É possível aprender a lidar com os sentimentos?

Achamos que o conhecimento está relacionado apenas às matérias que aprendemos na escola. Mas, na vida, precisamos também saber lidar com as emoções, como tristeza, frustração ou compaixão. O problema é que não enxergamos isso como algo que podemos aprender. E esse é um grande erro, que gera mais desapontamento e infelicidade

Alain de Botton, via Vida Simples

Durante a maior parte da história, a ideia de que a meta de nossa vida era ser feliz teria soado extremamente estranha. Na história cristã que dominou a imaginação ocidental, a infelicidade não era uma coincidência, mas sim uma inevitabilidade exigida pelos pecados de Adão e Eva. Para os budistas, a vida era, em essência, uma história de sofrimento. Então, lentamente, à medida que a era moderna surgia, um novo conceito veio à luz: realização pessoal, a ideia de que a felicidade poderia ser alcançada no trabalho e nos relacionamentos. Infelizmente, esse novo conceito coincidiu com uma crença de que as habilidades necessárias para atingir a felicidade poderiam ser obtidas sem educação. Nossa enfermidade atual pode remeter a esse erro. Nossa sociedade tem um enorme apreço pela educação, mas também é estranhamente exigente sobre em que podemos ser educados. Aceitamos que precisamos de treinamento quanto a números e palavras, ciências naturais e história, aspectos de cultura e negócios, mas ainda é estranho imaginar que possa ser viável — ou mesmo necessário — sermos educados quanto a nosso funcionamento emocional, por exemplo, que talvez precisemos aprender (em vez de simplesmente saber) a evitar melancolia ou a interpretar nossos lutos, escolher um parceiro ou fazer um colega nos entender. A tarefa diante de nós, portanto, é saber como adquirir um conjunto de habilidades emocionais que possa contribuir para desenvolvermos a chamada “inteligência emocional”. O termo parece estranho. Estamos acostumados a nos referir à inteligência sem diferenciá-la — e, portanto, não tendemos a ressaltar o valor de um tipo muito peculiar de inteligência que, atualmente, não tem o prestígio que deveria.

Todo tipo de inteligência indica uma capacidade de navegar bem em torno de um grupo em particular de desafios: matemático, linguístico, comercial, técnico etc. Quando dizemos que alguém é inteligente mas bagunçou sua vida pessoal, ou que ganhou uma quantia incrível de dinheiro mas é muito complicado de trabalhar, estamos apontando para um déficit no que merece ser chamado de “inteligência emocional”.

Inteligência emocional é a qualidade que nos permite negociar com paciência, visão e parcimônia os principais problemas em nossos relacionamentos — com os outros e com nós mesmos. Ela aparece nas parcerias como uma sensibilidade aos humores dos outros, uma preparação para entender o que pode estar acontecendo com eles além da superfície e entrar imaginativamente em seu ponto de vista.

Aparece com relação a nós mesmos quando se trata de lidar com sentimentos como a raiva, inveja, ansiedade e confusão profissional. Além disso, é esse conjunto de conhecimentos que diferencia aqueles esmagados pelo fracasso dos que sabem como encarar os problemas com uma resiliência melancólica e, às vezes, sombriamente bem-humorada. Uma forma de começar a avaliar isso — e para onde, portanto, precisamos direcionar a maior parte de nosso trabalho e atenção de reparo — é identificando diversos marcadores de saúde emocional e imaginando como nos saímos em relação a eles. No mínimo, quatro marcadores centrais se apresentam.

Amor-próprio
É a qualidade que determina o quanto podemos ser nossos próprios amigos e, diariamente, continuar ao nosso lado. Quando conhecemos um estranho que tem coisas que não temos, com que rapidez nos sentimos lamentosos — e por quanto tempo conseguimos nos convencer de que o que temos e somos é suficiente? Quando outra pessoa nos frustra ou humilha, podemos esquecer o insulto, capazes de perceber a maldade sem sentido por trás do ataque, ou ficamos arrasados, nos identificando com o veredito de nossos inimigos? Quanto da desaprovação ou do descaso da opinião pública pode ser compensado pela lembrança da atenção constante de algumas pessoas significativas no passado? Nas relações, temos amor-próprio suficiente para sair de uma situação abusiva? Ou nos criticamos tanto que carregamos uma crença implícita de que só merecemos o mal? De outro ângulo, somos bons em pedir desculpas a alguém que amamos por coisas que são nossa culpa? Quão rigidamente complacentes precisamos ser? Conseguimos ousar a admitir erros, ou uma admissão de culpa ou erro nos aproxima demais de nossa sensação secundária de nulidade? No trabalho, temos uma noção racional e embasada de nosso valor — e assim nos sentimos capazes de pedir (e provavelmente esperar receber) as recompensas que merecemos? Conseguimos resistir à necessidade de agradar os outros indiscriminadamente?

Franqueza
Essa virtude determina até que ponto ideias difíceis e fatos perturbadores podem ser conscientemente admitidos, sobriamente explorados e aceitos sem negação. Quanto podemos admitir a nós mesmos sobre quem somos — mesmo quando, ou especialmente quando, a questão não é exatamente agradável? Quanto precisamos insistir em nossa própria normalidade e sanidade inabalável? Podemos explorar nossa mente — e explorar seus cantos mais sombrios e perturbadores — sem nos esquivarmos abertamente? Podemos admitir bobeira, inveja, tristeza e confusão? Estamos prontos para escutar quando lições valiosas vêm em disfarces dolorosos?

Comunicação
Podemos expressar, de forma paciente e racional, nossas decepções em palavras que, mais ou menos, permitem que os outros vejam nosso lado? Internalizamos a dor, expressamos simbolicamente, ou a descarregamos com uma raiva contraproducente? Quando os outros nos chateiam, sentimos que temos o direito de comunicar, ou devemos bater a porta e nos afundar na tristeza?

Confiança
Quão arriscado é o mundo? Com que rapidez podemos sobreviver a um desafio na forma de um discurso, uma rejeição romântica, uma fase de problemas financeiros, uma viagem para outro país ou um simples resfriado? Novos conhecidos gostarão de nós ou nos machucarão? Se formos um pouco assertivos, eles aguentarão ou desmontarão? Quanto ao amor, precisamos agarrá-lo fortemente? Se ficarem distantes por um tempo, voltarão? Quão controladores precisamos ser?
Não é nossa culpa nem, de certa forma, de ninguém que muitas dessas perguntas sejam tão difíceis de responder, mas, ao pensar nelas, estamos, pelo menos, começando a saber que tipo de formato nossas feridas têm e, assim, que tipo de curativo será o mais necessário.

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