É possível aprender a lidar com os sentimentos?

Achamos que o conhecimento está relacionado apenas às matérias que aprendemos na escola. Mas, na vida, precisamos também saber lidar com as emoções, como tristeza, frustração ou compaixão. O problema é que não enxergamos isso como algo que podemos aprender. E esse é um grande erro, que gera mais desapontamento e infelicidade

Alain de Botton, via Vida Simples

Durante a maior parte da história, a ideia de que a meta de nossa vida era ser feliz teria soado extremamente estranha. Na história cristã que dominou a imaginação ocidental, a infelicidade não era uma coincidência, mas sim uma inevitabilidade exigida pelos pecados de Adão e Eva. Para os budistas, a vida era, em essência, uma história de sofrimento. Então, lentamente, à medida que a era moderna surgia, um novo conceito veio à luz: realização pessoal, a ideia de que a felicidade poderia ser alcançada no trabalho e nos relacionamentos. Infelizmente, esse novo conceito coincidiu com uma crença de que as habilidades necessárias para atingir a felicidade poderiam ser obtidas sem educação. Nossa enfermidade atual pode remeter a esse erro. Nossa sociedade tem um enorme apreço pela educação, mas também é estranhamente exigente sobre em que podemos ser educados. Aceitamos que precisamos de treinamento quanto a números e palavras, ciências naturais e história, aspectos de cultura e negócios, mas ainda é estranho imaginar que possa ser viável — ou mesmo necessário — sermos educados quanto a nosso funcionamento emocional, por exemplo, que talvez precisemos aprender (em vez de simplesmente saber) a evitar melancolia ou a interpretar nossos lutos, escolher um parceiro ou fazer um colega nos entender. A tarefa diante de nós, portanto, é saber como adquirir um conjunto de habilidades emocionais que possa contribuir para desenvolvermos a chamada “inteligência emocional”. O termo parece estranho. Estamos acostumados a nos referir à inteligência sem diferenciá-la — e, portanto, não tendemos a ressaltar o valor de um tipo muito peculiar de inteligência que, atualmente, não tem o prestígio que deveria.

Todo tipo de inteligência indica uma capacidade de navegar bem em torno de um grupo em particular de desafios: matemático, linguístico, comercial, técnico etc. Quando dizemos que alguém é inteligente mas bagunçou sua vida pessoal, ou que ganhou uma quantia incrível de dinheiro mas é muito complicado de trabalhar, estamos apontando para um déficit no que merece ser chamado de “inteligência emocional”.

Inteligência emocional é a qualidade que nos permite negociar com paciência, visão e parcimônia os principais problemas em nossos relacionamentos — com os outros e com nós mesmos. Ela aparece nas parcerias como uma sensibilidade aos humores dos outros, uma preparação para entender o que pode estar acontecendo com eles além da superfície e entrar imaginativamente em seu ponto de vista.

Aparece com relação a nós mesmos quando se trata de lidar com sentimentos como a raiva, inveja, ansiedade e confusão profissional. Além disso, é esse conjunto de conhecimentos que diferencia aqueles esmagados pelo fracasso dos que sabem como encarar os problemas com uma resiliência melancólica e, às vezes, sombriamente bem-humorada. Uma forma de começar a avaliar isso — e para onde, portanto, precisamos direcionar a maior parte de nosso trabalho e atenção de reparo — é identificando diversos marcadores de saúde emocional e imaginando como nos saímos em relação a eles. No mínimo, quatro marcadores centrais se apresentam.

Amor-próprio
É a qualidade que determina o quanto podemos ser nossos próprios amigos e, diariamente, continuar ao nosso lado. Quando conhecemos um estranho que tem coisas que não temos, com que rapidez nos sentimos lamentosos — e por quanto tempo conseguimos nos convencer de que o que temos e somos é suficiente? Quando outra pessoa nos frustra ou humilha, podemos esquecer o insulto, capazes de perceber a maldade sem sentido por trás do ataque, ou ficamos arrasados, nos identificando com o veredito de nossos inimigos? Quanto da desaprovação ou do descaso da opinião pública pode ser compensado pela lembrança da atenção constante de algumas pessoas significativas no passado? Nas relações, temos amor-próprio suficiente para sair de uma situação abusiva? Ou nos criticamos tanto que carregamos uma crença implícita de que só merecemos o mal? De outro ângulo, somos bons em pedir desculpas a alguém que amamos por coisas que são nossa culpa? Quão rigidamente complacentes precisamos ser? Conseguimos ousar a admitir erros, ou uma admissão de culpa ou erro nos aproxima demais de nossa sensação secundária de nulidade? No trabalho, temos uma noção racional e embasada de nosso valor — e assim nos sentimos capazes de pedir (e provavelmente esperar receber) as recompensas que merecemos? Conseguimos resistir à necessidade de agradar os outros indiscriminadamente?

