Assembleia Legislativa premia vencedores do 41º Festival Guarnicê de Cinema em três categorias

Moraes (Agência Assembleia)

A Assembleia Legislativa do Maranhão entregou premiação aos vencedores do 41º Festival Guarnicê de Cinema, durante a cerimônia de encerramento do evento, realizada no último sábado (16), no Cine Praia Grande, no Centro Histórico de São Luís. A diretora adjunta de Comunicação da Alema, jornalista Sílvia Tereza, representou o Parlamento Estadual.

O Festival Guarnicê de Cinema aconteceu entre os dias 9 e 16 de junho, coordenado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio do Departamento de Assuntos Culturais (DAC/PROEXCE), com apoio da Assembleia Legislativa, que premiou os melhores nas categorias documentário, vídeo e filme em curta-metragem.

O “Prêmio Cinematográfico Assembleia Legislativa do Maranhão”, subdividido em “Prêmio Erasmo Dias”, “Prêmio Mauro Bezerra” e “Prêmio Bernardo Almeida”, foi entregue para Taciano Dourado Brito, vencedor das categorias melhor curta (“Prêmio Erasmo Dias”) e melhor documentário (“Prêmio Mauro Bezerra”), pelo filme “Marina”, e para Daniel Drummond, vencedor da categoria melhor curta de ficção (“Prêmio Bernardo Almeida”), por “A Capataz”. Cada um dos prêmios corresponde a dez salários mínimos. Daniel Drummond não compareceu ao evento e nem enviou representante, mas receberá em outra oportunidade.

Taciano Dourado Brito, vencedor de duas categorias, recebeu as premiações das mãos da diretora adjunta de Comunicação da Assembleia Legislativa, Silvia Tereza. “A Assembleia Legislativa apoia o Festival Guarnicê de Cinema por considerá-lo de suma importância para o Brasil. E não somente por apresentar um panorama da produção audiovisual brasileira, com a participação de cineastas e produtores de alta qualidade, mas, sobretudo, por também destacar o trabalho produzido no Maranhão nessa área e revelar muitos talentos, além, claro, de auxiliar na circulação de obras de cineastas de todo o Brasil”, disse.

Além das premiações, foram homenageadas a cineasta Anna Muylaert, a produtora Ariadine Mazzetti, a realizadora Edna Fujii e Maria Raimunda, que frequenta o festival desde as primeiras edições, ainda como Mostra Super 8 de Cinema.

Comer, ler e aprender 2

A comida sempre esteve presente nos livros, e o mais gostoso dessa relação é quando percebemos que, entre uma leitura e outra, podemos conhecer mais sobre a vida e sobre cozinhar

Ana Holanda, via Vida Simples

Um dia, relendo Dom Casmurro, um clássico da literatura brasileira escrito por Machado de Assis, a jornalista Denise Godinho se deparou com um trecho, entre os protagonistas da história, que atiçou seu paladar. Era uma conversa entre Capitu e seu amado Bentinho, logo no início da obra. Assim que descobre que irá para o seminário, Bentinho vai até Capitu para lhe contar uma novidade nada boa. Naquele exato momento, um escravo, que vendia cocadas em um grande tabuleiro, passou pelos jovens e lhes ofereceu o doce de coco, mas Capitu não se interessou. Para Bentinho, esse foi o sinal de que ela estava abalada com a notícia de sua ida ao seminário — ela adorava cocadas e jamais as rejeitaria. A questão é que as cocadas permeiam as páginas de Dom Casmurro e a desconfiança de Bentinho, anos depois, de que Capitu o traía. Ao terminar esse capítulo inicial, Denise, inspirada pela narrativa, correu até a cozinha para fazer a tal da cocada. “Improvisei um beijinho com o que tinha em casa e que matou a vontade. E essa coisa de comer o doce, lendo sobre ele, me trouxe vários questionamentos sobre a obra: por que será que Machado de Assis decidiu alimentar Capitu e Bentinho com cocadas? Será que ele gostava do doce ou o comia enquanto escrevia o livro?” Foi para responder essas e outras perguntas que nasceu o projeto Capitu Vem para o Jantar, que fala de literatura e as comidas presentes em suas páginas. Primeiro em formato de blog com texto e receita, depois em livro editado pela Versus, e mais recentemente como um canal no YouTube, em que Denise segue com suas reflexões literárias e gastronômicas.

