No dia da eleição, por favor, transe

Por Dolores

Aconteça o que acontecer neste domingo, transe. Não importa quais botões você escolheu apertar na urna, quais combinações achou ideais: transe. Se é fã do candidato A, B ou C (do D também, até mesmo do F está valendo), enfim, não importa, o que é realmente fundamental é que você faça o quê? Transe.

Porque, em tempos frenéticos, seja com desfecho de vitória ou derrota, há algo de que se esquece e, no fim das contas, é a única coisa que salva e alivia a mente do caos democrático monotemático. O sexo distrai, constrói, dá esperança, alivia. Gozar lava a alma, molha tudo, muda o foco.

Aproveite a volta da seção eleitoral, já vá tirando tudo antes mesmo de fechar a porta de casa, arranque sapatos, a calça, desabotoe o sutiã dela, vá lambendo a orelha bem lá dentro, mordendo de leve a nuca, largue o título no chão mesmo, ajoelhe, enfie o moço todo na boca, engula a menina, chafurde entre as nádegas do seu eleitor favorito e chupe tudo até não sobrar uma gota.

Esqueça, por uns bons momentos – nada de rapidinha hoje, que dia de eleição exige afinco  – que amanhã o país já amanhece diferente, que o futuro pode ou não existir, que a segunda-feira talvez tenha sol ou trevas profundas, e mergulhe nos cabelos todos do ser amado, enfiando a cara com dedicação entre os pentelhos todos com a ideia de esquecer do mundo.

Aspire os cheiros. Aja feito um animal movido a eles. De que importa qual dezena veio antes do “confirma” quando todo aquele oásis se apresenta deitado no seu colchão? Um corpo oferecido e aberto, suando em sintonia, vazando mel por todos os cantos, empesteando o ar de perfume de dobras e mucosas? Capriche, manobre, endureça o máximo que pode.

E, aconteça o que acontecer, transe. Coma com força e carinho, sente na cara de quem adora, rebole, empurre. Vamos desaprender um pouco das funções de sobrevivência, e focar na saciedade hedonista de quem não faz ideia do que vai estar do lado de fora da janela ao abri-la no dia seguinte. Sobretudo porque vai que o universo acaba? Ao menos há a certeza de que chegaremos deliciados ao buraco negro do fim do mundo.

(Fonte: Coluna “X do Sexo”, Folha de São Paulo)

Entenda a nomofobia: o medo irracional de ficar sem o celular

Quase dois terços da população mundial possui celular

Edson Toledo, Vya Estelar

 

Há um estudo feito pela We Are Social e Hootsuite que revela dados interessantes: entitulado de Digital in 2018 Global Overview. E saber ler estes resultados têm implicações importantes não só para as empresas, governos e sociedade em geral,mas também para os profissionais de saúde mental.

Foi Tim Berners-Lee que colocou a World Wide Web (mais conhecida pela sigla www) à disposição do público a mais de 25 anos, a Internet foi se tornando parte integrante da vida cotidiana da maior parte da população mundial.

No mundo, por exemplo, mais da metade da população mundial usa a internet. Mas não é apenas a internet que está crescendo rapidamente, é possível identificar uma série de pontos importantes neste relatório:

• Mais da metade do mundo acessa a internet e usa um smartphone;
• Quase dois terços da população mundial tem celular;
• Mais de 50% do tráfego da web mundial vem de telefones celulares;
• Aumento constante do uso de redes sociais via mobile.

Há também dados curiosos sobre o Brasil:

• 34% dos brasileiros ainda não são usuários de internet;
• Mais de 60% ainda não fazem compras online;
• 85% dos internautas acessam a internet diariamente em uma média de 9 horas;
• As maiores redes sociais do Brasil são: Youtube, Facebook e WhatsApp;
• Há mais celulares do que pessoas no Brasil.

Considerando esses números, o comportamento de crianças, adolescentes e parte dos adultos, chega-se a um cenário propício para o desenvolvimento e difusão de um novo tipo de dependência.

Pois é, e tem até nome! Trata-se da nomofobia, derivado da expressão inglesa “no mobile phone phobia”, cujo nome foi criado para definir o comportamento daqueles que se angustiam diante da impossibilidade ou incapacidade de comunicar-se pelo celular ou computador. O fato é que com as novas tecnologias e a presença dos telefones celulares em quase todos os níveis da rotina de um indivíduo, já são muitos os que desenvolvem uma relação pouco saudável com o aparelho, caindo em níveis de dependência patológicos.

A nomofobia é definida como um medo irracional de ficar sem o celular, de que se acabe o crédito, que não haja cobertura ou que acabe a bateria. Podemos incluir até o medo de sair de casa sem o aparelho. O que marca o comportamento daqueles que sofrem com esse problema é justamente a necessidade de ter o aparelho sempre perto, ao alcance da mão e da visão. Em alguns casos estar próximo do aparelho vale mais que realmente estar manipulando o celular/computador o tempo todo.

A empresa inglesa SercurEnvoy, que presta serviços móveis, apresentou os resultados de uma pesquisa onde aponta que quase 70% dos entrevistados afirmam sofrer de nomofobia. Segundo a pesquisa, as mulheres estariam mais sujeitas a desenvolver esse tipo de dependência. Outro dado que chama a atenção, é que quase 50% dos homens entrevistados afirmaram possuir dois ou mais aparelhos de celular.

