A presença da psicanálise na tragédia de Brumadinho

A presença da psicanálise com voz, espaço e um melhor esclarecimento à comunidade sobre sua essência e epistemologia para marcar às diferenças com a psicologia e a psiquiatria, poderão ser um caminho e modelo de atendimento da população atingida.

* Alicia Beatriz Dorado de Lisondo, via Blog da Psicanálise

Denunciar o crime cometido pela irresponsabilidade da empresa Vale com a cumplicidade dos órgãos governamentais, ironicamente encarregados de zelar pela segurança da população e do meio ambiente, também passa a ser nossa responsabilidade enquanto analistas. Também passa a ser importante ação social dos psicanalistas, o cuidado para com a vida psíquica dos sobreviventes de Brumadinho, um dever cívico de todo brasileiro, de todo cidadão deste mundo.

Desse modo, o pensamento psicanalítico pode, fora dos muros do consultório, ajudar a lidar com bebês, crianças e adolescentes (B.A.C.) em profundo sofrimento.

A presença da psicanálise com voz, espaço e um melhor esclarecimento à comunidade sobre sua essência e epistemologia para marcar às diferenças com a psicologia e a psiquiatria, poderão ser um caminho e modelo de atendimento da população atingida.

Segue o formato e as principais considerações tratamento de Bebês, Crianças e Adolescentes em situações de trauma e tragédia:

-> Pensar em cada B.A.C. como um sujeito e/ou uma pessoa na sua singularidade. O cuidado com a vida emocional com eles é fundamental. O corpo não está separado da alma assim como a consciência não está desligada do inconsciente.

-> A aproximação à verdade dosada, passo a passo, revelada com amor e na medida que o outro a possa assimilar, alimenta a alma humana.

-> As mentiras, os segredos, o não dito, intoxicam a mente. Os B.A.C. sabem mais do que nós, adultos, podemos imaginar. Eles têm radares e antenas parabólicas para captarem as emoções presentes no ambiente. Quando a criança indaga: “Por que você está chorando?” e escuta: “Por nada!!!”, sua percepção é desqualificada. A oportunidade para uma alfabetização emocional foi perdida: “Estou muito triste!!”, “Estou com raiva!!”.

-> Sabemos os efeitos devastadores que um trauma pode provocar na personalidade em formação de B.A.C. dificultando ou paralisando o desenvolvimento emocional. As barreiras protetoras do psiquismo não podem conter a dor, a angústia, o desespero e o ódio.

As feridas na alma podem piorar e os buracos no tecido mental podem se ampliar. Por isto importa criar as possibilidades, para o inicio do processo de cicatrização para cerzir com delicadeza o tecido esgarçado. É necessário dar palavras plenas de sentido, expressivas da emoção, ao sofrimento, ao pesadelo, ao tremor do corpo ante a comoção!! “Estou com saudade de X!!”, “Dói, dói demais meu coração. Dói de saudades!!”…

-> Não confundir o ódio, indignação, revolta; com a destrutividade. Seria prudente discriminar e compreender as diferentes manifestações emocionais dos B.A.C.

-> A expressão do ódio é tão necessária quanto a do amor, por isso é importante não a sufocar e permitir que cada criança escolha seu repertório para expressar sua fúria, respeitando os limites colocados pelo adulto de forma clara e consciente.

-> É preciso viabilizar as possibilidades de sua manifestação, acompanhando as vítimas:

A armar e permitir que derrubem casas, torres, construções de plástico, massinha, cartões, palitos de sorvete etc;

A enterrar embaixo de lama, areia, terra, galhos, fotos plastificadas dos seres perdidos, animais de plástico, bonecos humanos, carros, bicicletas, brinquedos etc;

A cortar, picar, rabiscar, pintar, recortes representativos da tragédia;

Estimular a escrita de manifestos, músicas, cartas abertas, livros, solicitações.

-> Os bebês, capazes de brincar às escondidas com seis meses de idade, podem vir a compreender que mamãe não está e não voltará, que papai foi embora de carro e não voltará, mas que agora X cuidará dele. O ato de brincar, tantas vezes quanto necessário sobre os “desaparecimentos” ajudará a dar forma e nome ao terror outrora sem nome.

-> Incentivar os familiares, voluntários, educadores, agentes de saúde a oferecer uma atenção qualificada e espontânea aos B.A.C., com disponibilidade para criar vínculos tão estáveis e constantes quanto seja possível. Elas podem tentar compreender, brincar, escutar, conversar, compartilhar a dor com as lembranças dos seres que já não estão corporalmente presentes com os B.A.C., buscar as fotos, vídeos, gravações dos seres mortos, desenhar, pintar, cantar, contar histórias, dramatizar, montar peças de teatro, incentivar aos adolescentes nas varias formas de escrita sobre temas relacionados com este crime.

-> A tragédia, no dia 25/01/2019, em Brumadinho, faz parte da vida desses B.A.C. Familiares, pessoas conhecidas, casas, animais de estimação, brinquedos, computadores, celulares, foram abruptamente destruídos, sepultados pela onda de lama. É importante que esse momento entre num processo de historização.As fotos, os recortes de jornal, as notícias, os depoimentos, as entrevistas, a história desta cidade, a legislação existente, podem constar num álbum. Este será um suporte, para dar figurabilidade, forma, palavra, ao horror quase impensável e indizível.

-> Os B.A.C. expressam as dores da alma de várias formas, às vezes, numa linguagem pré-verbal. Dessa forma, os bebês podem apresentar sinais de risco psíquico como: não olhar nos olhos do outro ser humano, não balbuciar, não brincar, inapetência, evitar morder e mastigar alimentos sólidos a partir dos seis meses de idade, ritmo do sono alterado, terrores noturnos, preferência por segurar objetos duros e inanimados, evitação do contato humano, deixar de rir, quietude, passividade, entre outros. Fazem parte desse vocabulário pré-verbal, as doenças psicossomáticas, a incontinência urinária e/ou fecal, problemas escolares, tentativas de suicídio, anorexia, bulimia, vícios em drogas, tédio, condutas antissociais e delinquenciais. Estes berros silenciosos, eloquentes pedidos de socorro, exigem uma escuta e observação, aguda dos adultos.

-> Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas e orientará sobre os caminhos a seguir, para evitar a calcificação dos transtornos e sintomas.

-> A psicanálise tem um poder preventivo! Futuras gerações podem receber as consequências desta tragédia se ela não for elaborada.

-> Quando for necessária uma adoção, ante a orfandade dos B.A.C., será necessária uma intervenção rápida do Poder Judiciário para evitar o trauma da institucionalização destas criaturas em risco psíquico. Legalizar o processo de adoção é importante para que os pais adotantes legitimem este novo lugar com firmeza amorosa e autoridade para exercer as funções parentais.

-> Enterrar simbolicamente os “desaparecidos” – os mortos sem cadáver – com todos os rituais e cerimonias, respeitando a religião, os costumes, a tradição de cada família, permite entrar em contato com a dolorosa realidade da morte e ajuda a elaborar o luto. Sábio legado de Antígona! Quando se perpetua a crença sobre o desaparecimento, a temida realidade da morte do ser querido é negada, como no quadro de Monet. A fantasia de reencontrar o sobrevivente estará presente. Não será possível iniciar o árduo trabalho do luto. A culpa inconsciente é potencializada ante a fantasia de matar – deixar de buscar – um ser que poderia estar vivo.

-> Uma caixa com a foto do ser morto, velado e enterrado, num espaço a criar sobre os escombros, numa praça, museu, pode ser uma oportunidade para realizar a terrível despedida.

-> Um memorial pode vir a ser construído com as com as fotos e os nomes dos mortos, as obras das crianças e adolescentes, com toda a documentação sobre esta hecatombe. Este espaço pode exercer a função de rêverie para esta sofrida comunidade e para todos nós!

Enfim, este espaço pode exercer a função de rêverie para essa sofrida comunidade e para todos nós!

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