Não sou racista, minha obra prova 2

Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui

por William Waack

Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: “Aquilo foi uma piada —idiota, como disse meu amigo Gil Moura—, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão.”

Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.

Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo —racial, inclusive—, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso. Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: “Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português.”

Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião —ou pelo que dizem sobre política.

O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada “mídia tradicional” são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.

Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita “mídia tradicional”. Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).

Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.

Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.

Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento —nas palavras, nesta Folha, do filósofo Luiz Felipe Pondé— querem nos tirar.

Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades –nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.

Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.

Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.

Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.

Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.

WILLIAM WAACK, 65, é jornalista profissional desde os 17; trabalhou em algumas das principais redações do país e foi correspondente internacional por 21 anos na Europa e Estados Unidos

Oprah e Huck, tudo a ver

“O político pós-Trump ideal será, no mínimo, uma figura profundamente séria com uma ampla folha de serviço público por trás”

A empresária e apresentadora de TV Oprah Winfrey recebe prêmio no Globo de Ouro, no domingo (7)

por Clovis Rossi, via Folha de SP

Para quem gosta de coincidências como supostos sinais do além ou do destino, foi um prato cheio: no mesmo domingo (7), Luciano Huck no Brasil e Oprah Winfrey nos Estados Unidos fizeram aparições públicas “trending topics” que, naturalmente, serviram de combustível para a especulação de que podem ser candidatos à Presidência, cá e lá.

Bons candidatos? Minha opinião é rigorosamente a mesma de David Leonhardt, editor da “newsletter” de Opinião do “New York Times”, a saber: “Não acho que a situação ideal para os Estados Unidos seja uma sucessão de presidentes cuja qualificação inicial seja a celebridade”.

Vale para Oprah, vale para Huck, mesmo que, no caso deste, não haveria uma sucessão de presidentes célebres, até porque Michel Temer é o completo avesso de celebridade.

Como não tenho, ainda, como julgar se Oprah e Huck têm qualificações que vão além dessa característica inicial de celebridades que devem fama e fortuna à TV, o mais sensato é pular para a identificação do contexto em que nascem ambas as possibilidades de candidatura.

Contexto que foi bem resumido também no “Times” por Thomas Chatterton Williams, negro, especialista em identidade racial e que confessa não ser imune ao “charme de Oprah”, mas desaconselha sua candidatura. “[A possível candidatura] sublinha a extensão com que o ‘trumpismo’ —reverenciar a celebridade e os índices de audiência, o repúdio à experiência e à expertise— infectou nossa vida cívica.”

O efeito Trump, aliás, está presente em 11 de cada 10 análises sobre a eventual candidatura da estrela da TV americana. No “Le Monde”, William Galston (Brookings Institution) diz que “Donald Trump produziu a prova do efeito letal da notoriedade”.

Meu palpite: Trump, na verdade, é mais consequência do desgaste do mundo político convencional, um fenômeno que está atingindo o paroxismo em todo o planeta. É natural, embora lamentável, que se beneficie desse desgaste quem tem notoriedade, passo preliminar para angariar votos.

Essa constatação serve para Huck. Afinal, uma pesquisa divulgada no fim do ano passado pelo Fórum Econômico Mundial mostrou que os políticos brasileiros são considerados os menos confiáveis do mundo -pelo menos entre os países em que se fez a pesquisa.

No caso de Oprah, à notoriedade soma-se o messianismo apontado pelo colunista Ross Douthat no “Times” desta quarta-feira (10): “Ela é uma pregadora, uma guru espiritual, uma apóstola e uma profeta. De fato, se há uma religião especificamente americana, […] Oprah fez dela própria o seu papa” [papisa, no caso].

Sem tanta carga messiânica, Huck não deixa de ser uma espécie de profeta da autoajuda, da realização pessoal por meio da fé em si mesmo.

Como sou fortemente refratário a qualquer tipo de messianismo, prefiro o perfil de candidato desenhado pelo já citado Thomas Chatterton Williams: “O político pós-Trump ideal será, no mínimo, uma figura profundamente séria com uma ampla folha de serviço público por trás”.

No pós-Temer, então, esse perfil é ainda mais necessário.

Mas será que existe?