Outro dado apresentado no estudo, que entrevistou jovens entre 18 e 24 anos, seriam os líderes no ranking da nomofobia. Oito de cada dez entrevistados estariam entre as vítimas desse tipo de problema.

O ponto que chama a atenção são as crianças que cada vez mais cedo começam a usar o celular. São milhões de crianças, desde a tenra idade e adolescentes com acesso livre e irrestrito. Sabe-se que o quanto mais precoce ocorrer uma dependência, mais negativas serão suas consequências físicas e psicológicas no longo prazo. Em termos comportamentais se observa nesses jovens uma falta de habilidade nos relacionamentos interpessoais, com dificuldades no estabelecimento de vínculos de amizade e/ou afetivos duradouros, conforme pesquisas publicadas sobre o tema.

Quando se pensa no impacto psicológico desse tipo de comportamento, seja na juventude ou vida adulta, é preciso considerar o enfrentamento de um quadro complexo, já que a nomofobia quase nunca aparece sozinha. O indivíduo normalmente já vem de uma situação de ansiedade, estresse ou transtornos de humor/personalidade.

Problemas físicos podem ocorrem, incluindo fadiga, patologia ocular, dores musculares, tendinites, cefaleia, distúrbios do sono e sedentarismo. Além disso, é evidente a maior propensão em se envolver em um acidente automobilístico e de sofrer quedas ao andar.

Talvez você seja nomofóbico; saiba os cinco sinais – clique aqui

Agora, se você se identificou com este post, talvez você precise de uma avaliação de um profissional de saúde mental.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra ou psicólogo e não se caracteriza como sendo um atendimento.

Projeto Somos Humanos é um sucesso retumbante e veio para ficar!

A tirar pelo que foi e representou o lançamento do Somos Humanos, não há quaisquer sombras de dúvidas de que esse grandioso empreendimento social será um sucesso no Maranhão e concorrerá para levar felicidade para muitas pessoas pelo estado afora, pois mais do que um projeto social, o Somos Humanos representa um projeto de vida para muitos que serão atendidos por ele.

Janderson Landim durante abertura do projeto Somos Humanos.

Uma noite para ficar na historia da cidade de São Luis.

Assim pode ser considerado o lançamento do Projeto “Somos Humanos”, realizado na noite do último sábado, 22, no hotel Rio Poty.

O evento contou com a participação de representantes de cerca de 100 municípios, momento em que foram escolhidos oficialmente embaixadores do Projeto em suas cidades, além das presenças dos artistas Sheila Melo, Raul Gazolla, Carla Diaz e Hellen Ganzarolli, que vieram para abrilhantar o evento.

Depoimentos emocionados dos artistas convidados e dos participantes, também fizeram parte do evento.

Artistas de renomes nacionais vieram prestigiar o evento em São Luis.

O idealizador do Projeto, empresário Janderson Landim, estava radiante com o sucesso do evento, que alcançou seu objetivo: o de doação e amor ao próximo.

Esse projeto já nasceu grande, e eu só tenho a agradecer a todas as pessoas que estiveram aqui conosco, fazendo parte desse momento único, e tenho certeza que daqui pra frente, mais benefícios chegarão aos 217 municípios maranhenses por meio dos nossos embaixadores. O humano mais humano, é o que nos diferencia das máquinas”, destacou Landim.

O carisma do idealizador do projeto Somos Humanos.

Anjos do Bem

No segundo dia do projeto, no domingo, 23, Janderson Landim fez uma exposição de como serão realizadas as ações nas cidades e o papel de cada embaixador na sua cidade. O idealizador do Somos Humanos denominou carinhosamente os embaixadores do projeto de “Anjos do Bem”.

Os embaixadores do Somos Humanos ou os “Anjos do bem”.

Ainda na oportunidade, foram sorteadas as cinco primeiras cidades que receberão as ações sociais do projeto, já sob a responsabilidade dos seus respectivos representantes.

A tirar pelo que foi e representou o lançamento do Somos Humanos, não há quaisquer sombras de dúvidas de que esse grandioso empreendimento social será um sucesso no Maranhão e concorrerá para levar felicidade para muitas pessoas pelo estado afora, pois mais do que um projeto social, o Somos Humanos representa um projeto de vida para muitos que serão atendidos por ele.

O Blog do Robert Lobato, como não poderia deixar de ser diferente, deseja todo o sucesso para o projeto Somos Humanos, seus idealizadores, a equipe de profissionais que o fazem ser uma realidade e, claro, aos nossos abençoados “Anjos do Bem”.

É isso aí…

Derrote um sociopata com uma única palavra

via Fãs da Psicanalise

Não é necessariamente sobre ganhar ou perder, mas, quando se trata de tentar lidar com um sociopata, encontrei uma palavra que tem o potencial de derrotá-los: Pena!

Eu sei, por definição, que os sociopatas não sentem empatia ou têm uma consciência totalmente formada, mas compartilham traços de um narcisista, então, na minha experiência, a pior coisa que você pode fazer é expressar pena por alguém que o maltrata devido ao comportamento sociopata. Quer se trate de um amigo, um parente ou namorado, na maioria das vezes ninguém quer se envolver com um sociopata, mas, se você se encontrar preso na armadilha deles, sua única salvação é ter pena deles.