Depois de Dom Casmurro, Denise passou a ler os livros com outro olhar: o de quem quer aprender a cozinhar para, depois, se deliciar. E, dessa forma, entender mais sobre os livros e seus enredos — e sobre si mesma, por que não? Sim, porque ao pesquisar sobre os pratos citados nas obras literárias, Denise percebeu que eles podiam ser também parte da própria história. No caso de Machado de Assis, ela descobriu que, em uma época na qual os costumes parisienses eram o modelo de comportamento para o mundo todo, o escritor seguia na contramão. “Ele simplesmente não suportava pedir filet de poisson em um restaurante se podia dizer apenas filé de peixe. O palanque dos protestos eram os livros. É por isso que as referências aos alimentos em suas obras são sempre brasileiras, como o caso da cocada de Dom Casmurro”, escreve Denise nas primeiras páginas de seu livro. E só para fechar a história das cocadas e não deixá-lo com vontade, a jornalista foi atrás da receita original e descobriu, por exemplo, que ela não levava leite condensado — o ingrediente ainda não era produzido por aqui e trazê-lo da Europa era algo caríssimo. Então as escravas cozinhavam tudo com mel e rapadura. Na versão que Denise traz em seu livro, a cocada leva: um copo americano (200 ml) de água, 1 quilo de açúcar, uma xícara de chá de coco ralado grosso e duas xícaras de chá bem cheias de leite em pó.

O mais bacana da história de Denise e seu Capitu Vem para o Jantar é que entre uma leitura e outra — ela, que vem de uma família de italianos com portugueses — aprendeu a cozinhar. “Em casa todo mundo cozinhava bem e tinha o maior prazer nisso, então eu só aproveitava os banquetes sem me preocupar”, conta. Mas ao ler e se enveredar pelas receitas ela percebeu que os dois juntos, literatura e comida, lhe trouxeram uma bagagem de conhecimento incrível e um apetite mais apurado. “Aprendi a ler os livros com outro viés e que, em um país onde ainda se lê pouco, talvez usar a gastronomia seja um incentivo para que as pessoas se interessem mais por isso. Por fim, cozinhar se tornou uma terapia, um momento em que posso refletir sobre o que está acontecendo na minha vida enquanto bato um bolo. E como é divertido cozinhar algo que carrega tanta história”, resume.

O livro de Denise traz mais de 50 receitas de pratos presentes em obras, de clássicos a leituras rápidas e leves. Há desde o cachorro-quente de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, ou a paella de Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, até a desastrosa sopa azul de O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, e o cosmopolitan de Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James. Mas, como boa cozinheira e leitora, Denise tem suas receitas prediletas: o bouef bourguignon, do livro Julie e Julia; a cerveja amanteigada de Harry Potter; e a tal paella de Hemingway. “Em Julie e Julia, Julia (Child, famosa autora de livros de culinária) diz que é um prato perfeito para quando colocam seu talento à prova. E eu tenho usado esse conselho. Faço esse prato toda vez que preciso receber alguém em casa”, revela. “Uma vez, fiz para a mãe de um namorado e ela amou. O relacionamento acabou, mas a amizade com ela continuou, que sempre comenta sobre o sabor da carne, que nunca saiu da cabeça dela.” Já a cerveja amanteigada tem a ver com o fato de Denise ser fã de Harry Potter. “E a paella de Hemingway é uma receita que foi me dada pelo proprietário do restaurante Botin, que era frequentado por ele”, conta, com orgulho.

A comida sempre esteve presente nos livros, provavelmente porque são parte integrante da vida. Há obras em que ela é a protagonista, como em Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel (Martins Editora), A Festa de Babette, de Karen Blixen (Cosac Naify), Minha Cozinha em Berlim, de Luisa Weiss (Zahar), ou Comer, Rezar e Amar, de Elizabeth Gilbert (Objetiva). Ok, neste último, os pratos ocupam apenas a primeira parte do livro, mas é irresistível a maneira como a própria Elizabeth vai se fartando com as massas, pizzas e molhos italianos. E a baita vontade que dá de comer cada um daqueles pratos. Mais do que isso, a beleza está em perceber que, quando ela se delicia com tudo aquilo, não alimenta só o corpo, mas a alma, e se refaz, entre uma garfada e outra, do fim do casamento, da falta de sentido da vida. A comida, de certa maneira, a ajuda a se reencontrar.

Arte e comida
É essa capacidade que a comida tem de nos fascinar e ensinar que atraiu a jornalista Michelle Strzoda e a historiadora e chef de cozinha Ana Roldão. A dupla criou o projeto Degustando Palavras, uma série de encontros sobre cultura, memória, arte e literatura e sua relação com a cozinha. E que, em breve, deve se transformar em livro. O Degustando já está na quarta temporada e acontece, atualmente, no Instituto Estação das Letras, no Rio de Janeiro. São cinco conversas, com pratos deliciosos para comer ao final (claro!), que falam sobre a relação de cinco artistas importantes com a comida: a escritora inglesa Jane Austen, a pintora mexicana Frida Kahlo, o pintor catalão Salvador Dalí, a duquesa austríaca Maria Antonieta e o escritor português Fernando Pessoa. Nos encontros, a historiadora portuguesa Ana Roldão, que é pesquisadora de comidas do século 19 e artes à mesa, conta, por exemplo, como Frida Kahlo registrava suas receitas em um caderno que a artista chamou de Livro da Erva Santa. Ali, Frida não apenas passava a limpo suas receitas e pratos favoritos mas também suas memórias e intimidades. De novo, a comida presente na vida e vice-versa. “Frida gostava de receber, era uma ótima anfitriã. E, quando tinha visitas em casa, ia para a cozinha”, conta Ana, que também se dedica a fazer releituras de pratos históricos. “Não sou chef de cozinha, sou historiadora”, afirma de maneira categórica. “Mas, para fazer essas releituras, precisei aprender a preparar os alimentos”, diz ela.