Assédio é crime. Paquera deve ser usada sem moderação

Somos adultos para entender que não dá para encarar elogio, desejo, cobiça, investida romântica, sacanagem da boa, seja na rua, no trabalho ou na balada, da mesma forma que uma encoxada no metrô ou uma promessa de promoção em troca de um boquete

por Mariliz Pereira Jorge, via Folha de SP

Você é #teamOprah ou #teamDeneuve nessa disputa que se instaurou nas redes sociais nos últimos dias? Você acha que a hora chegou e sente-se orgulhosa e inspirada por todas as mulheres fortes o suficiente e empoderada para falar e compartilhar suas histórias pessoais, como disse Oprah? Ou você acredita que pode batalhar para que seu salário seja igual ao de um homem e gostar de ser objeto sexual dele, como sugeriu o manifesto assinado por cem intelectuais e atrizes francesas, entre elas Catherine Deneuve?

Uma fala não invalida a outra. Eu fico no meio do caminho, porque os dois lados têm razão e também cometem excessos. E essa queda de braço só enfraquece todas as mulheres nesse embate desnecessário. Como eu sempre digo, a sororidade acaba quando a outra mulher não levanta o punho para o discurso com o qual eu concordo, não é mesmo?

Ao contrário do que muita gente achou, não vi no manifesto francês uma resposta ao Time’s Up, um fundo de defesa legal às vítimas de assédio sexual no trabalho e que teve seu ponto alto no lindo discurso feito pela apresentadora Oprah na noite do Globo de Ouro. Embora o timing tenha sido muito ruim, entendo como uma reação à parte reacionária do movimento feminista, que acredita que todas têm que se moldar ao que essas correntes pregam e não admitem que haja pensamento diverso. Quer saber? Muitas mulheres, também feministas, estão entaladas com tantas regras e normas.

Repito o que já disse uma vez: de que adianta me livrar do patriarcado para ter no meu cangote patrulha de mulher dizendo o que e como devo fazer? Um dos maiores erros do feminismo moderno é tentar nos convencer de que as lutas são iguais para todas. Não são. Queremos igualdade salarial, combater a violência doméstica, ter mais direitos, reconhecimento, representatividade, liberdade sexual. Ponto.

A forma como nos relacionamos com o mundo e com os homens não tem que ser enquadrada por textos lacradores de pensadoras e filósofas que muitas vezes se autointitulam porta-vozes e, aqui entre nós, perceberam que feminismo dá dinheiro, prestígio e fama. Não, obrigada.

A fala de Oprah marca um momento importante e, sim, pode encorajar e fortalecer mulheres ao redor do mundo que sofrem assédio e violência. As acusações que envolvem produtores e famosos de Hollywood são sérias e apenas uma pontinha do que acontece aqui na vida real. Sim, agora é a hora. E isso foi defendido no manifesto francês, é bom esclarecer para quem leu o texto com o fígado e absorveu apenas os trechos que poderia odiar.

Mas ignorar o ponto de vista das francesas porque há críticas a algumas nuances do feminismo é uma bobagem tão grande quanto a parte do texto que defende os “coitados” dos homens das acusações que estão sofrendo. Foi desnecessário. Homens sabem se defender e terão que enfrentar a parte da “histeria” que existe no momento. Aceitem.

Indispensável liberdade de ofender, clamam as francesas. E elas estão certas porque o limite do que ofende uma mulher pode ser um tanto mais flexível para outra. Não fosse assim, o movimento Chega de Fiu-Fiu não seria chamado até hoje de mimimi por muitas pessoas, incluindo as próprias interessadas. De um lado estão as que encaram esse tipo de abordagem como uma violência e do outro quem não se incomode. Não é preciso escolher quem tem razão. O que não dá é colocar no pacote do machismo a mulher que diz não se importar ou até mesmo gostar de tais manifestações.

Como as francesas disseram: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e gostar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma vil cúmplice do patriarcado.

De fato, também não me reconheço no tipo de feminismo apontado no manifesto, que toma forma de ódio aos homens e à sexualidade. “A liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. É preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra forma que se encerrando no papel de presa.”

Esse é outro ponto em que fica difícil discordar da turma de Deneuve e de Catherine Millet. “É mais sensato criar nossas filhas pra que sejam suficientemente informadas e conscientes para viver suas vidas sem se deixar intimidar ou culpabilizar.” É mais sensato, o que não exclui também educar os filhos homens dentro de uma visão feminista.