Os sociopatas são habilidosos na arte da manipulação. Se você se envolver profundamente com um deles, você pode ser tão manipulado que começa a questionar sua própria sanidade. Você pode se sentir preso em sua teia de mentiras, e uma vez que eles não sentem a dor que infligem em suas vítimas, muitas vezes você pode ficar preso, lutar e se perder de si mesmo. Isso não significa necessariamente que você deve se desapontar consigo mesmo, mas, se você honestamente não puder se livrar de um sociopata, tente dizer a eles que você sente pena deles.

No passado, eu convivia com alguém que era um sociopata. Levou anos para entender o comportamento deles, e mesmo quando consegui reconhecer suas características, ainda me sentia preso. Tive que planejar minha fuga. Eu estava sempre perdendo as discussões e sofria diariamente, então tentei encontrar empatia para lidar com isso. Um dia, simplesmente entendi. Isso é triste. Este comportamento deles se origina de uma educação difícil, e minha raiva e frustração se transformaram em pena.

No entanto, eu nunca tinha dito a palavra pena para enfrentar essa pessoa. Até que, um dia, no meio de uma discussão, ela disse: “Não tenha pena de mim!” Ela ficou muito nervosa, e ali mesmo eu sabia que tinha tido uma pequena vitória. Eu não podia acreditar. O simples pensamento de alguém com pena do sociopata era demais, e isso me assustou. Por que a pena seria um gatilho?

Bem, se eu realmente olhasse sob a superfície de um sociopata, eu perceberia que eles vivem uma vida de mentiras que parecem impossíveis de destruir. Estão presos em sua própria mente e comportamento, e mesmo que tivessem vontade de querer mudar, seriam realmente capazes de mudar? Assumindo que a resposta seja não, saber disso apenas frustraria um sociopata, e que alguém tivesse pena deles por algo que eles não podem mudar claramente colocaria essa pessoa acima deles.

Então, se você é alguém preso em algum tipo de relacionamento com um sociopata, tente. Tente dizer a eles que você tem pena deles e ficará surpreso. Como eu disse, não se trata de ganhar ou perder, mas às vezes é bom vencer um sociopata. Expressar pena pelo menos desencadeia algum tipo de resposta deles, o que lhe dá um motivo para se sentir melhor.

(Link original: psychcentral)
*Traduzido e adaptado por Marcela Jahjah, da equipe Fãs da Psicanálise

Principalmente na mulher: ‘doenças da beleza’ são reais e cruéis

Em uma sociedade tão estimulada por imagens, é possível que sejamos todos cúmplices desta construção de valores

Redação Vya Estelar

Ao passar os olhos pelos noticiários, além das negativas manchetes sobre política, crise e violência, também é possível notar muitos casos sobre erros em procedimentos estéticos, por vezes realizados por pessoas sem qualificação. E, surpreendentemente, em um mesmo telejornal convivem notícias sobre a prisão do médico Denis César Barros Furtado que realizava bioplastias em seu apartamento (o Dr. Bumbum) e, “dicas de saúde e beleza”. Estas últimas, promovendo mudanças na alimentação, treinamentos físicos intensos e cuidados embelezadores diversos em corpos esbeltos e bem torneados, com forte valorização da concepção de beleza vigente em nossa sociedade. Um curioso ciclo de estímulos, referenciais e consequências, que se repete sem muita reflexão sobre causas e efeitos.

Diante dos casos de pessoas que perderam as suas vidas, ao se submeterem a alterações estéticas em clínicas clandestinas, é necessário resistir à tentação de julgamento antecipado. As “doenças da beleza” são reais e cruéis, em especial com as mulheres. E em uma sociedade tão estimulada por imagens, é possível que sejamos todos cúmplices desta construção de valores, que para algumas pessoas, podem representar motivação convincente para justificar qualquer sacrifício.

Os Transtornos Dismórficos Corporais, ou TDC, que até podem estar relacionados a outras patologias e vivências subjetivas de cada indivíduo, em grande parte dos casos poderão ser classificados também como um transtorno obsessivo compulsivo (TOC). E mesmo que nem sempre contemplem uma rígida restrição alimentar, em muitos sintomas, revelam características similares às da bulimia e da anorexia (veja aqui), e às das não tão comentadas, porém atuais, ortorexia (saiba mais) e vigorexia (saiba mais). No TDC a preocupação com um ou mais defeitos da aparência, que podem ser sutis ou até inexistentes, causa angústia e, em muitos casos, afeta a capacidade funcional da pessoa. Ou seja, o que pode começar, por exemplo, como o hábito de verificar a silhueta no espelho e conferir um ou outro detalhe, algumas vezes ao dia, evolui para uma insatisfação tão intensa com o tamanho dos seios, que a pessoa deixa de participar em situações sociais com receio de expor a sua “deformidade”.

TDC é doença silenciosa, que começa e evolui através de pequenas “manias”, normalmente relacionadas à preocupação com saúde e beleza – atenção socialmente valorizada. Um sentimento de ansiedade pelo horário do treino na academia ou por “queimar as calorias ingeridas no jantar”, e que com o tempo, se transforma em angústia. A pessoa sofre por não dedicar ainda mais que as longas horas aos exercícios, ou à rigidez com que a dieta é empreendida, ou à recorrência com que cirurgias estéticas são realizadas, entre muitos exemplos. Quem padece de TDC precisa de auxílio médico especializado.