Franqueza
Essa virtude determina até que ponto ideias difíceis e fatos perturbadores podem ser conscientemente admitidos, sobriamente explorados e aceitos sem negação. Quanto podemos admitir a nós mesmos sobre quem somos — mesmo quando, ou especialmente quando, a questão não é exatamente agradável? Quanto precisamos insistir em nossa própria normalidade e sanidade inabalável? Podemos explorar nossa mente — e explorar seus cantos mais sombrios e perturbadores — sem nos esquivarmos abertamente? Podemos admitir bobeira, inveja, tristeza e confusão? Estamos prontos para escutar quando lições valiosas vêm em disfarces dolorosos?

Comunicação
Podemos expressar, de forma paciente e racional, nossas decepções em palavras que, mais ou menos, permitem que os outros vejam nosso lado? Internalizamos a dor, expressamos simbolicamente, ou a descarregamos com uma raiva contraproducente? Quando os outros nos chateiam, sentimos que temos o direito de comunicar, ou devemos bater a porta e nos afundar na tristeza?

Confiança
Quão arriscado é o mundo? Com que rapidez podemos sobreviver a um desafio na forma de um discurso, uma rejeição romântica, uma fase de problemas financeiros, uma viagem para outro país ou um simples resfriado? Novos conhecidos gostarão de nós ou nos machucarão? Se formos um pouco assertivos, eles aguentarão ou desmontarão? Quanto ao amor, precisamos agarrá-lo fortemente? Se ficarem distantes por um tempo, voltarão? Quão controladores precisamos ser?
Não é nossa culpa nem, de certa forma, de ninguém que muitas dessas perguntas sejam tão difíceis de responder, mas, ao pensar nelas, estamos, pelo menos, começando a saber que tipo de formato nossas feridas têm e, assim, que tipo de curativo será o mais necessário.

Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo foca em meninas e mulheres 6

As Nações Unidas celebram neste 2 de abril o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo sob o lema “Capacitando mulheres e meninas com autismo”. O secretário-geral da ONU, António Guterres, aproveitou a data para lembrar a reafirmação do “compromisso de promover a plena participação de todas as pessoas com autismo na sociedade e garantir o apoio necessário para que estas possam exercer seus direitos e liberdades fundamentais”.

As comemorações do Dia Mundial da Conscientização do Autismo também querem envolver mulheres e meninas com as organizações que as representam na formulação de políticas e decisões para abordar os desafios que elas enfrentam. A Assembleia Geral da ONU realiza uma série de eventos sobre a data na próxima quarta-feira (4), como debates com especialistas e ativistas para discutir questões específicas de mulheres e meninas com autismo.

Os temas abordados incluem os desafios e as oportunidades para o pleno exercício dos seus direitos em áreas como casamento, família e paternidade com igualdade de oportunidades.

Desafios

Em novembro de 2017, a Assembleia Geral adotou uma resolução chamando a atenção para os desafios específicos de mulheres e meninas com deficiência para implementar a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Essa decisão manifesta preocupação porque mulheres e meninas nessa situação estão sujeitas a “formas de discriminação diversas e interligadas, que limitam o usufruto de todos os seus direitos humanos e liberdades fundamentais”.

A ONU diz que as meninas com deficiência são menos propensas a terminar o ensino fundamental e têm maior probabilidade de serem marginalizadas ou terem acesso negado à educação.

De acordo com a organização, as mulheres com deficiência apresentam uma taxa de emprego mais baixa do que os homens na mesma situação e do que as mulheres sem deficiência.

Violência

A nível global, as mulheres com deficiência têm mais probabilidades de sofrer violência física, sexual, psicológica e econômica do que os homens. Outro problema é a desigualdade causada pela discriminação e pelo estigma associado ao gênero e à deficiência.

Os resultados da falta de acessibilidade e dos estereótipos são barreiras aos serviços de saúde sexual e reprodutiva e à informação sobre educação sexual abrangente. As mais afetadas são particularmente mulheres e meninas com deficiência intelectual, que inclui o autismo.

O autismo

O autismo é uma síndrome complexa e muito mais comum do que se pensa. Atualmente, o número mais aceito no mundo é a estatística do CDC (Center of Deseases Control and Prevention), órgão do governo dos Estados Unidos: uma criança com autismo para cada 110. Estima-se que esse número possa chegar a 2 milhões de autistas no país, segundo o psiquiatra Marcos Tomanik Mercadante citou em audiência pública no Senado Federal no fim de 2010, onde discute-se uma lei exclusiva para o autismo, liderada pelo senador Paulo Paim (PT-RS). Mercadante é um dos autores da primeira (e por enquanto única) estatística brasileira, num programa piloto por amostragem na cidade de Atibaia (SP), que registrou naquela amostragem incidência de uma para cada 333 crianças,

No mundo, segundo a ONU, acredita-se ter mais de 70 milhões de pessoas com autismo, afetando a maneira como esses indivíduos se comunicam e interagem. A incidência em meninos é maior, tendo uma relação de quatro meninos para uma menina com autismo.