Na semana passada, escrevi exatamente sobre a “fragilidade” feminina sempre usada pelos movimentos, como se fôssemos eternas vítimas. Todas as vezes que leio por aí que o mundo é horrível e as mulheres são frágeis, que todo homem é um estuprador em potencial (uma das maiores bobagens já ditas), que somos vítimas da sociedade, penso que não sou essa mulher e nem convivo no meu círculo mais íntimo com caras com essa índole.

Talvez eu tenha sorte ou apenas tenha recebido educação para ser independente e corajosa. Por isso, não aceito esses rótulos que muitas vezes são usados e que colocam a mulher num eterno papel vulnerável. Entendo que muitas mulheres se vejam dessa forma. Não é meu caso.

Felizmente posso dizer que não sou vítima do machismo. Não aceito ser tratada com inferioridade no mercado de trabalho, não me vejo dessa forma e nem acho que seja vista assim. Não deixo que homens tomem a palavra quando ela está comigo.

Tenho educação, conhecimento, as ferramentas necessárias para combater o machismo (sim, ele existe, e muitas vezes o mundo é um lugar mais difícil para as mulheres), mas não aceito esse papel passivo, o da vítima que precisa se proteger o tempo todo em um ambiente hostil e predatório.

Entendo e me solidarizo com as que se sentem assim. Deve ser muito difícil acordar todos os dias e saber que o mundo lá fora só quer fazer da sua vida um inferno e você não sabe como se defender.

Tenho medo de ser estuprada? Claro. Mas tanto medo quanto tenho de ser morta num assalto.

O que me assusta ainda mais é a confusão na cabeça das pessoas sobre o que é assédio e o que é paquera. Somos adultos para entender que não dá para encarar elogio, desejo, cobiça, investida romântica, sacanagem da boa, seja na rua, no trabalho ou na balada, da mesma forma que uma encoxada no metrô ou uma promessa de promoção em troca de um boquete.

Assédio é crime. Paquera deve ser usada sem moderação. O tempo é agora para as mulheres escolherem suas brigas, sem deixar que o puritanismo se sobreponha em nome de uma falsa segurança e de um mundo mais igual. Isso só serve, como diz o manifesto das francesas, aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários. E são as mulheres quem mais perderão com isso.

Artistas e intelectuais francesas criticam ‘puritanismo’ de campanha contra o assédio 4

Manifesto defende a ‘liberdade de importunar’ dos homens, que consideram ‘indispensável para a liberdade sexual’

A atriz Catherine Deneuve assinou manifesto contra “puritanismo”.

via Estadão

Cerca de cem artistas e intelectuais francesas lançaram nesta terça-feira, 9, um manifesto no qual criticam o “puritanismo” da campanha contra o assédio surgida por conta de casos envolvendo o produtor Harvey Weinstein, e defendem a “liberdade de importunar” dos homens, que consideram “indispensável para a liberdade sexual”.

“O estupro é crime. Mas o flerte insistente ou desajeitado não é um delito, nem o cavalheirismo uma agressão machista”, disseram personalidades como a atriz Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a editora Joëlle Losfeld e a atriz Ingrid Caven, em manifesto publicado no jornal Le Monde.

As artistas disseram que “não se sentem representadas por esse feminismo que, além das denúncias dos abusos de poder, adquire uma face de ódio aos homens e sua sexualidade”, em alusão ao movimento #MeToo (“eu também”), que surgiu para denunciar nas redes sociais casos de abusos machistas.

As mulheres também se referem a esse movimento como “justiça sumária”, que julga homens “cujo único erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo” ou “falar de coisas ‘íntimas’ em um jantar profissional”.

Apesar de reconhecerem que o caso Weinstein deu lugar a uma “tomada de consciência” sobre violência sexual contra as mulheres no contexto profissional, lamentam que agora sejam favorecidos os interesses dos inimigos da “liberdade sexual” e dos extremistas “religiosos”.

O escândalo de abusos do produtor Harvey Weinstein, revelado em outubro pelo jornal americano The New York Times, suscitou uma onda de denúncias por parte de muitas atrizes que acusaram atores como Kevin Spacey e Dustin Hoffman.

