Lava Jato coloca em xeque personificações ideológicas, diz cientista político maranhense

“A esquerda e a direita hoje recebem definições negativas, permitindo que novos mecanismos sobreponham-se aos clássicos”

Por André Bello*

A díade esquerda e direita –que desde a Revolução Francesa divide as pessoas em 2 polos– está viva, para o bem ou para o mal. O mecanismo da direita historicamente é salvaguardar a tradição, perseguir os objetivos individuais sem a mão paternalista do Estado e garantir a ordem.

Por outro lado, o mecanismo da esquerda é “tornar mais iguais os desiguais”, isto é, defender as políticas públicas que desejam combater as desigualdades sociais, disse Norberto Bobbio.

De acordo com as pesquisas empíricas da ciência política, esta divisão no Brasil é obscura. André Singer afirmou, para as eleições de 1989 e 1994, que o eleitorado brasileiro defendeu o ideal igualitário independente do posicionamento ideológico.

Mais recentemente e no âmbito do Congresso, o cientista político Carlos Pereira, professor da FGV-RJ (Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro), encontrou que todos os partidos políticos votaram favoravelmente aos projetos de inclusão social.

Confirmando a tese da qual a igualdade faz parte do mecanismo da esquerda e da direita, talvez devido ao nosso nível de pobreza e atraso, demonstrei na pesquisa “A breve história da opinião pública no Brasil: 1990-2015” que o apoio dos brasileiros para reduzir a desigualdade de renda entre ricos e pobres cresceu progressivamente, como mostra o gráfico abaixo:

As ideologias sempre se cruzaram e nunca houve uma linha divisória clara no Brasil. A direita incorporou a igualdade nos discursos, enquanto a esquerda nunca ameaçou o direito de livre escolha do indivíduo e a ordem. E ambas, esquerda e direita, sempre foram adeptas à presença do Estado.

No entanto, os partidos políticos que personificam as ideologias dentro do imaginário popular entraram em crise a partir do fortalecimento da Lava Jato. A esquerda e a direita hoje recebem definições negativas, permitindo que novos mecanismos sobreponham-se aos clássicos. Os pensamentos homofóbicos, sexistas, contra os imigrantes e o nacionalismo estão hoje mais presentes do que a agenda da igualdade de renda e estão sendo incorporados pela extrema direita e extrema esquerda.

A crise enfrentada pelos partidos políticos permitiu o crescimento em todo o mundo da extrema direita, cujas doutrinas estão bem visíveis no nazismo e fascismo. É preciso agora que volte a funcionar o mecanismo da igualdade para promover o fim da recente polarização política. Se assim for, o candidato da extrema direita no Brasil, Jair Bolsonaro, sentirá o chão esvair sobre o seu discurso de ódio e as intenções de voto despencarão.

A história recente da política brasileira pode ser uma série no Netflix, inspirada em fatos reais com alto potencial de entretenimento. Contudo, os verdadeiros mecanismos da democracia são a direita e a esquerda. As ideologias precisam resistir para o bom funcionamento da sociedade ao passo que as ideias extremistas devem ser suprimidas do debate democrático.

*André Bello, 34 anos, é doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UNB) por onde finalizou o seu mestrado. Foi pesquisador visitante na University of Texas at Austin e University of Pittsburgh. É pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Comportamento Político, Instituições e Políticas Públicas (LAPCIPP/UNB).

Deixe uma resposta