(Fontes: Agência Brasil e Corautista)

Crianças e adolescente da APAE de Santa Helena recebem atendimento do Dr. Leonardo Sá

Para as pessoas que acompanham a trajetória de Leonardo Sá não é novidade que o médico dedica uma boa parte do seu tempo voltado para trabalhos filantrópicos. No ano de 2016 ele foi o responsável pelo mutirão “Mais Saúde” que levava atendimentos médicos e estéticos, como corte de cabelo gratuito aos povoados e bairros no município de Pinheiro.

Como todo ano, o jovem médico se dedica a uma grande causa, este ano não está sendo diferente, ele vem apresentando um belo trabalho voluntário na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), de Santa Helena, onde vem promovendo a atenção médica à pessoas com deficiências intelectuais e múltiplas contribuindo diretamente com o bem estar e a luta pelos direitos das pessoas com deficiência.

A convite do vereador Mourinho (PSDB) Dr. Leonardo Sá esteve no sábado (24), realizando atendimentos na APAE, em sua página pessoal Leonardo Sá declarou que esse tipo de trabalho para ele é revigorante: “Estive hoje em Santa Helena, visitando o APAE daquele município, com meu amigo Mourinho. Sou médico voluntario daquela casa, isso me estimula e me faz muito bem, está entre aquelas pessoas tão puras e especiais aumentam o meu desejo de ser uma pessoa cada dia melhor. Vou lá pra cuidar e saio revigorado, com um grande aprendizado do que realmente significa garra, força, vida e amor. Só agradeço a Deus por ter o privilégio de cuidar das pessoas”,disse Leonardo

Como um boato pode acabar com a sua reputação

9 dicas para driblar a crise pós boato, se você é porta-voz e representa empresa pública ou privada, ou então é a própria marca

Aurea Regina de Sá, via Administradores.com

O boato é uma informação falsa que soa como verdade. Ele pode vir da boca de um amigo, do chefe ou do parceiro, pessoas em quem você confia e, portanto, não vai achar que é mentira. Mas, há uma onda muito forte de boatos também nas redes sociais. O movimento que invade a internet do mundo inteiro é um alerta para quem propaga informação incorreta e para quem ‘compra’ notícias falsas, as ‘Fake News’.

O boato é uma faca de dois gumes: pode destruir a imagem da vítima, alvo da difamação, e também a do promotor da inverdade, porque mostra suas verdadeiras motivações que podem ser interesses comerciais, desejo de vingança por conta do orgulho ferido, inveja ou interesses eleitoreiros.

– interesses comerciais: se uma empresa lança um boato sobre um concorrente poderá ter mais lucro por algum tempo, enquanto a marca difamada investe para justificar que não tem culpa;

– desejo de vingança por orgulho ferido ou inveja: se uma pessoa cria uma inverdade sobre outra, poderá ter o prazer de ver o outro envolvido em situações constrangedoras até conseguir provar o contrário;

– interesses eleitoreiros: se um político divulga um boato sobre outro pode ter a intenção de prejudicar a caminhada do concorrente na busca por votos e sair na frente na disputa eleitoral.

Em todos os casos, a intenção do promotor de boatos é de se sentir bem, mesmo que isso pareça algo perverso, já que a motivação é a de prejudicar o outro. A sensação de inferioridade por não ser ou parecer como o outro e a consequente necessidade de se tornar visível fazem do criador de falsas informações alguém importante, ainda mais quando ele percebe a repercussão da ‘notícia’ que produziu.

O sociólogo norte americano Jack Levin, co-autor de Gossip: The Inside Scoop (Fofoca: o Furo Privilegiado, ainda não disponível no Brasil), destaca a importância de diferenciar o significado de termos como fofoca e boato. Para Levin, fofoca é uma mensagem sobre o comportamento de outras pessoas, especialmente quando os alvos não estão presentes. O estudioso afirma que boato é um processo pelo qual os indivíduos tentam definir uma situação ambígua. “Eles, então, espalham notícias informalmente porque as fontes oficiais não existem ou estão inacessíveis”, revela.

Partindo do princípio de que o Brasil é uma democracia e a imprensa é livre, as fontes oficiais não só existem como estão disponíveis. Com o acesso de 116 milhões de brasileiros conectados à internet, em 2016, que representa 64,7% da população com idade acima de 10 anos, (dados do IBGE de fevereiro de 2018) não dá pra usar a desculpa de que a informação foi propagada por que não havia como checar.
Saiba como checar uma informação recebida pelas redes sociais

Para evitar uma conclusão precipitada e parar de dizer frases como: ‘eu ouvi dizer que….’ ou ‘não sei direito, mas acho que é isso’, siga os passos abaixo e certifique-se antes de publicar qualquer informação:

1º passo: duvide, sempre questione. A primeira pergunta que deve ser feita é ‘será que isso aconteceu mesmo?’