A aceitação social sempre será relevante para os seres humanos. Porém, na sociedade interconectada digitalmente, as palavras estão notadamente perdendo espaço para as imagens. E nesse contexto, as inocentes “selfies” adquirem função de construção identitária, e indicam a aceitação do indivíduo em seus grupos de afinidade. Aquela “vaidade imatura” começa a ganhar relevância e, por vezes, a se tornar perigosa.

Fonte: José Toufic Thomé é Médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Psiquiatra e Psicoterapeuta Psicodinâmico

Setembro amarelo: mês internacional de prevenção ao suicídio 2

O argumento final contra o suicídio é a própria vida

Por Karina Okajima Fukumitsu, para Vya Estelar

Que possamos agir mais e falar menos neste mês de setembro amarelo que se inicia. Que nos ocupemos em ofertar espaços de hospitalidade para que possamos construir uma morada existencial. A morada existencial não se constrói na violência e se formos violentos conosco, não aceitando o que é nosso, tornar-nos-emos transgressores de nossas existências e das nossas vidas.

Nesse sentido, julgo que o que se pretende com este artigo (veja aqui a primeira parte), é lançar um convite para a inovação do modo como estamos fazendo a prevenção ao suicídio. Em vez de falar apenas dos números e sobre o sofrimento dos envolvidos e impactados pelo suicídio, precisamos nos inserir em ações, em oferta de espaços de acolhimento e em atitudes que colocam “nossas mãos na massa” (http://karinafukumitsu.com.br/). Atualmente, dedico meu tempo para atuar tanto em escolas quanto em equipamentos de saúde pública e sinto que saí do falatório e tenho agido, ministrando cursos, orientando, informando, capacitando e conhecendo de perto as principais dificuldades envolvidas no amplo âmbito do suicídio. Passo horas a fio debruçando meus esforços para estar com os profissionais com o único objetivo de, enquanto não houver apoio das políticas públicas, encontrarmos estratégias de ações e de cuidados em saúde mental congruentes com suas necessidades.

Como nada é por acaso, enquanto escrevia este artigo, vi um post de Adriana Amaral em sua rede social, no qual estava escrito que “nossas palavras precisam estar apoiadas em ações”. Acredito ser possível a construção de uma morada existencial que consista em ser lócus, onde haja a crença de que é possível enfrentar as adversidades utilizando a característica peculiar do ser humano, que é a da transcendência, e ir além daquilo que conhecemos, descobrindo mais a respeito de nós mesmos.

A morada do processo de morrência talvez represente o “não-lugar”, que busca o resgate do equilíbrio da sanidade mental com as exigências diárias; do acolhimento do sofrimento existencial e do desrespeito para com o humano.

Que possamos agir mais e falar menos neste mês de setembro amarelo que se inicia. Que nos ocupemos em ofertar espaços de hospitalidade para que possamos construir uma morada existencial. A morada existencial não se constrói na violência e se formos violentos conosco, não aceitando o que é nosso, tornar-nos-emos transgressores de nossas existências e das nossas vidas.

A prevenção aos suicídios é prática que deve acontecer todos os dias e não somente em um mês, sobretudo por ressaltar a importância de manter a esperança de que é possível acolher o sofrimento humano. É, portanto, prática a ser inserida no dia a dia, ofertando esperança, amor e acompanhamento tête-à-tête na oferta de espaços de hospitalidade que favorecerão novas moradas existenciais.

Encerro com a importante frase de Alvarez (1999, p. 135): “Em outras palavras, o argumento final contra o suicídio é a própria vida”. Minha conduta diária está pautada em ser uma guardiã da vida que oferta amor, generosidade, cuidado e esperança. A cada tsuru (origami que significa o pássaro da esperança) presenteado ao final dos meus encontros com pessoas interessadas pelo tema, concretizo meu ensejo de que a esperança continue em nossos corações para que a vida possa valer a pena.

Referências

Alvarez, A. (1999). O deus selvagem: um estudo do suicídio. São Paulo: Companhia das Letras.
Fukumitsu, K. O. (2013). Suicídio e Luto: história de filhos sobreviventes. São Paulo: Digital Publish & Print.
Fukumitsu, K. O. (2016). A vida não é do jeito que a gente quer. São Paulo: Editora Digital Publish & Print.
Saramago, J. (1995). Ensaios sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras.

Fonte: Karina Okajima Fukumitsu é terapeuta e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP

DEU NO ESTADÃO: “Piora no ensino marca administrações de 7 governadores que tentam reeleição”. Flávio Dino entre eles…

De 16 governadores que tentam a reeleição, 7 enfrentam queda no Ideb; especialistas defendem adoção de lei de ‘responsabilidade educacional

Renata Cafardo e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

Dos 16 governadores que tentam a reeleição, 7 registraram piora em suas redes de ensino entre 2015 e 2017. Isso aconteceu em Minas Gerais, Bahia, Roraima, Amapá, Maranhão, Amazonas e no Distrito Federal. Segundo tabulação feita pelo Estado, as redes estaduais tiveram queda no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no ensino fundamental ou médio. O Ideb, divulgado semana passada, é o principal indicador de qualidade do ensino brasileiro e junta notas de Português e Matemática com índice de alunos aprovados de cada Estado.

