Como ter conversas mais significativas?

Um bom diálogo envolve mais habilidades do que apenas falar e ouvir. É também saber lidar com os silêncios, compreender o ponto de vista do outro, perceber o que é dito nas entrelinhas. Estabelecer uma conversa, afinal, é algo que podemos aprender com o tempo, a prática e a disponibilidade para interagir com quem está ao redor

Um bom diálogo envolve mais habilidades do que apenas falar e ouvir | Crédito: Shutterstock.

Mônica Barroso, via Vida Simples

Mais do que nunca, as conversas têm despertado minha curiosidade e atenção, tanto na vida pessoal como profissional. Ainda mais depois de me deparar com a declaração do poeta inglês David Whyte, de que conversas verdadeiras são uma questão de vida ou morte. Como assim? Uma simples conversa teria mesmo todo esse poder?
Pessoalmente experimentei alguns saltos qualitativos ao reformular as questões que fazia em casa. Depois de muito tempo recebendo respostas monossilábicas dos meus filhos sobre o seu dia na escola, resolvi experimentar mudar a pergunta. Em vez do tradicional “Como foi a escola hoje?”, alterei para “Qual a coisa mais legal que aconteceu na escola hoje?”, e isso fez toda a diferença. As respostas vieram em forma de grandes pequenas aventuras, relatos sobre novidades, descobertas, aprendizados. Havia vida ali. E foi aí que percebi o quanto estava perdendo até então, por pura falta de curiosidade e ousadia — de simplesmente mudar a pergunta.
Na vida profissional, quando um cliente de coaching diz algo e em seguida fala que nunca tinha dito aquilo antes, sinto que um novo campo de conexão se formou entre nós, e que um canal se abriu dentro de seu coração. Um processo criativo aconteceu, dando espaço para o novo surgir. Uma comunicação profunda e honesta de coração a coração. De novo, há vida pulsante nessa troca.

Nas duas situações, grande parte do mérito é das perguntas, as respostas sendo mera consequência. Boas conversas são feitas de boas perguntas, mas, na ânsia pelo que virá depois, muitas vezes deixamos de nos dedicar à formulação dessas questões, que contêm a genialidade das respostas que tanto buscamos. E então deixamos de ouvir, pois estamos sempre formulando na nossa mente a resposta que devemos dar em seguida. Mas o que foi dito mesmo? E no lugar de um diálogo acontece um amontoado de argumentos, apenas fragmentos de ideias. Quem nunca se pegou numa situação assim?

O segredo que fui descobrindo ao me formar como coach e facilitadora é que não há uma lista-padrão de perguntas poderosas à nossa disposição, mas que as mais potentes de todas estão no outro. Confiar nisso requer saber escutar profundamente, e o mais difícil é sustentar momentos de silêncio, que são uma verdadeira mina de ouro de insights e conexões. O filósofo grego estoico Epicteto já dizia há mais de 2 mil anos: “Temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir duas vezes mais do que falamos”. Por trás dessa capacidade de escutar está outra habilidade, a curiosidade. Ela nos faz investigar a ponto de irmos além do que conseguimos enxergar a olho nu. A pergunta do bom curioso é “O que mais?”. O fato é que para chegarmos às boas perguntas é preciso sermos bons ouvintes, curiosos e presentes.

Para Sócrates, o filósofo grego que pode ser considerado o inventor da conversa no mundo ocidental, a conversa era um processo em que a dança das ideias podia ajudar as pessoas a se aproximarem de sua própria verdade pessoal. Na The School of Life, por exemplo, acreditamos que conversas baseadas em boas perguntas podem de fato nos levar a um patamar mais profundo de entendimento sobre o outro e sobre nós mesmos. E é exatamente isso o que vemos acontecer a cada jantar, café da manhã ou happy hour de conversas que organizamos. Como num passe de mágica as mesmas pessoas que chegam comentando sobre o tempo, a dificuldade em estacionar o carro ou sobre o trânsito congestionado saem falando sobre seus medos e ambições.

Durante minha investigação encontrei o significado original da palavra diálogo (do grego dia-logos, “fluxo de significado”). Aqui não se trata de concordar ou discordar, mas de se permitir visualizar o todo a partir das partes. Achei bonita essa ideia de os diferentes significados, ou perspectivas, fluírem de um lado para outro, sem interrupções ou prejulgamentos, até se formarem novos e inéditos significados. Ou, como disse o historiador Theodore Zeldin, “a conversa não embaralha as cartas apenas: ela cria novas cartas…”. Zeldin encara a conversa como uma experiência, e nos dá ideias de como romper os silêncios aos quais somos submetidos por convenções sociais ou familiares.

Um exemplo é convidar estranhos para se juntarem à mesa. Conversar fazendo algo prazeroso também pode permitir que nosso diálogo tome rumos inesperados. Há alguns anos, por exemplo, experimentei isso ao participar de um grupo de tricô com mães do jardim de infância de meus filhos e vivenciei momentos importantes de reflexões e revelações. Bolar projetos que provoquem conversas mais profundas também pode abrir canais que jamais surgiriam no dia a dia, como por exemplo entrevistar pais e avós sobre suas lições de vida.

Sem máscaras
Tudo isso parece fascinante, mas não posso deixar de revelar o outro lado da moeda. As conversas só cumprirão o seu verdadeiro papel de conexão quando ousarmos tirar nossas máscaras, que ao mesmo tempo que nos protegem também fazem o mesmo com os outros. Como disse Brené Brown, especialista americana em empatia e compaixão, é na vulnerabilidade que surge a conexão. Sair do diálogo superficial rumo a uma troca mais profunda é um ato de coragem, pois isso significa pisar fora da nossa zona de conforto — levando o outro junto com a gente. E, já que falamos sobre empatia, boas conversas podem, sim, nos tornar mais empáticos, pois é um meio pelo qual podemos enxergar além dos rótulos que usamos para identificar as pessoas. Escutar à procura de indícios de que ele/ela quer falar sobre determinado assunto e lhe dar a oportunidade, sem impor a nossa agenda. Esse exercício vai nos permitir algo muito difícil e necessário, que é dialogar com aqueles com quem não concordamos.

Também não podemos ignorar os efeitos da revolução da comunicação e da tecnologia sobre nossas conversas, e vale ficarmos atentos para que a TV, os videogames ou as redes sociais não substituam a experiência direta do mundo por versões secundárias e mediadas de experiência. É claro que as mídias digitais facilitam e expandem a comunicação, e agradeço a elas por permitirem, por exemplo, um contato antes inimaginável de meus filhos com seus avós, que moram na Suíça. A questão não é essa, mas sim o quanto essas milhares de mensagens que trocamos são trocas enriquecedoras, profundas e interessantes.

As conversas são como peças de artesanato, nunca haverá duas iguais, são sempre o resultado de um encontro único entre a matéria e as mãos do artesão. Sejamos, então, todos artesãos desse fluxo de significado. A vida agradece!

Mônica Barroso é professora, coach e curadora de programas da The School of Life no Brasil, onde dá aulas sobre Como Encontrar um Trabalho Que Você Ame, Como Pensar com a Mente de um Empreendedor, entre outras. Recentemente, Mônica se descobriu como uma facilitadora de boas conversas.

 

2 comentários sobre “Como ter conversas mais significativas?

Deixe uma resposta