2º passo: busque referências na internet, que possam atestar a informação ou contradizê-la. Acesse sites de notícias que sejam avaliados com alto nível de credibilidade. Não acredite em um só veículo: analise, compare, reflita. Neste momento dispense sua crítica sobre a política editorial de determinados veículos de imprensa. De qualquer maneira, na imprensa, uma notícia é checada antes de ser publicada.

3º passo: acesse sites que conferem boatos. Com o surgimento das fake News, cresce o esforço para esclarecer informações e aumentar a conscientização das pessoas,

4º passo: NÃO espalhe notícias falsas, nem por brincadeira. Pessoas mais ingênuas e as que não investem na checagem, acreditam em qualquer informação e isso reflete, inclusive, no futuro do país, porque elas votam mal e elegem candidatos fabricados em cima de fake News,

5º passo: não seja conivente com a mentira, interfira, interrompa a multiplicação da mensagem duvidosa, advirta os integrantes de grupos e seus seguidores nas redes sociais. Não coloque mais lenha na fogueira e deixe de ser marionete a serviço da desinformação,

6º passo: seja cidadão, pratique a empatia e desenvolva a capacidade de crítica para contribuir com a melhoria da sua vida e a dos outros.
Como avaliar se uma informação é verdadeira ou falsa

A informação imprecisa, que não apresenta o autor e nem a fonte pesquisada, pode ter indícios de que não tem teor verdadeiro. O fato de ser publicada em um site, blog ou rede social não significa que foi produzida com o cuidado da checagem, prática do jornalismo sério e ético. A apresentação de fatos também não garante a credibilidade da informação, porque os fatos podem ter sido inventados para confundir o leitor e criar um conceito negativo sobre aquele que é foco da notícia. Continuar lendo

A geração que não entende o conceito de gratidão

Os eternos credores do universo

POR RUTH MANUS, via Estadão

Gosto de uma série de coisas que hoje em dia podem facilmente ser consideradas como fora de moda: alguns modelos de calça que já não fazem muito sentido, alguns roteiros de viagem que se perderam no tempo, algumas comidas que já nem se encontra mais no supermercado. Mas a coisa mais fora de moda da qual eu realmente gosto é essa tal de gratidão.

Não sei se a minha geração foi criada para entender esse conceito. Acho que não. Parece que temos que fazer muito esforço para entender isso, inclusive eu. A noção de gratidão é realmente um lance que ficou meio perdido nas últimas décadas e que faz com que nós fiquemos um pouco desconcertados ao olhar para essa palavra, assim como fica uma criança nascida nos anos 2000 ao olhar para uma vitrola, sem entender bem qual a sua finalidade.

Crescemos com a nítida sensação de que somos credores da vida. Assim que nascemos começamos a debitar da conta dos outros uma série de dívidas que julgamos que eles têm para conosco e, assim, vamos tendo cada vez mais certeza de que somos verdadeiramente intocáveis e que o universo tem toda a obrigação de nos proporcionar a felicidade plena, não porque merecemos, mas porque temos direito.

Nessa geração o raciocínio é o seguinte: em vez ser grato e devedor, o indivíduo sempre se considera um generoso credor. Não é ele quem é grato aos pais pela criação dedicada, são seus pais que lhe devem muito por ser bom filho. Não é ele quem é grato ao professor pelos ensinamentos que recebeu, é o professor que lhe deve muito pois “é ele” quem paga seu salário. Não é ele quem é grato ao chefe pela oportunidade de trabalho, é o chefe que lhe deve muito por ele cumprir todo dia suas obrigações.

As coisas mais básicas num ser humano legal (retribuir o afeto da família, respeitar professores, estudar quando se tem oportunidade, trabalhar bem, cumprir horários, preocupar-se com os amigos, ser gentil com os velhinhos e dar seu melhor todo dia) tornaram-se um verdadeiro passaporte diplomático para o mundo dos semideuses. Fazer o mínimo vem se tornando o suficiente para tornar-se o máximo.

E quanto mais longe nos colocamos do conceito de gratidão, mais a nossa vida parece vazia, incompleta. Voltamos mais uma vez à história do copo meio cheio e do copo meio vazio. Quem olha para sua vida e sente-se grato, tem um copo sempre meio cheio. Quem olha para sua vida e sente-se credor das pessoas e do universo, terá sempre um copo meio vazio.

É preciso que a gente saiba resgatar essa ideia de gratidão. Olhar para as nossas vidas e pensar que temos muita sorte, pelo simples fato de termos a base: afeto, comida, teto, saúde. Precisamos parar de olhar para os nossos dias pensando no que não temos: o corpo ideal, o salário estratosférico, o namorado mais bonito, a dupla promoção, a viagem dos sonhos.

