e reivindicamos que, antes de ser patrimônio da humanidade, o Centro Histórico de São Luís é o patrimônio do trabalho, do suor e do sangue do povo da Baixada Maranhense. Tributamos grande respeito e amor a São Luís, essa querida cidade que nos acolheu de braços abertos e que continua imbricada às nossas vidas e à nossa região de origem. Veneramos a Baixada, nossa terra, nossa gente, nosso gentílico baixadeiro, sua cultura, suas tradições, sua beleza esplendorosa, seus encantos, sua imponência natural espelhada nos seus rios, lagos e campos coloridos de flores e habitados por diversificadas espécies de peixes, pássaros e outros animais silvestres.

O Brasil e o Maranhão têm uma grande dívida para com a Baixada. E especialmente para com a nossa gente laboriosa, nossa nação baixadeira, que produziu riquezas no passado e foi abandonada pelo Poder Público no presente. Urge resgatarmos o nosso legado histórico para que a Baixada volte a ser o celeiro do Maranhão e o melhor lugar para se viver. Estamos na luta para suplantar esse colossal desafio e, com certeza, os “Ecos da Baixada Maranhense” serão ouvidos e hão de conquistar a mais ampla repercussão.

Chico Gomes – Ex-deputado estadual e ex-prefeito de Viana.

Renasce um patrimônio jurídico

por Natalino Salgado

No último dia 15, a história do Maranhão ganhou novo e importante capítulo com a reinauguração de um sobrado histórico na Rua do Sol, tido como a Casa do Direito no Maranhão, uma vez que, no primeiro quarto do século XX, o edifício, depois de intensa campanha popular, foi adquirido pelo governo do Maranhão, para ser a sede do curso de Direito, que ali funcionou até a década de 1970. Em sua fachada pende uma justa homenagem ao nome de um dos fundadores do curso de Direito, no longínquo ano de 1918: Fórum Universitário Fernando Perdigão. Outras funções foram exercidas ali pela administração da UFMA.

Para marcar a passagem de uma efeméride muito especial para o curso de Direito, o seu centenário, destina-se o prédio renovado ao programa de pós-graduação em Direito, pois nele passará a funcionar o Mestrado e logo, certamente, o Doutorado. Alvíssaras para os operadores do Direito no Maranhão, já que, no mês de abril, precisamente dia 28, o curso completará cem anos.

A efeméride será marcada por muitos eventos de um curso que tem dado ao Estado do Maranhão centenas de renomados professores, pesquisadores, advogados, jurisconsultos. O prédio passou por uma ampla e profunda reforma, que incluiu ainda adaptações de acessibilidade e uma biblioteca repleta de obras importantes e raras, tudo para torná-lo um legítimo Palácio de Ciências Jurídicas. Com certeza, berço de novas mentes capazes de levar adiante o conhecimento jurídico capaz de proporcionar justiça.

O grande pensador e poeta americano Ralph Waldo Emerson disse que “nenhuma obra grandiosa jamais foi realizada sem entusiasmo.” Pessoas idealistas, sonhadoras, mas com os pés bem plantados no chão iniciaram uma saga a partir do primeiro curso efetivamente instalado no Maranhão, o curso de Direito. Depois dele, outros foram se instalando sempre antecedidos pela saga de trabalho e esperança: Farmácia, Odontologia, Enfermagem, Serviço Social, Medicina. Todos eles foram percursos de luta e o desejo de arrancar o Maranhão das garras da ignorância e da falta de perspectiva às quais é legado toda nação que olvida a educação em qualquer de seus níveis.

O programa de recuperação – que incluiu o recém-reinaugurado prédio já mencionado e tantos outros marcos históricos no centro de São Luís – permite a revitalização de uma área que, ao longo dos anos, vinha sendo marcada pela mudança do eixo ocupacional urbano da cidade com as consequências indesejáveis da degradação e abandono.

Vale mencionar o importantíssimo programa que une Universidade Federal do Maranhão e IPHAN e que já restaurou outros grandes marcos da arquitetura maranhense: a Fábrica Santa Amélia e o Palacete Gentil Braga. A primeira inaugurada em 2015, onde deverá funcionar o curso de Turismo e Hotelaria e o segundo, que teve suas obras iniciadas no mesmo ano e inaugurado em 2017, onde se mantém o Departamento de Assuntos Culturais (DAC). Importante mencionar as obras efetivadas no Palácio Cristo Rei e no Palácio das Lágrimas, que demonstram compromisso e seriedade com a história e o rico patrimônio de nosso país. O gestor público tem obrigação e dever de zelo para com o acervo herdado e deixar um legado para as nossas próximas gerações.

Saúdo os estudantes, professores e servidores do curso de Direito que, nesta hora, têm motivo para se orgulhar de construírem uma história que honra os primeiros sonhadores e, fundamentalmente, ao estado do Maranhão que, neste curso, produziu centenas de nomes que contribuíram para consolidar um dos três poderes não só nesta unidade da federação, mas também nos diversos ramos do sistema legal brasileiro.

Natalino Salgado Filho
Membro titular da Academia Nacional de Medicina, e das academias de Letras e de Medicina no MA.

URBANO SANTOS: Prefeita Iracema Vale inaugura três escolas na Zona Rural 2

Os barracões de palha agora fazem parte do passado dos alunos do povoado Canzilo, São Felipe e Bacabal, na Zona Rural de Urbano Santos, cidade a 262 quilômetros da capital. A Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Educação, inaugurou neste sábado (17), três escolas nestas localidades.

O ato significa mais um avanço na meta da gestão da prefeita Iracema Vale, em priorizar e melhorar a Educação no município. Os novos prédios atendem perfeitamente os padrões exigidos pelo MEC (Ministério da Educação) e foram construídos com recursos próprios.

Diante do atual cenário econômico, a prefeita destaca que a boa gestão consegue buscar o equilíbrio das contas e com isso não parar de investir no município. “Inaugurar três escolas não é uma tarefa fácil. Mas na nossa gestão, a educação é algo prioritário. Os estudantes precisam estar em locais adequados para o ensino e por isso nos esforçamos para cumprir esta meta”, declarou a Iracema Vale.

As escolas vão acolher estudantes do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano) e EJA (Educação de Jovens e Adultos). Amplas e modernas, as unidades possuem sala com capacidade para 30 alunos, secretaria, cantina, local adequado para o armazenamento de merenda escolar, banheiro feminino e masculino.

A geração que não entende o conceito de gratidão

Os eternos credores do universo

POR RUTH MANUS, via Estadão

Gosto de uma série de coisas que hoje em dia podem facilmente ser consideradas como fora de moda: alguns modelos de calça que já não fazem muito sentido, alguns roteiros de viagem que se perderam no tempo, algumas comidas que já nem se encontra mais no supermercado. Mas a coisa mais fora de moda da qual eu realmente gosto é essa tal de gratidão.

Não sei se a minha geração foi criada para entender esse conceito. Acho que não. Parece que temos que fazer muito esforço para entender isso, inclusive eu. A noção de gratidão é realmente um lance que ficou meio perdido nas últimas décadas e que faz com que nós fiquemos um pouco desconcertados ao olhar para essa palavra, assim como fica uma criança nascida nos anos 2000 ao olhar para uma vitrola, sem entender bem qual a sua finalidade.

Crescemos com a nítida sensação de que somos credores da vida. Assim que nascemos começamos a debitar da conta dos outros uma série de dívidas que julgamos que eles têm para conosco e, assim, vamos tendo cada vez mais certeza de que somos verdadeiramente intocáveis e que o universo tem toda a obrigação de nos proporcionar a felicidade plena, não porque merecemos, mas porque temos direito.

Nessa geração o raciocínio é o seguinte: em vez ser grato e devedor, o indivíduo sempre se considera um generoso credor. Não é ele quem é grato aos pais pela criação dedicada, são seus pais que lhe devem muito por ser bom filho. Não é ele quem é grato ao professor pelos ensinamentos que recebeu, é o professor que lhe deve muito pois “é ele” quem paga seu salário. Não é ele quem é grato ao chefe pela oportunidade de trabalho, é o chefe que lhe deve muito por ele cumprir todo dia suas obrigações.

As coisas mais básicas num ser humano legal (retribuir o afeto da família, respeitar professores, estudar quando se tem oportunidade, trabalhar bem, cumprir horários, preocupar-se com os amigos, ser gentil com os velhinhos e dar seu melhor todo dia) tornaram-se um verdadeiro passaporte diplomático para o mundo dos semideuses. Fazer o mínimo vem se tornando o suficiente para tornar-se o máximo.

E quanto mais longe nos colocamos do conceito de gratidão, mais a nossa vida parece vazia, incompleta. Voltamos mais uma vez à história do copo meio cheio e do copo meio vazio. Quem olha para sua vida e sente-se grato, tem um copo sempre meio cheio. Quem olha para sua vida e sente-se credor das pessoas e do universo, terá sempre um copo meio vazio.

É preciso que a gente saiba resgatar essa ideia de gratidão. Olhar para as nossas vidas e pensar que temos muita sorte, pelo simples fato de termos a base: afeto, comida, teto, saúde. Precisamos parar de olhar para os nossos dias pensando no que não temos: o corpo ideal, o salário estratosférico, o namorado mais bonito, a dupla promoção, a viagem dos sonhos.

Enquanto pensarmos que todos nos devem muito por tudo o que fazemos por eles, sem nunca nos dar conta de que as pessoas, em geral, fazem tudo o que podemos por nós, seguiremos sendo essa famosa geração mimada, cujo objetivo vai ser sempre ganhar o mundo ao invés de ser grata por ter a oportunidade de tornar o mundo um lugar melhor.

Seu propósito é ser vocêDébora Zanelato

Para levar uma vida mais realizada e com mais sentido, o primeiro passo, diz a coach Paula Abreu, é descobrir quem somos de verdade

Débora Zanelato, via Vida Simples

Seu propósito de vida é ser você. Não se deixe levar pelo ego, não acredite que você existe para um propósito especial ou extraordinário. A sua existência já é extraordinária.” É assim que a coach Paula Abreu começa a falar em seu livro sobre uma questão tão recorrente em nossos dias: o propósito da nossa vida. A autora de Escolha Sua Vida (Sextante) defende que, para sermos felizes, o primeiro passo é mergulhar em uma autodescoberta. “Ficamos presos a conceitos e histórias que nos foram impostas, inclusive conceitos sobre o que é a felicidade”, ela diz. E o medo (de fracassar ou até mesmo de algo dar certo) precisa ser deixado de lado se quisermos realizar nossos sonhos.

De onde vem nosso medo de arriscar, de fracassar?

Você diz que tem a ver com nosso conceito de felicidade… Quando somos crianças, muitas vezes sabemos o que queremos. A gente pensa em algo que gostaria de fazer e ser feliz. Mas depois a gente cresce e descobre que ser feliz é algo complicado, temos que cumprir uma série de etapas, e assim você vai ganhando um montão de camadas que não eram suas. E, quando conseguimos nos despir dessas camadas, tudo o que é diferente disso dá medo. É o que eu brinco de “felicidade do Facebook”. Qual felicidade você quer? A de verdade ou aquela que você pode mostrar e todo mundo vai entender como felicidade? Tinha amigas que falavam ter inveja de mim. Porque eu tinha um emprego maravilhoso, um casamento dos sonhos, filho… Mas eu não estava feliz! Só que existe o medo de abandonar isso e o receio das críticas. Então eu digo que o medo vem, dentre alguns fatores, da falta de clareza. Não temos clareza do que realmente queremos.

E qual é a importância de ser quem somos nesse processo?

O seu propósito de vida deve ser você. Quando você descobre quem é e expressa a sua verdade, acontece um despertar. Você fica mais consciente dessas camadas e condicionamentos, que não são seus e não lhe representam. Percebo que as pessoas ficam tensas sobre qual é o seu propósito, e costumo dizer para ficarem calmas porque o propósito de vida de cada um é ser você mesmo e ser feliz. E o secundário, que é fazer o que você gosta, está alinhado a isso, a ser você mesmo. Ao descobrir quem você é de verdade, passa a ter menos medo. O que as pessoas vão falar não importa. Então você aprende a dizer não. Em geral, não conseguimos dizer não por medo de decepcionar o outro, e também pelo mal-estar de achar que, ao recusar, estamos perdendo alguma coisa muito legal. Mas, quando você sabe o que é e o que quer, se torna capaz de dizer não com liberdade e entende que isso é essencial para não tirá-lo daquilo que ama. Um não necessário é um sim para você.

Que caminhos você propõe para essa descoberta de nós mesmos?

O jeito mais eficiente é se fazer perguntas. Se não temos as respostas que queremos, precisamos criar perguntas diferentes. Reclamamos da nossa realidade em vez de procurar o que pode ser aprendido com o desafio. Eu incentivo as pessoas a criar um caderno do eu. Listar o que amam, odeiam, seus valores. E sugiro que, todos os dias, criem duas perguntas e saiam pelo mundo em busca de respostas. Enquanto cada um não parar para refletir sobre si mesmo nada vai mudar. Nosso eu está embaixo de camadas de crenças e valores. Se reparar, buscamos ser como todo mundo. E, segundo disse Carl Jung, imitar os outros é algo útil para o coletivo, mas muito nocivo para a individualidade.

Como expressar quem você verdadeiramente é?

O primeiro passo é saber que você não vai agradar a todos. É poder ser impopular. Quando a gente quer se expressar, tem que abraçar a vulnerabilidade. É muito melhor agradar quem tem a ver e quem vai gostar de você por ser quem você é. Não quero pessoas que gostem de mim pela roupa que estou usando ou pelo cargo que tenho. Porque amanhã posso não ser isso. Quero alguém que goste da minha essência. Eu sou coach e as pessoas têm a imagem de um profissional muito sério, contido. Eu já dei sessão em que toquei ukulelê (instrumento de cordas), fiz trampolim. Coach pode fazer trampolim? Não sei, mas eu faço. Tem gente que não virá até mim porque procura a imagem de uma pessoa respeitável, mas outros virão justamente por se identificarem com meu jeito.

E como lidar com as críticas?

Acredito que, quando você está tranquilo do que está fazendo, percebe que a crítica do outro, na verdade, tem a ver com ele próprio. Quando decidi não ter mais carro, as pessoas se incomodaram. Mas é um incômodo delas, percebe? Porque elas acreditam que não dá para viver sem um automóvel. A gente fica mais tranquilo quando entende que a história é só dela e não é mais minha. Ao fazermos uma escolha diferente, nos tornamos um holofote na vida do outro, e ele sente que também deveria estar fazendo algo diferente. Então, quando eu não tenho um carro, todas as pessoas que acham que isso é necessário são quase obrigadas a pensar que é possível não ter um carro. E isso gera um incômodo.

Você também diz que, além do receio de fracassar, o medo do sucesso também nos impede de realizar sonhos. Como é isso?

Muita gente tem medo de fazer algo que dá certo. Quando pergunto quais são as consequências possíveis se aquele objetivo der certo, muitas vezes encontro algo que é resultado disso e a está impedindo de atingir a meta. Tive uma cliente que queria emagrecer, mas nunca conseguia. E chegamos à conclusão de que ela tinha a fantasia de que, quando ficasse magra, seria mais popular e não saberia como reagir a isso, pois era tímida. Ou seja, o medo criou uma história na cabeça dela. Ao longo do programa, coloquei como desafio que, todos os dias, ela tivesse uma conversa com um desconhecido. Costumo dizer que, além da clareza que ajuda a vencer o medo, você também precisa “queimar os barcos”, agir.

E quando a pessoa procrastina por um perfeccionismo?

Não existe pessoa que está empacada porque é perfeccionista. Quando ouço isso, digo que ela está mentindo para si mesma. Ninguém atinge a perfeição. Só se atinge a perfeição aperfeiçoando. Se está empacando porque fica planejando, pode no máximo chegar a um plano perfeito, mas todo plano precisa de um campo de batalha. Porque, na prática, as coisas serão diferentes, você verá o que precisa ser ajustado, mudado. Haverá obstáculos com os quais não contava. É proveitoso se colocar em movimento imediato. Quem coloca a culpa no perfeccionismo está com medo ou insegurança. A pessoa que espera ter a melhor câmera para começar a fotografar corre o risco de nunca fazer uma foto.

E a justificativa de que não faz nada para mudar porque não tem tempo?

Isso acontece porque, em geral, desperdiçamos horas a fio com o que não importa. Você diz que não tem tempo, mas assiste a várias novelas, fala no WhastApp em diversos grupos. Perdemos tempo em pedacinhos, que, quando acumulados, resultam em muito tempo. Cinco minutos aqui, 15 ali e, quando se vê, uma hora se passou, tempo suficiente para fazer algo que você ama. Indico que as pessoas façam uma lista com todas as atividades, durante uma semana inteira. Isso inclui até o tempo em que acordou e levou 40 minutos pra sair da cama. Essa grande lista vai ajudar a avaliar o que pode ser delegado ou eliminado.

Quando falamos de empreender, temos a ideia de que isso envolve criar uma empresa, sair do emprego. Esse é o caminho?

Não necessariamente. Empreender a si mesmo não é empreender um negócio. O pensamento não é o de que para ser feliz não posso trabalhar em uma empresa. Eu também tenho pessoas que trabalham comigo, quero que sejam felizes no que fazem. O mais importante é encontrar um trabalho, seja ele a sua própria empresa, seja algo que já existe, que esteja alinhado com seu propósito primário: ser quem você é. Muitas pessoas até redescobrem o próprio emprego quando mergulham em quem elas são e mudam a relação com o trabalho que já têm. Vale lembrar que nessa descoberta não existem regras ou um único caminho. O grande propósito é sempre ser você mesmo.

São José de Ribamar abençoa e Acadêmicos do Tatuapé é bicampeã do carnaval paulistano

Só deu Maranhão no carnaval da maior cidade do país. Além do bicampeonato da Acadêmicos do Tatuapé, o segundo lugar ficou com Mocidade Alegre, que fez uma homenagem à cantora Alcione, de 70 anos, com um enredo marcado pelo clássico “Não deixa o samba morrer”, gravado pela Marrom em 1975

Confira a reportagem do Estadão.

Acadêmicos do Tatuapé se torna bicampeã do carnaval paulistano em 2018

Acadêmicos do Tatuapé tenta o bicampeonato homenageando o Maranhão. Foto: Felipe Rau/Estadão.

A Acadêmicos do Tatuapé é bicampeã do carnaval paulistano, com nota máxima em todos os quesitos. A Mocidade Alegre ficou com o vice-campeonato. A escola não conseguiu patrocínio e apostou no reaproveitamento de penas, pedras e outros materiais para poupar cerca de R$ 800 mil este ano.

De acordo com Eduardo dos Santos, o presidente da escola, mais de 90% das fantasias são recuperadas depois do carnaval. Para explicar o espírito por trás da ação, em entrevista à colunista do Estado, Sonia Racy, ele citou um samba-enredo da Salgueiro de 1986: “Tem que se tirar da cabeça aquilo que não se tem no bolso!”

A bicampeã levou carros colossais e deixou o sambódromo, na madrugada do sábado, já como forte candidata ao título. Ainda arriscou uma batida reggae, estilo musical que nasceu na Jamaica e é muito ouvido no Maranhão, tema do seu enredo. Já o carnavalesco Wagner Santos, que estreou na Tatuapé com vitória, desenvolveu um tema que conhece bem, já que é maranhense.

As escolas Unidos do Peruche e Independente Tricolor foram rebaixadas para o Grupo de Acesso.

Desfile. Em seu desfile no sábado, 10, a escola da zona leste de São Paulo levou carros colossais e fantasias ricas em detalhes para a avenida. Já ao fim do desfile, já era apontada como forte candidata ao bicampeonato.

A vice-campeã Mocidade Alegre fez uma homenagem à cantora Alcione, de 70 anos, com um enredo marcado pelo clássico “Não deixa o samba morrer”, gravado pela Marrom em 1975. Até a apuração da última categoria de notas, a escola ficou com o mesmo número de pontos das escolas Mocidade Alegre, Mancha verde, e Tom Maior. O resultado foi decidido por critérios de desempate.

No desfile da Mocidade, foi Alcione quem puxou seu próprio samba no começo do desfile ao lado dos intérpretes Tiganá e Ito Melodia, ainda no chão do Anhembi, e depois subiu no último carro da escola para ser homenageada como o enredo “A voz marrom que não deixa o samba morrer”. O investimento em grandes alegorias já apareceu no abre-alas da escola, formado por três carros que ressaltaram as belezas naturais do Estado do Nordeste e a influência dos franceses, que fundaram a capital São Luís no século XVII.

SÃO JOSÉ DE RIBAMAR: Acadêmicos do Tatuapé prestigia lançamento do Carnaval da cidade 2

A escola paulistana Acadêmicos do Tatuapé participou neste domingo (04) do lançamento do Carnaval de São José de Ribamar que este ano acontece de 10 a 13 de fevereiro. Com o tema “São José de Ribamar na Passarela do Mundo”, a edição 2018 faz alusão à homenagem feita pela escola, que este ano conta no sambódromo a rica história do santo padroeiro do Maranhão.

E foram eles, os legítimos representantes da agremiação campeã do carnaval de 2017, que deram o tom do que promete dominar nos dias oficiais da folia momesca. A programação também contou com o reforço e talento da cantora Negra Jane, de Goiânia, da bateria forte da Escola Unidos de Ribamar, Império Serrano de São Luís, Bloco Fênix, além da participação do cantador de Bumba Meu Boi, Chagas.

Para o prefeito ribamarense, Luis Fernando, o momento é de alegria e emoção, afinal o município ganhou de presente grande destaque internacional. “Estamos muito felizes em poder receber hoje aqui representantes da escola que cantam esse ano a religiosidade do nosso município além é claro do reforço que recebemos para alavancar cada vez mais o nosso carnaval”, completou.

A agremiação que esteve em São Luís para cumprir agenda carnavalesca, fez visita de cortesia para conhecer o município, receber as bênçãos do padroeiro, além é claro de apresentar oficialmente à população, o samba enredo que destaca as belezas e religiosidade do município que completou 65 anos de emancipação política.

Emocionado com a receptividade dos ribamarenses, o presidente da Acadêmicos do Tatuapé, Eduardo Santos, destacou toda a empolgação e expectativa da escola para mostrar na avenida a história do Maranhão. “Estamos muito felizes pela escolha e ansiosos para apresentar os detalhes de todo um trabalho que ao longo do ano estamos desenvolvendo. Temos certeza que São José de Ribamar, já abençoou”, brincou o presidente cantando o refrão do samba “Viva São José” que desfila na madrugada do dia 10.

A emoção também tomou conta de dona Elisa Moura. Ela conta que nasceu, foi criada no município, mas que não vai conseguir conter as lágrimas quando ouvir o nome do seu santo preferido ser cantado por uma verdadeira multidão. “Tô ansiosa querendo assistir esse desfile e pode ter certeza que eu e todos os ribamarenses vamos vibrar com a escola na avenida”, contou.

Circuitos da folia

A programação oficial vai contar com apresentações de cerca de 130 agremiações, genuinamente ribamarense, entre blocos organizados, afro, escolas de samba, bandas, artistas locais, dentre outros.

Além da Sede e Vilas, os circuitos da folia ainda contam com outros seis endereços, Parque Vitória, Matinha, Mata Grande, Vila Sarney Filho, Turiúba, e Nova Terra.

A segurança tanto para a prévia quanto dos espaços oficiais da folia, será reforçada por homens da polícia militar, corpo de bombeiros além da Guarda Municipal e seguranças.

Lava-Pratos

A 72ª edição do Carnaval do Lava Pratos será realizada nos dias 17 e 18 de no Parque Municipal do Folclore Therezinha Jansen, na orla marítima da sede da cidade.

A morte e o tempo verbal

A morte e o tempo verbal A primeira vez em que você precisa colocar uma pessoa no passado não é algo fácil de esquecer

Ruth Manus, via O Estado de S. Paulo

Eu não sei se morrer é difícil. Deve ser – em alguns casos mais do que em outros. Mas de uma coisa eu sei: ficar é muito difícil. Ficar é sangrento. Aliás, eu tenho muito mais medo de ir ficando do que de ir morrendo. Disse isso outro dia a uma amiga. Deus me livre de viver até os cento e poucos anos. Pra quê? Pra ver todo mundo morrendo antes de mim? Não, não estou disposta a ganhar essa competição.

Já aprendi que perder as pessoas é duro por muitos ângulos. Não se trata apenas da ausência. São as dúvidas. Por onde é que ele anda agora? Ou melhor, será que ele anda em algum lugar agora? E ele sabe que eu estou sofrendo? Ele sofre por eu estar sofrendo? São as hipóteses. E se ele ainda estivesse aqui? E se tivesse dado tempo de ele ficar mais um pouco? E se eu tivesse tido tempo de fazer diferente?

É difícil por muitas razões. Mas existe uma dificuldade muito pontual – e que até costuma ser rapidamente superada, mas que se alojou na minha memória como uma das partes mais cortantes desse processo. Trata-se da inusitada e inesquivável relação entre morte e tempo verbal.

A primeira vez em que você precisa colocar uma pessoa no passado não é algo fácil de esquecer. A primeira vez que você se flagra dizendo que ele “era”, que ele “gostava”, que “dizia e “frequentava” e “comia” e “dançava” e “fazia” e “ria” e “detestava” e “escrevia”.

A gente até pode se preparar para certas mortes. Podemos organizar a cabeça, preparar os documentos, pensar no rumo dos imóveis, na liberação do seguro e no advogado que cuidará do inventário. As mortes anunciadas têm essa incômoda vantagem. Mas ninguém se prepara para um verbo no passado.

E não importa quantas mortes a gente já tenha encarado: não existe experiência nem direito adquirido no ramo desses tempos verbais. Podemos nos habituar aos velórios, conhecer o melhor caminho para o cemitério, ter o contato do agente funerário na memória do celular, conhecer o juiz da Vara da Família e Sucessões pelo nome. Mas sempre que precisamos colocar alguém no pretérito imperfeito pela primeira vez é como se fôssemos absolutamente virgens naquela matéria.

A sensação é a de um abandono. Nosso para com eles, deles para conosco. Eles partiram e agora nós vamos colocá-los no passado. Eles já não são, eles eram. E não importa o quanto eles sigam sendo, no presente, dentro do nosso peito. Para o mundo, para o cartório, para a seguradora e para regência verbal, eles eram e já não são.

O Zé envernizava os móveis de madeira. A Má ria de absolutamente tudo. O Gabriel ia à igreja. O Cris cantava desde muito novo. O Paulinho velejava sob o céu azul. O Fernando dirigia televisão. O Chicão jogava handebol. O Marcito mergulhava no fundo do mar. O Urian pintava com maestria.

Dizendo hoje até pode soar bonito, como um passado consolidado em memória. Mas na primeira vez em que se diz, de bonito não tem nada. Nem na segunda e provavelmente na terceira também não. Dá vontade de não terminar a frase, porque dizer isso parece significar que o fio se rompeu em voz alta. É como consumar com palavras o conteúdo do atestado de óbito. Ninguém quer fazer isso.

Desculpem-nos por termos nos rendido às exigências mimadas dessa tal de gramática. Por nós, vocês continuariam no presente, ainda que fora do nosso alcance. Desculpem essa nossa fraqueza de ter medo que pensem que estamos loucos se continuarmos tratando vocês como vivos e permanentes. Esses padrões ideais de comportamento são mesmo muito incômodos.

O que interessa é que seguimos sendo capazes de ouvir suas vozes. Por vezes, até sabemos o conteúdo do que seria dito. O cheiro de vocês segue persistente. Memórias do passado seguem sendo capazes de construir quem somos no presente. O verbo, embora continue sendo inoportuno, segue sendo apenas um verbo.