Especialistas em educação e em direito defendem o conceito de responsabilidade educacional, para que governantes sejam punidos em caso de retrocesso na área durante sua gestão. Um projeto de lei sobre o assunto está parado no Congresso.

“É muito injusto com crianças e jovens que políticos sejam reeleitos entregando a educação pior do que receberam”, diz a presidente executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz. Ela defende que haja proibição de reeleição quando um Estado piora no Ideb. “A política social deveria estar no mesmo patamar da econômica. Da mesma forma que temos responsabilidade fiscal no País, precisamos ter responsabilidade educacional.”

O Ideb prevê também a progressão das redes e, por isso, o Ministério da Educação (MEC) estipula metas bianuais. No ensino médio, apenas Pernambuco, em que o governador Paulo Câmara (PSB) tenta a reeleição, atingiu todas as metas. O Estado também aumentou o Ideb nos três níveis. Câmara é o favorito nas intenções de voto, segundo o Datafolha.

Amapá e Maranhão, além de piorarem no Ideb, não atingiram as metas em nenhuma das etapas. No primeiro, Waldez Góes (PDT) aparece em segundo lugar nas pesquisas. Em nota, o governo do Amapá reconhece que os alunos “não aprenderam o suficiente”. Informa também que, entre outras políticas, assinou um convênio com o Ceará para assessoria em programa de alfabetização. O Estado nordestino, em que Camilo Santana (PT) tenta a reeleição, tem o melhor Ideb dos 16 Estados no ciclo do 1º. ao 5º. ano.

Já o maranhense Flávio Dino (PCdoB) tem 43% das intenções de voto no Ibope e é o primeiro colocado. Neste ano, ele aumentou os salários dos professores e o Maranhão tem o maior piso do País, de R$ 5.740. O valor nacional é de cerca de R$ 2.400; em São Paulo, de R$ 2.585. Procurado, o governo informou que há poucos alunos em escolas estaduais de 1º a 5º ano, onde se deu a piora no Ideb. A maioria está na rede municipal. “Falta no Brasil uma cultura de cobrar resultados dos gestores do setor público, como existe no privado”, diz a advogada e presidente executiva do Instituto Articule, Alessandra Gotti. Ela lembra que o Brasil assinou tratados internacionais em que se compromete com a progressão nas áreas sociais.

“O retrocesso no Ideb é motivo para exigir questionamento sobre a má aplicação do piso em educação. Tem de haver qualidade do gasto mínimo”, completa a procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo Élida Graziane Pinto.

Bahia tem o pior Ideb dos 16 analisados

Em campanha, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), declarou que quer a educação como “a grande marca do segundo mandato”. Mas o Estado tem o pior Ideb entre os 16 analisados no ciclo de 6º ao 9º ano e no ensino médio. “O governo Temer está semeando pânico, relevando os aspectos negativos para justificar a desastrada reforma do ensino médio. É uso eleitoreiro de um problema histórico”, disse Costa. Ele o outros governadores reclamaram de o MEC não ter incluído a nota das escolas técnicas – em geral, com melhor desempenho – no Ideb do ensino médio. O ministério alegou que isso impediria a comparação com o ano anterior.

Em meio a uma crise imigratória na fronteira com a Venezuela, a governadora de Roraima, Suely Campos (PP), enfrenta taxa de rejeição de 62% e, agora, uma queda no Ideb do ensino médio. Em nota, o governo afirmou que há “dificuldade em todo o País em manter a frequência dos jovens, tendo em vista um problema social, e não apenas educacional.”

O Distrito Federal, além de cair no médio, não atingiu a meta do 6º ao 9º ano. Rodrigo Rollemberg (PSB) subiu na última pesquisa Datafolha e está empatado em primeiro lugar com Eliana Pedrosa (PROS). Em nota, o governo diz que, mesmo com a queda, ainda tem umas das melhores notas do País. Entre as redes de governadores que tentam a reeleição, tem o 6º melhor Ideb.

O governo de Amazonino Mendes (PDT) informou que está há 10 meses no cargo e que encontrou um “cenário de professores desestimulados e desvalorizados” no Amazonas. Ele assumiu o cargo depois de novas eleições, convocadas porque José Melo (PROS) foi cassado.

Que tal erguer um hospício sobre os escombros do museu? 2

por Ricardo Kotscho

Tão grave e assustadora quanto a incineração da nossa História no Museu Nacional, é a guerra que se instalou nas redes sociais assim que a noticia correu na noite de domingo.

Um Fla-Flu político insano tomou conta da blogosfera, com ofensas e acusações de todos contra todos, cada facção responsabilizando a outra pela pela desgraça federal.

A tragédia do museu misturou-se ao tiroteio da campanha eleitoral, e o país, que já estava em ruínas, avançou mais um pouco em direção ao abismo da anomia social.

Foi como se as diferentes tribos tivessem recebido ordens para atacar ao mesmo tempo, não deixando pedra sobre pedra para contar no futuro a triste história destes tempos de degradação e barbárie.