Enquanto pensarmos que todos nos devem muito por tudo o que fazemos por eles, sem nunca nos dar conta de que as pessoas, em geral, fazem tudo o que podemos por nós, seguiremos sendo essa famosa geração mimada, cujo objetivo vai ser sempre ganhar o mundo ao invés de ser grata por ter a oportunidade de tornar o mundo um lugar melhor.

A vida de acordo com os indicados ao Oscar

O que cinco candidatos ao maior prêmio do cinema mundial nos dizem sobre o amor?

Ademir Correa, via Vida Simples

O despertar do verão – Me Chame Pelo Seu Nome

Me Chame Pelo Seu Nome, filme de Luca Guadagnino baseado no livro homônimo de André Aciman, acompanha o nascer da paixão e a descoberta do amor de Elio (Timothée Chalamet) por Oliver (Armie Hammer). A história que se passa na Riviera italiana é de rara beleza – a fotografia encanta pelas paisagens campestres e o clima solar da estação traz ao filme uma atmosfera única e um deleite aos olhos – como se estivéssemos dentro de uma pintura em tela (ao vivo).

Ao tratar de um relacionamento entre dois homens, Me Chame Pelo Seu Nome ultrapassa a bandeira do amor gay e torna-se um libelo universal sobre paixão, carinho, desilusão, desencontros, despertar. Elio está se descobrindo. Então ele encontra o amor em Oliver e também em Marzia (Esther Garrel). Esta possibilidade de experimentar sem rótulos mostra que a vida – a da película – não é passível de julgamentos.  Créditos finais, ao som de ‘Mistery of Love’, de Sufjan Stevens, fecham a obra e convidam às lágrimas – as de Elio e as dos cinespectadores.

Todas as formas de amor – A Forma da Água

O longa de Guillermo del Toro mostra o afeto improvável de Elisa (Sally Hawkings), zeladora em um laboratório do governo, e uma criatura fantástica mantida em cativeiro.  A protagonista, que é muda, preocupada com as condições precárias em que o ser da água é mantido para pesquisa, desenvolve uma amizade através de visitas diárias e amplia a possibilidade de diálogos entre os dois através da linguagem de sinais. A esperada tomada erótica entre a personagem e o monstro transforma o sexo em amor em uma das cenas esteticamente mais belas da película.

A Forma da Água é um conto de fadas que fala sobre desajustados, aceitação e empatia – é como se A Bela e a Fera (2017) encontrasse O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) em meio a uma enxurrada.

O amor próprio quer voar – Lady Bird

A estreia de Greta Gerwig (que ganhou notoriedade com seu papel em Frances Ha, de 2012) na direção com Lady Bird já é um convite para o vislumbre de universo feminino bastante particular.

Christine Lady Bird MacPherson (Saoirse Ronan) precisa escolher que carreira quer seguir após a escola. Deslocada dos jovens de sua idade em Sacramento, Califórnia, ela busca compreender-se como futura artista enquanto mostra seu cotidiano cercado de incertezas comuns da idade somadas a uma conturbada relação familiar. O que está em jogo ali é a jornada da mulher – que não está em busca de um par perfeito. As personagens femininas dominam e conduzem a trama que fala sobre amadurecer sem perder a ternura.

Há limites para o amor de uma mãe? – Três Anúncios Para Um Crime

Segundo Três Anúncios Para Um Crime, não.  Mildred Hayes (Frances McDormand), inconformada com a polícia de Ebbing (pequena cidade do Missouri) que cessou as investigações sobre o assassinato de sua filha, resolve desafiar a corporação com mensagens nada edificantes colocadas em três outdoors. O pedido de socorro público mobiliza a localidade – para o bem e para o mal, despertando a natureza vil de algumas personagens e os silêncios que são necessários para manter o status quo de uma vida pacata.

Três Anúncios Para Um Crime, dirigido por Martin McDonagh, investiga este crime do título, mas ainda discute questões como racismo, misoginia e violência doméstica – atrocidades vistas com ares de normalidade nesta cidadela que representa os Estados Unidos mais profundo. Também é sobre amor e esperança, sobre a dor da maternidade diante da injustiça e sobre a força do feminino em um mundo predominantemente masculino.

É um dos favoritos a levar a estatueta de melhor filme, bem como a de melhor atriz – para Frances McDormand – e a de melhor ator coadjuvante – para Sam Rockwell (que vive um policial alcoólatra e corrupto).

Quando o amor é tóxico – Trama Fantasma

Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson – diretor notório pela sua chuva de sapos em Magnólia (1999), acompanha a trajetória regrada do costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), que veste a realeza e as grandes damas da sociedade inglesa no período do pós-guerra, e seu relacionamento com a modelo de prova Alma (Vicky Krieps). Esta, que sofre o desdém do renomado designer, encontra uma solução para esta relação desigual. Invisível diante dos olhos do amado, ela o envenena gradativamente com cogumelos tóxicos – porque doente ele se torna frágil e aberto aos cuidados.