A questão é que a comida sempre esteve muito presente na trajetória dessa historiadora. Ana nasceu e foi criada em Portugal. Quando criança, vivia na casa da avó Cacilda Roldão, uma mulher muito educada e refinada, que a ensinou todas as normas de etiqueta e regras à mesa. “Ela cozinhava com preciosismo, das refeições do dia às mais elaboradas”, relembra Ana, que tem como prato de infância predileto a salada com rissole de camarão. A paixão pelas artes à mesa, que definiu sua carreira profissional, veio desse tempo. O desafio de Ana, atualmente, é contar essas histórias, que têm tão a ver com a nossa história também — somos colônia portuguesa —, só que de um jeito atual. Como falar sobre os hábitos portugueses que herdamos? Contando, como me revelou Ana, que Fernando Pessoa adorava arroz-doce. E que o também escritor lusitano Eça de Queiroz é um dos autores que mais abordam a comida nos livros.

A curadoria do Degustando é feita por Michelle, que não tem tanto apreço por cozinhar, mas aprecia um bom prato, as conversas que surgem em torno da cozinha, da mesa e os livros. “A cozinha é o lugar da casa onde fico mais à vontade para contar histórias e também para conhecer mais o outro. Eu cresci lendo livros ou fazendo lição de casa na mesa da cozinha. Se não tinha borracha para apagar um errinho, por exemplo, usava o miolo de pão para esse fim”, conta ela. Hoje, a cozinha ainda segue sendo inspiração. “O italiano Leonardo da Vinci inventou o guardanapo e era vegetariano. E a gente nem sabe disso”, revela Michelle, que adora ler sobre artistas e escritores e descobrir curiosidades sobre eles ligadas ao comer. “A escritora francesa Simone de Beauvoir, que sempre teve uma aura de arrogância, se libertava quando o assunto era comida. Ela tinha encontros regados a bebida e comida com seu amante.” E segue: “Agatha Christie (escritora inglesa) era uma vovó. Ao mergulhar na vida dela, descobri que o alimento que ela mais consumia era creme de leite e que adorava preparar doces para o marido. Cozinhar era, para ela, tão importante quanto escrever”, conta.

É desse jeito que a historiadora Ana Roldão e a jornalista Michelle Strzoda vão, de um jeito doce — para fazer um trocadilho delicado —, apontando por meio da comida mudanças sociais tão significativas na vida de todos nós. Ou que Denise Godinho recupera em seu Capitu Vem para o Jantar. Todas trazem essa atmosfera de bate-papo ao redor da mesa. E, para fechar essa conversa de cozinha e livros, nada como recorrer ao moçambicano Mia Couto, que certa vez escreveu: “Cozinha não é serviço. Cozinhar é um modo de amar o outro”.

Avanço tecnológico acelera quadros de ansiedade

Só encontramos ‘ansiedade zero’ no cemitério, ou seja, após a morte

Karina Simões, via Vya Estelar

Ansiedade é um dos temas mais procurados em meu consultório. Uma preocupação constante com o futuro, pensamentos acelerados que parecem fazer o cérebro não parar e ter uma sensação de nunca desligar-se caracterizam a ansiedade. São relatos como esses que escutamos na clínica todos os dias, ou recebemos mensagens nos pedindo ajuda nas redes socais revelando a velha conhecida:

– Dra., sofro de ansiedade. Ajude-me.

A ansiedade faz parte do nosso viver. Costumo dizer que só encontramos “ansiedade zero” no cemitério, isto é, depois de morto. Assim sentir-se ansioso faz parte do sentir-se vivo. Afinal, sem a ansiedade, a pessoa fica mais distraída e não se dá conta até das situações perigosas que possam vir. Porém, existe uma ansiedade que extrapola pontos de equilíbrio e tira o indivíduo do seu eixo, fazendo com que ele se sinta inseguro, frágil e doente. Essa ansiedade é a patológica.

Deslocar a mente constantemente para o futuro com pensamentos e preocupações sobre o que possa ainda ocorrer e de forma acelerada com sintomas, muitas vezes, somáticos como: taquicardia, sudorese, insônia, sensação de falta de ar, tremores, tontura, entre outros, faz com que surja a tentativa de controle por parte da pessoa ansiosa, para que assim não “perca o suposto autocontrole”.  Assim, para identificarmos a diferença entre a ansiedade normal e a patológica, ou seja, os transtornos de ansiedade, fiquemos atentos à frequência e à intensidade com que os sintomas aparecem, sempre lembrando que esses podem variar de pessoa para pessoa. Para compreendermos melhor: a postura diante do inesperado e do futuro é que diferencia os tipos de reação que a pessoa apresentará.

A tecnologia chegou para melhorar muitas coisas nas nossas vidas, mas não podemos negar que os avanços da modernidade podem e estão agravando as crises de ansiedade. Com isso, as pessoas têm passado muito mais tempo conectadas e recebendo informações 24 horas por dia. Desse modo, o cérebro não tem tido descanso suficiente e é acometido pelos pensamentos acelerados, acostumando mais ainda as pessoas a terem respostas cada vez mais rápidas. A interferência comum dessa tecnologia no comportamento é percebida, hoje, na prática clinica, quando temos recebido cada vez mais pessoas que sofrem e se sentem ansiosas devido às suas redes sociais, por exemplo. Relatam que não se sentem satisfeitas pelo número de curtidas ou porque sentem necessidade de “vigiar” os outros ou a si própria pela rede social.

Fica claro e simples de entender que toda essa modernidade tem ajudado muito e contribuído com a ciência do comportamento e com a neuropsicologia, mas também não podemos negar que esse avanço tecnológico acelera os quadros de ansiedade e tem tido um efeito dominó no equilíbrio emocional das pessoas. O nosso grande desafio é estudar mais e mais e encontrarmos sempre um contraponto e um equilíbrio entre o uso da tecnologia e o bem-estar emocional das pessoas.

Que possamos encontrar na tecnologia uma presença “ansiogênica” positiva para todos nós!

HOMENAGEM A ALBERTO DINES: Maestro das redações

Por Equipe do Observatório da Imprensa

Alberto Dines no programa Observatório da Imprensa em dezembro de 2012. (Foto: Ana Paula Oliveira Migliari/TV Brasil/EBC)

Não haveria Observatório da Imprensa se não fosse Alberto Dines. O reconhecimento desse fato é uma unanimidade entre os colaboradores desta edição especial em homenagem ao grande mestre do jornalismo brasileiro, que nos deixou no último dia 22 de maio. Pessoas que tiveram o privilégio de desfrutar de sua convivência e amizade e testemunham sua dedicação à criação de um projeto pioneiro de crítica de mídia no Brasil. “O Observatório da Imprensa tem uma alma e essa alma tem um nome: Alberto Dines”, escreve Caio Túlio Costa no texto “Entre o cosmo sangrento e a alma pura”, republicado nesta edição.

O Observatório da Imprensa é, assim, caso único de um espaço de reflexão que, embora tenha nascido numa universidade, não é acadêmico. O então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, lembra em seu artigo “Ao Dines, com Carinho” as circunstâncias que deram origem ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Observatório da Imprensa durante um encontro entre ele, Dines e Norma Couri em Portugal, no início dos anos 1990.

O jornalista e professor Carlos Eduardo Lins da Silva discute em seu texto “Cadernos de Jornalismo e Comunicação do Jornal do Brasil” a carência de espaços para pensar o fazer jornalístico fora da academia e a importância de Alberto Dines como propulsor da crítica de mídia no país desde os anos 1960, quando trabalhava no Jornal do Brasil. “O que Alberto Dines fez durante boa parte de seus 60 anos nesta profissão foi criar, só ele e Deus sabem a que custo, condições e oportunidades para se fazer jornalismo com método e para se refletir o jornalismo com método”, uma tentativa de ‘somar experiências com reflexão resistindo à tentação de fazer ciência’.”

A experiência impactou a academia, como lembra o professor da Universidade Federal de Santa Catarina Rogério Chistofolletti, no seu “Tributo a Alberto Dines.” “Os maiores projetos acadêmicos que me dediquei nas últimas duas décadas têm claras inspirações no trabalho de Alberto Dines.”

O projeto de criação do Observatório da Imprensa foi sendo construído durante a trajetória de Alberto Dines como jornalista nos principais veículos brasileiros. Eugênio Bucci, no artigo “Aos 80 anos de um mestre”, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 2012, enaltece o trabalho incessante do jornalista. “Dines é a prova de que a experiência não concorre necessariamente para diluir os princípios e de que o caráter não esmorece. No caso do jornalista, o caráter alimenta-se da independência intelectual e material, assim como se alicerça no cultivo da liberdade e do espírito crítico – portanto, ganha vigor com o passar do tempo”.

A constituição de uma voz social única de crítica de mídia no Brasil, a partir de Alberto Dines, pode ser observada na seleção de trechos de sua autoria que fazem parte do ebook “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de mídia no Brasil de 1996 à 2018”. Pode-se ver ali o exercício da parresía, o dizer verdadeiro na tradição do pensamento grego, tão raro diante dos interesses em jogo em torno do jornalismo.

Este é um dos principais legados de Dines: conseguir sustentar um projeto autônomo para se contrapor à tradição de uma mídia que não se critica. “As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público”, anotou o mestre no início deste século.

Dines sempre fez de sua experiência um espaço de resistência a todo tipo de censura. Luiz Eypto, editor do Observatório da Imprensa entre 1998 e 2015, reconstitui, no texto “A inspiração e a alma”, um conhecido episódio envolvendo o jornalista nos anos 1970. A censura brasileira queria impedir a publicação de notícias com fotografias e manchetes sobre o golpe militar chileno que depôs Salvador Allende. “Dines perpetrou, no sufoco, uma histórica capa sem foto e sem manchete, em quatro colunas de texto puro, de um impacto inolvidável para quem teve a ventura de ver o JB exposto numa banca de jornal naquela manhã distante. A edição virou item de colecionador.”

Um homem à frente do tempo que intuiu, como observa Carlos Castilho, no texto “Um visionário por convicção e necessidade”, que “a observação crítica da imprensa viria a se transformar numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news”.

A jornalista Norma Couri, no artigo “Ai, que terra boa pra se farrear”, observa a relevância de um espaço como o portal do Observatório da Imprensa no contexto do excesso de informação da sociedade contemporânea. “O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar na mídia”.

Num depoimento recente a Norma Couri, também publicado nesta edição, Dines explica que a escolha do nome do Observatório da Imprensa teve como inspiração o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), criador da mecânica quântica. “Ele dizia que, ao observar um fenômeno, você interfere no fenômeno. Ao observar a imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar”. E completa: “Preocupa perceber que a crítica da mídia desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico.”

Como disse Luiz Egypto, entre os semeadores e os coveiros, Dines alista-se no primeiro grupo. Foi um maestro das redações que nos ensinou a fugir dos saberes estabilizados e da auto-complacência. Por essas e outras, Dines é uma voz que fará muita falta ao jornalismo e à sociedade brasileira. E sua trajetória é um convite a prosseguirmos.

ELEIÇÕES 2018: Vem aí, um nome “Nobre” da cultura para a Assembleia Legislativa do MA 14

O petista Armando Nobre quer oferecer os seus 26 anos dedicados à causa da cultura como músico, professor, pesquisador, ao julgamento popular e assim concorrer a uma vaga de deputado estadual nas eleições de 2018.

As eleições de 2018 no Maranhão terá presença de uma opção para os amantes e militantes da cultura, principalmente da cultura popular.

Trata-se de Armando Nobre, que está colocando o seu nome como pré-candidato a deputado estadual pelo PT.

Ex-presidente do Conselho Estadual de Cultura e do Fórum Nacional de Conselhos de Cultura, Armando Nobre, 38 anos, é assíduo militante das causas da cultura do Maranhão. Um típico caso de quem carrega o DNA cultural nas veias!

Armando afirma que, a princípio, não tinha pretensões de entrar na política, mas a decisão de disputar uma vaga no Legislativo Maranhense nasceu pelo sentimento de que a sociedade anseia por mudança da cena política atual, e que todos os valores que aprendeu no movimento cultural, com a experiência como músico, professor, pesquisador, e de todos esses 26 anos dedicados à causa da cultura, devem ser convertidos em trabalhos na vida pública.

“Quero fazer política para contribuir, não para dilapidar. Quem milita na cultura o faz por paixão, porque acredita que a cultura é transformadora, pois ela mexe não apenas com a mente das pessoas, mas principalmente com o coração”, assegura.

Armando Nobre durante reunião com a equipe de coordenação da pre-campanha.

O pré-candidato petista diz ainda que a política atual precisa de novas práticas e que estaria forçando a algo positivo e pedagógico, caso eleito deputado estadual, já que não é filho de político e que não ostenta alto patrimônio financeiro.

“Não venho de uma família de políticos e nem sou rico. O que me move é a carência do povo por novas práticas e conceitos políticas, além da necessidade do movimento cultural precisar de um legítimo representante na Assembleia Legislativa do Maranhão”, afirma.

Projetos

Armando Nobre acredita na reeleição de Flávio Dino. O jovem petista diz que está preparado e cheio de energia para contribuir na base de sustentação do governo no parlamento a favor de projetos voltados para a valorização da cultura maranhense, dos projetos de transversalidade entre cultura e educação (que não podem ser dissociadas), da descentralização dos equipamentos culturais (a maioria estão na capital de São Luís), como Teatros, Espaços Multiculturais, Escolas de Música com ensino Técnico, e maior aporte financeiro para o fomento que alcance o maior número de municípios.

O petista aposta no diálogo com os movimentos sociais e culturais para conseguir os votos necessários para sua eleição ao parlamento maranhense.