Ao mesmo tempo, lá no Acre, o mais alucinado candidato a presidente da nossa história, encenando empunhar uma metralhadora, simplesmente ameaçava fuzilar adversários, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Nem deu manchete na imprensa.

As autoridades se limitaram a lamentar o acontecido e prometeram tomar providências para que a tragédia não se repita, e teve até quem prometeu reconstruir e restaurar o museu, como se isso fosse possível fazer com uma canetada.

Melhor fariam se utilizassem os recursos, que não existem, na construção de um gigantesco hospício na Quinta da Boa Vista sobre os escombros do museu, e colocassem lá dentro todos os que falaram barbaridades suprapartidárias nas últimas 24 horas, em todas as plataformas e latitudes, sem esquecer o bispo-prefeito do Rio, retrato acabado da insanidade em que vivemos.

Se queimaram o nosso passado, pelo menos poderíamos no futuro resgatar um pouco da civilização de cinco séculos que destruímos nos últimos quatro anos, desde a última eleição presidencial, a caminho de uma possível tragédia ainda maior na próxima.

Na entrada do hospício, poderiam colocar uma placa em homenagem póstuma ao finado:

“Aqui jaz a História de um país chamado Brasil que se autodestruiu e ainda está procurando os culpados. Estão todos lá dentro”.

E vida que segue.

Dilema: Ser legal

Dá para ser alguém legal, bondoso e bem-sucedido?

Alain de Botton, via Vida Simples

Aprendemos que devemos ser legais, bacanas, bonzinhos. Mas, contraditoriamente, quando somos assim no trabalho, ou nos assumimos dessa forma publicamente, corremos o risco de ser tachados de bobos ou de alguém que nunca vai chegar ao topo, ao sucesso. Está na hora de mudarmos esse padrão e termos relações mais compassivas
Decidir se tornar uma pessoa mais doce e amável parece ser uma ambição profundamente insípida e desanimadora. Teoricamente, amamos a docilidade, mas, na prática, o conceito parece ser vergonhosamente insignificante, fraco, tedioso e até desinteressante. Ser uma pessoa legal, boa, generosa parece algo que tentaríamos apenas quando outras alternativas mais ousadas e recompensadoras fracassassem. Na verdade, “ser legal” é uma ideia profundamente mal apreciada. Muito do que valorizamos é preservado pela gentileza e compatível com ela. É uma virtude com diversas qualidades sutis. O que se destaca é a forma como você faz isso. Ser alguém legal, bacana, generoso com o outro pode não ter o apelo imediato do dinheiro e da fama, mas é uma qualidade tremendamente importante mesmo assim, que negligenciamos a nosso próprio risco. Ser legal é uma virtude aguardando nossa redescoberta e nossa valorização renovada e sem conflitos. Qual se parece mais com você?

Com atenção 
O bom ouvinte sabe que nos beneficiamos imensamente do encorajamento para elaborar, entrar em detalhes, ir um pouco além. Precisamos de alguém que, em vez de retrucar, simplesmente diga uma rara palavra mágica: “Continue…”.  Quem é legal de uma forma atenciosa é movido por um desejo de entender adequadamente as pessoas, cavar um pouco mais fundo e conhecer melhor o outro. Ele para enquanto o outro fala, faz comentários de apoio, gestos suaves e positivos: um suspiro de solidariedade, um balanço encorajador com a cabeça. Tudo isso para que nós, que falamos, possamos nos sentir acolhidos e entendidos.

 De uma forma aberta
Há determinadas pessoas que são capazes de desconsiderar a nossa essência logo de cara – as quais generosamente chamamos de “mente-aberta”. Elas pressupõem que ser humano é algo confuso e imoral e que qualquer pessoa que encontrem provavelmente carregará em si aspectos longe de ideais, estando às vezes à beira da loucura. Ser legal de uma maneira aberta significa deixar o julgamento de lado e não ter medo do que está dentro da alma do outro. É algo motivado por um desejo de ver o lado bom das pessoas, independentemente das circunstâncias em que encontremos essa bondade.

Com educação 
Por mais que amem a verdade, boas pessoas têm um compromisso ainda maior com outra coisa: ser gentis com as outras. Entendem (e permitem) a facilidade com que uma verdade pode produzir convicções nada úteis na mente dos outros e, portanto, não estão excessivamente comprometidas com a precisão em cada aspecto. Ser legal de uma forma educada é algo motivado por um desejo de proteger o sentimento do outro. É entender que querer o melhor para as outras pessoas às vezes exige que as protejamos com a educação, escolhendo nossas palavras com cuidado para não perturbá-las nem causar preocupação desnecessária.

Com acolhimento 

A pessoa acolhedora pode não ter uma teoria explícita sobre o que está fazendo, mas a raiz de sua conduta se baseia em uma compreensão de que não importa o quão sólido e digno alguém pareça ser por fora, nos bastidores inevitavelmente haverá um lado seu em dificuldade, possivelmente sem jeito, facilmente desconcertado, rodeado por apetites físicos, à beira da solidão – e frequentemente precisando de nada mais sutil ou elevado do que um pequeno elogio. Ser legal de uma forma acolhedora significa que você deseja profundamente que os outros se sintam aceitos – apreciados e valorizados independentemente de seus defeitos ou peculiaridades.