Deste amor doentio-sadio, surge o amor que faz mal (para os envenenados e envenenadores) mesclado ao glamour das roupas e vestidos da época. Amar é poder, amar é aparência, poderia dizer o filme.

A escrita e a literatura como terapia

Cursos, no Rio de Janeiro, mostram como a escrita e a literatura nos ajudam a lidar com nossas emoções

Vida Simples Digital

Cursos de literatura e escrita funcionando como aliados no processo de superação de síndromes e de problemas emocionais têm arrastado muita gente para dentro das salas de aula, sob a lógica de Mario Benedetti de que se a literatura não muda o mundo pode mudar as pessoas e elas, sim, modificam o mundo. É esta a premissa do Instituto Estação das Letras, no Flamengo, que a partir do início de março coloca à disposição do público as oficinas Fazer a mão – bordando a poesia; Ler e Escrever – um santo remédio; e Encadernação Poética.

“A Biblioterapia (prescrição de materiais de leitura com função terapêutica) chega como a mais antiga novidade desse contexto, validando como foi longo o caminho percorrido até livros e literatura adquirir caráter terapêutico”, explica Suzana Vargas, fundadora do IEL, para quem ler e escrever passam a fazer sentido no cotidiano das pessoas. “Criar e ler mudam destinos, embora não substituam as terapias psicanalíticas”, diz.

Em Bordando a poesia, as psicanalistas Ninfa Parreiras e Theka Galvão colocam em pauta o risco, a palavra, o ponto, o verso, o vazio e o avesso para serem trabalhados, junto ao ritmo e à imagem através do artesanato da poesia e do bordado. O objetivo das professoras é fazer com que os participantes do curso criem poemas e bordem, literalmente, os versos que saírem deste processo. As aulas acontecem dias 2/3, 6/4 e 11/5, às sextas-feiras, das 9h30 às 12h30, na sede do IEL (Marquês de Abrantes, 177, no Flamengo).

Na mesma corrente terapêutica, a professora Silvia Carvão apresenta na sua oficina de escrita, Ler e Escrever – um santo remédio, histórias, contos, crônicas e poemas como remédios para os males e anseios que rodeiam a sociedade moderna. As aulas começam dia 6/3 e acontecem até 24/4, sempre às terças-feiras, das 18h45 às 20h45, no IEL, que abre suas portas ainda, entre 12/3 e 4/6 para o bibliotecário, poeta e arte-educador Domingos Gonzale Cruz, com Oficina de Encadernação Poética.

Confeccionar livros de poesia, afinal, desde a impressão até a encadernação artesanal criativa é ou não uma oportunidade de cuidar da mente colocando as mãos para trabalhar em conjunto? Para Suzana Vargas, cursos como esses recolocam a literatura no seu lugar e apontam através da criação e da leitura nossos recursos internos para enfrentar a dureza do cotidiano e muitas vezes a falta aparente de sentido.

O patrão de si mesmo

É cada vez mais presente que a histórica luta de classes entre capital e trabalho, tão bem descrita por Marx, transfere-se hoje para o interior do indivíduo como pessoa

Wagner Siqueira, via administradores.com

A luta de classes entre patrões e empregados se transferiu para o íntimo de cada trabalhador. Não mais se dá por meio da mediação, da negociação e do dissídio dos sindicatos. Esta é a razão intrínseca do desprestígio dos movimentos sindicais em todo o mundo.

A nova realidade cotidiana do universo das organizações transforma o trabalhador numa espécie de empregador de si mesmo. O profissional emprega o corpo e entrega a alma ao trabalho.

É cada vez mais presente que a histórica luta de classes entre capital e trabalho, tão bem descrita por Marx, transfere-se hoje para o interior do indivíduo como pessoa.

A série de suicídios que ocorrem nas mais diversas corporações em todo o mundo é uma das mais deletérias conseqüências da forma de organização do trabalho produzida para atender às novas necessidades da sociedade de mercado, que muitos no mundo globalizado denominam de neoliberal.

O fordismo já não rege a organização do trabalho… Muito menos as descobertas das ciências do comportamento humano.

Os princípios da Administração Científica tão bem sustentados originalmente por Ford, Taylor, Fayol, Gulick e muitos outros já não mais parametrizam a organização do trabalho e a gestão das organizações. Nem o fazem os postulados da Pesquisa de Hawthorne, marco determinante da Escola de Recursos Humanos e dos avanços daí decorrentes que redundaram no desenvolvimento das ciências do comportamento humano no trabalho.

