Caso ‘Gaiolão’: Versões e contradições

por Abdon Marinho

“É possível que esteja errado, mas quer me parecer tratar-se de uma cela de castigo, um instrumento de tortura para onde são levados os presos como punição e não como conquista legal.”

O GOVERNO estadual emitiu mais uma manifestação sobre a gaiola para presos em Barra do Corda.

Por tal versão, a gaiola, na verdade, é uma “conquista” dos presos, pois é onde tomam o banho de sol a que têm direito, conforme a Lei de Execuções Penais – LEP.

O problema desta manifestação é que ela contradiz o que já foi dito anteriormente, senão vejamos.

O delegado ao ser ouvido por uma reportagem disse que tal gaiola era parte da estrutura da delegacia, onde ficavam os detidos, por curto espaço de tempo, até serem ouvidos pela autoridade policial e serem encaminhados para a acomodação adequada ou soltos.
Em nenhum momento a autoridade policial falou tratar-se de um “solário” destinado ao banho de sol dos presos.

Em resposta a uma reportagem do Bom Dia Brasil, da rede Globo, fontes do governo teriam informado que se tratava de uma “herança maldita” da gestão anterior.
A apresentadora do telejornal, ao narrar a resposta, além da cara de pouco crédito, questionou se não era tempo demais para se falar em resquícios do governo anterior já passados três anos do atual.

Diante de tudo que foi dito restam alguns questionamentos:

O delegado não sabe para que serve a gaiola… que é garantir o banho de sol dos presos.
Se sabe, não deve achar nada demais que o custodiado passasse a tarde inteira no “banho de sol”, afinal, quanto mais vitamina D, melhor.

Talvez, para compensar o “banho de sol” em excesso, deve ter deduzido que um banho de lua também era bem-vindo.

Aliás, no domingo para segunda-feira, ela estava esplendorosa, um autêntico luar do sertão, conforme cantou certa vez o poeta.

E se estavam tão preocupado com a segurança e bem-estar do custodiado falta só explicar a negativa em lhe permitir os medicamentos e mesmo água, conforme denunciou familiares.

Pois bem, sendo, então a gaiola uma “conquista” dos presos, estaria equivocada a narrativa de que tal gaiola seria uma “herança maldita”, afinal a governadora de outrora, fê-la em cumprimento da lei, não é mesmo?

Seria o caso de mandar uma nota a Globo dizendo que a tal gaiola é uma conquista dos presos é uma “brilhante” iniciativa do governo anterior.

Poderiam acrescentar que a preocupação com o bem-estar dos presos é tamanha que até quando não querem, lhes é garantido um seguro banho de sol durante toda tarde, na agradável temperatura de quarenta graus à sombra. E para completar o tratamento vip um, não menos agradável, banho de lua, com o propósito educativo de lhes inspirar.
Como vêm, estou sendo sarcástico.

Claramente, percebe-se, ainda que seja verdadeira a história da gaiola do banho de sol, a realidade do uso é outro.

É possível que esteja errado, mas quer me parecer tratar-se de uma cela de castigo, um instrumento de tortura para onde são levados os presos como punição e não como conquista legal.

Se assim não o fosse, que razão teria a Defensoria Pública para denunciar o tal espaço as autoridades competentes, segundo nota que distribuiu? A Defensoria é contra uma “conquista” dos presos, uma garantia legal?

Essa profusão de versões contraditórias em si em muito se parece aquelas dadas para o dinheiro encontrado na famosa Operação Lunus, que no fim das contas acabou voltando para seus “legítimos” donos.

O tempo passa, os governos mudam, mas as versões continuam ao sabor dos interesses, enquanto enfrentam suas próprias contradições.

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