Ainda sobre o Mais Médico

Se o governo comunista de Cuba “garfa” parte do salário dos seus médicos isso é uma questão a ser resolvida entre os cubanos e não é Bolsonaro que deverá se prestar a fazer o papel de uma espécie de “Princesa Isabel” fora época.

E a polêmica continua.

O governo cubano anunciou que os médicos da ilha caribenha passarão o Natal em casa, pois vão deixar o Brasil após o presidente eleito Jair Bolsonaro impor condições para que esses profissionais continuassem atuando no Programa Mais Médico (PMM).

Há de tudo um pouco envolvendo essa questão do PMM e os médicos cubanos: desinformação, mistura de mentiras com verdades, oportunismo político (politicagem) e, claro, muita hipocrisia. Na verdade esse assunto virou uma verdadeira guerra de narrativas.

Há, ou havia, cerca de 8 mil médicos cubanos atuando no Mais Médico, profissionais que têm experiência em atendimento básico em saúde sobretudo em relação à Saúde da Família.

O presidente eleito argumenta que está “libertando os médicos cubanos da escravidão”, numa alusão ao fato do governo de Cuba ficar com cerca de 70% do salário dos profissionais que estão no PMM.

Ocorre, que há uma questão de ordem política, sociológica e cultural que envolve a forma como os médicos cubanos exercem sua profissão.

Ao contrário do Brasil, onde a Medicina é vista como uma profissão promissora financeiramente, tanto que os pais sonham com um filho médico, em Cuba a coisa é diferente, pois a profissão cumpre um papel social onde o famoso “Juramento de Hipócrates” é sagrado. Segue um trecho do juramento: “Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes”.

É justamente por essa uma visão “mercantilista” da profissão, por assim dizer, que são poucos os médicos brasileiros que se dispõem ir lá para dentro do mato cuidar de gente pobre, quilombolas e índios. Isso é fato!

Já fui secretário municipal de Finanças no interior do Maranhão e no município pobre onde eu trabalhei, a prefeitura pagava 20 salários mínimos para uma médica na época.

Longe de mim querer que médicos, advogados, dentistas, engenheiros etc., sejam obrigados a fazer sacrifícios ou perder dinheiro em nome do “social”. Não se trata disso!

Trata-se, sim, de reconhecer a realidade de um país como o Brasil e de um outro país como Cuba.

Se o governo comunista de Cuba “garfa” parte do salário dos seus médicos isso é uma questão a ser resolvida entre os cubanos e não é Bolsonaro que deverá se prestar a fazer o papel de uma espécie de “Princesa Isabel” fora época.

No mais, é aguardar que o bom senso prevaleça tanto do lado de cá quanto do lado de lá.

Tratar uma questão humanitária como é o caso da saúde dos pobres em bases simplesmente ideológicas é ridículo.

Seja por porte de Brasília, seja por parte de Havana.

É a opinião do Blog do Robert Lobato.

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