Durante todo esse tempo, ou seja, até o segundo terço do Século XX, os sindicatos se batiam preponderantemente para reduzir as jornadas de trabalho, para aumentar os salários e para conquistar novos benefícios e vantagens extra-salariais; e, em menor escala, tentavam controlar as condições de trabalho pela via das negociações e dos dissídios coletivos. Mas, de forma alguma, atuavam diretamente nos processos e procedimentos que se passavam por dentro do próprio trabalho, na natureza ou na essência do trabalho em si mesmo.

Este foi o sistema produtivo que permitiu grandes avanços da humanidade ao longo do século passado, o florescimento da sociedade de consumo, o desenvolvimento econômico das nações e a melhoria substantiva da qualidade de vida de parcelas expressivas da população mundial. Contribuiu também, claro, para aprofundar e para explicitar as desigualdades e disparidades socioeconômicas existentes entre nações, dentro das próprias sociedades e entre os indivíduos.

De forma alguma, no entanto, as ações de representação sindical tratavam do percurso existencial dos trabalhadores como pessoas e por onde se oxigenavam e se renovavam como seres humanos. Bem, pelo menos até os primeiros resultados das investigações científicas da Fábrica de Hawthorne, da Western Electric, e dos avanços posteriores das ciências do comportamento humano nas organizações, como já acima destacado.

Os trabalhadores respiravam o ar puro da renovação humana fora do trabalho… 

Os trabalhadores se dedicavam exaustivamente a seus trabalhos, em duras jornadas laborais, mas se oxigenavam fora dele, ou melhor, respiravam a renovação e a restauração humana fora das organizações em que trabalhavam, bem distantes do que realizavam no cotidiano em suas estafantes jornadas laborais.

Respiravam o ar puro da renovação existencial pela participação intensa em instâncias externas ao trabalho, como associações comunitárias diversas, ativa vida social e religiosa, e, principalmente, a própria família.

Essas eram as suas válvulas de escape de oxigenação. Através do salário e do emprego podiam ascender ao mundo, participar da vida social de suas comunidades, garantir qualidade de vida às suas famílias, integrar-se em plenitude ao universo civilizatório da sociedade em que viviam.

Eram objeto e sujeito de amor e de trocas afetivas, de relações e de ambientes sociais, de participação e de pertencimento.

O trabalho era, de fato, o divino castigo que deveriam cumprir ou o preço a ser pago para desfrutar de uma vida em plenitude fora dele.

Agora, já não mais respiram e se oxigenam existencialmente como faziam antes. As exigências crescentes das novas formas de organização da sociedade de mercado sequestram as alternativas de dedicação a outras formas distintas de convivência humana, na família e nas associações formais ou informais da comunidade nas quais antes integravam e participavam ativamente.

Os suicídios e as sequelas psicológicas dos trabalhadores no universo da sociedade e no mundo das organizações são o grito de desespero dos que sucumbem pela impossibilidade de restauração humana.

É um desvio equivocado de percepção atribuir simplesmente a razões individuais isoladas a incidência recrudescente de casos de suicídios e de síndromes de burn out ocorrentes no mundo do trabalho em geral.

São o grito de revolta ante uma situação que ultrapassa os limites do equacionamento individual para se transformar numa epidemia social.

O suicídio e as doenças laborais psicológicas abrem uma fresta para o trabalhador respirar, mudando a sua realidade de um ambiente contaminado irrespirável.

O que se suicida nos convoca para ver o que é visível, mas não é visto: a nova organização do trabalho não está consciente de que produz mortos-vivos, verdadeiros zumbis fanatizados pelo trabalho, trabalhadores devotos à organizações, agora transformadas em seitas de adoração.

Apesar do discurso da imprescindibilidade e da importância da equipe na obtenção da excelência de resultados, nunca se praticou tanto a avaliação individual.

A exacerbação do cumprimento de metas individuais de desempenho agrava e aprofunda a dissensão entre colegas, viola o princípio da solidariedade e da cooperação subjacente no trabalho, devasta ambientes sociais, exacerba o egoísmo e a competitividade predatória de um contra um, de um contra alguns, de um contra todos e de todos contra todos.

A nova organização do trabalho produz a fratura existencial do colaborador… 

A avaliação individualizada produz uma divisão no interior da pessoa, entre a necessidade de cumprimento individualizado de metas e as necessidades de apoio, de solidariedade e de cooperação inerentes à natureza humana próprias de pessoas envolvidas na realização de tarefas comuns.

O trabalhador termina por se transformar numa espécie de empregador de si mesmo, um empreendedor interno da organização, como as diretrizes ditas modernas de gestão de pessoas manipulativa e eufemisticamente gostam de chamá-los.

Se antes já se dizia que os trabalhadores já não tinham razão para se sentirem em contradição com a organização, porque os interesses poderiam ser compatibilizados ou administrados pela aplicação das boas teorias gerenciais, agora o assalariado se transforma em seu próprio patrão, no empregador de si mesmo. É a resposta incisiva da sociedade de mercado ao problema da luta de classes, sempre presente entre capital e trabalho, entre salário e lucro, entre as necessidades do empregador e do empregado.

Se os trabalhadores já não tinham mais razão para se sentirem em contradição com o capital, como doutrinavam as teorias das organizações, agora fazem do assalariado o seu próprio patrão, o empregador de si mesmo, o empreendedor interno do negócio em que trabalha. Já não há mais luta de classe, os interesses intrínsecos de ambas as partes se concentram indiviso no íntimo de cada trabalhador como pessoa. Eis ai um sofisma de falsa causa. Em verdade, tanto o capital, agora travestido massivamente de capital financeiro, quanto o trabalho continuam plenamente presentes. Apenas agora o conflito entre salário e lucro, entre capital e trabalho, transbordou para um antagonismo social a ser equacionado e resolvido no interior do próprio indivíduo.

Antes, o conflito social estava regulado pelas mediações sindicais entre patrões e empregados, por normas e regulamentos legais de governo, pela ação direta do Estado, principalmente pelas decisões dos tribunais de justiça. É evidente que estas condicionantes institucionais ainda subsistem, mas não mais como protagonistas exclusivos da resolução de querelas entre patrões e empregados. Agora o conflito se encontra intensamente dentro do trabalhador como pessoa. E é exatamente a incapacidade de as pessoas administrarem esse conflito interior que tem no suicídio e nas sequelas psicológicas do trabalho a sua válvula de escape, a solução dramática de um impasse inusitado que não vislumbra alternativas de equacionamento ganha/ganha se mantido o quadro de circunstancias da ideologia dominante de organização do trabalho prevalecente nos tempos presentes na sociedade de mercado.

Roberto Rocha, o pai 6

Quem convive com o dia-a-dia da política frequentemente ouve o mesmo lamento dos políticos, sobre o tempo que a atividade rouba da presença com a família.

“Eu mal vi meus filhos crescerem”, ouvi certa vez de um deputado. É próprio da política não criar uma rotina de vida, estar imerso numa constante vertigem de tarefas que se sobrepõem umas às outras. E tudo se agrava se o político tem que ir para Brasília, cumprir sua jornada semanal como deputado ou senador.

As famílias, por sua vez, adaptam-se a essa presença errática, aos compromissos de última hora, à chegada de visitas em casa, a qualquer momento. Faz parte do jogo.

No entanto, longe de representar um afastamento, essa condição significa, para alguns, um engrandecimento do valor da família como o porto seguro, a fonte mais intensa de proteção pessoal e refúgio das atribulações que a vida pública impõe.

Um desses políticos é o senador Roberto Rocha. Desnecessário lembrar a devoção que guarda ao seu pai. No seu gabinete, em permanente prontidão, está um quadro a óleo do ex-governador Luiz Rocha. Na última semana fui testemunha de uma situação que contrapôs o político e o pai, em condições dramáticas. O senador desembarcou em Brasília para cumprir uma extensa agenda, que incluía a leitura do relatório da CPI do BNDES, já anunciada para a imprensa, a votação que autorizava a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, e a votação do seu projeto da ZEMA – Zona de Exportação do Maranhão. Três assuntos de alta voltagem política.

Mas seu pensamento estava a quilômetros dali. Poucas horas antes de desembarcar em Brasília, chegara a notícia de que seu filho caçula, recuperando-se de uma cirurgia em que teve um rim extraído, em São Paulo, recebera a biópsia com o terrível diagnóstico: câncer, de um tipo raro.

Nessa hora o pai tomou o lugar do senador. Foi o tempo de adiar a sessão da CPI, explicar ao seu partido as razões da ausência na votação e tomar o primeiro avião. Seguiram-se dois dias de angústia para consultas a especialistas e realização de exames mais completos para ver a extensão do quadro. Finalmente, a boa notícia: os exames mostraram que a doença não havia contaminado o organismo, restando encapsulada no tumor já retirado.

Foi assim também, meses atrás, quando seu irmão, Rochinha, teve que passar por delicada cirurgia. Não foi diferente, anos atrás, nos dias finais de seu pai. Nessas horas é claro que a atividade política fica em segundo plano. Ainda assim teve blog publicando post acusando que “teve senador que faltou à votação da intervenção e só volta semana que vem”. É um belo exemplo de, dizendo apenas verdades, não dizer a verdade.

Esse é um dos preços que os políticos pagam pela permanente exposição pública. A difícil arte de preservar seu núcleo familiar das luzes incandescentes da política, ao mesmo tempo jamais negando à família a presença nos momentos de dor ou de alegria.

CRÔNICA: Martha Medeiros

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de avaliação. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.

O mundo quer que a gente torre nossa grana, que a gente compre um apartamento que vai nos deixar endividados, que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, nossos dentes, nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.

O mundo nos olha superficialmente. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, magros e vitoriosos para enfeitar a ele próprio, como se fossemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não nos escuta. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego.

Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo nos exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.