Chamar mulher de bonita e gostosa é ofensa ou elogio? Claudia Ohana sente falta

por Ricardo Kotscho

Está na capa do UOL: “Cláudia Ohana fica triste por não ser chamada de `gostosa´ na rua”.

Ela explica: “Acho que o momento está mais careta porque está radical demais, que é talvez para melhorar, ter um equilíbrio (…). É uma pena, antigamente você andava na rua e várias pessoas assoviavam e chamavam de gostosa. Hoje não pode mais, você fica triste”.

A matéria da repórter Marcela Ribeiro, que não pode ser chamada de machista e misógina, justifica a tristeza de Cláudia, a eterna Natasha de “Vamp”:

“Aos 55 anos e avó de dois netos, Cláudia Ohana está com tudo em cima”.

Por coincidência, causou polêmica um post que publiquei outro dia no meu Face chamando Tatá Werneck de “bonita e gostosa”, por ter recebido um prêmio de melhor do ano do mesmo UOL.

Para mim, é a maior revelação de atriz dos últimos anos, além de ser uma belíssima mulher, cheia de talento e energia.

“Gostosa?????”, reagiu uma leitora com várias pontos de interrogação. Sim, eu acho, mas é questão de gosto, ninguém é obrigado a concordar comigo.

Mas teve gente, algumas mulheres queridas, que ficaram chocadas com os adjetivos que usei para elogiar a atriz.

“Você está perdendo o senso do ridículo, cuidado. Como é que você escreve uma coisa dessas?”

Fiquei tão assustado com a reação, que acabei excluindo o post para evitar mais mal entendidos.

Pratiquei pela primeira vez a autocensura, antes que volte e censura.

Tudo que você precisa explicar depois é complicado, como bem sabem os Bolsonaro, após as revelações sobre o caixa eletrônico do ex-motorista da família.

Como costumo usar este espaço para comentar assuntos menos amenos e saborosos ligados à política nacional, fiquei com receio de queimar meu filme com as leitoras por bobagem.

Achei estranha a reação porque tinha certeza de ter ouvido recentemente “As Frenéticas” _ um antigo grupo vocal formado por mulheres, obviamente _, cantando alguma coisa parecida na televisão, acho que no programa do Pedro Bial.

Fui ao Google para pesquisar e era isso mesmo, não estava enganado.

Digitei “bonita e gostosa” e logo apareceu a letra de “Perigosa” (até rimou…), música de Nelsinho Motta, Rita Lee e Roberto Oliveira:

Sei que eu sou

Bonita e gostosa

E sei que você

Me olha e me quer

Eu sou uma fera

De pele macia

Cuidado, garoto,

Eu sou perigosa!

Lembram-se?, foi trilha de novela e fez muito sucesso lá pelos anos 70, em plena ditadura militar, quando o mundo ainda não era tão careta, por incrível que pareça.

Estes três compositores também não podem ser catalogados como machistas inveterados que não respeitam as mulheres, penso eu.

Será que até nisso estamos andando para trás?

Sou do tempo em que era impossível não arriscar ao menos um olho ao ver mulher bonita, e as mulheres faziam o mesmo ao ver um homem bonito.

Hoje, é tudo perigoso, você tem que tomar mil cuidados ao falar e escrever.

Nelsinho, Rita e Roberto fizeram belos versos de amor, de alegria, de festa, de loucura.

Eu tenho uma faca

No brilho dos olhos

Eu tenho uma louca

Dentro de mim…

Por outra dessas ironias da vida, “As Frenéticas” cantaram isso numa época em que ainda havia censura e tortura, e nem por isso se intimidaram.

Como lembra Cláudia Ohana, outra bonita e gostosa de respeito, sem medo de ser feliz:

“Sinto saudade da liberdade de expressão, das pessoas falarem o que quiserem, de ser quem você quiser”.

A gente tinha medo de ir em cana por qualquer motivo, mas não por elogiar mulheres que nos dessem motivos.

Daqui a pouco, a seguir nesta marcha, vamos ter que pedir licença para fazer o que os antigos chamavam de paquera:

“Se a senhorita me permite, com todo respeito, posso lhe fazer um gracejo? Vai ser bonita e gostosa assim na casa do chapéu. Não olha para mim desse jeito porque eu posso não resistir… É melhor tomar cuidado”.

É capaz da Rita Lee (de quem fui colega no colegial do Liceu Pasteur, nos longínquos anos 60 do século passado), compor uma nova música com sinais invertidos: “Eu sou recatada e do lar”.

Seria engraçado… Só não podemos perder o bom humor.

Tempos estranhos, como diz aquele ministro do STF.

Só falta agora criarem uma polícia dos costumes neo-pentecostais fundamentalistas.

Vida que segue.

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