‘Guriatã’: o filme sobre o maior cantador de bumba-meu-boi do Maranhão

Mestre de grupo centenário de São Luís, Humberto de Maracanã teve suas composições interpretadas por grandes nomes da música brasileira.

MESTRE HUMBERTO LIDEROU POR QUARENTA ANOS O TRADICIONAL GRUPO DE BUMBA-MEU-BOI DO MARANHÃO, O BOI DE MARACANÃ.

por Anita Abdalla, via Nexo Jornal

No Maranhão, a tradicional festa junina de São João é celebrada com o bumba-meu-boi, considerado patrimônio cultural do Brasil desde 2011. Em abril de 2018, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) entregou ao Ministério das Relações Exteriores a candidatura da festa para concorrer também ao título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, concedido pela Unesco.

Considerado o maior cantador de bumba-meu-boi da Ilha de São Luís, a capital do Maranhão, o mestre do Boi de Maracanã Humberto Barbosa Mendes ganhou o título de “mestre em cultura popular”, reconhecido pelo Ministério da Cultura. Humberto de Maracanã faleceu em 2015, aos 74 anos. “Guriatã”, um documentário sobre sua trajetória, estreia em 19 de outubro de 2018. O projeto foi financiado com o apoio do projeto de fomento à cultura Rumos.

“Guriatã” levou ao todo 10 anos para ser concluído. A diretora da obra, Renata Amaral, disse ao Nexo que o maior desafio foi resumir a vida de Humberto em 90 minutos. “A gente tinha centenas de horas de material para assistir e para escolher, com gravações desde 2003, tanto de material de registro de pesquisa, feito por mim, como registro profissional.” Amaral contou ainda com imagens de acervo disponibilizadas pelo Museu Memorial Audiovisual do Maranhão e do Instituto Moreira Salles, além de vídeos da família do cantador.

A vida de Guriatã

O nome do filme é uma homenagem à alcunha do Mestre Humberto, que segue a tradição de cantadores da região que ganham um apelido com nome de pássaro. Nascido em São Luís em 1939, Guriatã era casado e pai de 22 filhos. Aos 12 anos, já atuava como compositor e intérprete, tornando-se oficialmente cantador aos 34 anos.

Liderou por quarenta anos o tradicional grupo de bumba-meu-boi do Maranhão, o Boi de Maracanã, que existe há mais de cem anos. O ciclo da festa se dá com o nascimento, batizado e a morte do Boi, além de autos dramáticos e encontros de diferentes grupos de Bois. Ele era reconhecido pela interpretação da toada que se tornou símbolo do São João do estado maranhense: “Maranhão, Meu Tesouro, meu Torrão”.

“Suas composições já foram gravadas por diversos intérpretes como Alcione, Maria Bethânia e Zeca Baleiro. Ele tinha um papel excepcional como líder comunitário, com contato tanto nos menores vilarejos da área rural como nas grandes cidades”, diz Amaral.

Em janeiro de 2015, Mestre Humberto morreu por falência múltipla de órgãos, em decorrência de uma infecção generalizada. O governo do Maranhão e a prefeitura de São Luís decretaram luto oficial de 3 dias, em sua memória.

O filme

A gravação acompanhou toda a temporada junina da festa desde 2003, com registros de encontros de Mestre Humberto com antigos mestres. O documentário possui imagens do cantador até 2014, acompanhando o que seriam seus últimos momentos à frente do bumba-meu-boi.

Amaral foi levada a contar a história de vida do cantador por ele ser um artista excepcional. “A gente tem muitos grandes mestres de canções populares, mas ele era uma figura que saltava desse lugar. A música dele atravessa as fronteiras da tradição. Era um grande compositor, um grande artista”, diz a diretora.

Pelo caráter religioso da festa, a ligação de Mestre Humberto com a religiosidade também era forte. Para Amaral, são esses os momentos mais emocionantes do filme. “Ele fala da ligação dele com encantaria, com a religiosidade, com seus antepassados. O trecho em que ele diz que recebeu o chamado de São João para tomar conta do boi, por exemplo, me toca especialmente.”

A tradição do bumba-meu-boi

A origem do bumba-meu-boi é incerta. No Brasil, há estudos que relacionam o seu surgimento ao ciclo do gado, nos séculos 17 e 18. Já no Maranhão, teria seu nascedouro na Região de Guimarães, provavelmente nas fazendas de engenhos, como brincadeira dos escravizados.

A festa une elementos das culturas europeia, africana e indígena. O resultado é uma dança que mistura teatro com encenações de peças religiosas, celebrando a fé em santos do catolicismo, em especial São João, Santo Antônio, São Pedro e São Marçal.

Os cultos religiosos afro-brasileiros do Maranhão, como o Tambor de Mina e o Terecô, também estão presentes nessa celebração. Ocorre o sincretismo entre os santos juninos e os orixás, voduns e encantados que requisitam um boi como obrigação espiritual.

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