De uma forma tímida 

A timidez está enraizada na discrição e no silêncio, mas também tem dimensões profundas. É preenchida por uma consciência de que podemos estar incomodando alguém com nossa presença, baseada em uma noção aguda de que um estranho pode ficar insatisfeito ou incomodado conosco. A pessoa tímida é comoventemente atenta aos perigos de ser uma perturbação. Ser tímido frequentemente significa que você não quer incomodar ninguém. Você fica preocupado com o conforto dos outros e, assim, prefere ficar fora das coisas em vez de assumir o risco de não ser bem-vindo.

Não queremos ser legais

Nossa noção do que é ser legal pode parecer pessoal, mas tem uma longa história, trazendo o sedimento de pelo menos quatro grandes correntes culturais que vale a pena tentar entender. A primeira delas é nosso legado do cristianismo: é bonzinho, legal, mas fraco. Durante séculos, o cristianismo foi a força mais poderosa que moldou nossos horizontes intelectuais e esteve profundamente comprometido em promover a bondade no mundo. Com a melhor estética e recursos intelectuais, louvou o perdão, a caridade, a ternura e a empatia. No entanto – e infelizmente para a bondade, o ser legal com o outro –, o cristianismo não a deixou simplesmente ali. Também sugeriu que pode haver uma oposição fundamental entre ser legal e ser bem-sucedido. Pessoas bem-sucedidas não eram, como os crentes ouviam, exatamente muito legais – e pessoas legais não eram, exatamente, bem-sucedidas. Parecia que candidatos ao reino dos céus tinham uma escolha a fazer: ser legais ou ter sucesso. Com um só golpe, a dicotomia maculou profundamente o apelo da bondade a qualquer um com a mais remota chama de ambição saudável e secular no coração. O cristianismo pode ter lutado para nos incentivar a ser legais e bondosos, mas, ao conectar a bondade tão firmemente com o fracasso, criou uma permanente sensação de que essa era, essencialmente, uma qualidade de interesse sobretudo para perdedores. A segunda corrente está relacionada ao legado do romantismo: bonzinho, mas tedioso. Nos últimos 200 anos, fomos muito influenciados pelo movimento cultural conhecido como romantismo e, para os românticos, a pessoa admirável é sinônimo de alguém empolgante, intenso e criativo, volátil e espontâneo, que pode perturbar a tradição e ousar. E ser até mesmo enérgico ou rude, em nome de seguir o chamado do coração. O oposto diametral dessa figura heroica era alguém calmo e respeitável, discreto e conservador, modesto e quieto – em outras palavras, a pessoa tediosa. Aqui, também, parece haver uma escolha radical a fazer: impulsivo, imprevisível e brilhante ou quieto, convencional e sempre indo cedo para a cama. A terceira corrente diz respeito ao legado do capitalismo: bonzinho, mas falido. O capitalismo acrescentou a essa lista de cargos de gentileza mais uma acusação: apresentar uma interpretação do mundo como uma arena profundamente competitiva na qual todas as empresas estavam comprometidas em forjar uma batalha contínua por participação de mercado, em uma atmosfera marcada por impiedade, determinação e impaciência. Quem tinha sucesso precisava saber como destruir a concorrência, sem um pingo de emoção. Uma pessoa legal e boa, não disposta a reduzir salários ou superar um oponente, acabaria falida. A quarta e última corrente é a do erotismo: legal, mas nada sexy. Uma última, e mais pessoal, associação paira sobre a bondade. Ela diz respeito à crença de que ser legal não pode ser sexualmente desejável, porque as qualidades que nos tornam eróticos estão vinculadas à posse de lados brutais, dominadores, que brigam com a ternura e o aconchego. Mais uma vez, uma escolha esquisita se apresenta: entre o amigo agradável com quem ir ao parque e a companhia perigosa com quem desaparecer porão adentro com algemas e um chicote. Apesar de tudo isso, gostamos da bondade e dependemos dela. A questão é que as lembranças ligadas a isso foram suprimidas por uma cultura que injustamente não nos faz sentir inteligentes por aprová-la. Todas as qualidades que aprendemos a pensar como opostas a ser legal são altamente compatíveis e, às vezes, dependentes dela. Independentemente do quanto estamos comprometidos com o sucesso, durante boa parte da vida, somos criaturas vulneráveis à mercê da bondade dos outros. Só conseguimos ter sucesso porque outras pessoas, normalmente nossas mães, abriram mão de parte de sua vida para serem generosas conosco. Quanto à empolgação, essa também pode ser uma fase, como todos aqueles que deram contribuições reais para a humanidade sabem. Dias tranquilos, rotina doméstica e horários regulares para dormir são precondições necessárias para picos criativos. Não há nada mais estéril do que uma exigência para que a vida seja sempre empolgante. Por outro lado, o capitalismo pode recompensar a competição entre empresas, mas depende da colaboração dentro delas. Nenhuma companhia pode funcionar por muito tempo sem confiança e laços de afeto pessoal. Para frustração dos chefes, dinheiro não pode garantir o comprometimento necessário dos funcionários; apenas sentido e espírito de companhia garantirão. Finalmente, a excitação sexual da obscenidade só seduz adequadamente em condições de confiança. Não importa o quanto fantasiemos sobre uma noite com um conquistador impiedoso, seria alarmante encontrar um exemplo real. Precisamos saber que alguém é de fato bondoso antes de um chicote, algemas e palavras indecentes se tornarem algo interessante. Tanto do que valorizamos é, na verdade, preservado pela bondade e compatível com ela. Podemos ser legais e bem-sucedidos, legais e empolgantes, legais e ricos e legais e potentes. Ser alguém legal, bonzinho – como muitos rotulam –, é uma virtude que aguarda nossa redescoberta e nossa valorização renovada e sem conflitos.
A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.
Alain de Botton é filósofo, escritor e ficou conhecido por aplicar conceitos filosóficos para resolver dilemas do dia a dia. É um dos idealizadores da The School of Life e autor de diversos livros sobre amor, viagens e arquitetura.

Espiritualidade contemporânea

Nutro uma desconfiança profunda pela idolatria da vida como prosperidade eterna

Luiz Felipe Pondé

A espiritualidade está na moda. Muita gente diz que tem espiritualidade mas não tem religião. Com isso quer dizer que é legal, não é materialista, mas nada tem a ver com as barbaridades cometidas pelo cristianismo. Se tiver grana, será uma budista light. Aquele tipo de budista que frequenta templo de fim de semana e paga R$ 100 reais para lavar o chão a fim de sentir a dimensão espiritual do trabalho físico.

Poderia lavar de graça o banheiro da própria casa, mas esse banheiro não teria o mesmo valor do banheiro do mosteiro chique. Trata-se de um day temple e não day spa. Não vou entrar na questão técnica e histórica da relação entre espiritualidade e religião. Mas, sim, é possível uma pessoa cultivar uma busca de sentido na vida para além da banalidade das demandas e rotinas do cotidiano, estando ou não vinculada a alguma tradição religiosa.

O centro da busca é o reconhecimento de tensões nessa rotina que nos fazem sentir um esvaziamento de significado desta mesma rotina, sem necessariamente depender diretamente de conteúdos advindos das tradições religiosas à mão.

Mas um fato é necessário reconhecer, antes de tudo: as formas mais consistentes de busca espiritual estão associadas a temas concretos da vida e não a ET, Jedis, Thor ou bruxinhas de fim de semana.

A espiritualidade nasce da percepção de mal-estar da condição humana e da tentativa de lidar (ou superar esse mal-estar) e não apenas do deslumbramento com a série “Vikings”. Essa busca se iniciou no alto paleolítico quando o Sapiens começou a perceber que havia algo de “errado” em sua condição (sofrimento, insegurança, morte, violência e por aí vai).

Em termos contemporâneos, acho que três tópicos, entre outros possíveis, se prestam a uma inquietação espiritual. Um diretamente ligado ao mundo corporativo, mas que o transcende, outro ao avanço da longevidade, e outro mais derivado do impacto do avanço da inteligência artificial.

As grandes tradições espirituais sempre falaram de sofrimentos reais e não de modas culturais, como no caso que descrevi acima (day temple, Jedis, ET e semelhantes). Um dos temas contemporâneos mais avassaladores é a obrigação de ter sucesso e prosperar. Nesse contexto, repousar é justificado, apenas, se o repouso for causa de maior avanço.

A pessoa é chamada a ver a si mesma e a sua vida como um recurso a ser explorado e transformado em ganho de alguma espécie. Formas variadas de “coaching” apressados, assim como workshops de fim de semana “ensinam” as pessoas que timidez é pecado, insegurança é “justamente” punida com fracasso financeiro, recusa de escolher o que é “novo” é uma nova forma de doença mental.

Nesse contexto de produtividade opressiva, formas falsas de espiritualidade associadas ao mundo corporativo ou do trabalho crescem como um discurso que daria ao imperativo do trabalhar 24 horas por dia (24/7, como dizem os americanos) uma aura de movimento quântico em direção ao sucesso eterno.

Por isso, qualquer espiritualidade contemporânea deve olhar de forma desconfiada para essas tentativas de associar o sucesso ao universo espiritual. Ou a ideia de que produtividade e eficácia implicam uma melhor gestão do karma.

Se a espiritualidade toca em temas “negativos”, ou seja, nas contradições que somos obrigados a enfrentar na vida, ela não poder ser infantil como essas formas de idolatria do sucesso. Nutro uma desconfiança profunda por quem, o tempo todo, vê a vida como uma empreitada para a prosperidade.

Talvez uma das maiores formas de prosperidade seja a longevidade. Produto de alto valor no mercado das utopias. Palestras de todos os tipos vendem a longevidade como algo que será, um dia, vendido nas prateleiras do free shop. A ideia é de que a morte será eliminada ou adiada 500 anos.

Do ponto de vista espiritual, sendo a morte um dos temas que mais despertam indagações, a (quase) eliminação dela, ou a transformação dela em “opção”, traria elementos muito significativos para as inquietações humanas. Por que optar por virar pó (morrer) quando você poderia viver pra sempre? É bom mesmo estar consciente de si para a eternidade ou por 500 anos? Temo que não. A primeira reação minha seria uma profunda melancolia e tédio.

Outro tópico avassalador é a entrada da inteligência artificial no universo humano. Aqui a experiência mais assustadora será a da humilhação cognitiva que vamos experimentar. A humilhação sempre foi um alimento espiritual poderoso.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e
“Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP