Segundo turno: tempo de “pós-verdade”

Por Eden Jr.*

Não houve surpresa. Embora as pesquisas tenham errado no varejo, acertaram no atacado. Com o resultado do primeiro turno, Jair Bolsonaro (PSL), com 46% dos votos válidos, e Fernando Haddad (PT), com 29%, irão disputar a etapa decisiva das eleições presidenciais. Como se temia, restaram os dois projetos mais antagônicos e radicais, tudo de que o país menos precisa para o momento, já tão dividido e extremado, depois de anos vivendo um intenso clima de acirramento político.

Grosso modo, no campo econômico o núcleo original dos dois programas é pouco factível, beirando ao irrealizável… à fábula. Para um, o mercado tudo pode. Para outro, o Estado é onipotente e resolve todas as questões. De que maneira, em um país tão desigual como o Brasil, se consegue considerar que funções sociais imprescindíveis, como segurança, saúde, educação, assistência e previdência social, podem interessar e ser encampadas pelo mercado?

De outra forma, como prognosticar que um Estado quebrado – com gravíssimos problemas de natureza fiscal, em que os déficits vêm se acumulando ano a ano, e por conta disso, o endividamento público é crescente – seria capaz de liderar a retomada do crescimento, sem que o próprio Estado promova as reformas com vista a saneá-lo? “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. O Estado é agente imprescindível para a superação de qualquer grande colapso econômico. Foi assim nas crises mundiais de 1929 e de 2008, com os governos realizando vultosas obras públicas, ofertando crédito para evitar a quebra de importantes companhias ou baixando os juros.

Agora, com a chegada do segundo turno, o que já era ruim ficou pior. Isso porque os dois adversários passaram a contrapor parte dos fundamentos de suas campanhas, circunstância que provoca ainda mais embaraço para a disputa. Tanto o grupo de Haddad quanto o de Bolsonaro haviam aventado a possibilidade da instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte para resolver matérias que a Constituição de 1988 não daria mais cabo. No primeiro dia após a apuração das urnas negaram essa possibilidade.

O ex-capitão, mesmo com o seu programa de governo recomendando uma reforma radical da Previdência, para aplacar os reiterados rombos do sistema, saiu-se com uma promessa de suavização da reestruturação apresentada por Temer, para algo mais “consensual” e “vagaroso”. Bolsonaro, que já classificou o Bolsa Família de “mentira”, atualmente sugere a criação de um 13º para o programa, apesar de não revelar, com firmeza técnica, de onde viriam os recursos para tanto.

O guru econômico de Bolsonaro, Paulo Guedes, já havia prometido em agosto privatizar todas as estatais, processo que renderia cerca de R$ 1 trilhão. Hoje Bolsonaro diz que não vai privatizar empresas “estratégicas”, entre elas gigantes como Banco do Brasil, Caixa Econômica, Eletrobras e Petrobras. Na propaganda do segundo turno, o pleiteante do PSL se apresenta como o “novo na política”. Embora já exerça mandatos legislativos por mais de 29 anos, com pouquíssimos projetos aprovados – sempre orbitando no “baixo clero” da Câmara – e tendo colocado dois de seus filhos na “carreira política”.

O presidenciável petista também embarcou forte na onda da metamorfose. Trocou as cores de sua logomarca. Saiu o vermelho, entraram o verde e amarelo – justamente as cores mais veneradas pelos bolsonaristas – e a imagem de Lula foi removida; logo ele, o responsável direto pela ascensão de Haddad. As visitas ao ex-presidente Lula, na sede da Polícia Federal em Curitiba, foram suspensas. Apesar de o candidato do PT ter ido ao cárcere semanalmente nos últimos tempos, buscar instruções para a sua campanha.
Haddad se arvora neste instante como notável defensor da democracia no Brasil, propondo-se a liderar uma frente – que não deslanchou – para vencer uma tal “iminente ameaça fascista”. Isso depois de o PT trombetear à exaustão que “eleição sem Lula é fraude” e que o “impeachment de Dilma foi um golpe”. Veja-se só, neste segundo turno o professor da USP afirma: “Em geral Sergio Moro fez um bom trabalho”. Inacreditável!

Por anos o PT acusou Moro de ser tucano e perseguir os petistas. Agora o candidato do PT promete “todo apoio à Polícia Federal, ao Ministério Público, ao Judiciário e à Operação Lava Jato”, mesmo o seu partido tendo dito exaustivamente que houve um complô da Justiça, do Ministério Público, da Polícia Federal e de órgãos de controle para “condenar Lula sem provas”.

Talvez no movimento mais anedótico, o candidato petista tentou o apoio do ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa. Aquele mesmo, que foi relator do processo do mensalão que colocou cinco petistas na prisão e que foi acusado em 2012 pela Executiva Nacional do PT de ter utilizado uma teoria nazista (“Teoria do Domínio do Fato”) para condenar injustamente o ex-ministro José Dirceu.

Quando mesmo Bolsonaro e Haddad foram sinceros, antes ou após o início do segundo turno? Provavelmente em nenhum desses dois momentos. São campanhas que tentam angariar votos apontando mais os defeitos do oponente do que as virtudes do candidato. Diante desses despautérios e sofismas, o pleito presidencial passou para um outro patamar, bem mais rasteiro, seguramente. Situação que tornou espinhoso, quiçá impossível, para o eleitor moderado e sóbrio optar por uma das duas “propostas”.

*Doutorando em Administração, Mestre em Economia e Economista (edenjr@edenjr.com.br)

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