O cara que bebia Itaipava mas queria consumir Heineken

Não consumimos produtos. Consumimos marcas. Mais que isso: consumimos todo o poder simbólico que as marcas nos oferecem

Marcos Hiller, via Administradores.com

Nesse início de ano fomos surpreendidos por um vídeo de um anônimo em um praia qualquer despejando a lata de uma cerveja Itaipava dentro de uma garrafa long neck verdinha da Heineken. Muito mais do que um vídeo até meio engraçado, e além de qualquer julgamento de valor (não nos cabe isso) sobre o ato do cidadão, o que vimos ali é algo muito revelador sobre o consumo e como esse fenômeno assume lugar primordial para entender as nossas lógicas sociais, assim como construímos até a mesmo a nossa identidade.

E apesar desse processo soar como algo aparentemente complexo, ele não é. Podemos entender até com certa facilidade. Primeiro que esse comportamento do cidadão com a cerveja na praia é algo que já presenciamos com certa recorrência e com outras categorias de produtos. Quem nunca viu alguém colocar o adesivo da maçãzinha mordida da Apple em um laptop de outra marca? Ou até mesmo colar esse adesivo da Apple no próprio carro? Já vimos na rua gente que afixa as 4 argolas da marca Audi em carros populares. A própria pirataria é uma prática super disseminada em todo o mundo e que surfa exatamente nessa onda. Não consumimos produtos. Consumimos marcas. Mais que isso: consumimos todo o poder simbólico que as marcas nos oferecem.

O que parece ficar evidente no vídeo do colega na praia é que, para ele, deve ser muito mais bacana segurar uma long neck de Heineken do que uma lata de Itaipava. Acho que ele entende que construirá uma imagem mais favorável dele mesmo para demais pessoas por estar segurando uma long neck Heineken. Por mais que o design da lata Itaipava tenha passado por uma modernização recente, não interessa. Ele prefere Heineken. O fato é que, na nossa vida contemporânea, consumimos não apenas bens e serviços. Consumimos modos de ser, sensações, percepções, sentimentos. E o consumo é uma potente desculpa que encontramos para construir nossa identidade. Pela via do consumo, sobretudo pelo consumo de marcas, contamos pro mundo quem nós somos e quem nós não somos. Fica muito claro isso no vídeo do amigo na praia bebendo Itaipava mas consumindo Heineken. Consumimos estilos de vida, consumimos a vida dos outros, sobretudo nas efêmeras redes sociais. E tudo que fazemos (consciente ou inconscientemente) na nossa vida, sempre projetamos o olhar do outro. Já bem disse isso o antropólogo canadense Erving Goffman, que escreveu na década de 50 um livro atemporal chamado “A representação do eu na vida cotidiana”.

Trocando em miúdos. A gente parece muito mais culto e descoladão tomando um café do Starbucks do que no FRANS café, certo? É bem mais legal dar check-in no RÁSCAL do que num kilão do bairro, correto? É muito mais sexy postar um selfie no aeroporto de Guarulhos do que na feiosa rodoviária do TIETÊ. Isso não é de hoje. Isso não é das redes sociais. Isso é do ser humano. Leia Goffman!

Medo ou esperança?

O paraíso nos escapou depois de ter aberto os portões e deixado perceber suas delícias

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

Brasil é o país do futuro! Do ufanista Policarpo Quaresma à ironia da letra de Renato Russo, esse sempre foi um tema forte. O futuro à frente não é um pleonasmo tão evidente. Comparemos com dois países importantes na nossa formação: Portugal e Argentina. Lisboa foi a capital das especiarias e o mundo da vanguarda dos descobrimentos no início do século 16. Buenos Aires era o porto cosmopolita de uma nação que abastecia o mundo de grãos e carne no início do século 20. Argentinos e portugueses viveram um apogeu fabuloso e suas capitais trazem marcos notáveis do passado de glória. Houve glória e ela passou.

Nós somos diferentes. Sempre acreditamos na potência do amanhã. O cenário possibilita o devaneio: território de riquezas enormes e sem terremotos, tínhamos tudo para dar certo. Faltava, claro, mudança no elenco e na direção. A culpa não era da terra ou das águas.

Não quero voltar ao tema do debate sobre os entraves do desenvolvimento. Já fiz algumas vezes. Quero lembrar que sempre fomos notavelmente otimistas com nossa redenção no porvir. Houve quem visse no povo, especialmente o sertanejo, um tipo triste e depressivo, como Euclides da Cunha e Graciliano Ramos. Outras figuras construídas no imaginário brasileiro ou estrangeiro consagravam a alegria e a engenhosidade, de Pedro Malasarte ao Zé Carioca. No exterior, somos conhecidos pela alegria, pela afetividade, pelo contato mais direto com as pessoas. Quem como eu já passou um tempo fora dos trópicos sabe que, fora daqui, são vistos menos dentes, abraça-se menos e escasseiam beijos.

Não se trata de refazer a fantasia do mundo sensual e sem pecado que se origina desde a citada criação de Disney até o incentivo ao turismo sexual. Trata-se da alegria.

Ser avô

Ele é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total.

Luiz Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

Avô é um pai com licença para estragar a criança. Sua liberdade no trato com os netos é total. O que pai faz por obrigação avô faz – ou não faz – por escolha. Pai tem que estar sempre pronto para mudar as fraldas da criança. Avô pode estabelecer limites às suas atribuições. Fralda com xixi, vá lá, numa emergência. Fralda com cocô, nunca.

Importante: o correto uso do colo. Existem dois tipos de colo, o utilitário e o festivo. Colo utilitário é quando a criança fica na vertical recebendo tapinhas nas costas, depois de mamar. Seu objetivo é provocar o arroto. Arroto e pum são as duas principais realizações da criança nos seus primeiros meses de vida. São recebidos com manifestações de entusiasmo da família, como se ela tivesse passado no vestibular.

O avô deve manter distância na hora do colo utilitário. Pode fazer parte da torcida, soltar um “Viva o Brasil” na hora do arroto, se for dos bons, ou de um pum particularmente ressonante. Ficar no apoio moral. Mas só. No colo vertical o avô não consegue desempenhar sua principal função, que é a de ficar olhando o rosto da criança, maravilhado. Depende da informação de terceiros para cumprir sua missão (“Ela tá de olho aberto? Fechado? Tá rindo?”). Já o colo festivo, na horizontal, é para a adoração e nada mais. No colo horizontal até um pum extemporâneo da criança pode ser tomado como uma deferência especial ao bobo que a segura.

Outra função importante de um avô é falar racionalmente, com voz normal, com a criança recém-nascida. Relatar os fatos do dia, pedir sua opinião, sugerir que ela não se desespere com as opções limitadas da sua alimentação no momento (só duas, peito direito e peito esquerdo) pois com o tempo as coisas melhorarão bastante. Logo virão as papinhas e as sopinhas e eventualmente os carrês de cordeiro com batatas Dauphine e cebolas carameladas, e arrotos com muito mais conteúdo.

Claro que o avô não espera que a criança o entenda, e muito menos que responda. É para ela saber que nem todos falam como bebê e fazem perguntas retóricas como “Cadê a coisinha mais fofa, cadê?” e que ela não caiu num mundo de malucos. E que o nível das conversas também melhorará com o tempo.

Passada a primeira fase, o avô deve acompanhar todas as etapas do crescimento da criança na capacidade que lhe for pedida, salvo risco de deslocamento da coluna. Se uma neta começar a estudar balé e exigir e que o avô faça pliês junto com ela, ele tem que obedecer. Quando chegar a minha hora não sei se conseguirei ficar de pé, mas estou preparado.

Seu carteiro. Aproveite o espírito de Natal e faça o seguinte: dê atenção ao seu carteiro. A mesma atenção que um dia eles mereceram, e aos poucos foram perdendo por culpa da crise social e da falta de segurança.

Quem não mora em casa com cerca eletrificada, arame farpado, seteira, guarita com metralhadora, jardim minado e a caixa de correio longe da porta mora em apartamento e, a não ser no caso de carta registrada, raramente vê a cara do seu carteiro. E eles devem ter uma certa nostalgia do tempo em que precisavam bater nas nossas portas, conversar um pouco, talvez ganhar um copo d’água.

Enfim, do tempo em que nos encontrávamos. E podem até ter saudade dos ataques dos nossos cachorros. Pelo menos era um contato.

Se encontrá-lo neste fim de ano, abrace seu carteiro e convide-o a entrar. Depois de se certificar, claro, que é carteiro mesmo e não um assaltante disfarçado.

Então é Natal (Mensagem do Blog do Robert Lobato)

Mais um Natal chegando. Uma data muito especial por todo o simbolismo que carrega. E também a mística.

Uma data de mistérios e cercada por crenças, paixões e devoções.

Acreditar no nascimento de Menino Jesus no dia 25 de dezembro é o que menos importa.

O fundamental é ter a fé de que o Senhor nasceu para nos salvar. Pagou com a própria vida na tentativa de fazer um mundo melhor para seus filhos viverem.

Jesus Cristo foi um revolucionário. Não no sentido vulgar do termo, mas no sentido de que realmente transformou o mundo, que nunca mais foi o mesmo depois daquela crucificação no Calvário.

As escrituras dizem que Ele voltará para buscar os “escolhidos”. É dado o livre-arbítrio para o homem crer ou não nessa profecia. Eu, particularmente, prefiro achar que Ele virá sim.

Independente da fé cada um, das escolhas religiosas ou não, o Blog do Robert Lobato deseja um feliz e abençoado Natal aos leitores, parceiros, amigos e todos que, de uma forma ou outra, ajudam a fazer o dia a dia desta página, mesmo que eventualmente discordem da sua linha editoral.

Que Deus abençoe a todos.

Papai Noel aprende Libras para conversar com crianças surdas

José Mario Graciano, 68, conversa com Ana Beatriz Aguiar, 8, que nasceu com deficiência auditiva

Quando duas irmãs pararam à sua frente sorrindo sem dizer uma palavra, José Mário
dos Santos Graciano, 68, não entendeu o porquê de elas não responderem às
tradicionais perguntas e brincadeiras do Papai Noel.

Discretamente, o pai delas revelou o motivo do silêncio. Eram surdas.

“Então pensei: ‘O abraço é um gesto de carinho que todos entendem’. Sorri para elas, abri meus braços e elas vieram felizes, se sentiram acolhidas pelo Papai Noel”, disse Graciano.

Foi naquele momento que ele decidiu aprender Libras (Língua Brasileira de Sinais).

“Percebi que só aprendendo a linguagem de sinais eu poderia dar oportunidade para as crianças surdas levarem seus pedidos ao Papai Noel, sentirem verdadeiramente a magia
do Natal”, afirmou o petroleiro aposentado, que há 13 anos personifica o Papai Noel em
shoppings e festas familiares em São José dos Campos (SP) e cidades próximas.

Esse primeiro encontro com crianças surdas aconteceu há cerca de quatro anos, Hoje ele
ainda não se considera fluente em Libras, mas já consegue se comunicar muito bem com
elas, quando atua como o bom velhinho em um shopping da cidade. “Vou continuar aprendendo para ficar cada vez melhor, a felicidade dessas crianças ao perceberem que Papai Noel consegue falar com elas é muito gratificante, compensa qualquer esforço”, disse Graciano.

A proximidade das festas de fim de ano alegra a estudante Ana Beatriz Alves Aguiar, 8. Ela nasceu com deficiência auditiva profunda bilateral e usa Libras para se comunicar.

Ana Beatriz conheceu o Papai Noel Graciano em 2015 e, desde então, vai visitá-lo para
conversar e fazer o seu pedido de Natal. Este ano, foi ganhar uma boneca Cinderela.

“Essa iniciativa é muito importante para as crianças com deficiência auditiva. Elas sentem uma felicidade imensa quando são compreendidas pelo Papai Noel”, disse Edna Maria Alves da Silva, mãe de Ana Beatriz.

A pequena Jamilly, 4, deixou a timidez de lado e deu muitas gargalhadas ao lado do
Papai Noel Graciano. “Eu fiquei surpresa, minha filha é muito tímida, retraída. Mas com
o Papai Noel ela se soltou, ficou muito feliz mesmo por conseguir conversar com ele”,
afirmou Yasmini Ribeiro Bastos, mãe de Jamilly.

As duas estudantes foram ao shopping com um grupo de crianças assistido pela AADA (Associação de Apoio ao Deficiente) da cidade.

“As crianças se sentem surpresas e felizes quando em um ambiente diferente do familiar e institucional encontram pessoas que compreendem a linguagem de sinais”, disse a
psicopedagoga Jussara Alvarenga, da AADA.

“Poder ir a um lugar como o shopping e conseguir conversar com o Papai Noel é uma
felicidade muito grande para elas”.

No shopping, Graciano divide a função de Papai Noel com Paulo do Canto Hubert, de 73 anos. A escolha dos dois representantes foi estratégica: Graciano se comunica em libras e Hubert, em inglês.

“Encontramos o senhor Paulo, que fala inglês, o que é fundamental aqui na nossa região, recebemos muitos estrangeiros”, afirmou a gerente de marketing do shopping, Margarete Sato.

(Fonte: Folha de SP)