Um dos projetos que o mesmo pretende defender é a criação das Superintendências Regionais de Cultura. Armando Nobre explica:

“Temos um estado de dimensões imensas, onde vários de nossos municípios estão bem distantes da nossa capital onde está fixada a nossa secretaria de cultura, com a criação das Superintendências Regionais de Cultura teremos uma aproximação maior com os fazedores de cultura, e dessa forma, deixá-los mais próximos e informados das políticas públicas desenvolvidas pelo Governo do Estado, e auxiliando-os em buscar e/ou apresentar projetos por meio de editais ou outros mecanismos que estão disponíveis como a lei de incentivo à cultura”.

Armando Nobre é formado em Administração Pública, Pós-Graduando em Gestão Cultural e também formando no curso de Música da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA.

Com certeza está credenciado a disputar uma das 42 cadeiras do parlamento maranhense.

O que aprendi ao ouvir a minha mãe 4

Se propor a ouvir histórias de família abre caminhos profundos, além de recordações e memórias. Com ouvido atento, além de conhecer a estrada que antepassados percorreram, você pode utilizar muito desse conhecimento para entender o presente e pensar no futuro

Os aprenzidados de uma conversa profunda com a própria mãe | Crédito: Shutterstock.

Eduardo Alves, via Vida Simples

Desde criança, ouço histórias envolvendo familiares, alguns presentes na minha vida e outros que já não estavam por aqui quando comecei a entrar em contato com os causos que os envolviam. Há algum tempo, resolvi mergulhar nas lembranças guardadas na memória da minha mãe e decidi convidá-la para uma conversa na qual o tema fosse este. O objetivo era resgatar histórias de família e estudá-las como inspiração para produção literária. A vida, que é esse mar, avançou sob o rio das palavras e os dois, juntos, me inundaram de reflexões e afeto a cada frase que minha mãe compartilhava. Aprendi muito mais do que eu esperava.

Conversamos por dois dias. No primeiro, a convidei para a minha casa e preparei um bolo de cenoura. O objetivo era adocicar nossos lábios e facilitar a prosa. Minha mãe não está acostumada com gravador e com exposição. Eu não queria me mostrar ávido por aquele momento, mas a ansiedade me batia à porta. Já ouvi inúmeras vezes seus contos, mas minhas emoções não eram as mesmas naquele dia. No segundo, fui até a casa dela no começo da tarde e, com um café em mãos, retomamos do ponto em que paramos. Esses dias foram diferentes, pois não é só ela querendo externalizar, sou eu querendo escutar. Meus ouvidos estavam mais atentos do que nunca.

A Dona Rosa, minha mãe de bolso como carinhosamente costumo chamá-la (ela tem 1,52m e digo que posso levá-la comigo para onde quiser) não passou aquele momento falando de mim, como era meu receio inicial ao me propor a ouvir uma mulher que não se cansa de dizer o quanto me ama e fui esperado. Ela abriu seu baú mais profundo, pegou as linhas que formam a sua biografia e teceu sua Narrativa de Vida até os dias de hoje. Ela me deu seu mais lindo trabalho de crochê.

Ela voltou no tempo com muita facilidade e segurou em suas mãos a infância tão suave e querida que teve, compartilhou sua alegria em morar no Ipiranga, bairro de São Paulo, suas histórias de criança, a bela relação construída com seu pai, o imenso carinho pela mãe, a compreensão dos irmãos, o afeto pelos demais que foram acolhidos mais tarde em sua casa.

Também falou da juventude e do Roberto Carlos, sua paixão dos 15 anos. Compartilhou sobre como começou trabalhar cedo para ajudar em casa e, como na vida de todos nós, suas frustrações. A mudança de São Paulo e o impacto que isso teve em toda a sua história. Ela jamais esqueceu o quanto esse fato lhe afastou das coisas que a alegravam.

Expôs uma vida de dedicação à família, seu objetivo incansável de vê-los felizes; a sua atual dedicação à mãe, que passa da casa dos 80 anos. A renúncia de si própria muitas vezes para o bem do próximo. A constante preocupação com o outro.

E, sem perceber, nos não ditos, naquilo que não queria tocar, dividia comigo os sacrifícios que aceitou para buscar o bem-estar de todos. Nunca havia visto tanta generosidade nela como nesse dia. E foi tanta que ela não me contou parte da história que eu conhecia. A mulher forte que ela resgatou dentro de si ao se separar tendo um filho, ainda pequeno, e uma adolescente sob sua responsabilidade. Ela também não mencionou ter tido três empregos ao mesmo tempo para poder cuidar dos filhos, devolver um lar a eles, não lhes deixar faltar nada. Das dores e dos amores de um casamento à revelia da família. Também não comentou dos medos que sentiu nessa época e antes, mas, eu os via nos seus olhos azuis. A gente sempre conversou pelo olhar.

Eu entendo ela não falar disso. Não foi fácil e talvez ainda não seja. Mas, para mim, que tenho isso como uma recordação dos 9 anos, me sinto muito orgulhoso dela ter sido essa Gigante. Eu nunca vou esquecer do que vi e me serviu de exemplo.

Fui surpreendido com memórias que não me haviam sido apresentadas e fiquei muito feliz por, além de reviver com ela momentos já conhecidos, abrir caminho para livros da sua vida que há muito não eram visitados.

Hoje entrar em contato com estas histórias, ouvir sobre meus avós, tataravós, tios, tios da minha mãe, me conecta melhor com o que sou hoje. Ver hábitos que estão em mim e identificá-los no passado, entender evoluções a partir da construção do que meus antepassados foram um dia faz tanto sentido para explicar caminho de hoje.

Esse aprendizado foi mais rico do que qualquer banco de escola, reunião de trabalho ou curso que eu tenha feito ao longo da vida. Aprendi sobre os causos que acompanham a minha família, me vi nas histórias na medida que identificava nelas algo que, de alguma maneira, estão presentes em mim. Me ajudam a entender o material que me forma, não só fisicamente, quando vejo fotografias, mas afetivamente, quando entendo a carga emocional envolvida nessas relações.

Vejo como o curso dessa água vem carregando histórias que agora passam por mim e clarificam pensamentos e questionamentos que me faço ao longo da vida. Ter essas memórias comigo é ter paz.

Eduardo Alves é jornalista e costuma publicar suas ideias e seus textos cheios de alma aqui: https://medium.com/kayua

Academia Sueca não entregará Nobel de Literatura em 2018

Decisão foi tomada em meio à crise desencadeada por um escândalo de violações e agressões sexuais; próximo ganhador será anunciado em 2019

Via Estadão

ESTOCOLMO – A Academia Sueca anunciou na madrugada desta sexta-feira, 4, que não entregará o prêmio Nobel de Literatura em 2018, pela primeira vez em quase sete décadas, em razão de um escândalo de violações e agressões sexuais. O próximo ganhador será anunciado em 2019.

A decisão foi tomada durante uma reunião semanal em Estocolmo, com base na explicação de que a Academia não está em posição de escolher um vencedor após a onda de escândalos de assédios sexuais e crimes financeiros.

“Nós achamos necessário dedicar um tempo para reconquistar a confiança do público na Academia antes que o próximo vencedor possa ser anunciado”, declarou o secretário permanente da instituição, Anders Olsson. Ele também alegou que a decisão é uma forma de respeitar os que já ganharam e os que ainda ganharão o prêmio.

O Nobel de Literatura só deixou de nomear vencedores durante as duas guerras mundiais (1914, 1918, 1940 a 1943) e em 1935, quando, segundo a Academia, não foi encontrado nenhum vencedor que merecesse a honraria.

Em novembro, 18 mulheres acusaram uma conhecida personalidade da cultura francesa, com quem a prestigiada instituição tinha vínculos estreitos, de violência e/ou assédio sexual. O episódio foi motivado por uma onda de escândalos sexuais envolvendo Jean-Claude Arnault, uma grande figura cultural na Suécia e marido da poeta Katarina Frostenson, membro da Academia.

Diante das circunstâncias, sete de um total de 18 membros renunciaram, incluindo a secretária permanente, Sara Danius. Eles estão designados de forma vitalícia e não têm autorização para renunciar, mas podem optar por não participar das reuniões e decisões.

O escândalo provocou especulações nos meios de comunicação sobre o destino do prêmio de Literatura, que foi entregue em 2017 ao autor britânico-japonês Kazuo Ishiguro, e no ano anterior ao cantor e compositor americano Bob Dylan.

O rei da Suécia, Carlos XVI Gustavo, que é o principal responsável pela Academia fundada em 1786, concordou em modificar os estatutos para permitir que os membros renunciem e sejam substituídos, garantindo assim a sobrevivência da instituição. /REUTERS, AP e AFP

Matemática

A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana. A aritmética dos gulags e dos expurgos stalinistas se justificava pelo ideal comunista

por Luis Fernando Verissimo, via Estado de S. Paulo

O presidente Abraham Lincoln escolheu o general Ulysses S. Grant para liderar as forças do Norte na Guerra Civil americana porque Grant, segundo Lincoln, não tinha medo da matemática.

Além de ser um reconhecido estrategista, Grant não hesitava em ordenar ataques frontais ao inimigo sabendo que a contagem de baixas seria horrorosa. A tétrica aritmética da Guerra Civil americana só seria superada pela da Grande Guerra de 1914, quando milhares de vidas podiam ser sacrificadas num só dia por nada – como na batalha do Somme, em que 50 mil soldados ingleses morreram avançando contra fogo alemão sem que um metro de terreno fosse conquistado. Na verdade, mais de três milhões de seres humanos foram sacrificados nos três anos da Primeira Guerra Mundial sem que a frente de batalha se movesse, para um lado ou para o outro, mais de algumas milhas. Nos dois lados havia generais dispostos a enfrentar a aritmética. Durante três anos, generais, governantes, políticos, intelectuais, imprensa e povo dos dois lados conviveram, patrioticamente, com a aritmética. Justificando-a ou – o mais cômodo, pelo menos para quem não estava numa trincheira – ignorando-a.

A Guerra de 14 foi um exemplo extremo de estupidez militar e civil e até hoje historiadores discutem as causas reais de tamanha insensatez coletiva. Mas ela teve seus justificadores. Era a Europa liberal resistindo ao militarismo alemão. A Guerra Civil americana também tinha tido, pelo menos na superfície, a justificativa nobre da abolição da escravatura. A aritmética do terror aéreo que a Alemanha lançou na outra grande guerra, a Segundona, depois de ensaiá-lo na Espanha, teve por trás o sonho pan-germânico de Hitler, que só virou coisa de louco porque ele perdeu. A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana. A aritmética dos bombardeios gratuitos de Dresden e de Hiroshima e Nagasaki se justificava como castigo para quem tinha começado a guerra. A aritmética dos gulags e dos expurgos stalinistas se justificava pelo ideal comunista. A aritmética do terrorista suicida palestino se justifica por uma causa, a aritmética da represália israelense se justifica por outra. E há tantas maneiras de ignorar a aritmética como há de defendê-la, ou exaltá-la como uma virtude militar, como Lincoln fez com Grant.

No Brasil convivemos com a desigualdade e com um exército de excluídos que não são menos vítimas de um descaso histórico por serem um genocídio distraído, com o qual nos acostumamos. Mas a matemática do descaso histórico nos bate na cara todos os dias.

Análise: Belchior e a dimensão política das letras do autor

Há um ano, o Brasil perdia um cantor e compositor em sintonia fina com a realidade do povo brasileiro

Belchior é considerado um dos maiores expoentes da música brasileira / Arquivo

Pedro Silva, via Brasil de Fato

Antonio Carlos Gomes Moreira Belchior Fontenelle Fernandes (ele brincava dizendo que era o maior nome da MPB), nascido em Sobral, região norte do estado do Ceará, desde muito cedo se dedicou à música e alçou voos inimagináveis para um “rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.”

Inúmeras matérias e análises sobre seu legado foram feitas nos últimos dias em jornais e blogs do país, mas gostaria de destacar, em mais um texto/homenagem, a dimensão política das letras do autor, sobretudo, se pensarmos nos desafios históricos da constituição do Brasil enquanto país-nação e sobre os caminhos para chegarmos a esta utopia.

Sem desconsiderar a densidade e complexidade estético-literária-filosófica que perpassa o conjunto de seu trabalho musical, avalio que o ponto de ligação e coerência da sua obra é a política. Esta compreendida também, em perspectiva gramsciana, enquanto cultura (visão de mundo, moral, valores e posição sobre a realidade).

Essa afirmação pode ser constatada desde seus primeiros discos, em assertivas e metáforas que demarcam explicitamente o sofrimento e a luta do povo brasileiro, “gente honesta, boa e comovida, que caminha para a morte pensando em vencer na vida”; no sentimento de latino americanidade, “para que o sol apareça sobre a América do Sul”; na denúncia contra a ganância das elites, já que “a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter, é nunca fazer nada que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar” e na esperança que o “novo sempre vem” contra as várias formas de asceticismo e conservadorismo. Posição escrita e entoada de forma contundente, mas nada panfletária, arraigada por um lirismo e sensibilidade singulares, “canto torto feito faca”.

Postura compreendida pela própria identidade entre criador e criatura. De uma vida sertaneja e suburbana, membro de uma família com duas dezenas de filhos, um “jovem que desceu do norte e no sul viveu na rua” e teve que enfrentar uma “metrópole violenta que extermina os miseráveis, negros párias, teus meninos”. Nas memórias infantis de cantadores e de uma densa formação cristã, quando ainda “havia galos, noites e quintais”, “numa terra onde o céu é o próprio chão”.

No estudo de línguas e medicina e da fome e frio sentidos na pele, “com diploma de sofrer de outra universidade, com fala nordestina e querendo esquecer o francês”. No sucesso e admiração profunda de fãs e músicos e pela necessidade da reclusão e do reencontro consigo mesmo, como quem está “sempre em perigo e a vida sempre está por um triz, com um coração delinquente juvenil, suicida, sensível demais”.

Belchior, de forma universal e particular carregou e traduziu a alma e a voz de um povo, até a morte. Numa realidade marcada pela “violência, trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes, barbárie, devastação”, seu eco torna-se cada vez mais atual e necessário para edificação de uma pátria soberana, popular e “brasileiramente linda”.

As frases entre aspas foram retiradas, e em algumas com pequenas alterações, das seguintes canções, respectivamente: Apenas um rapaz latino americano; Pequeno perfil de um cidadão comum; Voz da América; Como o diabo gosta; Como os nosso pais; A palo seco; Fotografia 3×4; Baihuno; Galos, noites e quintais; Carisma; Tudo outra vez; Brincando com a vida; Baihuno, Brasileiramente linda.

* Pedro Silva é militante da Consulta Popular e professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE)