Karnal, você é comunista?

O Blog do Robert Lobato voltará ao tema pela sua importância, atualidade e oportunidade, inclusive no caso do Maranhão.

Por enquanto fiquem o instigante e intrigante artigo do Leandro Karnal. Confira.

Karnal, você é comunista?

Clássicos seminais são criadores de novos mundos (nem sempre bons)

Há pessoas que apresentam uma percepção dualista do espectro político. Se você pertence a esse grupo, evite ler a crônica, ela nada vai acrescentar ao seu saber. Se você funciona na polaridade atual, já conclua antes de ler: Leandro Karnal é um legítimo representante do pensamento conservador neofascista e/ou neoliberal coxinha PSDB/PMDB ou… o exemplo de intelectual comunista que só quer destruir o mundo civilizado-cristão e apoiador do PT como todo petralha. Pronto! Você não precisa ler: você está certo! Sim, você está certo: sou o que você desejar porque o que está em questão é sua lente e não o meu objeto. Porém, se você consegue pensar além dessa caixinha de areia, prossiga.

Em 21 de fevereiro de 1848, surgiu o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. O texto chega hoje aos 170 anos com a fama, justificável, de ser um clássico do século 19. O que é um clássico?

O ano de 1848 foi de grande agitação política. Por coincidência mais do que por causalidade, os dias seguintes à publicação do Manifesto presenciaram a derrubada do rei-burguês, Luís Filipe D’Orléans. Surgia a Segunda República em Paris. Os ventos de mudança se espalharam de Viena até o Recife. Era a chamada Primavera dos Povos descongelando o sistema construído pelo conservador Congresso de Viena de 1815. Os grandes representantes da ordem reacionária, como o austríaco Metternich, estavam encurralados. Marx o cita nominalmente, junto ao ministro Guizot da França.

Manifesto é uma peça de análise histórica a partir do nascente ideário marxista. É também um panfleto de propaganda e um programa de ação. Seu sucesso está na sua simplicidade narrativa e vastidão analítica. Ele se parece com o curto texto de Emmanuel Joseph Sieyès às vésperas da Revolução Francesa de 1789: O que é o Terceiro Estado? A fórmula que levou o francês a ser tão importante é a mesma de Marx/Engels: perguntas com respostas diretas e aplicáveis de forma universal na compreensão dos autores.

Manifesto nasceu da Liga Comunista que tinha se reunido em Londres, em 1847. Apesar de começar falando que o comunismo era o grande espectro do mundo de 1848, isso era pouco sólido. O medo dos impérios da Áustria e Rússia eram os nacionalismos desagregadores. A questão que vinha agitando a Grã-Bretanha estava, há uma década, no Cartismo, programa de reforma eleitoral que incluía o voto universal. Republicanos conservadores e liberais de todas as espécies eram mais incômodos ao governo orleanista de Paris do que as agitações operárias que espocavam em Lyon, por exemplo. O Manifesto faz crer que o “fantasma do comunismo” era bem maior do que ele realmente se apresentava. Sim, os socialismos cresceriam, mas 1848 não era a aurora vermelha que o Manifesto fez crer.

O texto elabora uma lógica universal da História, a luta de classes, conclamando o proletariado à união. Do mundo antigo ao contemporâneo, o motor do mundo, na visão dos autores, tinha sido a história da luta de classes. Criando uma teleologia, ou seja, um sentido de história determinado por um fim, que seria a marca da sua obra posterior, Marx tenta construir uma lógica científica politicamente oposta à do positivismo, mas igualmente dirigida por um vetor e por um sentido de transformação quase inevitável. Aliás, Augusto Comte, o conservador, teria sido o pioneiro no uso da palavra proletário.

Mais curto e esquemático do que as páginas d’O Capital, o Manifesto seria, de longe, a obra mais conhecida dos autores. Há traços da economia política inglesa, do pensamento socialista utópico francês e da reflexão filosófica alemã, tudo fundido e ressignificado por um grande erudito como Marx. Como o movimento russo de 1917, o chinês de 1949 e tantos outros invocaram o texto e os autores, diríamos que nunca uma obra intelectual esteve tão presente entre projetos de governo. Tal como Catarina e Frederico recorreram a Voltaire como conselheiro, Marx, já morto, inspirou Lenin e Mao e muitos outros militantes. Similar aos déspotas esclarecidos, a condição de assimilação das obras era sua deformação. O comunismo defendido no Manifesto, a sociedade sem classes e sem Estado, nunca surgiu na prática. O paraíso proletário insistia em não acontecer. Nenhum país do mundo guiado por ideias socialistas deu um passo decisivo para a dissolução do Estado. Assim, a hipertrofia do Estado foi o oposto perfeito do comunismo.

As ideias de Marx tinham muito da metafísica alemã, como acusou o clássico conservador Rumo à Estação Finlândia (1940), de Edmund Wilson. O norte-americano chega a comparar o processo às brumas que passam sob a soleira do castelo sólido do materialismo de Marx e Engels. Se acusamos com razão, que Marx foi pessoalmente incoerente com seus ideais por ser sustentado por um industrial e por ser um canalha no caso com uma empregada, também rejeitaríamos a imensa influência de Rousseau sobre a maneira de tratar crianças, apesar do genebrino ter sido um imbecil em relação aos filhos que gerou.

Manifesto continua fundamental. Um obra clássica não depende do seu gosto. Ler Adam Smith ou Machado de Assis não é como se manifestar sobre coentro ou a bossa nova. Clássicos seminais são criadores de novos mundos (nem sempre bons) e que continuam no foco das atenções. Marx criticou injustiças graves do século 19 e colaborou para criar ditaduras abomináveis no século 20.

Utopias, movimentos históricos e sangue correram em torno das ideias do Manifesto Comunista. Passados 170 anos, ainda estamos aqui pensando na obra e em como resolver as desigualdades do mundo. Isso é um clássico. Respondi à pergunta do título? Não importa, sua resposta diz respeito ao seu universo e nada diz de mim. Você já sabia se eu era comunista ou não antes de ler qualquer coisa. Pensar é árduo e etiquetar é fácil. Boa semana para todos nós.

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